===== FANTASMA ===== VIDE [[lexico:i:imagem:start|imagem]] [[lexico:f:freud:start|Freud]], que em nenhum de seus escritos elaborou uma verdadeira [[lexico:t:teoria:start|teoria]] orgânica do fantasma, [[lexico:n:nao:start|não]] define precisamente que papel o mesmo desempenha na [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]] da [[lexico:i:introjecao:start|introjeção]] melancólica. Contudo, uma [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] antiga e persistente considerava a síndrome do [[lexico:h:humor:start|humor]] negro intimamente vinculada a uma hipertrofia mórbida da [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] fantástica, a [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de se poder afirmar que só se a pusermos no contexto do fundo [[lexico:c:complexo:start|complexo]] da teoria medieval do fantasma será [[lexico:p:possivel:start|possível]] entender perfeitamente todos os seus aspectos. E [[lexico:p:provavel:start|provável]] que a [[lexico:p:psicanalise:start|psicanálise]] contemporânea, que resgatou o papel do fantasma nos processos psíquicos e parece [[lexico:t:ter:start|ter]] até a pretensão de se considerar, cada vez mais explicitamente, como teoria [[lexico:g:geral:start|geral]] do fantasma, encontraria um ponto de [[lexico:r:referencia:start|referência]] [[lexico:u:util:start|útil]] em uma doutrina que, com antecedência de muitos séculos, havia concebido o [[lexico:e:eros:start|Eros]] como [[lexico:p:processo:start|processo]] essencialmente fantasmático e havia atribuído [[lexico:l:lugar:start|lugar]] importante ao fantasma na [[lexico:v:vida:start|vida]] do [[lexico:e:espirito:start|espírito]]. A [[lexico:f:fantasmologia:start|fantasmologia]] medieval surgia de uma convergência da teoria da [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]], de [[lexico:o:origem:start|origem]] aristotélica, com a doutrina platônica do [[lexico:p:pneuma:start|pneuma]] como veículo da [[lexico:a:alma:start|alma]], a teoria mágica da fascinação e aquela médica, das influências entre [[lexico:e:espirito-e-corpo:start|espírito e corpo]]. Segundo [[lexico:e:esse:start|esse]] multiforme conjunto doutrinai, que se encontra já [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] de diversas maneiras na [[lexico:t:teologia:start|teologia]] pseudo-aristotélica, no Uber de spiritu et [[lexico:a:anima:start|anima]], de Alquero, e no De insomniis, de Sinésio, a [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]] (φανταστικόν πνεύμα — [[lexico:s:spiritus:start|spiritus]] phantasticus) é concebida como uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:c:corpo:start|corpo]] sutil da alma que, situado na ponta extrema da [[lexico:a:alma-sensitiva:start|alma sensitiva]], recebe as imagens dos objetos, [[lexico:f:forma:start|forma]] os fantasmas dos sonhos e, em determinadas circunstâncias, pode separar-se do corpo para estabelecer contatos e visões sobrenaturais; [[lexico:a:alem:start|além]] disso, ela é a sede das influências astrais, o veículo dos influxos mágicos e, como [[lexico:q:quid:start|quid]] medium entre corpóreo e incorporeo, permite dar conta de uma [[lexico:s:serie:start|série]] de fenômenos que sem isso seriam inexplicáveis, como a [[lexico:a:acao:start|ação]] dos desejos maternos sobre a “[[lexico:m:materia:start|matéria]] mole” do feto, a aparição dos demônios e o [[lexico:e:efeito:start|efeito]] dos fantasmas de acasalamento sobre o membro genital. A mesma teoria permitia também que se explicasse a [[lexico:g:genese:start|gênese]] do [[lexico:a:amor:start|amor]]; e não é possível, especialmente, [[lexico:c:compreender:start|compreender]] o cerimonial amoroso que a lírica trovadoresca e os poetas do dolce stil novo deixaram em herança para a [[lexico:p:poesia:start|poesia]] ocidental [[lexico:m:moderna:start|moderna]], se não se considerar o [[lexico:f:fato:start|fato]] de que ele se apresenta, desde a origem, como um processo fantasmático. Não é um corpo [[lexico:e:externo:start|externo]], mas uma imagem