===== FELICIDADE ===== (gr. [[lexico:e:eudaimonia:start|eudaimonia]]; lat. felicitas; in. Happiness; fr. Bonheur, al. Glückseligkeit; it. Felicita). Em [[lexico:g:geral:start|geral]], [[lexico:e:estado:start|Estado]] de satisfação devido à [[lexico:s:situacao:start|situação]] no [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. Por esta [[lexico:r:relacao:start|relação]] com a situação, a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de felicidade difere de [[lexico:b:bem-aventuranca:start|bem-aventurança]], que é o [[lexico:i:ideal:start|ideal]] de satisfação [[lexico:i:independente:start|independente]] da relação do [[lexico:h:homem:start|homem]] com o mundo, por isso limitada à [[lexico:e:esfera:start|esfera]] contemplativa ou religiosa. O [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de felicidade é [[lexico:h:humano:start|humano]] e [[lexico:m:mundano:start|mundano]]. Nasceu na [[lexico:g:grecia:start|Grécia]] antiga, onde Tales julgava feliz "[[lexico:q:quem:start|quem]] tem [[lexico:c:corpo:start|corpo]] são e forte, boa [[lexico:s:sorte:start|sorte]] e [[lexico:a:alma:start|alma]] [[lexico:b:bem:start|Bem]] formada" (Dióg. L., I, 1, 37). A boa saúde, a boa sorte na [[lexico:v:vida:start|vida]] e o [[lexico:s:sucesso:start|sucesso]] da [[lexico:f:formacao:start|formação]] individual, que constituem os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] da felicidade, são inerentes à situação do homem no mundo e entre os outros homens. [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]], de maneira quase análoga, definia a felicidade como "a [[lexico:m:medida:start|medida]] do [[lexico:p:prazer:start|prazer]] e a proporção da vida", que era manter-se afastado dos defeitos e dos excessos (Fr. 191, Diels). De qualquer maneira, felicidade e infelicidade pertencem à alma (Fr., 170, Diels), uma vez que somente a alma "é morada do nosso [[lexico:d:destino:start|destino]]" (Fr. 171, Diels). A relação que muitas vezes se estabeleceu entre felicidade e prazer tem o mesmo [[lexico:s:significado:start|significado]], ou seja, é a conexão entre o estado definido como felicidade e a relação com o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] corpo, com as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] e com os homens. A [[lexico:t:tese:start|tese]] segundo a qual a felicidade é o [[lexico:s:sistema:start|sistema]] dos prazeres foi expressa com toda a clareza por [[lexico:a:aristipo:start|Aristipo]], que fez a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre prazer e felicidade. Somente o prazer é bem, porque só ele é desejado por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], sendo portanto [[lexico:f:fim:start|fim]] em si. "O fim é o prazer [[lexico:p:particular:start|particular]], a felicidade é o sistema dos prazeres particulares, em que se somam também os passados e os futuros" (Dióg. L., II, 8, 87). Egesias, que negava a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de felicidade, negava-a justamente pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de que os prazeres são demasiado raros e passageiros (Ibid., II, 8, 94). Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, [[lexico:p:platao:start|Platão]] negava que a felicidade consistisse no prazer e a julgava, ao contrário, relacionada com a [[lexico:v:virtude:start|virtude]]. "Os felizes são felizes por possuírem a [[lexico:j:justica:start|justiça]] e a [[lexico:t:temperanca:start|temperança]]; os infelizes são infelizes por possuírem a [[lexico:m:maldade:start|maldade]]", diz ele em [[lexico:g:gorgias:start|Górgias]] (508 b); no [[lexico:b:banquete:start|Banquete]] (202 c) são chamados de felizes "aqueles que possuem [[lexico:b:bondade:start|bondade]] e [[lexico:b:beleza:start|beleza]]". Mas justiça e temperança são [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]]; "possuir bondade e beleza" significa ainda [[lexico:s:ser:start|ser]] virtuoso; e a virtude outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] [[lexico:n:nao:start|não]] é, segundo Platão, senão a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] da alma de cumprir seu próprio [[lexico:d:dever:start|dever]], ou seja, de dirigir o homem da melhor maneira (Rep., I, 353 d. ss.). Portanto, também a noção platônica de felicidade é relativa à situação do homem no mundo e aos deveres que aqui lhe cabem. Quanto a [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], insistiu no [[lexico:c:carater:start|caráter]] contemplativo da felicidade em seu [[lexico:g:grau:start|grau]] [[lexico:s:superior:start|superior]], a bem-aventurança , mas apresentou uma noção mais ampla de felicidade, definin-do-a como "certa [[lexico:a:atividade:start|atividade]] da alma, realizada em conformidade com a virtude" (Et. Nic, I, 13, 1102 b); ela não exclui, mas inclui a satisfação das necessidades e das aspirações mundanas. As pessoas felizes, segundo Aristóteles, devem possuir as três espécies de [[lexico:b:bens:start|bens]] que se podem distinguir, quais sejam, os exteriores, os do corpo e os da alma (Ibid., 1153 b, 17 ss.; Pol., VII, 1, 1323 a 22). É [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que "os bens exteriores, assim como qualquer [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]], têm um [[lexico:l:limite:start|limite]] dentro do qual desempenham sua [[lexico:f:funcao:start|função]] utilitária de instrumentos, mas [[lexico:a:alem:start|além]] do qual se tornam prejudiciais ou inúteis para quem os possui. Os bens espirituais, ao contrário, quanto mais abundantes, mais úteis". Mas em geral pode-se dizer que "cada qual merece a felicidade, na medida da virtude, do tino e da capacidade de bem agir que possui, podendo se tomar como [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] a divindade, que é feliz e bem-aventurada não graças aos bens exteriores, mas [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesma, por aquilo que ela é, por [[lexico:n:natureza:start|natureza]]" (Pol., VII, 1, 1323 b 8). A felicidade é portanto mais acessível ao [[lexico:s:sabio:start|sábio]] que mais facilmente se basta a si mesmo (Et. Nic, X, 7, 1777, a 25), mas é a isso que devem tender todos os homens e as cidades. A [[lexico:e:etica:start|ética]] pós-aristotélica, ao contrário, ocupa-se exclusivamente da felicidade do sábio; a nítida distinção feita pelos estoicos entre sábios e loucos torna obviamente inútil preocupar-se com estes últimos. O sábio é aquele que basta a si mesmo e que acha a felicidade em si mesmo, o que melhor se chamaria bem-aventurança. [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] censura na noção aristotélica de felicidade o fato de ela consistir em que cada ser desempenhe sua função e atinja seus próprios objetivos, podendo ser perfeitamente aplicada não só aos homens, mas também aos animais e às plantas (Enn., I, 4,1 ss.). Nos estoicos Plotino critica a incoerência que consiste em considerar a felicidade independente das coisas externas ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que aponta essas mesmas coisas como [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da [[lexico:r:razao:start|razão]]. Para Plotino, a felicidade é a própria vida; por isso, enquanto pertence a todos os seres vivos, pertence eminentemente à vida mais completa e perfeita, que é a da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] pura. O sábio, em quem tal vida se realiza, é um bem para si mesmo: só tem [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de si para ser feliz e não busca as outras coisas ou então as busca somente porque são indispensáveis às coisas que lhe pertencem (por exemplo, ao corpo), e não a ele mesmo. A felicidade do sábio não pode ser destruída pela má sorte, pelas doenças físicas ou mentais, nem por qualquer circunstância desfavorável, assim como não pode ser aumentada pelas circunstâncias favoráveis (Ibid., I, 4, 5 ss.): por isso, é a própria bem-aventurança de que gozam os [[lexico:d:deuses:start|deuses]]. A [[lexico:f:filosofia-medieval:start|filosofia medieval]] adotou e enfatizou esses [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], adaptando a eles por vezes (como fez [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]]) a própria doutrina aristotélica, mas es-tendendo-os à [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] dos homens. A partir do [[lexico:h:humanismo:start|humanismo]], a noção de felicidade começa a ser estritamente ligada à de prazer, como já havia ocorrido com os cirenaicos e com os epicuristas. A [[lexico:o:obra:start|obra]] De voluptate de Lourenço Valia gira em torno dessa conexão, que se acentua no mundo [[lexico:m:moderno:start|moderno]]. [[lexico:l:locke:start|Locke]] e [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] concordam nesse [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]]. Locke diz que a felicidade "é o maior prazer de que somos capazes, e a infelicidade o maior [[lexico:s:sofrimento:start|sofrimento]]; o grau ínfimo daquilo que pode ser [[lexico:c:chamado:start|chamado]] de felicidade é [[lexico:e:estar:start|estar]] tão livre de sofrimentos e [[lexico:t:ter:start|ter]] tanto prazer presente que não é [[lexico:p:possivel:start|possível]] contentar-se com menos" (Ensaio, II, 21, 43). E Leibniz: "Creio que a felicidade é um prazer durável, o que não poderia acontecer sem o [[lexico:p:progresso:start|progresso]] [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] em direção a novos prazeres" (Nouv. ess., II, 21, 42). A noção de felicidade como prazer ou como [[lexico:s:soma:start|soma]], ou melhor, "sistema" de prazeres, segundo a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] do velho Aristipo, começa a adquirir significado [[lexico:s:social:start|social]] com [[lexico:h:hume:start|Hume]]: a felicidade torna-se um prazer que pode ser difundido, o prazer do maior [[lexico:n:numero:start|número]], e dessa [[lexico:f:forma:start|forma]] a noção de felicidade torna-se a base do [[lexico:m:movimento:start|movimento]] reformador inglês do séc. XTX. Entrementes, [[lexico:k:kant:start|Kant]], que julgava [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] considerar a felicidade como [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] da vida [[lexico:m:moral:start|moral]], esclarecia eficazmente a noção de felicidade sem recorrer à de prazer: "A felicidade é a [[lexico:c:condicao:start|condição]] do ser [[lexico:r:racional:start|racional]] no mundo, para quem, ao longo da vida, tudo acontece de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com seu [[lexico:d:desejo:start|desejo]] e [[lexico:v:vontade:start|vontade]]" (Crít. R. Prática, [[lexico:d:dialetica:start|Dialética]], seç. 5). Trata-se, portanto, de um conceito que o homem não haure dos instintos e que não deriva daquilo que nele é animalidade, mas que ele constrói para si de maneiras diferentes, que ele pode alterar com frequência, muitas vezes arbitrariamente (Crít. do [[lexico:j:juizo:start|Juízo]], § 83). Kant julga que a felicidade é [[lexico:p:parte:start|parte]] integrante do [[lexico:b:bem-supremo:start|bem supremo]], que para o homem é a [[lexico:s:sintese:start|síntese]] de virtude e felicidade. Mas como tal o bem supremo não é realizável no mundo [[lexico:n:natural:start|natural]], seja porque [[lexico:n:nada:start|nada]] garante neste mundo a perfeita proporção entre [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]] e felicidade, em que consiste o bem supremo, seja porque nada garante a satisfação plena de todos os desejos e tendências do ser racional, em que consiste a felicidade Portanto, para Kant, a felicidade é impossível no mundo natural, sendo transferida para um mundo [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]], que é "o [[lexico:r:reino:start|reino]] da [[lexico:g:graca:start|graça]]" (Crít. R. Pura, Doutrina do [[lexico:m:metodo:start|Método]], cap. II, seç. 2). Em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], Kant teve o [[lexico:m:merito:start|mérito]] de enunciar com rigor a noção de felicidade e, em segundo lugar, de mostrar que essa noção é empiricamente impossível, irrea-lizável. De fato, não é possível que sejam satisfeitas todas as tendências, inclinações e voli-ções do homem, porque de um lado a natureza não se preocupa em vir ao encontro do homem, com vistas a essa satisfação total, e de outro porque as próprias necessidades e inclinações nunca se aquietam no repouso da satisfação (Crít. do Juízo, § 83). Associada ao conceito de satisfação absoluta e total — em que [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] também insiste (Enc., § 479-480) —, a felicidade torna-se o ideal de um estado ou condição inatingível, a não ser no mundo [[lexico:s:sobrenatural:start|sobrenatural]] e por intervenção de um [[lexico:p:principio:start|princípio]] onipotente. Não é de admirar, portanto, que toda a parte da [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]] que passou pelo filtro do kan-tismo tenha desprezado a noção de felicidade e não a tenha utilizado na [[lexico:a:analise:start|análise]] daquilo que a [[lexico:e:existencia:start|existência]] humana é ou deve ser. Todavia, com Hume, o [[lexico:e:empirismo-ingles:start|empirismo inglês]] havia iniciado (como já foi [[lexico:d:dito:start|dito]]) um novo [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] dessa noção