===== EXISTÊNCIA E CONSISTÊNCIA ===== Esses dois significados equivalem a estes outros dois: a [[lexico:e:existencia|existência]] e a [[lexico:c:consistencia|consistência]]. A [[lexico:p:palavra|palavra]] "[[lexico:s:ser|ser]]" significa, de uma [[lexico:p:parte|parte]], [[lexico:e:existir|existir]], [[lexico:e:estar|estar]] aí. Mas, de outra parte, significa também consistir, ser isto, ser aquilo. Quando perguntamos: que é o [[lexico:h:homem|homem]]? que é a água? que é a [[lexico:l:luz|luz]]? [[lexico:n:nao|não]] queremos perguntar se existe ou não existe o homem, se existe ou não existe a água ou a luz. Queremos dizer: qual é a sua [[lexico:e:essencia|essência]]? Em que consiste o homem? Em que consiste a água? Em que consiste a luz? Quando a Bíblia diz que [[lexico:d:deus|Deus]] pronunciou estas [[lexico:p:palavras|palavras]]: Fiat lux, que a luz seja, a palavra "ser" está empregada, não no [[lexico:s:sentido|sentido]] de "consistir", mas no sentido de "existir". Quando Deus disse: Fiat lux, que a luz seja, quis dizer que a luz, que não existia, passasse a existir. Mas quando nós dizemos: que é a luz? Não queremos dizer que existência tem a luz, não; queremos dizer: qual é a sua essência? Qual é a sua consistência? Assim, estas duas [[lexico:s:significacoes|significações]] da palavra "ser" vão servirnos para esclarecer nossos problemas iniciais. Vamos muito simplesmente aplicar a essas duas significações da palavra "ser" as duas perguntas com que iniciamos estes raciocínios: a [[lexico:p:pergunta|pergunta]]: que é? e a pergunta: [[lexico:q:quem|quem]] é? E aplicadas essas duas perguntas aos dois sentidos do [[lexico:v:verbo|verbo]] "ser" substantivado, temos: primeira pergunta: que é existir? Segunda pergunta: quem existe? Terceira pergunta: que é consistir? Quarta pergunta: quem consiste? Examinemos estas [[lexico:q:quatro|Quatro]] perguntas. Vamos examiná-las, não para respondê-las, mas para [[lexico:v:ver|ver]] se têm ou não resposta [[lexico:p:possivel|possível]]. À pergunta: que é existir? Resulta evidente que não há resposta possível. Não se pode dizer que é a existência. Existir é algo que intuímos diretamente. O existir não pode ser [[lexico:o:objeto|objeto]] de [[lexico:d:definicao|definição]]. Por quê? Porque definir é dizer em que consiste algo; mas acabamos de ver que o [[lexico:c:conceito|conceito]] de "consistir" não coincide com o de "existir"; é algo muito distinto, que não se pode confundir, que não se deve confundir. Se, pois, [[lexico:e:eu|eu]] perguntar: que é existir? Terei que responder a essa pergunta indicando a consistência do existir, visto que [[lexico:t:todo|todo]] definir consiste em explicitar uma consistência; e a definição consiste na indicação do em que consiste a [[lexico:c:coisa|coisa]]. Ora: é claro e evidente que o existir não consiste em [[lexico:n:nada|nada]]. Por isso muitos filósofos — na [[lexico:r:realidade|realidade]], todos os filósofos — se detêm ante a [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de definir a existência. A existência não pode ser definida, e precisamente haverá um [[lexico:m:momento|momento]] na [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]] em que um [[lexico:f:filosofo|filósofo]], [[lexico:k:kant|Kant]], fará [[lexico:u:uso|uso]] desta [[lexico:d:distincao|distinção]] para fazer ver que certos argumentos metafísicos consistiram em considerar a existência como um conceito, e manejá-lo, baralhá-lo com outros [[lexico:c:conceitos|conceitos]], em vez de considerá-la como uma [[lexico:i:intuicao|intuição]] que não pode ser embaralhada ou pensada do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que os conceitos. Por conseguinte, a pergunta: que é existir? Não tem resposta e vamos eliminá-la da [[lexico:o:ontologia|ontologia]]. A ontologia não poderá dizer-nos [[lexico:o:o-que-e|o que é]] existir. Ninguém pode nos dizer o que é existir; cada um o sabe por íntima e fatal [[lexico:e:experiencia|experiência]] própria. Passemos à segunda pergunta, que é: quem existe? Esta segunda pergunta, sim, pode [[lexico:t:ter|ter]] resposta. A esta segunda pergunta cabe responder: eu existo, o [[lexico:m:mundo|mundo]] existe, Deus existe, as [[lexico:c:coisas|coisas]] existem. E estas respostas comportam combinações; cabe dizer: as coisas existem e eu como uma de tantas coisas. Cabe dizer também: eu existo; porém não as coisas; as coisas não são mais que minhas representações; as coisas não são mais do que fenômenos para mim, aparências que eu percebo, mas não verdadeiras em realidade. Não "são" em si mesmas, mas em mim. Cabe ainda responder: nem as coisas, nem eu existimos, na [[lexico:v:verdade|verdade]], mas somente Deus existe, e as coisas e eu existimos em Deus; as coisas e eu temos um ser que não é um ser em mim, mas um ser em [[lexico:o:outro|outro]] ser, em Deus. Também cabe responder isto. De modo que à pergunta: quem existe? Podem dar-se várias respostas. Vamos ver a terceira pergunta; que é consistir? Esta pergunta tem resposta. Pode dizer-se em que consiste o consistir? Pode dizer-se em que consiste a consistência; porque, com [[lexico:e:efeito|efeito]], embora eu advirta que umas coisas consistem