===== FANTÁSTICO ===== gr. phantastikos, φανταστικός; lat. phantasticus O [[lexico:p:problema:start|problema]] que a [[lexico:f:fisiologia:start|fisiologia]] pneumática dos médicos colocava para a [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]] cristã medieval era o da maneira como deveria [[lexico:s:ser:start|ser]] concebida a [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] e a [[lexico:a:alma:start|alma]]. Na sua Pantechne, Constantino Africano parece identificar o espírito [[lexico:a:animal:start|animal]] com a [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]], por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] uma [[lexico:f:funcao:start|função]] da alma [[lexico:r:racional:start|racional]], e, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, menciona a [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] de “certos filósofos que afirmam que este espírito do cérebro é a alma e que ela é corpórea”. Se Costa ben Luca já se detém na [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre o espírito corpóreo e mortal e a alma incorpórea e imortal, a [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] em conciliar a [[lexico:p:pneumatologia:start|pneumatologia]] dos médicos com a doutrina cristã fica evidente em Guilherme de Saint-Thierry, que condena explicitamente o grave [[lexico:e:erro:start|erro]] dos que identificam o espírito com “aquela [[lexico:p:parte:start|parte]] eminente do [[lexico:h:homem:start|homem]] que faz dele a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] do [[lexico:d:deus:start|Deus]] incorruptível e o eleva acima de todos os seres animados, ou seja, a alma racional”. “O Autor da [[lexico:n:natureza:start|natureza]]” - escreve ele, com uma [[lexico:f:formula:start|fórmula]] que revela exemplarmente a fratura [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] da [[lexico:p:presenca:start|presença]], que caracteriza a [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] cristã — “envolveu de [[lexico:m:misterio:start|mistério]] a [[lexico:u:uniao:start|união]] da alma e do [[lexico:c:corpo:start|corpo]]. [[lexico:i:inefavel:start|Inefável]], incompreensível é o encontro dessas duas [[lexico:s:substancias:start|substâncias]].” É precisamente este mysterium ineffabile que constitui o [[lexico:t:tema:start|tema]] de uma das obras mais singulares do século XII: o De unione corporis et [[lexico:s:spiritus:start|spiritus]], de Hugo de São Vítor. Também Hugo, assim como Guilherme de Saint-Thierry, desconfia de toda identificação apressada entre corpóreo e [[lexico:i:incorporeo:start|incorpóreo]], e começa por isso com as [[lexico:p:palavras:start|palavras]] do Evangelho de João, segundo as quais “o que nasceu da [[lexico:c:carne:start|carne]] é carne e o que nasceu do espírito é espírito”. Porém, sobre o [[lexico:a:abismo:start|abismo]] que separa as duas substâncias, Hugo põe em [[lexico:a:acao:start|ação]] uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de escada [[lexico:m:mistica:start|mística]] de Jacó, ao longo da qual o corpo ascende na direção do espírito, e o espírito desce até o corpo: *Se [[lexico:n:nao:start|não]] houvesse [[lexico:n:nada:start|nada]] de intermediário entre o espírito e o corpo — escreve ele — nem o espírito teria podido encontrar o corpo, nem o corpo o espírito. É grande a distância entre corpo e espírito: eles estão longe um do [[lexico:o:outro:start|outro]]. Há, portanto, algo através do qual o corpo sobe para aproximar-se do espírito, e algo através do qual, por sua vez, o espírito desce para aproximar-se do corpo... Nem todos os corpos são da mesma [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]], mas alguns são mais altos, outros inferiores, outros sumos e quase transcendentes em relação à natureza corpórea. De [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]], também entre os [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]] há mais altos, inferiores e ínfimos, quase caídos abaixo da natureza espiritual, porque de tal [[lexico:f:forma:start|forma]] as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] sumas se unem com as ínfimas... O corpo ascende e o espírito desce; o espírito sobe e Deus desce... O corpo ascende por [[lexico:m:meio:start|meio]] dos sentidos, o espírito desce através da [[lexico:s:sensualidade:start|sensualidade]]. Pensa na escada de Jacó: estava apoiada na [[lexico:t:terra:start|Terra]] e a sua extremidade tocava os céus. * Na busca desta escada de Jacó, inspirando-se na [[lexico:t:teoria:start|teoria]] neoplatônica do espírito fantástico como [[lexico:m:mediador:start|mediador]] entre corpóreo e incorpóreo, [[lexico:i:irracional:start|irracional]] e racional, Hugo procede a uma reavaliação da [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]], que constitui [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] decisiva na [[lexico:h:historia:start|história]] da [[lexico:c:cultura:start|cultura]] medieval: *Entre os corpos é mais nobre e mais [[lexico:p:proximo:start|próximo]] da natureza espiritual aquele que possui por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] um [[lexico:m:movimento:start|movimento]] [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] e nunca pode ser detido a partir de fora; este, enquanto suscita a [[lexico:s:sensacao:start|sensação]], imita a [[lexico:v:vida:start|vida]] racional, e enquanto forma a [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]], imita a [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] viva. No corpo, não pode haver nada mais alto e mais próximo da natureza espiritual do que aquilo em que, além da sensação e acima dela, se origina a [[lexico:f:forca:start|força]] da