em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] social, [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] próprio do [[lexico:u:utilitarismo:start|utilitarismo]]. Hume observara que, "quando se elogia alguma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] bondosa e humana", nunca se deixa de dar destaque "à felicidade e satisfação da [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] humana em poder contar com sua [[lexico:a:acao:start|ação]] e com seus bons serviços" (Inc. Conc. Morais, II, 2). Portanto, identificara o que é moralmente [[lexico:b:bom:start|Bom]] com o que é [[lexico:u:util:start|útil]] e benéfico. Depois dele, [[lexico:b:bentham:start|Bentham]] retomava como fundamento da moral a [[lexico:f:formula:start|fórmula]] de Beccaria: "A maior felicidade possível, no maior número de pessoas", fórmula em que também se inspiraram [[lexico:j:james:start|James]] [[lexico:m:mill:start|Mill]] e [[lexico:s:stuart-mill:start|Stuart Mill]], acentuando cada vez mais o seu caráter social. Nesses autores não se encontra um conceito rigoroso de felicidade, mas tampouco se encontra neles a rigidez e o [[lexico:a:absolutismo:start|absolutismo]] que essa noção sofrerá com Kant, o que a tornara impraticável. Eles sabem que a felicidade, por depender de condições e circunstâncias objetivas além das atitudes do homem, não pode pertencer ao homem em sua [[lexico:i:individualidade:start|individualidade]], mas só ao homem enquanto membro de um mundo social. E embora relacionem felicidade com prazer, distinguem os vários tipos de prazer, admitindo a identificação apenas com os prazeres socialmente partilháveis. Na [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] cultural inglesa e americana, a noção de felicidade permaneceu viva com essa forma e, além do [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]], inspirou o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] social e [[lexico:p:politico:start|político]]. O princípio da maior felicidade continuou por muito tempo sendo a base do [[lexico:l:liberalismo:start|liberalismo]] moderno de cunho anglo-saxônico. A [[lexico:c:constituicao:start|Constituição]] americana incluiu entre os direitos naturais e inalienáveis do homem "a busca da felicidade". A esta tradição liga-se Bertrand [[lexico:r:russell:start|Russell]], que foi um dos poucos a defender a noção de felicidade, ainda que numa obra de caráter popular (A conquista da felicidade, 1930). O que Russell acrescenta de novo à noção tradicional de felicidade (além de uma convincente análise das situações atuais de "infelicidade") é uma condição que ele julga indispensável: a [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] dos interesses, das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] do homem com as coisas e com os outros homens, portanto a eliminação do "[[lexico:e:egocentrismo:start|egocentrismo]]", do fechamento em si mesmo e nas paixões pessoais. Trata-se de uma condição que coloca a felicidade em [[lexico:p:posicao:start|posição]] diametralmente oposta à da auto-suficiência do sábio, que os antigos consideravam o grau mais elevado de felicidade Por outro lado, não conseguindo mais utilizar a noçào de felicidade como fundamento ou princípio da vida moral, os filósofos desinteressaram-se dessa noção. Para [[lexico:e:esse:start|esse]] desinteresse também contribuiu a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]], que nasceu com o [[lexico:r:romantismo:start|Romantismo]] e predominou por muito tempo, de exaltar a infelicidade, a [[lexico:d:dor:start|dor]], os estados de perturbação e insatisfação como experiências positivas e intrinsecamente regozijadoras. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], nos graus e nas formas em que pode ser considerada realizável, a felicidade é um estado de calma, uma condição de equilíbrio pelo menos [[lexico:r:relativo:start|relativo]], de satisfação parcial e todavia efetiva, que é exatamente o oposto da [[lexico:i:inquietude:start|inquietude]] romântica. A [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] contemporânea ainda não se deteve para analisar a noção de felicidade nos limites em que ela pode servir para descrever situações humanas e orientá-las. Contudo, a importância dessa noção é hoje evidenciada pelo [[lexico:i:interesse:start|interesse]] que algumas noções negativas como "frustração", "insatisfação", etc, têm na [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] individual e social, [[lexico:n:normal:start|normal]] e