===== EUTÍFRON ===== No Eutífron, ou da [[lexico:p:piedade:start|piedade]], [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]], [[lexico:c:chamado:start|chamado]] ao tribunal, encontra Eutífron que levou o pai perante a [[lexico:j:justica:start|justiça]] porque este deixou morrer na prisão um [[lexico:e:escravo:start|escravo]] assassino; para justificar o seu [[lexico:a:ato:start|ato]], que provocou a indignação dos seus pais, Eutífron cita o [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] de [[lexico:z:zeus:start|Zeus]] que mutilou o seu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] pai porque este devorava os filhos. Mas Sócrates [[lexico:n:nao:start|não]] se contenta com exemplos de piedade, [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] ao jovem [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] que este entende por «piedoso» e este responde-lhe: «Aquilo que agrada aos [[lexico:d:deuses:start|deuses]].» Mas Sócrates [[lexico:n:nota:start|nota]] que os deuses estão em desacordo perpétuo e que se a [[lexico:c:conduta:start|conduta]] de Eutífron podia [[lexico:t:ter:start|ter]] o [[lexico:a:assentimento:start|assentimento]] de Zeus, não teria com [[lexico:c:certeza:start|certeza]] o de Cronos. O [[lexico:p:problema:start|problema]] está portanto em [[lexico:s:saber:start|saber]] se uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] é piedosa se for amada dos deuses ou se é amada dos deuses porque é piedosa. Assim, não se valida um ato refugiando-se preguiçosamente por detrás de ordens divinas, não é fora dele mas sim nele que devemos ir buscar aquilo que fundamenta o seu [[lexico:v:valor:start|valor]]. Primeiramente, Eutífron apresenta seu caso como uma [[lexico:i:ilustracao:start|ilustração]] da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] piedoso. Sócrates não tem dificuldade em mostrar que esta não é uma [[lexico:d:definicao:start|definição]], mas um exemplo. Foi então que Eutífron propôs uma segunda definição: “O que é caro aos deuses é pio, enquanto o que não é caro a eles é ímpio. A [[lexico:p:principio:start|princípio]], Sócrates leva Eutífron a admitir que sua definição deve [[lexico:s:ser:start|ser]] válida para "todos" os deuses ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]]; em seguida, ele se lança a uma [[lexico:r:refutacao:start|refutação]] particularmente sutil da segunda formulação que resulta dessa [[lexico:p:precisao:start|precisão]] e que implica a [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] dos piedosos em [[lexico:r:relacao:start|relação]] aos deuses. A piedade existe [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesma e seu conteúdo não depende da [[lexico:b:boa-vontade:start|boa vontade]] dos deuses. Em [[lexico:s:suma:start|suma]], existe uma "[[lexico:f:forma:start|forma]]" de piedade - seja esta ou não uma primeira alusão à doutrina das formas inteligíveis, como alguns comentaristas acreditam. Depois de um interlúdio, Sócrates se oferece para ajudar Eutífron explorando a [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] de que "tudo o que é piedoso é necessariamente justo". É [[lexico:n:necessario:start|necessário]] também determinar em que consiste a justiça que corresponde à piedade. Eutífron responde que se trata da [[lexico:c:cura:start|cura]] (therapeia) devida aos deuses. É então que Sócrates se propõe a definir [[lexico:e:esse:start|esse]] cuidado como um serviço (hyperetike). Mas, no [[lexico:g:grego:start|grego]] antigo, o [[lexico:t:termo:start|termo]] contém uma [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]], como é o caso do francês, conforme seja utilizado na [[lexico:e:expressao:start|expressão]] "fazer o serviço" ou na expressão "prestar serviço"; no primeiro caso, o serviço visa apenas agradar, enquanto no segundo ajuda a produzir um resultado. Ora, Eutífron entende o termo no primeiro [[lexico:s:sentido:start|sentido]], enquanto Sócrates o entende no segundo. Constrangido e chocado com esta [[lexico:m:ma-fe:start|má fé]], Euthyphron propõe uma nova definição: “a piedade consiste em saber dizer e fazer o que agrada aos deuses, nas orações e nos sacrifícios”. Mas a última definição, como Sócrates aponta, é apenas uma nova formulação da segunda que já foi refutada. [BRISSON, Luc (dir). Platon. Oeuvres complètes. Paris: Flammarion, 2012, p. 395-396] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}