===== FÉ ===== (gr. [[lexico:p:pistis|pistis]]; lat. [[lexico:f:fides|fides]]; in. Faith; fr. Foi; al. Glaube; it. Fede). [[lexico:c:crenca|Crença]] religiosa, como confiança na [[lexico:p:palavra|palavra]] revelada. Enquanto a crença, em [[lexico:g:geral|geral]], é o [[lexico:c:compromisso|compromisso]] com uma [[lexico:n:nocao|noção]] qualquer, a fé é o compromisso com uma noção que se considera revelada ou testemunhada pela divindade. Nesse [[lexico:s:sentido|sentido]], essa palavra já era utilizada por [[lexico:s:sexto-empirico|Sexto Empírico]], ao [[lexico:f:falar|falar]] dos raciocínios que parecem provir "da fé e da [[lexico:m:memoria|memória]]", tais como o seguinte: "Se um [[lexico:d:deus|Deus]] te disse que [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:h:homem|homem]] ficará rico, ele ficará rico. Mas este Deus aqui (e indico, suponhamos, [[lexico:z:zeus|Zeus]]) te disse que esse homem ficará rico. Logo, ficará rico." Nesses casos, [[lexico:n:nota|nota]] Sexto, damos [[lexico:a:assentimento|assentimento]] à conclusão [[lexico:n:nao|não]] pela [[lexico:n:necessidade|necessidade]] das premissas, mas porquanto temos fé na declaração da divindade (Pirr. hyp., II, 141). S. Paulo resumiu as características fundamentais da [[lexico:f:fe-religiosa|fé religiosa]] nas célebres [[lexico:p:palavras|palavras]]: "fé é a [[lexico:g:garantia|garantia]] das [[lexico:c:coisas|coisas]] esperadas e a [[lexico:p:prova|prova]] das que não se veem" (Hebr, II, I). [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] esclareceu da seguinte [[lexico:f:forma|forma]] as palavras de S. Paulo: "Quando se [[lexico:f:fala|fala]] de prova, distingue-se a fé da [[lexico:o:opiniao|opinião]], da suspeita e da [[lexico:d:duvida|dúvida]], coisas em que [[lexico:f:falta|falta]] a firme adesão do [[lexico:i:intelecto|intelecto]] ao seu [[lexico:o:objeto|objeto]]. Quando se fala de coisas que não se veem, distingue-se a fé da [[lexico:c:ciencia|ciência]] e do intelecto, nos quais [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] se faz [[lexico:a:aparente|aparente]]. E quando se diz garantia das coisas esperadas faz-se a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre a [[lexico:v:virtude|virtude]] da fé e a fé no [[lexico:s:significado|significado]] comum , que visa à [[lexico:b:bem-aventuranca|bem-aventurança]] esperada" (S. Th, II, 2, q. 4, a. 1). Os escolásticos ativeram-se, com poucas variantes, a essa [[lexico:d:descricao|descrição]] da fé. Com o [[lexico:m:misticismo|misticismo]] alemão do séc. XIV, começou a tomar [[lexico:c:corpo|corpo]] a doutrina do [[lexico:c:carater|caráter]] privilegiado da fé como via de [[lexico:a:acesso|acesso]] original, direta e imediata às realidades supremas, especialmente a Deus. [[lexico:m:mestre|mestre]] [[lexico:e:eckhart|Eckhart]] vê na fé o [[lexico:m:meio|meio]] pelo qual o homem atinge a [[lexico:r:realidade|realidade]] última de si e de Deus: a fé, diz ele, é o nascimento de Deus no homem. Esse [[lexico:t:tema|tema]] retornou na chamada "[[lexico:f:filosofia-da-fe|filosofia da fé]]" do séc. XVIII: Hamann e [[lexico:j:jacobi|Jacobi]] atribuem à fé o mesmo [[lexico:s:status|status]] privilegiado, a mesma [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de colocar o homem diretamente em contato com as realidades últimas e especialmente com Deus, transpondo os limites e as incertezas da [[lexico:r:razao|razão]]. Embora Jacobi inclua na fé religiosa também a [[lexico:p:parte|parte]] que mais propriamente diz [[lexico:r:respeito|respeito]] à crença ("Nós cremos que temos corpo; cremos na [[lexico:e:existencia|existência]] das coisas sensíveis", Werke, IV, 211; III, 411), para ele é no caráter [[lexico:r:religioso|religioso]] que se funda a [[lexico:c:certeza|certeza]] da fé: toda fé é necessariamente fé da [[lexico:r:revelacao|revelação]] e esta é necessariamente