===== EXPOSIÇÃO TRANSCENDENTAL DO ESPAÇO ===== Que fazemos com a [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] pura? [[lexico:a:agora:start|agora]] vem a segunda [[lexico:e:exposicao:start|exposição]], que [[lexico:k:kant:start|Kant]] chama "exposição [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]". Aqui também devo fazer um parêntese, porque nos chocamos com uma [[lexico:p:palavra:start|palavra]] abstrusa, com uma palavra rara, a palavra "transcendental". Qual é o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] da palavra "transcendental"? Vamos deixar de lado o sentido que tenha tido antes de Kant, porque nos levaria muito longe; seria muito [[lexico:i:interessante:start|interessante]], mas nos levaria muito longe procurar o sentido desta palavra na [[lexico:h:historia:start|História]]. Vamos deter-nos no sentido que tem a partir de Kant, e [[lexico:e:esse:start|esse]] sentido nos será facilmente indicado se colocarmos em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a palavra "transcendental" com a palavra "[[lexico:t:transcendente:start|transcendente]]", da qual é derivada. "Transcendente" é a palavra primitiva da qual se deriva "transcendental". E que significa transcendente? Transcendente significa aquilo que existe em si e [[lexico:p:por-si:start|por si]], independentemente de mim. Pois Kant para designar esta [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] ou [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] do [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] que [[lexico:n:nao:start|não]] é em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], mas que é o [[lexico:t:termo:start|termo]] ao qual vai encaminhado o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], usa a palavra "transcendental", ou seja, a palavra "transcendente" modificada. Transcendental é, pois, aquilo que antes no [[lexico:r:realismo:start|realismo]] aristotélico tínhamos [[lexico:c:chamado:start|chamado]] transcendente, porém despojado desse [[lexico:c:carater:start|caráter]] de intuído metafisicamente, existente em si e por si, e convertido no [[lexico:o:objeto:start|objeto]] do conhecimento, dentro da [[lexico:c:correlacao:start|correlação]] do conhecimento. É isto que Kant chama transcendental. Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]]; para que algo seja objeto do conhecimento é preciso que se cumpram certas condições. Essas condições têm que se produzir no [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]], isto é, o sujeito tem que verificar certos atos especiais que confiram ao objeto a qualidade ou propriedade de [[lexico:s:ser:start|ser]] objeto de conhecimento. Os "subpostos", as condições que, partindo do sujeito, hão de realizar-se para que o objeto seja, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], objeto do conhecimento na correlação, são as que Kant chama condições [[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]] da [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]]. Neste sentido, em que vai consistir agora a [[lexico:e:exposicao-transcendental-do-espaco:start|exposição transcendental do espaço]]? Pois vai consistir em que Kant vai esforçar-se para demonstrar que esse [[lexico:e:espaco:start|espaço]] que o sujeito põe por própria [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] das formas de [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]], esse espaço [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], [[lexico:i:independente:start|independente]] da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] — posto, "subposto", pelo sujeito para que sirva de base h [[lexico:c:coisa:start|coisa]] — é a [[lexico:c:condicao:start|condição]] da cognoscibilidade das [[lexico:c:coisas:start|coisas]], é a condição para que essas coisas sejam objetos de conhecimento; se não fosse por isso, estas coisas não seriam objetos de conhecimento, seriam coisas em si das quais não poderíamos [[lexico:f:falar:start|falar]], porque uma coisa em si é um [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]] radical, como dizia [[lexico:b:berkeley:start|Berkeley]]; é uma coisa que não é conhecida nem pode ser conhecida, nem posso falar dela em [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. Assim é que agora Kant vai-se esforçar para demonstrar na exposição transcendental que a [[lexico:p:posicao:start|posição]] pelo sujeito, a "subposição" (a palavra exata seria a palavra grega hypóthesis, mas como tem [[lexico:o:outro:start|outro]] sentido na [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] não a emprego, embora no seu sentido legítimo seja [[lexico:t:tese:start|tese]] debaixo: [[lexico:p:por:start|pôr]] algo debaixo para que não caia outra coisa) do espaço é condição da cognoscibilidade das coisas. O conjunto de nossas sensações e percepções careceria de objetividade, não seria para nós objeto permanente e imóvel, proposto a nosso conhecimento, se não puséssemos, debaixo de todas essas percepções e sensações algo que lhes desse objetividade, que as tornasse objeto do conhecimento. Essas noções que nós pomos debaixo de nossas sensações e percepções para que se tornem objeto do conhecimento são várias; mas a primeira de todas é o espaço. Pois a exposição transcendental vai a isso. Consideremos a [[lexico:g:geometria:start|geometria]]. A geometria não somente supõe o espaço no sentido de "subpor" (pôr debaixo dela), não somente o supõe como [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida, mas antes constantemente está pondo o espaço. A [[lexico:p:prova:start|prova]] está em que os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] da geometria, ou sejam, as figuras, encontramo-las constantemente numa intuição pura a priori. Quando chegamos a definir uma [[lexico:f:figura:start|figura]], a [[lexico:p:pensar:start|pensar]] uma figura, definimo-la pedindo ao leitor ou ao estudante de geometria que na sua [[lexico:m:mente:start|mente]] com uma intuição puramente [[lexico:i:ideal:start|ideal]], não [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], construa a figura. Por conseguinte, o espaço [[lexico:p:puro:start|puro]] não somente é o [[lexico:s:suposto:start|suposto]] primeiro da geometria mas o suposto constante da geometria, o conteúdo constante da geometria. Por isso diz Kant que o espaço puro está [[lexico:l:latente:start|latente]] em toda a geometria, porque os conceitos geométricos não se definem, senão que se constroem. Mas, se nós depois passamos da geometria pura à geometria aplicada, deparamos com este [[lexico:f:fato:start|fato]] [[lexico:p:particular:start|particular]]: que esta geometria pura que estudamos com a mente pura e sem introduzir para [[lexico:n:nada:start|nada]] a experiência, quando a aplicamos às coisas da experiência encaixa divinamente nelas; vemos que todas as coisas da experiência se adaptam à geometria pura, ou seja, que há uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] perfeita entre aquilo que estudamos fechando os olhos à [[lexico:r:realidade:start|realidade]] sensível e aquilo que encontramos na realidade sensível. Retenhamos muito bem esta [[lexico:f:frase:start|frase]], que é [[lexico:c:capital:start|capital]] para este ponto e para os que temos que tratar em várias outras lições; chegamos a esta conclusão: que as condições da [[lexico:p:possibilidade-do-conhecimento:start|possibilidade do conhecimento]] matemático são ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] condição da [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] dos objetos do conhecimento matemático. Toda [[lexico:d:deducao-transcendental:start|dedução transcendental]] consistirá nisso: em que as condições para que um conhecimento seja [[lexico:p:possivel:start|possível]] imprimem ao mesmo tempo seu caráter aos objetos desse conhecimento, isto é, que o [[lexico:a:ato:start|ato]] de conhecer tem duas faces. Por uma face consiste principal e fundamentalmente em pôr os objetos que logo vão-se conhecer; e, claro, ao pôr os objetos se imprimem neles os [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] que depois, lenta e discursivamente, vai encontrando neles o conhecimento. Pomos, pois, nos objetos reais os caracteres do espaço e do tempo (que não são objetos, mas algo que nós projetamos nos objetos), e como os projetamos, injetamos-lhes a priori esse caráter de espaciais; depois encontramos constantemente na experiência esse caráter, [[lexico:d:dado:start|dado]] que previamente lho injetamos. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}