===== ÉTICA SOCRÁTICA ===== A [[lexico:t:tese:start|tese]] socrática que apresentamos implicava duas consequências, que foram consideradas muito mais como "paradoxos", mas que são muito importantes e devem [[lexico:s:ser:start|ser]] oportunamente clarificadas: 1) A [[lexico:v:virtude:start|virtude]] (cada uma e todas as [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]], [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]], [[lexico:j:justica:start|justiça]], [[lexico:f:fortaleza:start|fortaleza]], [[lexico:t:temperanca:start|temperança]]) é [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] ([[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]) e o [[lexico:v:vicio:start|vício]] (cada um e todos os vícios) é [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]]. 2) Ninguém peca voluntariamente: [[lexico:q:quem:start|quem]] faz o [[lexico:m:mal:start|mal]], fá-lo por ignorância do [[lexico:b:bem:start|Bem]]. Essas duas proposições resumem tudo o que foi denominado "[[lexico:i:intelectualismo:start|intelectualismo]] [[lexico:s:socratico:start|socrático]]", enquanto reduzem o bem [[lexico:m:moral:start|moral]] a um [[lexico:d:dado:start|dado]] de conhecimento, de [[lexico:m:modo:start|modo]] a considerar [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] conhecer o bem e [[lexico:n:nao:start|não]] fazê-lo. O intelectualismo socrático influenciou [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] dos gregos, a [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de tornar-se quase um mínimo denominador comum de todos os sistemas, seja na [[lexico:e:epoca:start|época]] clássica, seja na época helenística. Entretanto, malgrado o seu excesso, as duas proposições enunciadas contêm algumas instâncias muito importantes. 1) Em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], cabe destacar a forte carga sintética da primeira [[lexico:p:proposicao:start|proposição]]. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], a [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] corrente entre os gregos antes de [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]] (inclusive a dos [[lexico:s:sofistas:start|sofistas]], que, no entanto, pretendiam ser "mestres da virtude") considerava as diversas virtudes como uma [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] (uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] é a "justiça", outra a "[[lexico:s:santidade:start|santidade]]", outra a "[[lexico:p:prudencia:start|prudência]]", outra a "temperança", outra a "sabedoria"), mas da qual não sabiam captar o [[lexico:n:nexo:start|nexo]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]], ou seja, aquele algo que faz com que as diversas virtudes sejam uma [[lexico:u:unidade:start|unidade]] (algo que faça precisamente com que todas e cada uma delas sejam "virtudes"). [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, todos viam as diversas virtudes como [[lexico:c:coisas:start|coisas]] fundadas nos hábitos, no [[lexico:c:costume:start|costume]] e nas convenções aceitas pela [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]]. Sócrates, no entanto, tenta submeter a [[lexico:v:vida:start|vida]] humana e os seus valores ao domínio da [[lexico:r:razao:start|razão]] (assim como os naturalistas haviam tentado submeter o cosmos e suas manifestações ao domínio da razão). E como, para ele, a própria [[lexico:n:natureza:start|natureza]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] é a sua [[lexico:a:alma:start|alma]], ou seja, a razão, e as virtudes são aquilo que aperfeiçoa e concretiza plenamente a natureza do homem, ou seja, a razão, então é evidente que as virtudes revelam-se como uma [[lexico:f:forma:start|forma]] de ciência e de conhecimento, precisamente porque são a ciência e o conhecimento que aperfeiçoam a alma e a razão, como já dissemos. 2) Mais complexas são as razões que estão na base do segundo [[lexico:p:paradoxo:start|paradoxo]]. Sócrates, porém, viu muito bem que o homem, por sua natureza, procura sempre o seu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] bem e que, quando faz o mal, na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] não o faz porque se trate do mal, mas porque daí espera extrair um bem. Dizer que o mal é "involuntário" significa que o homem se engana ao esperar um bem dele e que, na realidade, está cometendo um [[lexico:e:erro:start|erro]] de [[lexico:c:calculo:start|cálculo]] e, portanto, se enganando. Ou seja, em última [[lexico:a:analise:start|análise]], é vítima de "ignorância". Ora, Sócrates tem perfeitamente razão quando diz que o conhecimento é [[lexico:c:condicao:start|condição]] necessária para fazer o bem (porque, se não conhecemos o bem, não podemos fazê-lo), mas está enganado ao considerar que, além de condição necessária, ela também é condição suficiente. Em [[lexico:s:suma:start|suma]], Sócrates cai numa [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]]. Com efeito, para fazer o bem também é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] o concurso da "[[lexico:v:vontade:start|vontade]]". Mas os filósofos gregos não detiveram sua [[lexico:a:atencao:start|atenção]] na "vontade", que iria se tornar central e essencial na [[lexico:e:etica:start|ética]] dos cristãos. Para Sócrates, em conclusão, é impossível dizer "vejo e aprovo o melhor, mas no agir me atenho ao pior", porque quem vê o melhor necessariamente também o faz. Em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], para Sócrates, como para quase todos os filósofos gregos, o [[lexico:p:pecado:start|pecado]] se reduz a um "erro de cálculo", a um "erro de razão", precisamente à "ignorância" do [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] bem. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}