===== ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO ===== Tanto no seu grande tratado [[lexico:e:economia|economia]] e [[lexico:s:sociedade|sociedade]] (basta [[lexico:v:ver|ver]] o capítulo "Tipos de [[lexico:c:comunidade|comunidade]] religiosa") como nos Escritos de [[lexico:s:sociologia|sociologia]] da [[lexico:r:religiao|religião]], [[lexico:w:weber|Weber]] estudou a relevância [[lexico:s:social|social]] das formas religiosas de [[lexico:v:vida|vida]]. O [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida da [[lexico:h:historia|história]] religiosa da [[lexico:h:humanidade|humanidade]] é um [[lexico:m:mundo|mundo]] repleto do [[lexico:s:sagrado|sagrado]] e, em nossa [[lexico:e:epoca|época]], o ponto de partida é aquilo que Weber chama de [[lexico:d:desencantamento-do-mundo|desencantamento do mundo]] (Entzauberung der Welt). Como comenta Raymond [[lexico:a:aron|Aron]], "O mundo no qual o capitalista vive, no qual vivemos todos nós, soviéticos e ocidentais, é feito de [[lexico:m:materia|matéria]] ou de seres à [[lexico:d:disposicao|disposição]] dos homens, destinados a serem utilizados, transformados, consumidos e desprovidos de toda [[lexico:s:seducao|sedução]] carismática". Essencialmente, o que tipifica a [[lexico:c:civilizacao|civilização]] contemporânea, na [[lexico:o:opiniao|opinião]] de Weber, é precisamente o desencanto do mundo: "A [[lexico:c:ciencia|ciência]] nos faz ver na [[lexico:r:realidade|realidade]] externa unicamente forças cegas, que podemos dispor a nosso serviço, mas [[lexico:n:nao|não]] pode fazer sobreviver [[lexico:n:nada|nada]] dos mitos e da divindade com que o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] dos primitivos populava o [[lexico:u:universo|universo]]. Nesse mundo desprovido de encantos, as sociedades humanas evoluem para uma organização mais [[lexico:r:racional|racional]] e sempre mais burocrática". Não podemos nos deter aqui nos interessantíssimos problemas levantados no grande tratado Economia e sociedade. Entretanto, é obrigatório pelo menos acenar ao famoso livro de Weber A [[lexico:e:etica-protestante-e-o-espirito-do-capitalismo|Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo]], de 1905. Weber define o capitalismo como a [[lexico:e:existencia|existência]] de empresas que têm como [[lexico:o:objetivo|objetivo]] o máximo lucro a atingir através da organização racional do [[lexico:t:trabalho|trabalho]]. A [[lexico:c:caracteristica|característica]] distinta do capitalismo é a [[lexico:u:uniao|união]] da [[lexico:v:vontade|vontade]] de lucro com a [[lexico:d:disciplina|disciplina]] racional. O auri sacra fames encontra-se mais ou menos em todas as sociedades, mas o que talvez só tenha acontecido uma única vez é a satisfação desse [[lexico:d:desejo|desejo]] não pela conquista, a aventura ou a [[lexico:e:especulacao|especulação]], mas com a disciplina e a ciência. Uma empresa capitalista visa à acumulação indefinida recorrendo à organização burocrática (que, ademais, sustenta Weber, não pode deixar de se desenvolver na [[lexico:s:sociedade-moderna|sociedade moderna]], qualquer seja a [[lexico:f:forma|forma]] da [[lexico:p:propriedade|propriedade]] dos meios de produção). Weber está persuadido de que o capitalismo [[lexico:m:moderno|moderno]] deve a sua [[lexico:f:forca|força]] propulsora à [[lexico:e:etica|ética]] calvinista. A concepção calvinista em [[lexico:q:questao|questão]] é a que se pode encontrar no [[lexico:t:texto|texto]] da Confissão de Westminster, de 1647, resumida por Weber nos seguintes cinco pontos: 1) Existe um [[lexico:d:deus|Deus]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]] e [[lexico:t:transcendente|transcendente]], que criou o mundo e o governa, mas que o [[lexico:e:espirito|espírito]] [[lexico:f:finito|finito]] dos homens não pode captar. 