patológica. Estas noções e outras análogas indicam, pois, a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] mais ou menos grave da condição de satisfação pelo menos relativa que a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] felicidade tradicionalmente designa. A importância destas para a análise de estados ou condições mais ou menos patológicos evidencia a importância que a noção positiva correspondente tem para as condições normais da vida humana. O estado de completa satisfação. — Distinguem-se as morais da [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]], para as quais a felicidade é o fim [[lexico:u:ultimo:start|último]] do homem ([[lexico:h:hedonismo:start|hedonismo]]), das morais modernas, marcadas pelo cristianismo, que consideram a virtude a meta derradeira; a virtude consiste em merecer a felicidade, mas sua [[lexico:p:posse:start|posse]] não tem em si mesma qualquer [[lexico:v:valor:start|valor]] moral ([[lexico:r:rigorismo:start|rigorismo]] de Kant). A filosofia [[lexico:a:atual:start|atual]] (proveniente de [[lexico:f:fichte:start|Fichte]], de A. Gehlen) confere outra vez valor [[lexico:p:positivo:start|positivo]] à felicidade, na qual vê uma forma de [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] que somente se manifesta naquele que conhece perfeitamente a si próprio e sabe satisfazer as tendências fundamentais de seu ser. Pois, se é verdade que a felicidade ideal "é a satisfação de todas as nossas inclinações" (Kant), para ser realmente feliz é preciso [[lexico:s:saber:start|saber]] se limitar às inclinações mais profundas. Nesse sentido é que a "felicidade" é irredutível ao "prazer"; os que tratam da felicidade não erraram em menosprezar o prazer que, com efeito, bem depressa "sacia e enfada" ([[lexico:a:alain:start|Alain]]). A felicidade nunca é dada, resultando sempre de uma atividade do homem; é identificada frequentemente ao [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] livre: neste sentido distingue-se o "prazer" ou "[[lexico:a:alegria:start|alegria]]", que nos pode advir de acontecimentos, e a "felicidade" ou "[[lexico:b:beatitude:start|beatitude]]", que extraímos de nós próprios e está semj5re a nosso alcance. Perdura entretanto o fato de que a felicidade mais forte e mais pura é frequentemente a mais primitiva, a que se identifica com o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] de [[lexico:v:viver:start|viver]] e de agir: "A felicidade é o próprio sabor da vida. . . Agir é uma alegria... A vida é toda ela um [[lexico:c:campo:start|campo]] de contentamento" (Alain). Leia-se À conquista da felicidade, de Bertrand Russel. Na [[lexico:f:filosofia-grega:start|filosofia grega]] a felicidade é o fim último e o supremo bem do homem, o que constitui o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] sentido de sua vida; na verdade, só se tinha em mira a realização imperfeita, terrena, de dito bem supremo. Várias foram as concepções acerca do conteúdo da felicidade: perguntava-se se ela era o prazer ou a posse de bens exteriores, ou a virtude, ou o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]; se era [[lexico:d:dom:start|dom]] e mercê dos deuses ou fruto do [[lexico:e:esforco:start|esforço]] próprio. A mais importante [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] do conceito de felicidade, deu-a Aristóteles na [[lexico:e:etica-a-nicomaco:start|Ética a Nicômaco]]; segundo ele, a eudaimonia consiste na atividade do [[lexico:e:espirito:start|espírito]], mediante o conhecimento da verdade, atividade essa conforme à natureza do mesmo espírito e de acordo com a sua [[lexico:t:teleologia:start|teleologia]]. O prazer e a alegria são somente um [[lexico:e:eco:start|Eco]] da [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] alcançada. Afora isso, a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] moral virtuosa constitui um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] da felicidade, a qual, quanto ao mais, é concebida exclusivamente dentro do âmbito terreno. S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] e S. Tomás aplicaram o conceito de eudaimonia ao fim último da [[lexico:v:visao:start|visão]] beatificante de [[lexico:d:deus:start|Deus]], fim que nos é [[lexico:d:dado:start|dado]] a conhecer pela [[lexico:r:revelacao:start|revelação]]. O [[lexico:p:puro:start|puro]] [[lexico:e:eudemonismo:start|eudemonismo]], que vê o fim da vida humana unicamente numa satisfação