===== EXISTENCIALISMO ===== A doutrina filosófica que tem por [[lexico:o:objeto:start|objeto]] a [[lexico:e:existencia:start|existência]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] tomada em sua [[lexico:r:realidade:start|realidade]] concreta, e ao nível do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] engajado na [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]]. — [[lexico:e:esse:start|esse]] "ângulo de focalização" é assim diametralmente oposto ao da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] cartesiana e, em [[lexico:g:geral:start|geral]], ao de todos os sistemas racionalistas: é uma [[lexico:r:reacao:start|reação]] da filosofia do homem contra as filosofias da [[lexico:r:razao:start|razão]] e das [[lexico:i:ideias:start|ideias]]. Longe de constituir-se da saída, como "[[lexico:s:ser:start|ser]]" e dotado de razão, o homem, de início, é somente [[lexico:n:nada:start|nada]], e o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:f:fato:start|fato]] de [[lexico:e:existir:start|existir]] é "[[lexico:a:absurdo:start|absurdo]]", isto é, despido de toda [[lexico:s:significacao:start|significação]]. Numa [[lexico:p:palavra:start|palavra]], o homem existe antes de ser (o que exprime a célebre [[lexico:f:formula:start|fórmula]] de [[lexico:s:sartre:start|Sartre]]: "A existência precede a [[lexico:e:essencia:start|essência]]".) É então o próprio homem que deve dar à sua [[lexico:v:vida:start|vida]] um [[lexico:s:sentido:start|sentido]] e tornar-se um ser [[lexico:r:racional:start|racional]]; o homem é apenas aquilo que faz de si próprio. Em outros termos: ser, é escolher-se através de um livre [[lexico:e:engajamento:start|engajamento]]. No mais, [[lexico:n:nao:start|não]] se colocaria a [[lexico:q:questao:start|questão]] de recusar-se essa [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]], pois é "liberdade absoluta": o homem está condenado a ser livre. Daí advindo a [[lexico:a:angustia:start|angústia]] [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] pela qual sente, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], o nada de onde sai e pressente a incerteza da [[lexico:e:escolha:start|escolha]] que o fará aceder ao ser. Historicamente, o [[lexico:t:termo:start|termo]] "existencialismo" foi criado por [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] em 1927, em O ser e o tempo, e retomado por [[lexico:j:jaspers:start|Jaspers]] em Filosofia [[lexico:e:existencialista:start|existencialista]] (1938). Na França, os principais representantes dessa doutrina são [[lexico:g:gabriel-marcel:start|Gabriel Marcel]], [[lexico:m:merleau-ponty:start|Merleau-Ponty]] e sobretudo J.-P. Sartre. Distingue-se comumente duas correntes na filosofia existencialista; o existencialismo cristão (Jaspers, Gabriel Marcel) e o existencialismo ateu (Sartre, [[lexico:c:camus:start|Camus]]). Na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], essa [[lexico:d:distincao:start|distinção]] é bastante superficial e não envolve todas as formas de existencialismo. É mais [[lexico:e:exato:start|exato]] distinguir a filosofia [[lexico:e:existencial:start|existencial]] (em fr. existentielle), que se dedica a [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a vida concreta do homem do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] e na [[lexico:h:historia:start|história]], e a descrever suas "atitudes fundamentais" — Jaspers, Merleau-Ponty —, e a filosofia existencial (em fr. existentiale), que se dedica a compreender o Ser do homem, da realidade [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] do [[lexico:d:dasein:start|Dasein]] ("ser aí") — Heidegger e Sartre em O ser e nada; a primeira é uma [[lexico:d:descricao:start|descrição]] empírica da existência, a segunda uma metafísica que busca seu [[lexico:s:significado:start|significado]] fundamental. (V. [[lexico:p:pascal:start|Pascal]], [[lexico:k:kierkegaard:start|Kierkegaard]], Heidegger, Sartre, Marcel [G.]; [[lexico:s:ser-e-o-nada:start|Ser e o Nada]] ; angústia, absurdo, essência, engajamento.) (in. Existentialism; fr. Existentialisme, al. Existentialismus; it. Esistenzialismó). Costuma-se indicar por esse termo, desde 1930 aproximadamente, um