===== EVIDÊNCIA ===== (gr. [[lexico:e:enargeia:start|enargeia]]; lat. evidentia; in. Evidence; fr. Evidence, ai. Evidenz; it. Evidenza). [[lexico:a:apresentacao:start|Apresentação]] ou [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] de um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] qualquer como tal. Era assim que os antigos entendiam a evidência, especialmente epicuristas e estoicos, que a assumiam como [[lexico:c:criterio-de-verdade:start|critério de verdade]]. Os epicuristas identificavam a evidência com a própria [[lexico:a:acao:start|ação]] dos objetos sobre os órgãos dos sentidos (Diógenes Laércio, X, 52). Os estoicos entendiam por evidência o apresentar-se ou dar-se das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] aos sentidos ou à [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]], de tal [[lexico:m:modo:start|modo]] que estas resultem "compreendidas" ([[lexico:s:sexto-empirico:start|Sexto Empírico]], Pirr. hyp., II, 7). A [[lexico:r:representacao:start|representação]] [[lexico:c:cataleptica:start|cataléptica]] é justamente a representação evidente. Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, a evidência [[lexico:n:nao:start|não]] é um [[lexico:f:fato:start|fato]] [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]], mas [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]: não está ligada à [[lexico:c:clareza-e-distincao:start|clareza e distinção]] das [[lexico:i:ideias:start|ideias]], mas ao apresentar-se e manifestar-se do objeto (qualquer que seja). Assim, nem mesmo os céticos recusam o que se apresenta como evidente, embora evitem a [[lexico:a:assercao:start|asserção]] correspondente (Sexto [[lexico:e:empirico:start|Empírico]], Pirr. hyp., II, 10). [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], porém, deu um [[lexico:c:conceito:start|conceito]] subjetivo de evidência. A "[[lexico:n:norma:start|norma]] da evidência", que ele expõe no [[lexico:d:discurso:start|discurso]], prescreve "nunca aceitar [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] como verdadeira a menos que seja reconhecida evidentemente como tal; isso significa evitar diligentemente a precipitação e a prevenção e só incluir nos juízos o que se apresenta tão clara e distintamente ao [[lexico:e:espirito:start|espírito]], que não haja [[lexico:m:motivo:start|motivo]] algum para [[lexico:s:ser:start|ser]] posto em [[lexico:d:duvida:start|dúvida]]" (Discours, II). Nessa [[lexico:r:regra:start|regra]] a evidência foi reduzida à clareza e [[lexico:d:distincao:start|distinção]] das ideias, e os problemas correlativos se deslocaram do domínio do objeto para o da [[lexico:i:ideia:start|ideia]], reapresentando-se neste [[lexico:u:ultimo:start|último]] como problemas objetivos. O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Descartes (sobretudo em Regras para a direção do espírito) vinculara a evidência à [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] da [[lexico:i:intuicao:start|intuição]], não entendendo com essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]] o [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]] dos sentidos ou o [[lexico:j:juizo:start|juízo]] da [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]], mas "a concepção firme de um espírito [[lexico:p:puro:start|puro]] e atento que nasce apenas da [[lexico:l:luz:start|luz]] da [[lexico:r:razao:start|razão]] e que, sendo mais [[lexico:s:simples:start|simples]], é também mais segura que a [[lexico:d:deducao:start|dedução]]" (Regulae ad directionem ingenii, III). A evidência seria, assim, o [[lexico:c:carater:start|caráter]] da intuição e constituiria a [[lexico:c:certeza:start|certeza]] própria desta última, assim como a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] [[lexico:r:racional:start|racional]] constitui a certeza da dedução. Esses [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] dominaram grande [[lexico:p:parte:start|parte]] da [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]], mesmo porque foram aceitos tanto por [[lexico:l:locke:start|Locke]], para [[lexico:q:quem:start|quem]] "a certeza e a evidência do nosso [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] provêm da intuição da concordância ou da discordância entre as ideias" (Ensaio, IV, 2, 1), quanto por [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] (Nouv. ess., IV, 11, 10). O caráter subjetivo da evidência e sua conexão com uma faculdade humana mais ou