imaginação. Tal [[lexico:r:realidade:start|realidade]] é tão [[lexico:s:sublime:start|sublime]] que, acima dela, nada pode encontrar-se senão a [[lexico:r:razao:start|razão]]. A força ígnea que recebeu uma forma do [[lexico:e:exterior:start|exterior]] se chama sensação; esta mesma forma transportada para o interior é chamada de imaginação. Realmente, quando a forma da [[lexico:c:coisa:start|coisa]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], colhida no exterior por meio dos raios da [[lexico:v:visao:start|visão]], é reconduzida aos olhos por [[lexico:o:obra:start|obra]] da natureza e por estes é acolhida, tem-se a visão. Sucessivamente, passando através das sete membranas dos olhos e dos três [[lexico:h:humores:start|humores]], finalmente purificada e conduzida para o interior, chega ao cérebro e origina a imaginação. A imaginação, passando da parte anterior da cabeça para aquela central, entra em contato com a mesma [[lexico:s:substancia:start|substância]] da alma racional e provoca o [[lexico:d:discernimento:start|discernimento]], já tão purificada e tomada sutil a [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de poder unir-se, sem [[lexico:m:mediacao:start|mediação]], com o mesmo espírito... A imaginação é, portanto, uma [[lexico:f:figura:start|figura]] da sensação, situada na parte mais alta do espírito corpóreo e na parte mais baixa do espírito racional... Nos animais irracionais, ela não transcende a cela fantástica, enquanto nos animais racionais chega até à cela racional, onde entra em contato com a mesma substância incorpórea da alma... Então, a substância racional é uma [[lexico:l:luz:start|luz]] corpórea, a imaginação, enquanto imagem de um corpo, é uma sombra. Por isso, depois que a imaginação subiu até à razão, como sombra que vem à luz e se sobrepõe à luz, enquanto lhe vai ao encontro se torna manifesta e circunscrita, enquanto se sobrepõe a ela, a ofusca, a envolve, a cobre. Se a razão a recebe sobre si só com a [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]], a imaginação é para ela uma espécie de veste que lhe é exterior e a envolve, de tal forma que se pode facilmente libertar dela e desnudar-se. Se, pelo contrário, a razão aderir a ela com deleite, a imaginação torna-se para ela como uma pele, de modo que não se poderá desvencilhar dela sem [[lexico:d:dor:start|dor]], por se [[lexico:t:ter:start|ter]] acercado dela com [[lexico:a:amor:start|amor]]... Assim, subindo dos corpos ínfimos e extremos até ao espírito corpóreo, há uma progressão através do [[lexico:s:sentido:start|sentido]] e da imaginação, estando ambos no espírito corpóreo. Imediatamente depois do corpo, no espírito incorpóreo há a [[lexico:a:afeicao:start|afeição]] imaginária que a alma recebe por sua união com o corpo, e, para além dela, a razão que age sobre a imaginação. * Nos Padres, que mais sofrem a [[lexico:i:influencia:start|influência]] de Hugo, como Isaac de Stella e Alguero de Claraval, essa função mediadora do espírito fantástico fica reforçada e mais precisa: “A alma que é [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] espírito, e a carne que é verdadeiro corpo, fácil e convenientemente se unem em seu ponto [[lexico:e:extremo:start|extremo]], a [[lexico:s:saber:start|saber]], no fantástico da alma, que não é um corpo, mas é semelhante ao corpo, e na sensualidade da carne, que é quase espírito...” Para medir a importância da reavaliação da fantasia que se realiza nesses escritos, convém recordar que, na [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] cristã medieval, a fantasia aparece com muita frequência sob uma luz decididamente negativa. Não é inoportuno lembrar a propósito que as lascivas [[lexico:m:mulheres:start|mulheres]] seminuas, as criaturas metade humanas e metade feras, os diabos aterrorizantes e [[lexico:t:todo:start|todo]] o acervo de imagens monstruosas e sedutoras que se cristalizaram na iconografia das tentações de [[lexico:s:santo:start|santo]] Antão, representam precisamente os fantasmas que o tentador suscitou no espírito fantástico do santo. É justamente esta vertiginosa [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] da alma que, com a [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] polarizante que caracteriza o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] medieval, se torna [[lexico:a:agora:start|agora]] o [[lexico:l:lugar:start|lugar]] em que se celebra a “união inefável” do corpóreo e do incorpóreo, da luz e da sombra. Se o mediador espiritual dessa união, nas pegadas do pensamento neoplatônico, pôde ser identificado no [[lexico:p:pneuma:start|pneuma]] fantástico, isso se deve ao [[lexico:f:fato:start|fato]] de que nem sequer nas mais exaltadas teorizações românticas a imaginação foi concebida de maneira tão elevada e, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], concreta, como no pensamento desta [[lexico:e:epoca:start|época]], que, [[lexico:b:bem:start|Bem]] mais do que a nossa, merece realmente o [[lexico:n:nome:start|nome]] de “[[lexico:c:civilizacao:start|civilização]] da imagem”. E se tivermos em conta a íntima ligação entre amor e fantasia, torna-se fácil [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a influência profunda que tal reavaliação da fantasia viria exercer sobre a teoria do amor. Também porque foi [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] uma [[lexico:p:polaridade:start|polaridade]] positiva da fantasia, foi [[lexico:p:possivel:start|possível]], nos modos que assinalaremos, redescobrir uma polaridade positiva e uma “espiritualidade”, na [[lexico:d:doenca:start|doença]] mortal do espírito fantástico que era o amor. [AgambenE:166-170] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}