===== EXCESSIVIDADE ===== Ninguém se estranhe do [[lexico:p:pensar|pensar]] em [[lexico:d:deus|Deus]], nesta [[lexico:i:imagem|imagem]], Excessividade Caótica. [[lexico:n:nao|Não]] é assim tão descabida, se Excessividade é [[lexico:n:negacao|negação]] de limites, de qualquer [[lexico:l:limite|limite]], de todos os limites, e se Caótico se refere ao [[lexico:c:caos|caos]], e Caos é [[lexico:a:abismo|abismo]] sem fundo. Mas o Excesso é espasmódico: retrai-se, retém-se, contém-se; não sabemos quando, nem onde, nem como, nem porquê. Sei, entrevejo como imagem de [[lexico:s:sonho|sonho]] que [[lexico:m:mal|mal]] emerge para logo imergir nesse [[lexico:o:outro|outro]] abismo que «[[lexico:e:eu|eu]]» sou, e de que me apercebo em fugazes momentos em que me distraio do «mim mesmo», entrevejo, dizia, um deus em cada espasmo da Excessividade; quando ela se retrai, se retém e se contém, nasce um deus que se excede em [[lexico:m:mundo|mundo]] que o oculta. É [[lexico:c:como-se|como se]] assistisse de perto a uma irrupção vulcânica de que jamais se viu o [[lexico:p:principio|princípio]] nem se verá o [[lexico:f:fim|fim]]. Um deus é [[lexico:p:parte|parte]] daquela parte do [[lexico:t:todo|todo]] que se derrama pelos flancos da montanha, é o [[lexico:f:fogo|fogo]] que se extingue nas lavas que se alastram pelos longos da planície inerte e nela se vão erguendo, como se estereogramas fossem de uma [[lexico:l:linguagem|linguagem]] só decifrável como o [[lexico:f:falar|falar]] de um mundo, tentando desvendar o [[lexico:m:misterio|mistério]] da sua [[lexico:o:origem|origem]], tentando dizer [[lexico:q:quem|quem]] é ou [[lexico:o:o-que-e|o que é]] o deus que nele se oculta. [[lexico:m:mito|mito]] é isso, ou [[lexico:n:nada|nada]] é. [[lexico:b:bem|Bem]] se vê, todavia, a imprescindibilidade da [[lexico:a:alegoria|alegoria]]. Alegorizamos Deus, chamando-o de Excessividade Caótica, acrescentando que o Excessivo se retrai, se retém e se contém; que a Excessividade é espasmódica; que um deus participa do Excessivo, quando, ele mesmo, se excede em mundo; que tudo se nos afigura como um vulcão; que suas lavas, feitas estereogramas de uma linguagem, falam da [[lexico:v:vida|vida]] do deus que lhes deu a [[lexico:f:forma|forma]] de mundo, ou, antes, da sua [[lexico:m:morte|morte]] por extinção do fogo; que era [[lexico:n:necessario|necessário]] que ele se extinguisse para que mundo houvesse. [[lexico:t:tautegoria|tautegoria]] do [[lexico:i:impulso|impulso]] [[lexico:m:mitico|mítico]], criador de mitos, tão tautegóricos quanto o impulso, não dispensa a alegoria, não dispensa que se diga uma [[lexico:c:coisa|coisa]] que outra quer dizer. O decisivo, em [[lexico:m:mitologia|mitologia]], não é banir o alegórico. É fazer que no allo (outro) se mostre o tauto (mesmo). Aliás é esta a [[lexico:f:formula|fórmula]] da [[lexico:s:semelhanca|semelhança]]: A é [[lexico:s:semelhante|semelhante]] a B, quando, de algum [[lexico:m:modo|modo]], em [[lexico:a:a-se|a se]] veja a imagem de B, uma imagem, não a própria [[lexico:f:figura|figura]]. «Um deus é semelhante a Deus» quer dizer: em qualquer dos [[lexico:d:deuses|deuses]] de que a mitologia [[lexico:f:fala|fala]], vê-se uma [[lexico:i:imagem-de-deus|imagem de Deus]], quando se queira [[lexico:v:ver|ver]] o que acima se disse — um deus excede-se, sempre se excede, e o excesso é mundo. Mundo é [[lexico:o:obra|obra]] da excessividade divina: todo e qualquer mundo é [[lexico:d:divino|divino]] por excesso. [EudoroMito:52-53]