menos misteriosa chamada intuição permaneceram em toda a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]]; só a filosofia contemporânea entendeu retornar ao antigo conceito de evidência objetiva. A [[lexico:c:critica:start|crítica]] da evidência como "uma [[lexico:v:voz:start|voz]] [[lexico:m:mistica:start|mística]] que de um [[lexico:m:mundo:start|mundo]] melhor nos grite: aqui está a [[lexico:v:verdade:start|verdade]]!" foi feita por [[lexico:h:husserl:start|Husserl]], que encontrou para a evidência a [[lexico:d:definicao:start|definição]] de "preenchimento da [[lexico:i:intencao:start|intenção]]". Significa que há evidência quando a intenção da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], voltada para um objeto, é preenchida pelas determinações graças às quais o objeto se individualiza, se define e finalmente se apresenta à consciência em [[lexico:c:carne:start|carne]] e osso (Logische Untersuchungen, II, § 39; Ideen, I, § 145; Erfahrung und Urteil, p. 12). Portanto, em toda a filosofia contemporânea que se inspira na [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]], a evidência readquiriu caráter objetivo, voltando a designar a apresentação ou manifestação de um objeto como tal, qualquer que seja o objeto e quaisquer que sejam os métodos com os quais se pretende certificar ou garantir sua [[lexico:p:presenca:start|presença]] ou manifestação. Nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]], [[lexico:s:scheler:start|Scheler]] falou de "evidência preferencial" para indicar as inter-relações hierárquicas e objetivas dos valores que guiam e sugerem as escolhas humanas (Formalismus, p. 87). No mesmo sentido, às vezes são qualificadas de evidentes as proposições analíticas ou tautológicas cuja verdade resulta dos seus próprios termos, como, p. ex., "O [[lexico:t:triangulo:start|triângulo]] tem três lados". O caráter de uma ideia clara e distinta. — A evidência de uma ideia possui a [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] de [[lexico:p:provocar:start|provocar]] naturalmente a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]]. Segundo Descartes, a evidência é a [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] objetiva de uma ideia; entretanto, Leibniz viu que a evidência é antes a qualidade de uma "[[lexico:r:relacao:start|relação]]" entre as ideias (fala-se da "evidência de uma [[lexico:o:operacao:start|operação]] [[lexico:m:matematica:start|matemática]]"). Desde [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], contrapõe-se a evidência (que é objetiva) à certeza (que é subjetiva e designa apenas uma [[lexico:i:impressao:start|impressão]] ou [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] subjetivo da verdade). A última requer o [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] do discurso e das demonstrações para tornar evidente a todos (objetivamente) [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] só objetivamente certo. Este [[lexico:t:termo:start|termo]] designa ou o claro mostrar-se, o revelar-se, o saltar à vista de um objeto (evidência objetiva), ou a correspondente "[[lexico:v:visao:start|visão]]" intelectual, [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]], [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] do objeto (evidência subjetiva). Como ambos os pontos de vista são unicamente dois aspectos da mesma relação cognoscitiva, quase não existe [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] em se preferir um ou [[lexico:o:outro:start|outro]] modo de [[lexico:e:expressao:start|expressão]]; distinguindo, da maneira indicada, uma evidência "objetiva" e outra "subjetiva", pretende-se apenas excluir qualquer [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]]. Note-se, contudo, que a expressão "evidência subjetiva" por vezes é empregada por outros também no sentido de evidência meramente [[lexico:a:aparente:start|aparente]], de puro sentimento de evidência ou de certeza. — A genuína evidência é imediata ou mediata, consoante o objeto se patenteia por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] ou por intermédio de outro [[lexico:e:ente:start|ente]]; no último caso, deve [[lexico:e:existir:start|existir]] e ser cognoscível uma conexão necessária entre este ente, [[lexico:m:meio:start|meio]] de conhecimento, e o objeto a ser conhecido. Se a necessidade de tal conexão é absoluta, a evidência será também absoluta, e excluirá incondicionalmente o [[lexico:e:erro:start|erro]], como a evidência imediata; se, pelo contrário, a necessidade de conexão é só hipotética ([[lexico:f:fisica:start|física]] ou [[lexico:m:moral:start|moral]]), a evidência é também só hipotética (física ou moral), excluindo normalmente o erro, mas não de maneira incondicional. Um [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] de evidência mediata e todavia absoluta é, p. ex., uma [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] matemática, na qual a conclusão se revela verdadeira, por se apoiar no fato de derivar, com absoluta necessidade, de proposições imediatamente claras. Um caso de evidência física é, por exemplo, a percepção [[lexico:s:sensorial:start|sensorial]] relativamente à [[lexico:r:realidade:start|realidade]] das coisas percebidas, subjacente com necessidade física (de [[lexico:l:lei-natural:start|lei natural]]) à dita percepção. Evidência moral é a que estriba num depoimento fidedigno sobre os fatos testemunhados. — A evidência é [[lexico:c:criterio:start|critério]] de verdade (crédito de verdade), ou seja, [[lexico:s:sinal:start|sinal]] de conhecimento da verdade (verdade do conhecimento). Como a evidência implica um mostrar-se do próprio ente, esta [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] significa, em última [[lexico:i:instancia:start|instância]], que a verdade tem sua [[lexico:m:medida:start|medida]] no ser das coisas. A evidência é O [[lexico:n:necessario:start|necessário]] [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] [[lexico:l:logico:start|lógico]] da certeza. Mas nem sempre é motivo [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] de [[lexico:a:assentimento:start|assentimento]] seguro: principalmente em [[lexico:m:materia:start|matéria]] de [[lexico:f:fe:start|fé]], importa [[lexico:t:ter:start|ter]] presente esta diferença entre fundamento e motivo. — De Vries. Em sentido [[lexico:g:geral:start|geral]], chama-se evidência a um [[lexico:s:saber:start|saber]] certo, indubitável e que não se pode submeter a revisão. Esta maneira de entender o termo acentua o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] subjectivo da evidência, mas parece que esta caraterística não é suficiente. Os escolásticos, por exemplo, estudaram mais dois tipos de evidência: a chamada evidência de verdade ou evidência objetiva, e a chamada evidência de credibilidade. A primeira é a que se apoia no próprio objeto que se oferece ao [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]]. A segunda apoia-se no próprio fato de ser aceite como crível sem nenhuma dúvida. Alguns negam que a evidência tenha um papel decisivo, especialmente nos processos formais de [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]]. Consideram que se evidência é a [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] direta da verdade de uma proposição por meio daquilo a que Descartes chamava uma “simples inspeção do espírito”, a evidência terá de se basear na intuição. Mas como a intuição não garante a [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] [[lexico:f:formal:start|formal]] de um [[lexico:s:sistema:start|sistema]], nota-se a [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] fundamental do conhecimento evidente. Outros autores assinalam, em contrapartida, que não pode iludir-se a evidência, pelo menos quando se apresentam os axiomas primitivos de um sistema. Entre os que insistiram mais no papel desempenhado pela evidência na estreita relação existente entre a evidência e a verdade, encontram-se os fenomenólogos, em [[lexico:p:particular:start|particular]] Husserl, nas [[lexico:i:investigacoes-logicas:start|Investigações Lógicas]], Husserl afirma que a evidência surge quando há uma [[lexico:a:adequacao:start|adequação]] completa entre o pensado e o [[lexico:d:dado:start|dado]]. No [[lexico:a:ato:start|ato]] da evidência, vive-se a plena concordância entre um e outro; a evidência é então “a [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] [[lexico:a:atual:start|atual]] da identificação adequada”. Esta evidência não é simplesmente da percepção. Não é [[lexico:s:superior:start|superior]] à percepção adequada da verdade; é a sua verificação mediante um ato peculiar. Para entender isso, deve ter-se em conta que Husserl se coloca num [[lexico:c:campo:start|campo]] que supõe prévio ao de qualquer [[lexico:a:atitude-natural:start|atitude natural]] e também prévio ao de todas as proposições científicas; os termos como