fé em Deus, [[lexico:r:religiao|religião]] (Ibid., II, 274, 284, ss.). Os românticos reafirmaram amiúde esse status privilegiado da fé. Foi o que fez [[lexico:f:fichte|Fichte]], que exaltou a fé nas obras populares do segundo período, como p. ex. em Missão do homem (1800), em que afirma que "a fé, dando realidade às coisas, impede-as de [[lexico:s:ser|ser]] vãs ilusões: é a [[lexico:s:sancao|sanção]] da ciência", repetindo as palavras de Jacobi: "Todos nascemos na fé" (Werke, II, pp. 254-55). Nos textos de [[lexico:s:schelling|Schelling]] muitas vezes o tom é [[lexico:a:analogo|análogo]] (Werke, I, 10, 183), enquanto Novalis diz que a ciência é somente uma das metades e que a fé é a outra metade (Fragmente, 391). No [[lexico:u:ultimo|último]] período da [[lexico:e:escolastica|escolástica]] começou a acentuar-se [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:a:aspecto|aspecto]] da fé: seu caráter [[lexico:p:pratico|prático]], que não consiste na sua dependência da [[lexico:v:vontade|vontade]], mas na sua capacidade de dirigir a [[lexico:a:acao|ação]]. Duns Scot foi o primeiro a insistir nesse caráter: "A fé não é um [[lexico:h:habito|hábito]] especulativo, assim como crer não é um [[lexico:a:ato|ato]] especulativo e a [[lexico:v:visao|visão]] que segue a crença não é uma visão especulativa, mas prática" (Op. Ox., prol., q. 3). Por "prático" Duns Scot entende o que serve para dirigir a [[lexico:c:conduta|conduta]]; portanto para ele a [[lexico:t:teologia|teologia]] é prática, pois as verdades que ela ensina não são teóricas, ou seja, necessárias e demonstráveis, mas servem unicamente para dirigir o homem para a bem-aventurança (Ibid., prol., q. 4, n. 42). A mesma [[lexico:a:antitese|antítese]] entre o habitusáà fé e o habitusáà ciência era admitida por Ockham, que reputava os dois hábitos incompatíveis entre si, observando que não se pode dizer que [[lexico:q:quem|quem]] crê em alguma [[lexico:c:coisa|coisa]] cuja [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] esqueceu realmente tem "fé", porque o objeto de sua crença continua sendo a demonstração (In Sent., III, q. 8 R). No [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:m:moderno|moderno]], o caráter prático da fé foi defendido por [[lexico:s:spinoza|Spinoza]]: "A fé consiste em [[lexico:t:ter|ter]], em [[lexico:r:relacao|relação]] a Deus, os sentimentos que são eliminados quando se elimina a [[lexico:o:obediencia|obediência]] a Deus, e que estão presentes necessariamente quando está presente tal obediência" (Tract. theol.-pol, 14). Portanto, a fé é o conjunto de crenças que condicionam a obediência à divindade, segundo Spinoza. Esse [[lexico:c:conceito|conceito]] seria retomado por [[lexico:k:kant|Kant]], para quem a crença teoricamente insuficiente pode, sobretudo em seu aspecto prático, ser chamada de fé Kant generaliza o conceito prático da fé, reconhecendo nela a [[lexico:a:atitude|atitude]] compromissada que pode dirigir tanto a habilidade, ou seja, a [[lexico:a:atividade|atividade]] que tem em vista fins arbitrários e acidentais, quanto a [[lexico:m:moralidade|moralidade]], que visa a fins absolutamente necessários. A fé que dirige a habilidade é a fé [[lexico:p:pragmatica|pragmática]], cujo [[lexico:i:interesse|interesse]] raramente enfrenta desafios. Ao contrário, a fé doutrinal é mais compromissada, mas tampouco chega à certeza da fé [[lexico:m:moral|moral]]. Esta última [[lexico:e:especie|espécie]] de fé dá uma certeza que não pode ser comunicada; não é, pois, de [[lexico:n:natureza|natureza]] [[lexico:l:logica|lógica]], mas constitui uma "certeza moral" que se baseia em fundamentos subjetivos. "Assim, nunca devo dizer: é moralmente certo que Deus existe, etc, mas: estou moralmente certo, etc. Ou seja, a fé em Deus e em outro mundo está tão profundamente entrelaçada com meu [[lexico:s:sentimento|sentimento]] moral