conjunto de filosofias ou de correntes filosóficas cuja marca comum não são os pressupostos e as conclusões (que são diferentes), mas o [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] de que se valem na [[lexico:a:analise:start|análise]] da existência. Essas correntes entendem a palavra existência no significado 3), vale dizer, como o [[lexico:m:modo:start|modo]] de ser próprio do homem enquanto e um modo de ser no mundo, em determinada [[lexico:s:situacao:start|situação]], analisável em termos de [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]]. A análise existencial é, portanto, a análise das situações mais comuns ou fundamentais em que o homem vem a encontrar-se. Nessas situações, obviamente, o homem nunca é e nunca encerra em si a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] infinita, o mundo, o ser ou a [[lexico:n:natureza:start|natureza]]. Portanto, para o existencialismo, o termo existência tem significado completamente diferente do de outros termos como [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], [[lexico:e:espirito:start|espírito]], [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], etc, que servem para interiorizar ou, [[lexico:c:como-se:start|como se]] diz, tornar "[[lexico:i:imanente:start|imanente]]" no homem a realidade ou o mundo em sua totalidade. Existir significa relacionar-se com o mundo, ou seja, com as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] e com os outros homens, e como se trata de [[lexico:r:relacoes:start|relações]] não-necessárias em suas várias modalidades, as situações em que elas se configuram só podem ser analisadas em termos de possibilidades . Esse [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de análise foi possibilitada pela [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] de [[lexico:h:husserl:start|Husserl]], que elaborou o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] . Segundo esse conceito, nas relações entre [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] cognoscente e objeto conhecido ou, em geral, entre [[lexico:s:sujeito-e-objeto:start|sujeito e objeto]] (não só no [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], mas também no [[lexico:d:desejo:start|desejo]], na volição, etc), o objeto não está dentro do sujeito mas permanece fora, e dá-se a ele "em [[lexico:c:carne:start|carne]] e osso" (Ideen, I, § 43). Esse conceito manteve-se rigoroso na filosofia de Husserl, mas exerceu grande [[lexico:i:influencia:start|influência]] no existencialismo, para o qual as relações entre o [[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]] (isto é, o [[lexico:e:ente:start|ente]] que existe, o homem) e o mundo sempre se configuraram como transcendência. Essa formulação do [[lexico:p:problema-filosofico:start|problema filosófico]] opõe o existencialismo a todas as formas, positivistas ou idealistas, do [[lexico:r:romantismo:start|Romantismo]] oitocentista. O Romantismo afirma que no homem age uma [[lexico:f:forca:start|força]] infinita ([[lexico:h:humanidade:start|humanidade]], Razão, [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], Espírito, etc.) de que ele é apenas [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]]. O existencialismo afirma que o homem é uma realidade finita. que existe e age por sua própria conta e [[lexico:r:risco:start|risco]]. O Romantismo afirma que o mundo em que o homem se encontra, como manifestação da .força infinita que age no homem, tem uma [[lexico:o:ordem:start|ordem]] que garante necessariamente o êxito final das [[lexico:a:acoes:start|ações]] humanas. O existencialismo afirma que o homem está "lançado no mundo", isto é abandonado ao [[lexico:d:determinismo:start|determinismo]] do mundo, que pode tornar vãs ou impossíveis, as suas iniciativas. O Romantismo afirma que a liberdade, como [[lexico:a:acao:start|ação]] do [[lexico:p:principio:start|princípio]] [[lexico:i:infinito:start|infinito]], é infinita, absoluta, criadora e capaz de produções novas e originais a cada [[lexico:m:momento:start|momento]]. O existencialismo afirma que a liberdade do homem é condicionada, finita e obstada por muitas limitações que a [[lexico:t:todo:start|todo]] momento podem