===== FACTÍCIA ===== A [[lexico:p:palavra|palavra]] grega ἄγαλμα, que designava as estátuas, expressa muito [[lexico:b:bem|Bem]] [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:e:estatuto|estatuto]] original dos facticia humanos. Segundo Kerényi ([[lexico:a:agalma|agalma]], [[lexico:e:eikon|eikon]], [[lexico:e:eidolon|eidolon]], em: Archivio di [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], 1962), “este [[lexico:t:termo|termo]] [[lexico:n:nao|não]] serve para indicar, entre os gregos, algo sólido e determinado, mas... a [[lexico:f:fonte|fonte]] perpétua de um [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]], de que se supõe que a divindade faça [[lexico:p:parte|parte]] da mesma [[lexico:f:forma|forma]] como o [[lexico:h:homem|homem]]”. O [[lexico:s:significado|significado]] etimológico de ἄγαλμα (de ἀγάλλομαι) é “[[lexico:a:alegria|alegria]], exultação”. Wilamowitz cita o caso de estátuas arcaicas que trazem a inscrição Χάρης ειμί, ἄγαλμα τοῦ Ἀπόλλωνος, que se deve traduzir assim: “[[lexico:e:eu|eu]] sou Chares, [[lexico:e:estatua|estátua]] e alegria de Apolo”. O genitivo é aqui, exatamente na mesma [[lexico:m:medida|medida]], [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] e [[lexico:o:objetivo|objetivo]]. Diante das estátuas, é totalmente [[lexico:i:impossivel|impossível]] decidir se nos encontramos frente a “objetos” ou a “sujeitos”, porque elas nos olham a partir de um [[lexico:l:lugar|lugar]] que precede e supera a nossa [[lexico:d:distincao|distinção]] entre [[lexico:s:sujeito-e-objeto|sujeito e objeto]]. Isso é [[lexico:v:verdade|verdade]] em medida ainda maior se, ao invés de uma estátua grega, tomarmos qualquer [[lexico:o:objeto|objeto]] pertencente a alguma [[lexico:c:cultura|cultura]] primitiva, que está para aquém não só da nossa distinção entre subjetivo e objetivo, mas também daquela entre [[lexico:h:humano|humano]] e não humano; no [[lexico:l:limite|limite]], porém, isso vale para toda [[lexico:c:criacao|criação]] humana, seja estátua ou [[lexico:p:poesia|poesia]]. Só nessa [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] é que a [[lexico:a:antropologia|antropologia]] futura poderá chegar a definir um estatuto do objeto cultural e localizar no seu [[lexico:t:topos|topos]] [[lexico:p:proprio|próprio]] os produtos do “fazer” do homem. [AgambenE:99-100]