2) [[lexico:e:esse|esse]] Deus, onipotente e misterioso, predestinou cada um de nós à [[lexico:s:salvacao|salvação]] ou à danação, sem que, com nossas obras, possamos modificar um decreto [[lexico:d:divino|divino]] já estabelecido. 3) Deus criou o mundo para a sua [[lexico:g:gloria|glória]]. 4) Esteja destinado à salvação ou à danação, o [[lexico:h:homem|homem]] tem o [[lexico:d:dever|dever]] de trabalhar pela glória de Deus e [[lexico:c:criar|criar]] o [[lexico:r:reino|reino]] de Deus sobre esta [[lexico:t:terra|Terra]]. 5) As [[lexico:c:coisas|coisas]] terrenas, a [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]] e a [[lexico:c:carne|carne]] pertencem ao mundo do [[lexico:p:pecado|pecado]] e da [[lexico:m:morte|morte]]; a salvação não pode [[lexico:s:ser|ser]] para o homem senão [[lexico:d:dom|dom]] totalmente gratuito da [[lexico:g:graca|graça]] divina. Esses diferentes [[lexico:e:elementos|elementos]] podem-se encontrar dispersos em outras concepções religiosas, mas a combinação de tais elementos, precisa Weber, é original e única, com consequências verdadeiramente de grande importância. Antes de mais nada, encontra aqui sua conclusão aquele grande [[lexico:p:processo|processo]] histórico-religioso de eliminação do [[lexico:e:elemento|elemento]] mágico do mundo (Entzauberung), processo que se iniciou com as profecias judaicas e prosseguiu com o pensamento [[lexico:g:grego|grego]]. Não há [[lexico:c:comunicacao|comunicação]] entre o espírito finito e o espírito [[lexico:i:infinito|infinito]] de Deus. Em segundo [[lexico:l:lugar|lugar]], a ética calvinista está ligada a uma concepção anti-ritualista que leva a [[lexico:c:consciencia|consciência]] ao [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] de uma [[lexico:o:ordem|ordem]] [[lexico:n:natural|natural]] que a ciência pode e deve explorar (R. Aron). Ademais, há o [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:p:predestinacao|predestinação]]. Para os calvinistas, "a certitudo salutis, no [[lexico:s:sentido|sentido]] do reconhecimento do [[lexico:e:estado|Estado]] de graça, devia assumir importância absolutamente predominante. Em toda [[lexico:p:parte|parte]] onde se afirmou a doutrina da predestinação apareceu o problema de [[lexico:s:saber|saber]] se havia sinais certos pelos quais se pudesse reconhecer a pertença aos electi". Pois [[lexico:b:bem|Bem]], os calvinistas viram o [[lexico:s:sucesso|sucesso]] [[lexico:m:mundano|mundano]] na própria profissão o [[lexico:s:sinal|sinal]] da [[lexico:c:certeza|certeza]] da salvação. Essencialmente, as seitas calvinistas acabaram por encontrar no sucesso [[lexico:t:temporal|temporal]], sobretudo no sucesso econômico, a [[lexico:p:prova|prova]] da eleição divina. Por outros termos, o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] é impelido a trabalhar para [[lexico:s:superar|superar]] a [[lexico:a:angustia|angústia]] em que é mantido pela incerteza de sua salvação. Há mais, porém: a ética protestante ordena ao crente desconfiar dos [[lexico:b:bens|bens]] deste mundo e praticar [[lexico:c:conduta|conduta]] ascética. A essa altura, está claro que trabalhar racionalmente em [[lexico:f:funcao|função]] do lucro e não gastar o lucro, mas reinvesti-lo continuamente, constitui [[lexico:c:comportamento|comportamento]] inteiramente [[lexico:n:necessario|necessário]] ao [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] do capitalismo. Aí está, portanto, a [[lexico:a:afinidade|afinidade]] espiritual entre um comportamento protestante e o comportamento capitalista. Como dizia [[lexico:m:marx|Marx]] em [[lexico:o:o-capital|O Capital]]: "Acumulai, acumulai, dizem a [[lexico:l:lei|lei]] e os profetas". Pois bem, segundo Max Weber, a ética protestante fornece uma [[lexico:e:explicacao|explicação]] e uma [[lexico:j:justificacao|justificação]] para aquela estranha conduta— da qual não há [[lexico:e:exemplo|exemplo]] nas civilizações não ocidentais — caracterizada pela busca do máximo lucro, não tendo em vista o seu desfrute, e sim o seu reinvestimento.