que, assim como não corro o [[lexico:r:risco|risco]] de perder este, tampouco temo que aquela me seja retirada" (Crít. R. Pura, [[lexico:c:canone|Cânone]] da [[lexico:r:razao-pura|Razão Pura]], seç. 3). Segundo Kant, a fé religiosa pode ser "fé religiosa pura", que é a própria fé moral, ou "fé histórica", que é fé nas leis estatutárias, que são as que indicam o [[lexico:m:modo|modo]] como Deus quer ser honrado e obedecido. (Religion, III, I, § 6). Aquilo que os escolásticos chamavam de caráter prático da fé, para Kant (e para os modernos) tornou-se o caráter compromissivo da fé, ou seja, o caráter graças ao qual a fé é antes de mais [[lexico:n:nada|nada]] um ato [[lexico:e:existencial|existencial]], uma [[lexico:o:orientacao|orientação]] dada à [[lexico:v:vida|vida]] do [[lexico:i:individuo|indivíduo]], capaz de transformá-la e não isenta de riscos. Estes traços aparecem claros na última grande [[lexico:t:teoria|teoria]] da fé que a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] elaborou: a de [[lexico:k:kierkegaard|Kierkegaard]]. Para ele, o cristianismo inverteu a relação entre fé e ciência. Na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] clássica, a fé é algo inferior à ciência porque se refere ao [[lexico:v:verossimil|verossímil]]; no cristianismo, a fé é [[lexico:s:superior|superior]] à ciência porque indica a certeza mais elevada, certeza que se refere ao [[lexico:p:paradoxo|paradoxo]], portanto ao inverossímil: ela é "a [[lexico:c:consciencia|consciência]] da [[lexico:e:eternidade|Eternidade]], a certeza mais apaixonada que impele o homem a sacrificar tudo, mesmo a vida" (Diário, X4, A 635). O caráter compromissivo da fé consiste em seus laços com a existência: ter fé significa [[lexico:e:existir|existir]] de certo modo: "Para ter fé, é preciso que haja uma [[lexico:s:situacao|situação]] que deve ser produzida com um passo existencial do indivíduo" (Ibid., X4, A 114). "Esse passo marca a [[lexico:r:ruptura|ruptura]] com o mundo e com seu [[lexico:i:ideal|ideal]] de [[lexico:i:inteligibilidade|inteligibilidade]]. [[lexico:o:o-que-e|o que é]] crer? É querer (o que se deve e por que se deve), em obediência reverente e absoluta, de fender-se do vão [[lexico:p:pensamento|pensamento]] de querer [[lexico:c:compreender|compreender]] e da vã [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] de poder compreender" (Ibid., X’, A 368). Sob este [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, a fé não é feita de certezas, mas de [[lexico:d:decisao|decisão]] e risco. A fé, diz Kierkegaard em Temor e tremor, é a certeza angustiante, a [[lexico:a:angustia|angústia]] que se torna segura de si e de uma relação oculta com Deus. O homem pode rogar a Deus que lhe conceda a fé, mas a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de rogar não é em si mesma um [[lexico:d:dom|dom]] [[lexico:d:divino|divino]]? Assim, há na fé uma inegável [[lexico:c:contradicao|contradição]], que a torna paradoxal. O homem é colocado num [[lexico:d:dilema|dilema]]: crer ou não crer. Por um lado, a ele cabe escolher, e por outro qualquer iniciativa é [[lexico:i:impossivel|impossível]], porque Deus é tudo, e dele deriva inclusive a fé. Esse conceito foi substancialmente retomado por Karl Barth, que interpretou a fé como inserção da Eternidade no [[lexico:t:tempo|tempo]], da [[lexico:t:transcendencia|Transcendência]] na existência (Comentário à Epístola aos romanos, 1919). Rudolf Bultmann também atribui a fé à iniciativa divina, apesar de afirmar a exigência de libertar a fé, sobretudo cristã, dos mitos cosmológicos com que ela tradicionalmente aparece unida, procedendo à sua [[lexico:d:desmitificacao|desmitificação]]. Indo mais longe, Dietrich Bonhoeffer contrapôs a fé à religião , considerada como [[lexico:e:expressao|expressão]] mítica e [[lexico:c:contingente|contingente]] da fé, inaceitável nesta [[lexico:e:epoca|época]] dominada pelo [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]], pela ciência e pela [[lexico:t:tecnologia|tecnologia]]. Desse ponto de vista, acentua-se o caráter prático da fé, que se transforma em moral [[lexico:n:natural|natural]] e humana, fundada na [[lexico:u:unidade|unidade]] entre mundo e Deus, entre [[lexico:h:humanidade|humanidade]] e Cristo ([[lexico:e:etica|Ética]], 1949; Resistência e rendição, 1951). É nesse conceito de fé, entendida como ação renovadora do mundo [[lexico:h:humano|humano]], que se inspira o [[lexico:p:panteismo|panteísmo]] humanista dos chamados "novos teólogos" (v. Deus e Deus, [[lexico:m:morte|morte]] de). Karl [[lexico:j:jaspers|Jaspers]] insistiu na [[lexico:i:identidade|identidade]] entre existência e fé sob o aspecto filosófico, mas, na esteira de Kierkegaard, continuou reconhecendo na fé uma relação direta com a Transcendência (Der philosophische Glaube, 1948). A crença numa religião, num ideal, numa [[lexico:p:pessoa|pessoa]]. — O [[lexico:p:problema-filosofico|problema filosófico]] é o proveniente das [[lexico:r:relacoes|relações]] entre o [[lexico:s:saber|saber]] e a fé: a [[lexico:r:reflexao|reflexão]] filosófica poderá resolver todos os problemas que o homem se coloca (como pensam [[lexico:d:descartes|Descartes]], Spinoza, Fichte, [[lexico:h:hegel|Hegel]]), ou ela será, ao contrário, necessariamente limitada e inapta a resolver os problemas fundamentais da [[lexico:i:imortalidade-da-alma|imortalidade da alma]], da [[lexico:o:origem|origem]] do mundo e da [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]] (como pensam Kant e Augusto [[lexico:c:comte|Comte]])? As doutrinas que concebem o saber como limitado e dão [[lexico:l:lugar|lugar]] à fé são provenientes do [[lexico:f:fideismo|fideísmo]] ou do [[lexico:a:agnosticismo|agnosticismo]]. Foi [[lexico:f:feuerbach|Feuerbach]] quem, antes de [[lexico:m:marx|Marx]], fêz a [[lexico:c:critica|crítica]] da fé (na [[lexico:e:essencia|Essência]] do cristianismo, 1841), mostrando que a fé não pode se relacionar senão com o que não existe, pois, "o que existe" é o objeto de um "saber [[lexico:r:real|real]]"; contudo, há uma coisa que existe, mas cujo caráter [[lexico:i:infinito|infinito]] escapa a [[lexico:t:todo|todo]] o saber — é o homem: a fé no homem pode se definir como uma [[lexico:e:esperanca|esperança]] nos progressos da [[lexico:c:civilizacao|civilização]], na elevação do nível de vida e na [[lexico:v:vocacao|vocação]] pacífica dos homens. As palavras "fé" e "crer", derivados dos vocábulos latinos fides e credere, têm sido [[lexico:e:empregados|empregados]] desde a antiguidade para traduzir os [[lexico:c:conceitos|conceitos]] bíblicos expressos por ditos vocábulos, os quais, por seu turno, são a versão latina dos termos gregos pistis e pisteuein. Assim, a fé (1), particularmente em S. Paulo, designa frequentemente o novo [[lexico:c:caminho|caminho]] de [[lexico:s:salvacao|salvação]] [[lexico:a:aberto|aberto]] pela [[lexico:g:graca|graça]] de Cristo, em [[lexico:o:oposicao|oposição]] à "[[lexico:l:lei|lei]]" do Antigo Testamento. Em especial, entende-se por fé (2) o ato que expressa a primeira resposta do homem ao apelo divino da graça, ou seja, o livre "sim" à auto-manifestação (revelação) de Deus: fé na revelação. Este ato para ser conforme com a razão, supõe como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] [[lexico:l:logico|lógico]], uma certa [[lexico:e:evidencia|evidência]], na [[lexico:m:medida|medida]] em que devem ser conhecidos o [[lexico:f:fato|fato]] da revelação e a [[lexico:a:autoridade|autoridade]] (ou seja, a [[lexico:v:verdade|verdade]] e a [[lexico:v:veracidade|veracidade]]) de Deus revelante; mas não deve ser equiparado à conclusão que num [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] resulta do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] da