cumprimento, efetuação, adequação, etc, não se referem à [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]] entre algo percebido e o que se diz sobre ele (em [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] científica ou linguagem corrente), mas à [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] fenomenológica de algo imediatamente dado, anterior a qualquer [[lexico:t:teoria:start|teoria]], construção, [[lexico:s:suposicao:start|suposição]], etc. Para Husserl, há várias classes de evidência: assertórica (chamada simplesmente evidência) e apodíctica (chamada intelecção). A evidência assertórica aplica-se ao individual e é inadequada; a apodíctica aplica-se às [[lexico:e:essencias:start|essências]] e é adequada. Na sua [[lexico:o:obra:start|obra]] [[lexico:e:experiencia:start|Experiência]] e Juízo, Husserl [[lexico:f:fala:start|fala]] dos graus do [[lexico:p:problema:start|problema]] da evidência e declara que cada [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de objeto possui a sua própria [[lexico:f:forma:start|forma]] de ser dado, isto é, a sua evidência. em [[lexico:f:filosofia-primeira:start|filosofia primeira]], Husserl fala de [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] tipos de evidência: [[lexico:n:natural:start|natural]], [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]], apodíctica e adequada. Mas que é o privilégio desta «[[lexico:i:interioridade:start|interioridade]]», [[lexico:n:nocao:start|noção]] vaga e desacreditada na sua acepção psicológica? Para conquistar o seu [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], a fenomenologia deve simultaneamente definir o seu modo de certeza. A [[lexico:b:bem:start|Bem]] dizer trata-se mesmo aí do [[lexico:p:principio:start|princípio]] metódico preliminar que Husserl caracteriza como evidência ou intuição. Para [[lexico:c:compreender:start|compreender]] o que é a evidência fenomenológica é preciso libertá-la dos equívocos derivados da sua proximidade com a «percepção interna». Se a consciência não tem interior, mas está toda no [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] do [[lexico:v:vivido:start|vivido]], não há dentro nem fora. A percepção interna, não designa uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de olhar lançado sobre si mesmo, mas uma diferença no modo de [[lexico:a:acesso:start|acesso]] à [[lexico:c:coisa:start|coisa]], na «consciência de». A este [[lexico:r:respeito:start|respeito]], pode-se distinguir duas formas fundamentais de consciência: uma que é simplesmente presuntiva, quer dizer, que é sempre uma [[lexico:o:orientacao:start|orientação]], mas uma orientação de algum modo vazia, que não encontra o seu objeto. E exemplo disso seria a [[lexico:c:criacao:start|criação]] puramente [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]] de fórmulas simbólicas ou o emprego habitual das [[lexico:p:palavras:start|palavras]]. Pelo contrário, a evidência encontra o seu objeto exatamente como ele é visado. A evidência será caracterizada como «a presença da própria coisa» ou ainda «a experiência vivida da verdade». Na sua concepção da evidência — que é preciso entender sempre fenomenologicamente no sentido de ato de consciência — Husserl elimina pois qualquer consideração de [[lexico:o:ordem:start|ordem]] afetiva. A evidência não é um sentimento de acompanhamento, mas é definida por uma [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] da consciência que «se preenche» na apresentação atual da coisa que ela visa. A evidência é, portanto, o [[lexico:c:comeco:start|começo]] do [[lexico:m:metodo:start|método]], do mesmo modo que é o seu [[lexico:f:fim:start|fim]]. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], não conhecemos, enquanto permanecermos comprometidos nas intenções presuntivas, as que, por exemplo, incitam o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] comum ou científico a «naturalizar» a consciência ou a procurar nas leis a [[lexico:c:causa:start|causa]] «[[lexico:r:real:start|real]]» dos factos. Começar pela evidência é desembaraçarmo-nos dos preconceitos inerentes a uma [[lexico:a:atitude:start|atitude]] que Husserl chamaria «natural» ou «inocente» a fim de tornar presente a «própria coisa» que se visa: real ou [[lexico:i:ideal:start|ideal]], individual ou geral, etc. Mas, por outro lado, a evidência é reportada a uma [[lexico:l:lei:start|lei]] fundamental da [[lexico:i:intencionalidade:start|intencionalidade]]; é