em outras, nem todas consistem da mesma [[lexico:f:forma|forma]]. Existem maneiras, modos, formas variadas do consistir. A [[lexico:e:enumeracao|enumeração]], o [[lexico:e:estudo|estudo]] de todas essas formas variadas do consistir, é algo que se deve fazer, que se pode fazer, que se faz, que se fez. E algo que constitui um capítulo importantíssimo da Ontologia. [[lexico:a:agora|agora]] veremos qual. E, por [[lexico:u:ultimo|último]], a quarta pergunta: quem consiste? Não tem resposta. Passa-se com esta pergunta o mesmo que com a primeira: que é existir? que não tem resposta. Também, quem consiste? não pode ter resposta, porque caberia dizer somente que não sabemos quem consiste. Até que não saibamos quem existe, não podemos [[lexico:s:saber|saber]] quem consiste, porque somente quando saibamos quem existe, com existência [[lexico:r:real|real]] em si, poderemos dizer que tudo o mais existe nesse ser primeiro e, portanto, tudo o mais consiste. De [[lexico:s:sorte|sorte]] que a pergunta não tem resposta direta. Se como dizem, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], alguns filósofos como Espinosa — nada existe, nem as coisas, nem eu, mas as coisas e eu estamos em Deus, então à pergunta: quem consiste? Responderemos que todos consistimos, salvo Deus, que não consiste, visto que não é redutível a outra coisa e, pelo contrário, nós e as coisas somos todos redutíveis a Deus. Por conseguinte, esta quarta pergunta não tem nem pode ter resposta direta, é simplesmente o reverso da medalha da segunda pergunta, porque logo que soubermos quem existe, saberemos quem é o ser em si e então tudo aquilo que não for [[lexico:e:esse|esse]] ser em si será ser nesse ser, isto é, tudo o mais consistirá nesse ser. Fica, pois, reduzido nosso [[lexico:p:problema|problema]] da ontologia a estas duas perguntas: quem existe? e: que é consistir? Para a primeira existem múltiplas e variadas respostas. As respostas que se dão à Pergunta: quem existe? Constituem a parte da ontologia que se chama à [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. A metafísica é aquela parte da ontologia que se encaminha a decidir quem existe, ou seja, quem é o ser em si, o ser que não é em outro, que não é redutível a outro; e então os demais seres serão seres nesse ser em si. A metafísica é a parte da ontologia que responde ao problema da existência, da autêntica e verdadeira existência, da existência em si, ou seja, à primeira pergunta. Para a segunda pergunta: que é consistir? existem também múltiplas respostas possíveis. Essas múltiplas respostas possíveis são outras tantas maneiras de consistir. Os objetos consistem nisso ou naquilo, e cada um consiste segundo a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] de sua [[lexico:o:objetividade|objetividade]]. A segunda pergunta: que é consistir? dá, pois, [[lexico:l:lugar|lugar]] a uma [[lexico:t:teoria|teoria]] [[lexico:g:geral|geral]] dos objetos, de qualquer objeto, da objetividade em geral. A segunda pergunta constitui a [[lexico:t:teoria-do-objeto|teoria do objeto]], a teoria da objetividade, ou — se for permitida uma inovação talvez não demasiadamente impertinente na [[lexico:t:terminologia|terminologia]] — poderíamos dizer: a teoria da consistência dos objetos em geral. Assim, pois, a ontologia, de que vamos [[lexico:f:falar|falar]] durante umas quantas lições, divide-se em: primeiro, metafísica e. segundo, teoria do objeto eu teoria da consistência em geral. Nesse território da ontologia, abrem-se diante de nós duas grandes avenidas: a avenida metafísica e a avenida da teoria do objeto. Vamos seguir essas duas avenidas uma após outra. **Quem existe?** Na [[lexico:h:historia|história]] da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] os dois problemas (o problema de quem existe e o problema de que é consistir) estiveram muitas vezes misturados, e isso prejudicou a clareza e a nitidez dos filosofemas, das figuras (no sentido [[lexico:p:psicologico|psicológico]] que empregamos aqui, mas aplicado à filosofia), das figuras filosóficas, dos temas filosóficos, dos objetos filosofados pelo filósofo. Tem sido prejudicial, como todo [[lexico:e:equivoco|equívoco]] é sempre prejudicial. Teremos, pois, muito cuidado, nas nossas excursões pela metafísica e pela [[lexico:t:teoria-dos-objetos|teoria dos objetos]], de manter sempre muito claramente a distinção entre o [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista [[lexico:e:existencial|existencial]] metafísico e o ponto de vista [[lexico:o:objetivo|objetivo]] consistêncial. Não nos será sempre possível cingirnos estritamente a um desses dois pontos de vista; não nos será sempre possível fazer metafísica sem teoria do objeto, nem fazer teoria do objeto sem metafísica. Às vezes nós mesmos teremos que falar de ambos os temas e quase que simultaneamente. Porém, se, desde já, tivermos [[lexico:b:bem|Bem]] presente esta [[lexico:d:diferenca|diferença]] [[lexico:e:essencial|essencial]] de [[lexico:o:orientacao|orientação]] nos dois temas, não haverá perigo em tratá-los às vezes, simultaneamente, feitas previamente as necessárias distinções entra aquilo que vale para um e aquilo que vale para outro.