fundamentação; é, antes, o assentimento firme (isto é, que exclui toda dúvida) do [[lexico:e:entendimento|entendimento]] à verdade revelada, em [[lexico:a:atencao|atenção]] à autoridade de Deus. Éste assentimento, como certeza livre, depende da vontade e, por conseguinte, do [[lexico:v:valor|valor]] que, como [[lexico:m:motivo|motivo]], a determina. Mas o motivo do assentimento não é, na fé (como p., ex., ocorre na ciência teológica) o valor cognitivo da [[lexico:p:proposicao|proposição]] de fé, valor puramente [[lexico:t:teoretico|teorético]], garantido pela fundamentação lógica e, enquanto tal, [[lexico:f:finito|finito]], mas únicamente a autoridade de Deus, na qual o homem confia, contra todas as aparências, e à qual se submete com incondicional entrega de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. A expressão "crer em Cristo" acentua, para [[lexico:a:alem|além]] da submissão da própria [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], a entrega confiante e a adesão do homem todo que de Cristo espera sua salvação total. Lidero entendeu de maneira unilateral esta entrega, quando para a [[lexico:j:justificacao|justificação]] exigia só a fé (3), ou seja, a confiança de que os [[lexico:p:pecados|pecados]] me são perdoados, em atenção aos méritos de Cristo (fé fiducial). — O [[lexico:t:termo|termo]] "fé" transfere-se do ato e da virtude por ela designados para o objeto ou conteúdo da mesma virtude; assim sucede, quando dizemos: conhecer sua fé. Quando a Igreja, por meio de decisão definitiva, declara ("define") como revelada por Deus uma verdade de fé, essa doutrina recebe o [[lexico:n:nome|nome]] de [[lexico:d:dogma|dogma]]. Sobre a relação entre fé e saber teologia. Em sentido lato, fé (4) significa fé ou crença em Deus, toda [[lexico:c:conviccao|convicção]] religiosa, embora esta não se apoie na revelação divina; também neste sentido a fé continua sendo uma decisão livre e, portanto, moralmente importante, do homem todo. Aqui entra também a chamada fé filosófica (Jaspers [[lexico:f:filosofia-da-existencia|filosofia da existência]]). Quanto mais, por [[lexico:o:obra|obra]] do agnosticismo, foi subtraído à fé o fundamento [[lexico:r:racional|racional]], tanto mais a crença racional foi substituída por uma fé (5) [[lexico:i:irracional|irracional]]. Assim, Kant pretendia "suprimir o saber para encontrar lugar para a fé". Fé (fé moral) é, segundo êle, a aceitação dos postulados da [[lexico:r:razao-pratica|razão prática]], em especial da existência de Deus, não por [[lexico:m:motivos|motivos]] racionais objetivamente suficientes, mas porque são subjetivamente necessários como [[lexico:p:pressuposicao|pressuposição]] para a [[lexico:o:observacao|observação]] [[lexico:r:razoavel|razoável]] da [[lexico:l:lei-moral|lei moral]]. Em lugar desta base voluntarista, aparece na filosofia irracionalista da religião, principalmente desde [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]], o sentimento (fideísmo). Fé designa então uma convicção que repousa no sentimento religioso, ou é mesmo este sentimento (fé [[lexico:s:sentimental|sentimental]]). Incredulidade, em sentido teológico, é a falta de fé na revelação, e também a [[lexico:c:carencia|carência]] de toda fé em Deus (4 e 5) sendo, mais ou menos, o equivalente de [[lexico:a:ateismo|ateísmo]]. A incredulidade implica [[lexico:c:culpa|culpa]], quando alguém [[lexico:r:recusa|recusa]] a fé, embora conheça com certeza suficiente o fato da revelação ou as razões que militam em favor da existência de Deus, ou quando alguém se aparta premeditadamente de antemão do reto conhecimento. A [[lexico:s:supersticao|superstição]] é uma falsa fé, principalmente a fé na eficácia infalível de certas fórmulas ou práticas que, naturalmente, não são adequadas ao [[lexico:e:efeito|efeito]] desejado e que — de modo mais ou menos [[lexico:c:consciente|consciente]] se destinam a obrigar forças extranaturais e misteriosas ao serviço do homem. No domínio não religioso, fé (6) designa, antes de mais nada, a crença no sentido de certeza prática (belief) ou a aceitação do [[lexico:t:testemunho|testemunho]] de outrem, sob sua palavra. Esta fé inclui, do mesmo modo que a fé (2), uma confiança na veracidade alheia. Por isso mesmo, se distingue de uma aquisição de conhecimento que só até certo ponto tem em conta o testemunho alheio, p. ex., porque circunstâncias especiais não permitem conhecer nenhum motivo racional para mentir; neste caso, podemos talvez falar de um "saber testemunhal". — Devido a ulterior [[lexico:e:evolucao|evolução]] [[lexico:s:semantica|semântica]], "crer" (não a "fé"), na [[lexico:l:linguagem|linguagem]] cotidiana, passou a significar, muito frequentemente, "ter por certo", "opinar", e, por último, também "supor". Do significado religioso de "crer em Deus, em Cristo", derivou recentemente uma acepção mundana, segundo a qual, fé (7) designa uma atitude crente, uma convicção e confiança inabalável pela dúvida, sólida e intensamente penetrada de sentimento, com que alguém adere com fervor quase religioso à pessoa ou coisa que crê. — De Vries. A vigência da Fé, em que mora e vive o cristão, é um [[lexico:e:espaco|espaço]] de verdade originária, isto é, irredutível, indeclinável e incompreensível para a atitude interrogativa do [[lexico:f:filosofo|filósofo]]. O modo [[lexico:p:proprio|próprio]] de se [[lexico:e:estar|estar]] na Fé não é apenas uma forma e um modo de ser da existência, ao lado de outros modos e de muitas outras formas. O testemunho, que de si mesma dá a Fé, pertence à própria Fé. Neste testemunho, a maneira de se estar na crença não provém de uma [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:e:escolha|escolha]] nem resulta do [[lexico:e:esforco|esforço]] de uma conquista. É um dom da própria Fé. A Fé do cristão é graça e não preferência. A Fé na "[[lexico:l:loucura|loucura]] da cruz" inclui em si tanto um conteúdo, como um [[lexico:p:processo|processo]] todo próprio. O consentimento já é em si mesmo Fé e dádiva de misericórdia. O cristão é o homem em quem Cristo vive e a quem é [[lexico:d:dado|dado]] ser testemunho vivo do próprio Cristo. Fé não é [[lexico:i:ideologia|ideologia]]. É [[lexico:t:transformacao|transformação]] do modo de [[lexico:p:pensar|pensar]], de sentir, de agir, uma verdadeira metanoia. Por isso, para o cristão, todo não cristão nunca é o inimigo, o adversário ou mesmo o estranho. É o irmão, um cristão [[lexico:v:virtual|virtual]] que o [[lexico:s:sangue|sangue]] Redentor de Cristo já salvou na cruz. Um cristão nunca sabe se crê realmente. Pois a Fé não é uma [[lexico:q:questao|questão]] de saber. Não basta voltar-se sobre si mesmo e conferir as disposições da própria consciência com as prescrições de uma doutrina e os padrões de uma moral. O cristão crê simplesmente, aceitando com simplicidade a graça da Fé. Mas este não saber não se deve tomá-lo por cegueira. Cegueira é ainda uma forma, embora privativa, de saber. Por isso este não saber não significa que a Fé vive entre dúvidas e hesitações. Significa que a Fé não pertence nem passa pelo [[lexico:r:reino|reino]] do conhecimento e, por isso mesmo, se esquiva a todo [[lexico:q:questionamento|questionamento]] e a qualquer [[lexico:i:interrogacao|interrogação]]. A Fé só pode ser mesmo objeto e processo de Fé. Contra a [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] de Hegel, o cristão não sabe em que crê, sobretudo quando crê da maneira requerida pela Fé. Em S. [[lexico:a:agostinho|Agostinho]], o seio da famosa [[lexico:f:frase|frase]]: seio cui credidi (2Tm 1,12) (sei em que acreditei!), não tem o sentido de um saber sem crer, diz pelo contrário que a convicção da Fé é dom da graça do próprio crer. E, não obstante, estar na Fé não