ela que [[lexico:a:anima:start|anima]] a [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] fenomenológica por inteiro, que pode ser definida como uma orientação [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]] para a evidência, ou ainda a produção, na evidência, de todos os modos possíveis de consciência e correlativamente de tipos de objetos. «Assim, a evidência é um modo da intencionalidade [[lexico:u:universal:start|universal]], reportada à [[lexico:v:vida:start|vida]] inteira da consciência; graças a ela a vida da consciência tem uma estrutura teleológica universal, tem uma [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] para a ‘razão’ e mesmo uma [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] constante para ela.» (Logique formelle et logique transcendantale, p. 218.) A desconfiança tradicional do pensamento científico, em relação à evidência, nascida da [[lexico:s:substituicao:start|substituição]] das intuições pelo princípio da [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] (sistemas formais, axiomáticos), não pode prevalecer, segundo Husserl, contra esta nova [[lexico:f:funcao:start|função]] da evidência fenomenológica. Pelo contrário, pressupõe-a. Com efeito, não é senão numa correta [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]], na evidência, do seu domínio próprio, que a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] pode constituir-se como tal. Não há não evidente nos objetos da ciência senão se eles forem confrontados com evidências de outro tipo; [[lexico:c:como-se:start|como se]], por exemplo, se quisesse tratar um [[lexico:a:axioma:start|axioma]] ou uma lei como factos psíquicos. A evidência é «originária», quer dizer que apenas nela as coisas estão dadas (ela é dadora) e que não pode receber a sua legitimação de um outro princípio que não seja ela própria. Husserl definiu-a também como o princípio dos [[lexico:p:principios:start|princípios]]: «A intuição (sendo esta palavra substituída por ‘evidência’ sempre que quer insistir na sua propriedade de ser um ‘[[lexico:v:ver:start|ver]]’) dadora originária é uma [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de [[lexico:d:direito:start|direito]] para o conhecimento; tudo aquilo que se nos oferece na ‘intuição’ de maneira originária (por assim dizer, na sua realidade corporal) deve ser simplesmente recebido para que se dê mas sem nunca ultrapassar os limites nos quais se dá então» (Idées directrices pour une phénoménologie, p. 78). Ou ainda: «É somente vendo que posso [[lexico:p:por:start|pôr]] em evidência aquilo de que se trata verdadeiramente num ver; a explicitação da [[lexico:e:essencia:start|essência]] própria desse ver, devo efetuá-la vendo» (Logique, p. 216). «Aquilo de que se trata» são as «próprias coisas»; e as etapas sucessivas que percorre a fenomenologia, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], no método e, exemplarmente, na [[lexico:h:historia:start|história]] da obra de Husserl, são pontuadas pela apresentação das «próprias coisas» sempre novas em evidência que se encaminham para graus sempre mais radicais de [[lexico:o:originalidade:start|originalidade]]. O que não significa a [[lexico:r:refutacao:start|refutação]] das evidências primeiras, mas a sua [[lexico:i:integracao:start|integração]] nas estruturas mais complexas e que dão melhor conta do [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:c:concreto:start|concreto]] (o vivido) que elas organizam. Segundo este ponto de vista, a fenomenologia como ciência pode [[lexico:a:agora:start|agora]] ser abordada pela delimitação do seu objeto, operada na base do seu próprio método. [Schérer] ** Evidência e [[lexico:i:inevidencia:start|inevidência]].** Prescindindo aqui da [[lexico:d:discussao:start|discussão]], possivelmente complicada, a que daria [[lexico:l:lugar:start|lugar]] o levantamento do problema lógico da evidência, digamos simplesmente que a evidência é a presença integral do objeto diante de mim, na minha [[lexico:i:intuicao-intelectual:start|intuição intelectual]]. Entendo por presença integral este modo de [[lexico:e:estar:start|estar]] o objeto diante de mim, que consiste em oferecerão à minha intuição ele próprio — e não um substitutivo ou representante seu — e em toda sua integridade — sem faltar-lhe [[lexico:n:nada:start|nada]], som ser simples fragmento — e em total nudez, sem véus que ocultem sua essência interior e estrutura íntima. Quando tudo isto se