concebida de maneira não teleológica, é superado pela [[lexico:i:ideia:start|ideia]] da perfeição interna da [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]], alcançável somente na posse de Deus por [[lexico:m:meio:start|meio]] do conhecimento, do [[lexico:a:amor:start|amor]], da [[lexico:s:santidade:start|santidade]] perfeita e do gozo. A doutrina cristã, com maior [[lexico:p:precisao:start|precisão]], distingue uma felicidade natural, correspondente às capacidades e tendências da natureza espiritual, e outra sobrenatural, que, na [[lexico:o:ordem:start|ordem]] efetiva, constitui por si só o destino do homem e consiste na [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] da Santíssima [[lexico:t:trindade:start|trindade]]. Tal felicidade satisfaz igualmente o natural anelo de bem-aventurança, ínsito no espírito e que não diminui o mérito de seu esforço moral. Este e seu valor [[lexico:i:incondicionado:start|incondicionado]] ficam, ao invés, frustrados pela [[lexico:n:negacao:start|negação]] da [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] e da felicidade ultraterrena, que pertencem essencialmente à personalidade espiritual e ao âmago de uma depurada concepção da vida.— Schuster. As doutrinas éticas que colocam a felicidade como bem supremo denominam-se eudemonistas, mas isto não implica que não possa compreender-se a felicidade de diversas maneiras: como [[lexico:b:bem-estar:start|bem-estar]], como atividade contemplativa, como prazer, etc. Neste último sentido, os cirenaicos pareceram sublinhar o prazer dos sentidos ou prazer material como fundamento indispensável do prazer espiritual. Como o prazer [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] é algo presente, tendeu-se para considerar que só o prazer atual é um bem verdadeiro; argumentou-se contra esta [[lexico:t:teoria:start|teoria]], que os prazeres podem produzir dores. Os cirenaicos responderam que o dever É procurar a satisfação dos desejos de tal forma que se evitem as dores subsequentes. Também se argumentou contra os cirenaicos que a sua doutrina é egoísta e que o prazer de um pode resultar na dor de outro. Os [[lexico:c:cinicos:start|cínicos]], por sua vez, acentuaram o desprezo por [[lexico:t:todo:start|todo]] o saber que não conduza à felicidade, isto é, à vida tranquila. Só pode conseguir-se esta vida quando se tem um domínio suficiente sobre si próprio, quer dizer, quando se atinja a auto-suficiência, ou [[lexico:a:autarquia:start|autarquia]]. Daí o desprezo do prazer, que é para os cínicos o produtor da infelicidade, o que perturba a [[lexico:q:quietude:start|quietude]] do sábio. A [[lexico:r:regra:start|regra]] do sábio é a [[lexico:p:prudencia:start|prudência]], a sabedoria, pela qual se eliminam todas as necessidades supérfluas, pois só a virtude é necessária. A ética eudemonista sempre entendeu a felicidade como um bem e também como uma [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]]. Diz-se por isso que equivale a uma ética de bens e de fins. Desde Kant costuma chamar-se a este [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de ética “ética material”, para a diferenciar da “ética [[lexico:f:formal:start|formal]]”, elaborada e defendida por Kant. Na medida em que se calcula que se atinge a felicidade ao conseguir-se o bem a que se aspira, pode dizer-se que todas as éticas materiais são éticas eudemonistas. Aristóteles manifestou que se identificou a felicidade com variadíssimos bens: a virtude, ou com a sabedoria prática, ou com a sabedoria filosófica, ou com todas elas acompanhadas ou não de prazer ou com a prosperidade (Ética a Nicômaco). A conclusão de Aristóteles é complexa: com a felicidade identificam-se as melhores [[lexico:a:atividades:start|atividades]]. Mas [[lexico:c:como-se:start|como se]] trata de saber quais são tais “melhores atividades”, o conceito é [[lexico:v:vazio:start|vazio]] desde que não se refira aos bens que a produzem. Aristóteles tende para identificar felicidade com certas atividades de caráter por sua vez [[lexico:r:razoavel:start|razoável]] e moderado. Posteriormente, advertiu-se que a felicidade não tem sentido sem os bens que fazem felizes e tendeu-se para distinguir entre várias espécies de felicidade: uma felicidade bestial, não é felicidade senão [[lexico:a:aparente:start|aparente]]; uma felicidade eterna, que é a [[lexico:v:vida-contemplativa:start|vida contemplativa]]; e uma felicidade final, que é a beatitude. [[lexico:s:santo:start|santo]] Agostinho