torná-la estéril e fazê-la reincidir no que já foi ou já foi feito. O Romantismo afirma o [[lexico:p:progresso:start|progresso]] [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] e fatal da humanidade. O existencialismo desconhece ou ignora a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de progresso porque não pode entrever nenhuma [[lexico:g:garantia:start|garantia]] dele. O Romantismo tem sempre certa [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] espiritualista, tende a exaltar a importância da [[lexico:i:interioridade:start|interioridade]], da espiritualidade e dos valores ditos espirituais, em detrimento do que é terrestre, material, [[lexico:m:mundano:start|mundano]], etc. O existencialismo reconhece, sem pudores a importância e o [[lexico:p:peso:start|peso]] guie têm para o homem a [[lexico:e:exterioridade:start|exterioridade]], a materialidade, a ‘’mundanidade" em geral, donde as condições dá realidade humana que estão compreendidas sob esses termos, necessidades, [[lexico:u:uso:start|uso]] e produção das coisas, [[lexico:s:sexo:start|sexo]], etc. O Romantismo considera insignificantes certos aspectos negativos da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] humana, como a [[lexico:d:dor:start|dor]], o fracasso, a [[lexico:d:doenca:start|doença]], a [[lexico:m:morte:start|morte]], porque não dizem [[lexico:r:respeito:start|respeito]] ao princípio infinito que se manifesta no homem e, portanto, "não existem" para ele. O existencialismo considera tais aspectos particularmente significativos para a realidade humana e insiste neles ao interpretá-la. A [[lexico:a:antitese:start|antítese]] em que acabam por encontrar-se os temas fundamentais do existencialismo diante dos do Romantismo é um [[lexico:i:indice:start|índice]] das diferentes [[lexico:c:categorias:start|categorias]] de que se valem as duas diretrizes para interpretar a realidade: entendendo por [[lexico:c:categoria:start|categoria]] um instrumento de análise, isto é, um instrumento para a descrição e a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] da própria realidade. Dissemos que a análise existencial é analise de relações: estas se acentuam em torno do homem, mas imediatamente vão para [[lexico:a:alem:start|além]] dele, porque o vinculam (de diversos modos, que é preciso determinar) à realidade e ao mundo de que faz [[lexico:p:parte:start|parte]] ou, em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], aos outros homens ou às coisas. Ora, essas relações não têm natureza estática, não são, por ex., relações só de [[lexico:i:identidade:start|identidade]], de [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] etc. As relações do homem com as coisas são constituídas pelas possibilidades, que o homem possui (em [[lexico:m:medida:start|medida]] mais ou menos ampla, conforme as diversas situações naturais e históricas) de usar as coisas e de manipulá-las (com o [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]]) em vista das próprias necessidades. E as relações com os outros homens consistem em possibilidades — de colaboração, de [[lexico:s:solidariedade:start|solidariedade]], de [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]], de [[lexico:a:amizade:start|amizade]] etc.: possibilidades que têm também graus e formas diferentes, conforme as diversas condições naturais, sociais e históricas. Ora, que [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] seja [[lexico:p:possivel:start|possível]], significa que [[lexico:e:eu:start|eu]] espero esse algo e que o [[lexico:p:projeto:start|projeto]] ativamente. As possibilidades humanas têm, portanto, em geral, o [[lexico:c:carater:start|caráter]] antecipatório (porque voltado para o [[lexico:f:futuro:start|futuro]]) das expectativas ou dos projetos; e as regras que os disciplinam, desde as da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e da [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] às do [[lexico:c:costume:start|costume]], da [[lexico:m:moral:start|moral]], do [[lexico:d:direito:start|direito]], da [[lexico:r:religiao:start|religião]] etc., servem para dar às expectativas e projetos certo [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]], certa