===== EXCELÊNCIA HUMANA ===== A tematização da [[lexico:l:lucidez:start|lucidez]] humana (ψυχή ), tendo em vista a τάξις , pode [[lexico:n:nao:start|não]] se manter na neutralidade da [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] da sua [[lexico:s:subsistencia:start|subsistência]]. A desordenação que a desvirtua e perverte é de uma [[lexico:n:natureza:start|natureza]] diferente da mera persistência em [[lexico:v:vida:start|vida]]. Alguém em coma mantém-se em vida, não encontrou a [[lexico:m:morte:start|morte]], e, no entanto, não tem nenhuma [[lexico:r:relacao:start|relação]] com essa [[lexico:f:forma:start|forma]] de subsistência. O seu préstimo (χρῆσις ) só se constitui quando ela atinge uma certa ordenação e uma certa [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] 20. Só que [[lexico:a:agora:start|agora]] a concretização deste [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:g:geral:start|geral]] da [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] da [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] (ἀρετή ) na lucidez humana (ψυχή) não pode [[lexico:s:ser:start|ser]] determinada a partir da funcionalidade ou não de um determinado [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de [[lexico:u:uso:start|uso]], nem do [[lexico:b:bom:start|Bom]] ou mau [[lexico:e:estado:start|Estado]] do [[lexico:c:corpo:start|corpo]] [[lexico:h:humano:start|humano]], apurado pela [[lexico:p:presenca:start|presença]], respectivamente, da saúde e da [[lexico:d:doenca:start|doença]], nem tão-pouco da sua manutenção em vida. A [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] do sentido da excelência (ἀρετή) depende da presença da [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] e da [[lexico:j:justica:start|justiça]] (δικαιοσύνη ), da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] tranquila (σωφροσύνη ), da perseverança viril (ἀνδρεία ) ou da [[lexico:s:santidade:start|santidade]] (ὁσιότης ), ou, como veremos do [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] requerido para a presença da excelência (ἀρετή) no [[lexico:h:homem:start|homem]], a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de se lhe expor, de [[lexico:t:ter:start|ter]] em vista uma qualquer das suas manifestações. Essa possibilidade de [[lexico:e:exposicao:start|exposição]] da excelência (ἀρετή) a si própria é trazida à [[lexico:e:expressao:start|expressão]] pelos termos [[lexico:s:saber:start|saber]] (ἐπιστήμη ) ou consciência (φρόνησις ). Como é [[lexico:p:possivel:start|possível]] que para todas as formas de manifestação e diferentes matizes da excelência (ἀρετή) haja um e o mesmo fundamento: a organização estrutural (τάξις) na lucidez humana (ψυχή)? Uma concretização para o sentido destas formulações é a nossa [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]]. [CaeiroArete:31] Cumpre considerar agora um pouco mais de perto o sentido da [[lexico:e:excelencia-humana:start|excelência humana]], depois de dadas as indicações básicas do sentido da excelência em geral e do [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:c:como-se:start|como se]] procede à sua tematização. Há na [[lexico:r:republica:start|República]] [Rep., 335c4] uma passagem onde se procura apurar a excelência humana (ἀνθρωπεὶα ἀρετή ), depois de uma [[lexico:r:reducao:start|redução]] explícita do que possa ser essa excelência humana à justiça justificadora (δικαιουσύνη ). Em [[lexico:c:causa:start|causa]] está, pois, a [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] daquela manifestação da excelência que se dá no homem pela presença da justiça e da justificação [É, portanto, o mesmo sentido que está em análise no Górgias.]. O [[lexico:i:interesse:start|interesse]] não vai só exclusivamente para o sentido [[lexico:p:positivo:start|positivo]] da excelência, mas dirige-se também para a outra extremidade, resultante da presença eficaz e destruidora da κακία que veda não só a possibilidade de cada [[lexico:e:ente:start|ente]] desenvolver o seu potencial máximo como também de o poder levar à sua [[lexico:d:destruicao:start|destruição]] . Há [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] um desdobramento de duas possibilidades extremas em cada [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] de entes. Por um lado, a possibilidade de se poder verificar a concretização e o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] com plenos poderes das potencialidades que cada um tem para poder ser aquilo mesmo que é. E, por [[lexico:o:outro:start|outro]], a possibilidade extrema negativa e impeditiva segundo a qual cada ente pode não atingir nenhum [[lexico:g:grau:start|grau]] de desenvolvimento, ficando-se pelo aquém das suas potencialidades, podendo chegar inclusive até à sua destruição. [CaeiroArete:34] A excelência – [[lexico:a:arete:start|arete]], como a teriam [[lexico:c:chamado:start|chamado]] os gregos; virtus, como teriam [[lexico:d:dito:start|dito]] os romanos – sempre foi reservada ao domínio [[lexico:p:publico:start|público]], em que uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] podia sobressair-se e distinguir-se das demais. Toda [[lexico:a:atividade:start|atividade]] realizada em público pode atingir uma excelência jamais igualada na [[lexico:p:privatividade:start|privatividade]]; para a excelência, por [[lexico:d:definicao:start|definição]], é sempre requerida a presença de outros, e essa presença exige a [[lexico:f:formalizacao:start|formalização]] do público, constituído pelos pares do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]]; não pode ser a presença fortuita e familiar de seus iguais ou inferiores. [v. escravo] Nem mesmo o domínio [[lexico:s:social:start|social]] – embora tenha tornado anônima a excelência, enfatizado o [[lexico:p:progresso:start|progresso]] da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] ao invés das realizações dos homens e alterado o conteúdo do domínio público ao [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de desfigurá-lo – pôde aniquilar completamente a conexão entre a realização pública e a excelência. Embora nos tenhamos tornado excelentes na atividade do [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] que realizamos em público, a nossa [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de [[lexico:a:acao:start|ação]] e de [[lexico:d:discurso:start|discurso]] perdeu muito de seu antigo [[lexico:c:carater:start|caráter]] desde que a ascendência do domínio social baniu estes últimos para a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] do íntimo e do [[lexico:p:privado:start|privado]]. Essa curiosa discrepância não passou despercebida do público, que geralmente a atribui a uma suposta defasagem entre nossas capacidades técnicas e nosso desenvolvimento humanístico em geral, ou entre as ciências físicas, que alteram e controlam a natureza, e as [[lexico:c:ciencias-sociais:start|ciências sociais]], que ainda não sabem como alterar e controlar a [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]]. Não considerando outras falácias do [[lexico:a:argumento:start|argumento]], tantas vezes apontadas que seria ocioso repeti-las, essa [[lexico:c:critica:start|crítica]] refere-se apenas a uma possível [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] na [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] dos seres humanos – os seus chamados padrões de [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] –, não a uma mudança do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] em que eles habitam. E essa [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] psicológica, para a qual a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] ou a presença de um domínio público é tão [[lexico:i:irrelevante:start|irrelevante]] quanto qualquer [[lexico:r:realidade:start|realidade]] mundana, [[lexico:t:tangivel:start|tangível]], parece bastante questionável em vista do [[lexico:f:fato:start|fato]] de que nenhuma atividade pode tornar-se excelente se o mundo não proporciona um [[lexico:e:espaco:start|espaço]] [[lexico:a:adequado:start|adequado]] para o seu exercício. Nem a [[lexico:e:educacao:start|educação]], nem a engenhosidade, nem o [[lexico:t:talento:start|talento]] podem substituir os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] constitutivos do domínio público, que fazem dele o local adequado para a excelência humana. [ArendtCH, 6] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}