falou da felicidade como fim da sabedoria; a felicidade é a possessão do verdadeiro [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], quer dizer, de Deus, todas as demais felicidades se encontram subordinadas àquela. Tomás de Aquino usou o [[lexico:t:termo:start|termo]] beatitude como equivalente a felicidade e definiu como “um bem [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] de natureza intelectual” ([[lexico:s:suma-teologica:start|Suma Teológica]]). A felicidade não é simplesmente um estado de alma, mas algo que a alma recebe a partir de fora, pois de contrário a felicidade não estaria ligada a um bem verdadeiro. Embora os autores modernos tratassem o [[lexico:t:tema:start|tema]] de forma diferente dos filósofos antigos e medievais, há qualquer coisa de comum em todos eles: que a felicidade nunca se apresenta como um bem em si mesmo, visto que para ser o que é a felicidade é preciso conhecer o bem ou bens que a produzem. Inclusivamente aqueles que fazem radicar a felicidade no estado de ânimo independente dos possíveis bens ou males supostamente externos chegam à conclusão de que não pode definir-se a felicidade se não se define certo bem, por subjectivo que este seja. Kant destacou muito claramente este fato ao manifestar na [[lexico:c:critica-da-razao-pratica:start|Crítica da Razão Prática]], que a felicidade é “o [[lexico:n:nome:start|nome]] das razões subjectivas da determinação” e, portanto, não é redutível a nenhuma razão particular. A felicidade é um conceito que pertence ao [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]]; não é o fim de nenhum [[lexico:i:impulso:start|impulso]], mas sim o que acompanha toda a satisfação. **O novo conceito de felicidade em [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]]** Precisamente a partir de Sócrates, a maior parte dos filósofos gregos passou a apresentar suas mensagens ao mundo como mensagens de felicidade. Em [[lexico:g:grego:start|grego]], "felicidade" se diz "eudaimonia", que, originalmente, significava ter tido a sorte de possuir um demônio-guardião bom e favorável, que [[lexico:g:garantia:start|garantia]] uma boa sorte e uma vida próspera e agradável. Mas os [[lexico:p:pre-socraticos:start|pré-socráticos]] já haviam interiorizado esse conceito: [[lexico:h:heraclito:start|Heráclito]] escrevia que "o caráter moral é o verdadeiro [[lexico:d:demonio:start|demônio]] do homem" e que "a felicidade é bem diferente dos prazeres", ao passo que Demócrito dizia que "não se tem a felicidade nos bens exteriores" e que "a alma é a morada de nossa sorte". Com base nas premissas que ilustramos, o [[lexico:d:discurso:start|discurso]] de Sócrates aprofunda e fundamenta ¿le [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:s:sistematico:start|sistemático]] precisamente esses conceitos. A felicidade não pode vir das coisas exteriores, do corpo, mas somente da alma, porque esta e só esta é a sua [[lexico:e:essencia:start|essência]]. E a alma é feliz quando é ordenada, ou seja, virtuosa. Diz Sócrates: "Para mim, quem é virtuoso, seja homem ou mulher, é feliz, ao passo que o injusto e malvado é infeliz". Assim como a [[lexico:d:doenca:start|doença]] e a [[lexico:d:dor-fisica:start|dor física]] são [[lexico:d:desordem:start|desordem]] do corpo, a saúde da alma é ordem da alma — e essa ordem espiritual ou [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] interior é a felicidade. Sendo assim, segundo Sócrates, o homem virtuoso entendido nesse sentido "não pode sofrer nenhum [[lexico:m:mal:start|mal]], nem na vida, nem na [[lexico:m:morte:start|morte]]". Nem na vida, porque os outros podem danificar-lhe os haveres ou o corpo, mas não arruinar-lhe a harmonia interior e a ordem da alma. Nem na morte, porque, se existe um além, o virtuoso será premiado; se não existe, ele já viveu bem no aquém, ao passo que o além é como um ser no nada. De qualquer forma, Sócrates tinha a firme [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] de que a virtude já tem o seu prêmio intrinsecamente, em si mesma, isto é, essencialmente: assim, vale a [[lexico:p:pena:start|pena]] ser virtuoso, porque a própria virtude já constitui um fim. E, sendo assim, para Sócrates, o homem pode ser feliz nesta vida, quaisquer que sejam as circunstâncias em que lhe cabe viver e qualquer que seja a situação no além. O homem é o verdadeiro artífice de sua própria felicidade ou infelicidade. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}