garantia de êxito. Assim, por ex., as regras da técnica servem para garantir que um certo objeto (uma casa, uma [[lexico:m:maquina:start|máquina]]) possa ser [[lexico:c:construido:start|construído]] ou produzido de modo a satisfazer uma determinada [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]]; as regras da moral servem para garantir que as relações humanas possam desenvolver-se da [[lexico:f:forma:start|forma]] mais pacífica e ordenada possível etc. As expectativas ou projetos permanecem, todavia, o que são, isto é, possibilidades, cuja realização é mais ou menos segura, mas nunca infalível (uma casa pode cair ou resultar mais ou menos cômoda para os seus habitantes, uma máquina pode resultar errada ou inútil, as relações humanas podem desenvolver-se da ordem à [[lexico:d:desordem:start|desordem]], da [[lexico:p:paz:start|paz]] à hostilidade etc.). Por isso, a categoria descritiva e interpretativa fundamental de que o existencialismo se vale é propriamente a do possível. As várias direções do existencialismo podem reconhecer-se e distinguir-se a partir do significado que dão à categoria do possível e do uso que dela fazem. Podem-se, daí, distinguir-se três diretrizes principais que assumem como seu fundamento, respectivamente: 1) a [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] do possível; 2) a necessidade do possível; 3) a possibilidade do possível. 1) Já por volta da metade do séc. XIX, Kierkegaard insistira na importância da categoria do possível e, por isso, é a Kierkegaard que remontam mais comumente os filósofos da existência. Mas Kierkegaard insistira também no [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] nulificante do possível, o qual torna problemáticas e negativas tanto as relações do homem com o mundo, como as relações do homem consigo mesmo e com [[lexico:d:deus:start|Deus]]. De fato, as relações do homem com o mundo são dominadas, segundo Kierkegaard, pela angústia, a qual faz sentir ao homem como o possível rói e destrói toda [[lexico:e:expectativa:start|expectativa]] ou [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] humana e como derrota qualquer [[lexico:c:calculo:start|cálculo]] e [[lexico:p:perspicacia:start|perspicácia]] com o [[lexico:j:jogo:start|jogo]] do [[lexico:a:acaso:start|acaso]] e das possibilidades insuspeitadas (Conceito da Angústia, 1844). A [[lexico:r:relacao:start|relação]] do homem consigo mesmo, que constitui o eu, é dominada pela desesperação, isto é, pela [[lexico:c:condicao:start|condição]] na qual o homem vem a encontrar-se, ou porque percorre uma possibilidade após outra sem deter-se, ou porque esgota as suas limitadas possibilidades e o futuro se fecha diante dele (A Doença Mortal, 1849). A própria relação com Deus, que parece oferecer ao homem um [[lexico:c:caminho:start|caminho]] de [[lexico:s:salvacao:start|salvação]] da angústia e do [[lexico:d:desespero:start|desespero]] (porque "para Deus tudo é possível"), na medida em que, por sua vez, é desprovida de garantia e dominada pelo [[lexico:p:paradoxo:start|paradoxo]], não pode oferecer [[lexico:c:certeza:start|certeza]] nem repouso (Temor e Tremor, 1843; Diário, passim). Desse modo, Kierkegaard, enquanto empostava a análise inteira da existência humana sobre a categoria do possível, entendia o possível exclusivamente no seu aspecto ameaçador e [[lexico:n:negativo:start|negativo]]: no possível via, mais do que "aquilo que pode não se realizar", "aquilo que é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] que se realize". É a mesma interpretação que perfilha a filosofia de Heidegger. Heidegger iluminou, é verdade, em análises que ficaram clássicas, o fato de a existência ser transcendência e projeto; mas também fez [[lexico:v:ver:start|ver]] como transcendência e projeto seriam, no [[lexico:f:fim:start|fim]], impossíveis, porque a transcendência fica aquém do que deveria transcender e o projeto é dominado e anulado por aquilo que já é ou foi. O caráter da existência que acaba prevalecendo na filosofia de Heidegger é a efetividade ou [[lexico:f:factualidade:start|factualidade]], pelo qual o Ser-aí está lançado no mundo, em [[lexico:m:meio:start|meio]] aos outros entes, no mesmo nível deles