===== FALA ===== A [[lexico:p:palavra|palavra]] falada nunca se encontra [[lexico:p:por-si|por si]]. Ela é sempre uma resposta, uma contrapalavra no [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:e:exato|exato]] do [[lexico:t:termo|termo]]; ela é réplica [Cf. o vocábulo antworten (responder) no Dicionário Grimm (Grimm, Dicionário alemão, primeiro volume, Leipzig, colunas 508-510)], mesmo quando é [[lexico:v:visada|visada]] com concordância. A [[lexico:p:pergunta|pergunta]] também sempre se mostra como uma resposta quando está ligada àquilo que foi [[lexico:d:dito|dito]] e ela é passível de [[lexico:s:ser|ser]] reconhecida como resposta, quando se mostra como uma nova pergunta ou uma outra pergunta. Todavia, enquanto contrapalavra, a resposta [[lexico:n:nao|não]] permanece contraposta. Ela é direcionada para o [[lexico:o:outro|outro]] e é, quando tem [[lexico:s:sucesso|sucesso]], acolhida por [[lexico:e:esse|esse]] outro. Ela se comunica com ele. Toda palavra falada é [[lexico:c:comunicacao|comunicação]] e pertence, assim, a um [[lexico:d:dialogo|diálogo]]; isso se não nos dispusermos a [[lexico:c:compreender|compreender]] por um tal diálogo a troca entre poucos e se retirarmos da palavra “diálogo” o sentido edificante que por vezes a envolveu. “[[lexico:e:estar|estar]] em diálogo” nem sempre é algo [[lexico:b:bom|Bom]], nem precisa ser tampouco algo agradável e amistoso. O [[lexico:d:discurso|discurso]] [[lexico:p:politico|político]] também está vinculado dialogicamente; ele também se mostra como polêmica, como provocação ou como réplica. [FigalO:79] Mas por que se fala ainda em [[lexico:m:mundo|mundo]] e [[lexico:u:universo|universo]]? Por que se fala em [[lexico:d:deus|Deus]] ou em [[lexico:d:deuses|deuses]], por que se fala de [[lexico:a:alma|alma]] e [[lexico:e:espirito|Espírito]], por que se fala em outras tantas [[lexico:c:coisas|coisas]] do mesmo jaez, embora uns só nelas falem por ouvir [[lexico:f:falar|falar]], e outros falem com certo [[lexico:s:sentimento|sentimento]] de estranheza, com certo pejo de [[lexico:f:falta|falta]] cometida contra a [[lexico:c:ciencia|ciência]] de [[lexico:o:objetividade|objetividade]]? Podem dizer-nos: «São modos de falar!» Mas ainda havia que retorquir: «Sim; mas de falar do quê?» Se não é disso que falam, por que o falam e de que falam? Porquê prender no conservatório dos léxicos [[lexico:p:palavras|palavras]] que perderam o sentido? Decerto porque ainda não se perderam do sentido que tiveram, e nós não nos desapegamos do passado, [[lexico:c:como-se|como se]] o passado tivesse efetivamente passado. E assim se mantêm, na [[lexico:c:condicao|condição]] de as traduzirmos, como se pertencessem a uma [[lexico:l:lingua|língua]] morta, uma língua que ninguém fala no propósito de dizer algo que valha a [[lexico:p:pena|pena]] ser dito. Escrevi, já não me lembro quando, que muitas palavras circulam entre os vivos que falam como se fossem «almas penadas». Sustento o que escrevi: há palavras que andam de boca em boca porque ninguém piedosamente as sepultou. Há de haver forte [[lexico:m:motivo|motivo]] para que o não fizessem. Não só porque [[lexico:b:bem|Bem]] caibam em verso de bom ou mau versejador, mas porque ainda podem, eventualmente, prestar [[lexico:v:veridico|verídico]] [[lexico:t:testemunho|testemunho]], se a tal forem chamadas, acerca do passado que se supõe passado, mas não passou, acerca do outrora que sempre surge no entreagoras, que pacientemente esperam a vez de manifestar a sua [[lexico:p:presenca|presença]] de que se fez [[lexico:a:ausencia|ausência]], sem refletir que o reparar-se na ausência é [[lexico:m:modo|modo]] de se afirmar a presença. Em ab-s-entia e prae-s-entia está a entitas do que é, umas vezes envolvida e encoberta, outras, desenvolvida e desencoberta. [EudoroMito:67]