interior, ou melhor, o fantasma impresso, através do olhar, nos [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]] fantásticos, que é a origem e o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] do enamoramento; mas só a elaboração atenta e a descomedida [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] desse fantasmático [[lexico:s:simulacro:start|simulacro]] mental eram consideradas capazes de gerar uma autêntica [[lexico:p:paixao:start|paixão]] amorosa. Andrea Capellano, cujo De amore é considerado a teorização [[lexico:e:exemplar:start|exemplar]] do amor cortês, define o amor como “immoderata [[lexico:c:cogitatio:start|cogitatio]]” do fantasma interior, acrescentando que “ex sola cogitatione... [[lexico:p:passio:start|passio]] illa procedit” [“aquela paixão provém exclusivamente da fantasia”]. Desta maneira, dada a fundamental pertença do humor negro ao processo erótico, não causará surpresa que a síndrome melancólica seja desde a origem tradicionalmente vinculada à prática fantasmática. As “imaginationes malae” [“imaginações más”] aparecem por algum [[lexico:t:tempo:start|tempo]] em tanta [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] na [[lexico:l:literatura:start|literatura]] médica entre os “signa melancoliae” [“sinais da melancolia”], que se pode afirmar que a [[lexico:d:doenca:start|doença]] atrabiliária se configura essencialmente, segundo a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] do médico paduano Girolamo Mercuriale, como um “vitium corruptae imaginationis” [“vício da imaginação corrompida”]. [Cf. G. TANFANI. “II conceito di melancolia nel ‘500’” (Rivista di Storia delle Science Mediche e Naturali, Florença, jul./dez. 1948).] Lullo, por sua vez, menciona a [[lexico:a:afinidade:start|afinidade]] entre a [[lexico:m:melancolia:start|melancolia]] e a faculdade imaginativa, sublinhando que os saturninos “a longo accipiunt per ymaginacionem, quae cum melancolia maiorem habet concordiam quam cum alia compleccione” [“de longe percebem pela imaginação, a qual concorda mais com a melancolia do que com qualquer outro modo de compreensão”]; e em [[lexico:a:alberto-magno:start|Alberto Magno]] encontra-se [[lexico:e:escrito:start|escrito]] que os melancólicos “multa phantasmata inveniunt” [“descobrem muitos fantasmas”], porque o vapor seco retém mais firmemente as imagens. Mas é, mais uma vez, em Ficino e no [[lexico:n:neoplatonismo:start|neoplatonismo]] florentino que a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] da bílis negra de reter e fixar os fantasmas é afirmada no interior de uma teoria médico-mágico-filosófica, que identifica explicitamente a contemplação amorosa do fantasma com a melancolia, cuja [[lexico:p:participacao:start|participação]] no processo erótico encontra assim a própria [[lexico:r:razao:start|razão]] de [[lexico:s:ser:start|ser]] em uma excepcional [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] fantasmática. Se na Teologia platônica se pode ler que os melancólicos “por [[lexico:c:causa:start|causa]] do humor térreo, fixam com os seus desejos a fantasia de forma mais estável e mais eficaz”, na passagem do De amore de Ficino, citada anteriormente, é a obsessiva e desfibrante [[lexico:p:presenca:start|presença]] dos espíritos vitais à volta do fantasma impresso nos espíritos fantásticos o que caracteriza, conjuntamente, o processo erótico e o desencadeamento da síndrome atrabiliária. Nessa [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]], a melancolia surge essencialmente como processo erótico envolvido em um comércio ambíguo com os fantasmas; e tanto a funesta [[lexico:p:propensao:start|propensão]] dos melancólicos à fascinação negromântica, quanto a sua inclinação para a [[lexico:i:iluminacao:start|iluminação]] estática devem-se à dúplice [[lexico:p:polaridade:start|polaridade]], demônico-mágica e angélico-contemplativa, da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] do fantasma. [AgambenE:49-52] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}