e, com isso, abandonado a ser o que de fato é. Desse modo, a existência pode ser somente o que já foi. As suas possibilidades não são aberturas para o futuro, mas recaem no passado e não fazem mais do que reapresentar como futuro o próprio passado. Por isso, o transcender, o projetar, é uma impossibilidade radical um nada nulificante. Não sobra outra [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]] autêntica senão a de antecipar ou projetar esse mesmo nada. Isso é o "viver-para-a-morte", isto é, para "a possibilidade da impossibilidade da existência" (Sein und Zeit, § 53). A "possibilidade da impossibilidade" seria uma [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] em termos se aqui possibilidade não significasse "[[lexico:c:compreensao:start|compreensão]]". A existência é essencialmente, radicalmente impossível; [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] possível é a compreensão dessa impossibilidade. O [[lexico:v:viver:start|viver]] para a morte é, precisamente, tal compreensão. A [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] da filosofia de Heidegger (ao menos na sua primeira fase, que é a única que se pode designar como existencialista) é, como se viu, a [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] do conceito de possibilidade, como instrumento da análise da existência, no de impossibilidade. O mesmo fato verifica-se na filosofia de Jaspers. De um [[lexico:e:extremo:start|extremo]] a [[lexico:o:outro:start|outro]] da sua Filosofia, Jaspers [[lexico:f:fala:start|fala]] da existência possível e a sua análise é explicitamente análise das possibilidades da existência. Mas, como para Heidegger, tais possibilidades não são, no fundo, para ele, mais do que outras tantas impossibilidades. Eu não posso ser senão o que sou (Phil., II, pág. 182), não posso tornar-me se não o que sou; não posso querer se não o que sou; e o que sou é a situação em que me encontro e sobre a qual não posso nada (Ibid., I, pág. 145). Jaspers explicitamente diz que as expressões "eu escolho", "eu quero", significam na realidade "eu devo" ([[lexico:i:ich:start|Ich]] muss; Phil., II, pág. 186), o que quer dizer: a possibilidade de ser, de agir, de querer, de escolher, é na realidade a impossibilidade de agir, escolher e querer de modo diferente de como se é, isto é, das condições de fato implícitas na situação que nos constitui. O mesmo predomínio do conceito de possibilidade e a sua mesma transformação final no de impossibilidade, pode-se encontrar no existencialismo de Sartre. Para esse existencialismo, a possibilidade última da realidade humana, a sua escolha originária, é o projeto fundamental em que se inserem todos os atos e as volições particulares de um ser [[lexico:h:humano:start|humano]]. Tal projeto é fruto de uma liberdade sem limites, isto é, absoluta e incondicionada: de uma liberdade que faz do homem uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de Deus criador do seu mundo e o torna responsável pelo próprio mundo. O homem é, de fato, definido por Sartre como "o ser que projeta ser Deus" (Être et néant, pág. 653). Mas trata-se de um Deus falido. O seu projeto se resolve em todo caso em um fracasso. O que na doutrina de Heidegger e de Jaspers é operado pela necessidade factual que limita e, enfim, destrói toda possibilidade de transcendência do próprio fato, é, na doutrina de Sartre, operado pela infinidade das possibilidades que se eliminam e se destroem reciprocamente em um jogo fútil e vão que dá [[lexico:n:nausea:start|náusea]]: já que nenhuma delas possui maior [[lexico:v:validade:start|validade]] ou solidez do que a outra e é, por isso, verdadeiramente impossível escolher entre uma e outra, a não ser cegamente. Uma escolha absoluta, ou absolutamente livre", como a que Sartre atribui ao homem é perfeitamente idêntica à "não-escolha" ou à "escolha da escolha" de Heidegger e Jaspers, no sentido de que não é de modo algum uma escolha, mas, antes, a própria impossibilidade de escolher. Mais uma vez, o conceito do possível se transformou sub-repticiamente no do impossível. Dessa [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] deriva a noção do existencialismo como de uma "filosofia