===== EXPRESSÃO FILOSÓFICA ===== Em suas [[lexico:o:origens|origens]] a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] se exprimiu por [[lexico:m:meio|meio]] da [[lexico:p:poesia|poesia]] e, hoje, utiliza-se do romance e do teatro. Entre um [[lexico:e:extremo|extremo]] e [[lexico:o:outro|outro]] no [[lexico:t:tempo|tempo]] se insere [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:t:tipo|tipo]] de veículo comunicativo: fragmentos, cartas, tratados sistemáticos etc. Independentemente do veículo, porém, a [[lexico:e:expressao-filosofica|expressão filosófica]] sempre foi tida por obstrusa, "difícil", confusa, [[lexico:c:consequencia|consequência]] de querer exprimir o inexprimível. É o caso do famoso parágrafo do prefácio de [[lexico:h:hegel|Hegel]] à [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] do Espirito: "A verdadeira [[lexico:f:figura|figura]] dentro da qual existe a [[lexico:v:verdade|verdade]] [[lexico:n:nao|não]] pode [[lexico:s:ser|ser]] senão o [[lexico:s:sistema|sistema]] científico desta verdade". Não obstante a [[lexico:a:aparente|aparente]] rudeza expressiva, [[lexico:e:esse|esse]] parágrafo foi tido como "particularmente fascinante", pois coloca o [[lexico:p:problema|problema]] do [[lexico:p:pensar|pensar]] filosófico vinculado intimamente à [[lexico:f:forma|forma]] em que se expressa. Esta vinculação do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] com a [[lexico:e:expressao|expressão]] e da filosofia com a forma da filosofia é [[lexico:q:questao|questão]] não só filosófica como, em certos instantes, a própria questão da filosofia. A propósito da dificuldade ou facilidade do exercício filosófico, ou da profundidade e superficialidade de uma filosofia, pondera José [[lexico:f:ferrater|Ferrater]] Mora: "Este problema apresenta, de início, um agudo perfil: trata-se de decidir se a filosofia é uma [[lexico:a:atividade|atividade]] que incumbe exclusivamente ao [[lexico:f:filosofo|filósofo]] profissional ou se, pelo contrário, deve ser o patrimônio de todos os homens, pelo menos enquanto vivem dentro de uma [[lexico:t:tradicao|tradição]] que se iniciou em boa [[lexico:p:parte|parte]] com o descobrimento e, poder-se-ia dizer, com a [[lexico:i:invencao|invenção]] da filosofia. No primeiro caso, parece [[lexico:n:natural|natural]] que o filosofar seja um árduo exercício, eriçado de termos técnicos, de problemas pavorosos e insondáveis, de patéticas questões ante as quais toda filosofia tem que ser, em última [[lexico:i:instancia|instância]], uma mistagogia. No segundo, ao contrário, o filosofar viria a ser um comum e pífio pensar sobre ‘problemas importantes’, sobre ‘questões vitais’. Se no primeiro caso a filosofia se reduziria a uma ‘filosofia [[lexico:e:escolastica|escolástica]]’, no segundo equivaleria a uma ‘[[lexico:f:filosofia-da-vida|filosofia da vida]]’. A filosofia oscilaria perpetuamente, sem acabar nunca de decidir-se, entre o Schulbegriff e o Weltbegriff de que [[lexico:k:kant|Kant]], ao falar-nos, queria justamente proteger-nos. E assim ocorre, com [[lexico:e:efeito|efeito]], em grande parte: pela índole mesma de sua [[lexico:o:origem|origem]], pela última contextura dessa [[lexico:v:vida|vida]] humana que se move, mesmo sem [[lexico:s:saber|saber]], no [[lexico:a:ambiente|ambiente]] da filosofia, esta tem tanto de [[lexico:n:norma|norma]] para a [[lexico:a:acao|ação]] como de rigorosa [[lexico:c:ciencia|ciência]]. A [[lexico:r:riqueza|riqueza]] de sua tonalidade, a [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] de seus interesses é primariamente a consequência deste oscilar constante entre limites que coincidem de [[lexico:m:modo|modo]] cabal com os limites da vida humana. Mas isto não nos diz todavia se a filosofia tem que ser ‘superficial’ ou ‘profunda’, levemente graciosa ou aterradoramente [[lexico:t:tecnica|técnica]]; em outros termos, ‘fácil’ ou ‘difícil’. E a questão não é precisamente inócua, não só porque uma resposta a tal [[lexico:p:pergunta|pergunta]] esclarece por sua própria [[lexico:r:raiz|raiz]] a indole da filosofia, como porque só sabendo exatamente a quê ater-nos neste [[lexico:p:ponto|ponto]] podemos [[lexico:c:compreender|compreender]] um das estruturas essenciais da vida que faz filosofia e, portanto, de nossa própria vida, a de todos os homens desse [[lexico:v:vago|vago]] e [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]], mas ao mesmo tempo concretissimo Ocidente a [[lexico:q:quem|quem]] lhe coube a [[lexico:g:gloria|glória]] de ‘inventar’ a filosofia". Ora, a filosofia é, como a vida humana, e pelas mesmas razões que esta, um saber que não diz tudo o que sabe e uma norma que não enuncia tudo o que postula. Daí o saber filosófico ser sempre "[[lexico:p:profundo|profundo]]", mesmo naquelas ocasiões em que parece mais claro e transparente. Precisamente naqueles instantes em que — como ocorre com o [[lexico:d:discurso|discurso]] do [[lexico:m:metodo|método]], de [[lexico:d:descartes|Descartes]] — nos