exclui e, sim, inclui estar na verdade, e numa verdade originária. O mundo brilha numa outra [[lexico:l:luz|luz]]. Tudo se transforma. É que o fiel mora num país em que a paisagem é da graça e toda a [[lexico:e:economia|economia]] é da salvação. Por toda parte o cristão descobre a irrupção e o advento de Deus na [[lexico:h:historia|história]] dos homens. Mas o Deus da Fé não é o [[lexico:a:absoluto|absoluto]] da Filosofia, uma [[lexico:m:mediacao|mediação]] sem [[lexico:m:mediador|mediador]]. Embora condicionada pela verdade do ser, que instala o lugar de origem da existência e proporciona o [[lexico:p:principio|princípio]] da [[lexico:h:historicidade|historicidade]], a. Fé dá ao cristão um outro alento. O fundamento [[lexico:o:ontologico|ontológico]] da historicidade não basta para constituí-la nem fundá-la como Fé salvífica da história dos homens. É-lhe, apenas, [[lexico:c:condicao|condição]] necessária de possibilidade e nunca princípio de vida e mobilização. Muito ao contrário. Modo de existir diferenciado pela [[lexico:p:participacao|participação]] no [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] salvífico da [[lexico:r:redencao|Redenção]], a Fé permanece em sua essência sempre "eventual" e indiferente à verdade originária do ser que inaugura a historicidade, realidade [[lexico:o:ontologica|ontológica]] de toda realização humana, mas nunca [[lexico:e:evento|evento]] [[lexico:h:historico|histórico]] de salvação. Saber o que se desvela na crença da Fé só com os recursos do questionamento é igualmente impossível tanto para o crente como para o descrente. Pois o que se revela imediatamente na Fé cristã é a crença no Deus crucificado, "[[lexico:e:escandalo|escândalo]] para os judeus, loucura para os gentios". Não é a [[lexico:o:onipotencia|onipotência]] da [[lexico:c:causa-primeira|causa primeira]], mas a misericórdia do Pai Celeste que entregou o próprio [[lexico:f:filho|filho]] para a salvação do mundo. Quaisquer que sejam os arcanos e o vigor do [[lexico:h:horizonte|horizonte]] aberto pela Fé, uma [[lexico:e:experiencia|experiência]] o cristão sempre faz: a obscuridade da Fé nunca é cega. É sempre perspicaz. Pois vê todas as coisas, o mundo inteiro, na luz de uma verdade invisível, mas revelada, que a própria Fé acende. No mundo cristão não se dá uma luz do conhecimento ao lado de uma luz da crença, uma luz do [[lexico:s:sol|sol]] junto a uma luz do homem, uma [[lexico:l:luz-natural|luz natural]] com uma luz [[lexico:s:sobrenatural|sobrenatural]]. É o sentido contemplativo da frase de C. Péguy: le surnaturel est charnel "o sobrenatural é carnal". Para o cristão, tudo irradia a luz da Fé. Como disse Ângelo Silésio numa experiência de [[lexico:c:contemplacao|contemplação]]: "para [[lexico:v:ver|ver]] Deus, basta meu [[lexico:c:coracao|coração]] virar-se para a luz, como faz a rosa"! Enquanto cristão, o cristão não sabe nem precisa saber que mora na verdade e pertence à história do ser. Mergulhado na luz da Fé, ignora os pressupostos ontológicos e as condições de possibilidade de sua Fé. Por isso é que para o fiel a Filosofia é uma loucura. Não o seduz a avalanche do questionamento nem o toca a vertigem interrogativa do Pensamento nas peripécias da Filosofia. Mas, por outro lado, a proteção dada pela Fé não é isenta de perigos. Uma [[lexico:i:inquietude|inquietude]] [[lexico:e:essencial|essencial]] é constitutiva da crença. Sob [[lexico:p:pena|pena]] de banalizar-se numa atitude de tibieza, o crente permanece sempre exposto à possibilidade da descrença. É o "espinho na [[lexico:c:carne|carne]]" que o atormenta continuamente. Todavia não se trata de dúvida e hesitação, insegurança ou [[lexico:a:ambivalencia|ambivalência]]. A inquietação do crente é tão irredutível à dúvida, como a verdade da Fé o é à verdade do conhecimento. Os existenciais da Fé não são os mesmos do Pensamento. Enquanto