negativa" ou "filosofia da angústia", ou "do fracasso", noção não de todo exata porque não pode referir-se senão a uma só dentre as correntes [[lexico:e:existencialistas:start|existencialistas]], e ainda, só a certos aspectos seus. Dessa noção corrente derivou depois o uso generalizado do termo, enquanto é empregado para designar não só certas diretrizes literárias e artísticas, mas também [[lexico:c:costumes:start|costumes]], atitudes, e até modos de vestir. Tal uso generalizado, embora ainda mais impróprio do que a noção corrente que o fez nascer, pode-se [[lexico:e:explicar:start|explicar]] observando que, na maior parte dos casos, serve para chamar polemicamente a [[lexico:a:atencao:start|atenção]] sobre os aspectos mais desfavoráveis, negativos e desconcertantes da vida humana: isto é, sobre aqueles aspectos que são peculiares dela enquanto é um [[lexico:s:simples:start|simples]] pode ser, completamente desprovido de qualquer garantia de estabilidade e de certeza. A [[lexico:l:literatura:start|literatura]] chamada existencialista tende, de fato, a sublinhar as vicissitudes humanas menos respeitáveis e mais tristes, pecaminosas e dolorosas, além da incerteza dos empreendimentos, quer bons quer maus, e a [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]] do próprio [[lexico:b:bem:start|Bem]] que pode originar o seu contrário. De modo [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]], atitudes, costumes, modos de vestir, são chamados "existencialistas" enquanto pretendem ser formas de protesto contra o [[lexico:o:otimismo:start|otimismo]] superficial e a respeitabilidade burguesa da sociedade contemporânea. De qualquer modo que se queira julgar dessas manifestações, cujo caráter superficial e [[lexico:g:grotesco:start|grotesco]] é às vezes evidente, mas cuja [[lexico:r:responsabilidade:start|responsabilidade]] não se deve deixar recair na corrente filosófica de que estamos falando, é claro que o existencialismo tem agido, dessa forma, como uma poderosa força destrutiva do [[lexico:d:dogmatismo:start|dogmatismo]] absolutista do séc. XIX, dos seus mitos otimistas e do seu sentido de segurança fictícia, que foi, aliás, tão duramente desmentido pelas vicissitudes dos últimos decênios. Não há [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], pois, sobre a [[lexico:f:funcao:start|função]] resolutiva e liberadora que essa forma de existencialismo exercitou nos últimos dois decênios; mas também não há dúvida sequer sobre a sua incapacidade de preparar instrumentos válidos que tragam uma contribuição à solução positiva dos problemas que interessam ao homem. 2) Se a primeira interpretação reduz as possibilidades humanas a reais impossibilidades, a segunda interpretação as considera, no extremo oposto, como potencialidades, no sentido aristotélico do termo. Assim entendido, o possível perde o seu aspecto negativo e preocupante, já que uma potencialidade é sempre "destinada a realizar-se" ([[lexico:l:lavelle:start|Lavelle]], Du temps et de l’éternité, 1945, pág. 261). Essa transformação do possível, de categoria da [[lexico:i:instabilidade:start|instabilidade]] e da incerteza [[lexico:p:problematica:start|problemática]] a categoria da estabilidade e da certeza, é operada dependurando as possibilidades existenciais em uma Realidade absoluta de que elas derivariam a sua garantia de realização infalível. Para Lavelle, essa realidade absoluta é o Ser (De l’être, 1928; De L’Acte, 1937; Du temps et de l’éternité, 1945). Para Le Senne (Obstacle et Valeur, 1934), a realidade absoluta é entendida como [[lexico:v:valor:start|valor]] infinito. Como Ser, a realidade absoluta é entendida também para Mareei, o qual, porém, julga que o ser se revela só no [[lexico:m:misterio:start|mistério]] de que se circunda e que, por isso, a única [[lexico:a:atitude:start|atitude]] possível do homem diante dele é a do [[lexico:a:amor:start|amor]] e da [[lexico:f:fidelidade:start|fidelidade]] (Journal Métaphysique, 1927; Être et Avoir, 1935; Du Refus à l’Invocation, 1940). Mas, de qualquer modo que se entenda a realidade absoluta, as possibilidades existenciais, uma vez que se considerem fundadas nela, se transformam em róseas perspectivas de [[lexico:s:sucesso:start|sucesso]] pelas quais nada do que o homem verdadeiramente é, ou dos seus valores fundamentais, pode perder-se, desde que a essas possibilidades se concede uma garantia absoluta e [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]]. Essa corrente do existencialismo, que tem caráter e [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] preferentemente religiosa, tem, filosoficamente, o defeito de constituir um panegírico da realidade humana mais do que uma tentativa de compreendê-la e de propiciar uma [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] post factum da experiência humana, muito semelhante à tentada pelas filosofias românticas. Se se admitir que todas as possibilidades existenciais estão destinadas a realizar-se, enquanto fundadas no Ser ou no Valor, apenas se cobrem com um manto verbal os insucessos e as misérias do homem. Se se admitir, ao contrário, que nem todas as possibilidades humanas estão fundadas no Ser e no Valor, e que nem todas estão destinadas a realizar-se, propõe-se o embaraçoso [[lexico:p:problema:start|problema]] de fornecer um [[lexico:c:criterio:start|critério]] para reconhecer quais são aquelas possibilidades realmente fundadas: problemas para cuja solução o [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] do seu fundamento transcendente não traz nenhuma contribuição. 3) Enfim, para uma terceira interpretação própria do existencialismo italiano, as possibilidades existenciais devem ser assumidas e mantidas como tais, sem transformá-las nem em impossibilidade nem em potencialidade. Nesse caso, a [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] aberta por uma possibilidade não é nem a realização infalível nem a impossibilidade radical, mas, de preferência, uma [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] tendente a estabelecei os limites e as condições da própria possibilidade e, portanto, o [[lexico:g:grau:start|grau]] de garantia relativa ou parcial que ela pode oferecer. Essa diretriz de existencialismo acentua a tendência naturalista e empirista já presente, embora de forma oculta ou imperfeita, nas outras diretrizes (N. [[lexico:a:abbagnano:start|Abbagnano]], Struttura dell’esistenza, 1939 ; Jntroduzione all’esistenzialis-mo, 1942; Filosofia, religione, scicinza, 1948; Possibilità e liberta, 1956; existencialismo [[lexico:p:paci:start|Paci]], Principi di una filosofia dell’essere, 1939 ; Pensiero, esistenza, valore, 1940; Tempo e Relazione, 1954). Segundo essa diretriz, a pesquisa dos limites e das condições a que subjaz toda possibilidade humana, não pode ser feita senão mediante a utilização das técnicas de [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] e de controle de que a [[lexico:i:indagacao:start|indagação]] positiva ou científica dispõe em todos os campos. Se uma [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]], uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] ou, em geral, uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] não é senão um "pode ser", que abre uma certa perspectiva para o futuro, a sua validade consiste não só no poder ser posta à [[lexico:p:prova:start|prova]], mas no poder repropor-se, depois da prova, ainda como um "poder ser" para o futuro. Por isso, os critérios em uso nas ciências e, em geral, nas disciplinas particulares para decidir da validade das suas proposições e da realidade dos seus objetos, podem ser assumidos como determinações ou especificações do critério da possibilidade; ou reciprocamente esse [[lexico:u:ultimo:start|último]] pode ser assumido como a [[lexico:g:generalizacao:start|generalização]] de critérios específicos. Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, o homem nem é lançado sem defesa de encontro à falência e ao fracasso, nem destinado ao triunfo final; mas possui as garantias, parciais e limitadas, que lhe são oferecidas pelas suas técnicas e pelos seus [[lexico:m:modos-de-vida:start|modos de vida]] experimentados, além das garantias oferecidas pelas possibilidades, que elas lhe abrem, de encontrar e experimentar novas possibilidades. Cfr. A. Santucci, existencialismo e filosofia italiana, 1959. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}