parece que o filosofar adquiriu um [[lexico:c:carater|caráter]] de absoluta [[lexico:t:transparencia|transparência]], é quando mais devemos desconfiar do que em [[lexico:a:aparencia|aparência]] nos diz. Desconfiança que — convém destacar — não se deve tanto a uma [[lexico:v:vontade|vontade]] de ocultação do filósofo como ao caráter "[[lexico:o:oculto|oculto]]" da própria filosofia, a qual se encobre muitas vezes contra si mesma e apesar de si mesma. Este especial caráter do saber e da norma filosóficos faz que a filosofia, mesmo sendo hirsutamente difícil, possa ser compreendida por qualquer dos homens que vivem em seu âmbito; como, ao inverso, possibilita que, por mais claro que seja seu [[lexico:e:enunciado|enunciado]], se oculte àqueles que, com maiores [[lexico:a:apetrechos|apetrechos]] técnicos, se aproximem dela. Todavia, é certo que a filosofia não passa de um emaranhado de [[lexico:p:palavras|palavras]] sem [[lexico:s:sentido|sentido]]? É certo que o filósofo não passa de um [[lexico:h:homem|homem]] complicado de complicada expressão? Quem responde é um autor de um dicionário de filosofia: José Ferrater Mora: "Se comparamos a habitual expressão filosófica com a literária mais à mão, percebemos, está claro, que a última possui infinitamente maior desembaraço. Pode haver sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] exceções, mas a norma [[lexico:g:geral|geral]] é a enunciada. Tanto é assim que naqueles casos de felicíssima agilidade expressiva por parte do filósofo nos inclinamos a crer que é, de certo modo, infiel à pura filosofia. A conclusão parece, então, óbvia: o literato é, em geral, um homem que sabe expressar-se, que inclusive converte tal [[lexico:f:faculdade|faculdade]] em seu principal ofício; ao contrário, o filósofo é o homem de expressão desalinhada, aquele que possui quiçá ‘[[lexico:i:ideias|ideias]]’, mas que, por incapacidade ou por [[lexico:o:orgulho|orgulho]], não se ocupa de achar-lhes a expressão agradável ou adequada. Ora, [[lexico:n:nada|nada]] tão [[lexico:f:falso|falso]] como isto. Em rigor, ocorre exatamente o contrário: que o filósofo, e não apenas aqueles filósofos que são reconhecidos, ‘também’ como grandes escritores - um [[lexico:p:platao|Platão]], um [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]], um [[lexico:b:bergson|Bergson]], um [[lexico:o:ortega-y-gasset|Ortega y Gasset]] -, senão mesmo aqueles que gozam da oposta fama — talvez um [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], sem dúvida um Kant —, que todo filósofo, digo, como tal filósofo é de [[lexico:f:fato|fato]] um grande e incomparável escritor. Diria mais: tem que sê-lo, ainda que não queira, pois o que se vê foiçado a expressar é sempre menos suscetível de adequada ou de bela expressão que qualquer das realidades — incluindo as paixões humanas — que se propõe descrever o literato. O que ocorre sempre é algo [[lexico:b:bem|Bem]] compreensível: não somente a [[lexico:r:realidade|realidade]] que a filosofia tem que expressar é uma realidade emi- , nen temente arisca, senão que a primeira vez que o filósofo topa com ela fica deslumbrado. Então se vê forçado a escolher, do repertório de termos que a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] pôs a sua [[lexico:d:disposicao|disposição]], aqueles que mais se aproximam ao que está intelectualmente contemplando. Daí o emprego quase abusivo das mesmas palavras para designar objetos distintos. Quando Platão, [[lexico:l:locke|Locke]], Espinosa ou [[lexico:b:berkeley|Berkeley]] — entre os quase incontáveis aos quais tal [[lexico:c:coisa|coisa]] ocorreu — falam de ‘[[lexico:i:ideia|ideia]]’, se referem — não obstante certa última raiz comum que se pudesse encontrar — a realidades bem diferentes. Se empregam todos eles o [[lexico:t:termo|termo]] ‘ideia’ não é por incapacidade de achar outros vocábulos em que melhor se reflete a realidade descrita, senão porque, efetivamente, apenas o vocábulo ‘ideia’ expressa aproximadamente o que querem significar ao utilizá-lo. Mas então ocorre o seguinte: de tal modo percebem eles mesmos sua insuficiência, que não têm outro remédio senão acumular sobre a palavra-chave as mais variadas determinações. Assim, o que poderia parecer a [[lexico:p:principio|princípio]] uma incapacidade expressiva é, afinal, a mais clara [[lexico:c:consciencia|consciência]] de que nenhum vocábulo cobre exata e cabalmente nenhuma realidade". Portanto, o que ocorre ao filósofo em [[lexico:r:relacao|relação]] com a forma de expressão de sua filosofia é [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] terminante: não só pode chegar a ser um excelente escritor, senão que, enquanto seja [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] filósofo e não homem que cavalga simplesmente no dorso da filosofia, tem que ser um escritor incomparável, de tal [[lexico:s:sorte|sorte]] que na mesma proporção em que sua expressão seja inadequada ou vazia será também inadequada e vazia sua filosofia.