cumprir, estará o objeto em presença integral diante de mim e, terei a intuição de sua evidência. Vejo o objeto, diante de mim, por dentro o por fora; conheço-o tal como é, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que não posso conceber como [[lexico:p:possivel:start|possível]] que o objeto não seja e não seja precisamente aquilo que é. Assim, quando penso: dois e dois são quatro — ou vejo que este papel é branco, tenho intuição da evidência desses objetos. Ao contrário, quando penso no [[lexico:d:dogma:start|dogma]] da Santíssima [[lexico:t:trindade:start|trindade]], creio e portanto sei que é [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]]; porém não tenho a intuição de sua evidência. Assentir ao objeto evidente ou do qual tenho intuição de evidência, parece, porém, um ato inevitável. Embora [[lexico:e:eu:start|eu]] não quisesse não poderia evitar de verificá-lo. Ser para mim evidente a intuição do objeto é, automaticamente, afirmálo; é pronunciar o juízo, é verificar o ato de conhecimento do objeto. Não intervém aqui a [[lexico:v:vontade:start|vontade]]. Eu não posso não afirmar o evidente, se verdadeiramente for evidente. Em troca, quando assinto a um objeto não evidente, teve que intervir necessariamente algo que, não sendo parte do objeto mesmo, tenha inclinado minha vontade a verificar o ato de assentimento. Ao colocar-me eu diante do objeto e intuir sua inevidência, esta me impele a não afirmar o objeto. Se, pois, apesar disto, afirmo o objeto, tem que ser porque algo alheio ao objeto mesmo e ao ato de afirmá-lo ou de negá-lo me inclina a isso. Exemplo: se levanto a cabeça e vejo diante de mim o meu amigo João, tenho intuição de evidência do objeto [[lexico:c:chamado:start|chamado]] meu amigo João; e verifico o ato de juízo consistente em afirmar que aqui está João. Porém, se João me diz que nosso amigo comum Pedro está doente, eu não tenho intuição de evidência de Pedro doente; não está diante de mim em presença integral o objeto: Pedro doente. Então, se apesar desta inevidência creio que, com efeito, Pedro está doente, é por algo que se tenha acrescentado à minha intuição atual da inevidência. Verificarei o [[lexico:a:ato-de-fe:start|ato de fé]] de acreditar que Pedro está enfermo porque me disse João. Este "porque me disse João" é o [[lexico:e:elemento:start|elemento]] novo que se acrescenta para inclinar-me a afirmar o objeto do qual não tenho intuição evidente. No ato de fé a afirmação do objeto não se fundamenta, pois, na evidência do próprio objeto — evidência inexistente — mas em outra coisa, alheia ao objeto e a mim. Esta outra coisa não move diretamente meu entendimento à afirmação do objeto, mas persuade minha vontade para que esta verifique o ato do entendimento de assentir ao objeto não evidente. Que coisa é essa que põe em [[lexico:m:movimento:start|movimento]] a vontade de assentir intelectualmente? Acabamos de insinuá-lo quando dissemos que o elemento novo, descoberto pela [[lexico:a:analise:start|análise]], está nesta [[lexico:f:frase:start|frase]] do nosso exemplo: "porque me disse João". O elemento novo é uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] que me diz e na qual eu confio. Se no ato de fé eu assinto a um objeto inevidente, como se fosse evidente, é porque a inevidência do objeto é compensada pela declaração de outra pessoa, à qual concedo crédito. Para que haja ato de fé é necessário, pois, que exista uma declaração ou uma [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] que parta de outra pessoa e chegue até mim. Essa pessoa e sua declaração ou revelação têm que possuir, porém, "[[lexico:a:autoridade:start|autoridade]]"; quer dizer, que deve haver [[lexico:m:motivos:start|motivos]] e razões extrínsecas e gerais que me impulsionem a acreditar aquilo que essa pessoa declara, embora isso não seja para mim evidente. Assim, eu acredito no meu amigo que me diz que Pedro está doente; porque meu amigo tem autoridade, pois vem precisamente da casa de Pedro. Eu acredito no astrônomo que me diz que às 12:15 haverá um [[lexico:e:eclipse:start|eclipse]] do [[lexico:s:sol:start|sol]]; porque o astrônomo tem autoridade em questões de eclipses. No ato de fé temos, pois, um assentimento do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] a um objeto inevidente, assentimento que vem impulsionado pela vontade, em vista da declaração de uma pessoa revestida da autoridade. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}