===== EXPOSIÇÃO METAFÍSICA DO TEMPO ===== Como são possíveis [[lexico:j:juizos-sinteticos-a-priori:start|juízos sintéticos a priori]] na [[lexico:a:aritmetica:start|aritmética]]? ou [[lexico:d:dito:start|dito]] de [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:m:modo:start|modo]]: como é [[lexico:p:possivel:start|possível]] a aritmética pura? ou melhor; como é possível que nós, com os ouvidos tapados e os olhos fechados, ou seja, [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], fazendo caso omisso por completo da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], construamos toda uma [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] que se chama aritmética, e que logo, [[lexico:n:nao:start|não]] obstante, as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] fora de nós, os fatos reais na [[lexico:n:natureza:start|natureza]], casem e concordem perfeitamente com essas leis que nós tiramos da cabeça? Como é isto possível? Também aqui [[lexico:k:kant:start|Kant]] procede da mesma maneira como procedeu no [[lexico:e:estudo:start|estudo]] da [[lexico:g:geometria:start|geometria]] (v. [[lexico:e:exposicao-transcendental-do-espaco:start|exposição transcendental do espaço]]). Faz primeiro uma [[lexico:e:exposicao:start|exposição]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] do [[lexico:t:tempo:start|tempo]]. A [[lexico:e:exposicao-metafisica-do-tempo:start|exposição metafísica do tempo]] encaminha-se a mostrar: primeiro, que o tempo é a priori, ou seja, [[lexico:i:independente:start|independente]] da experiência: segundo, que o tempo é uma [[lexico:i:intuicao:start|intuição]], ou seja, não uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] entre outras coisas mas uma [[lexico:f:forma:start|forma]] pura de todas as coisas possíveis. A primeira [[lexico:p:parte:start|parte]], ou seja, que o tempo é a priori, demonstra-a Kant seguindo passo a passo a mesma [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] que empregou para o caso do [[lexico:e:espaco:start|espaço]]. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], que o tempo é a priori, ou seja independente da experiência, adverte-se com somente refletir que qualquer [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] é uma [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] e que toda vivência é um acontecer, algo que acontece a nós, algo que acontece ao [[lexico:e:eu:start|eu]]. Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]]; algo que acontece ao eu implica já no tempo, porque [[lexico:t:todo:start|todo]] acontecer é um sobrevir, um advir, um chegar a [[lexico:s:ser:start|ser]] o que não era ainda: isto é, que já de antemão está [[lexico:s:suposto:start|suposto]] o álveo, o trilho [[lexico:g:geral:start|geral]] em que acontece tudo aquilo que acontece, ou seja, o tempo. Acontecer significa que no decurso do tempo algo vem a ser. Por conseguinte se toda percepção sensível é uma vivência e toda vivência é algo que sobrevém em nós, este algo que sobrevém em nós sobrevém [[lexico:a:agora:start|agora]], ou seja, depois de algo que sobreveio antes e antes de algo que vai sobrevir depois; isto é, já implica no tempo. Comprova-se isto com o ensaio mental que nos convida a realizar Kant, e é que podemos [[lexico:p:pensar:start|pensar]] muito bem, conceber muito bem, o tempo sem acontecimentos, porém não podemos de maneira alguma conceber um [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] sem o tempo (do mesmo modo que ao [[lexico:f:falar:start|falar]] do espaço dizíamos que podemos conceber o espaço sem coisas nele, porém não podemos conceber coisa alguma que não esteja no espaço). Depois de mostrado que o tempo é a priori ou independente da experiência, resta por mostrar que o tempo é também intuição. Que quer isto dizer? Quer dizer que não é [[lexico:c:conceito:start|conceito]]. Já disse ao falar do espaço^ que conceito é uma [[lexico:u:unidade:start|unidade]] mental que compreende uma [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] de coisas. O conceito de copo compreende este e outros muitíssimos iguais ou parecidos que existem no [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. Conceito é, pois, uma unidade do [[lexico:m:multiplo:start|múltiplo]]. Mas o tempo não é conceito nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]], nem de longe, porque não há muitos tempos, mas um só tempo. Se nós falamos de múltiplos tempos não é no sentido de que existam múltiplos tempos, mas no sentido de pedaços, partes de um e mesmo e [[lexico:u:unico:start|único]] tempo. O tempo, pois, é único. A unidade e a unidade do tempo qualificam-no como algo do qual não podemos [[lexico:t:ter:start|ter]] conceito, mas somente intuição; nós podemos intuir o tempo, [[lexico:a:apreender:start|apreender]] imediatamente o tempo, mas não pensá-lo mediante um conceito, [[lexico:c:como-se:start|como se]] o tempo fosse uma coisa entre muitas coisas. O tempo não é, pois, coisa que se possa pensar mediante [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], mas antes é uma pura intuição. Com isso termina o que Kant chama "exposição [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] do tempo". Vem depois a exposição transcendental intentando mostrar que o tempo, a intuitividade e o [[lexico:a:apriorismo:start|apriorismo]] do tempo, são a [[lexico:c:condicao:start|condição]] da [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] dos [[lexico:j:juizos-sinteticos:start|juízos sintéticos]] na aritmética. Os juízos na aritmética são sintéticos e a priori, isto é, são juízos que nós fazemos mediante intuição. Eu necessito intuir o tempo para somar, subtrair, multiplicar ou dividir, e isso o fazemos, ademais, a priori. A condição indispensável para isto é que tenhamos suposto como base de nossas operações isso que chamamos a [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] dos momentos no tempo. Assim, pois, somente "subpondo" a intuição pura do tempo a priori é possível construirmos a aritmética sem o auxílio de nenhum recurso [[lexico:e:experimental:start|experimental]]. E é precisamente porque o tempo é uma forma de nossa [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]], uma forma de nossas vivências, porque o tempo é o álveo prévio de nossas vivências, que a aritmética, construída sobre essa forma de toda vivência, tem depois uma aplicação perfeita na [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. Porque, claro está, a realidade terá que se nos dar a conhecer mediante percepção sensível; porém a percepção sensível é uma vivência. Esta vivência se ordenará na sucessão das vivências, na [[lexico:e:enumeracao:start|enumeração]], no 1, 2, 3 sucessivo dos números, e, portanto, o tempo que eu tiver estudado a priori na aritmética haverá de ter sempre aplicação perfeita, encaixará divinamente na realidade enquanto vivência. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}