crente, o crente não se interroga nem se examina acerca de sua crença. Para fazê-lo teria de sair do horizonte da Fé. O aguilhão da crença não pode ser a interrogação do pensamento. Estranha às flutuações da dúvida, a crença não necessita ter certeza. Ela é a sua própria verdade. Por isso também não pode ser ameaçada pela dúvida. O aguilhão da Fé é a infidelidade. É esta que gera a dúvida e não vice-versa. O tormento da infidelidade acompanha sempre a vida do cristão. Ser cristão inclui sempre a vigilância, o [[lexico:d:dever|dever]] de vigiar com o Cristo da Fé, em agonia no Getsêmani, até à consumação dos séculos: "vigiai e orai para não cairdes em tentação. O [[lexico:e:espirito|espírito]] está pronto mas a carne é fraca" (Mt 26,41). Não é para se entender esta [[lexico:p:presenca|presença]] da infidelidade na Fé, da descrença na crença, como uma [[lexico:d:dialetica|dialética]] de [[lexico:c:constituicao|constituição]]. A vigência da Fé está fora de qualquer dialética. Não é a infidelidade que, entrando em [[lexico:t:tensao|tensão]] com a [[lexico:f:fidelidade|fidelidade]], constitui a Fé. Não! É a própria Fé que se expõe sempre, e [[lexico:p:por-si|por si]] mesma, à possibilidade da infidelidade, a [[lexico:f:fim|fim]] de poder manter viva e [[lexico:a:atuante|atuante]] a fidelidade do crente. É o testemunho de São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios 12,7-10: E para que a [[lexico:g:grandeza|grandeza]] das revelações não me levasse ao [[lexico:o:orgulho|orgulho]], foi-me dado um espinho na carne, um [[lexico:a:anjo|anjo]] de Satanás, que me esbofeteia e me livra do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o afastasse de mim. Mas três vezes ele me respondeu: "basta minha graça porque é na fraqueza que a [[lexico:f:forca|força]] chega à [[lexico:p:perfeicao|perfeição]]". Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Eis por que sinto [[lexico:a:alegria|alegria]] nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no [[lexico:p:profundo|profundo]] desgosto sofrido por [[lexico:a:amor|amor]] de Cristo. Pois quando me sinto fraco, então é que sou forte. Assim o cristão não pode desprezar o filósofo, cuja ousadia o mantém em contínua procura por dentro dos vestígios da passagem histórica do ser. Pois o cristão não é aquele que já encontrou o que o filósofo sempre procura. O mundo da Fé e o mundo do Pensamento não são homogêneos. A "resposta" da Fé não responde à [[lexico:p:pergunta|pergunta]] do Pensamento, por não se corresponderem pergunta e resposta. A Fé nunca pode ser uma solução para a angústia ontológica do Nada, como "a resposta" do Pensamento nunca pode ser uma solução para a inquietude da Fé. O que ambas podem vir a ser uma para a outra, é apenas a dissolução uma pela outra. Vãs, portanto, e de uma vaidade radical, são as tentativas de se afrontarem Fé e Pensamento, disputando as pretensões da serenidade e da inquietude: pois cada qual possui sua verdade e cada qual tem seu aguilhão. Nem a Fé, nem o Pensamento podem aliviar a angústia radical da existência, sem desfigurar a própria essência. Conservando-se o que são, só podem mesmo conferir à história dos homens mais gravidade, e de uma maneira exclusiva e peculiar a cada uma. Em suas oposições irredutíveis, as duas modalidades de existir, a Fé e o Pensamento, não têm por fundo um mesmo domínio, o mundo da existência humana, divergindo apenas no modo de abordá-lo, a saber, pelo questionamento, uma, e pela crença, a outra. Trata-se de dois [[lexico:m:mundos|mundos]] diferentes e irreconciliáveis. Esta foi a [[lexico:r:reacao|reação]] da primeira [[lexico:c:comunidade|comunidade]] cristã, desde os tempos apostólicos até aos chamados Padres Apologetas, ao contato e encontro com a [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] grega. Era a época do "primeiro fervor", antes da constituição da Teologia.