===== ÉTICA A NICÔMACO ===== [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] platônico repousava sobre a [[lexico:u:uniao:start|união]] perfeitamente íntima entre a [[lexico:v:vida:start|vida]] intelectual, [[lexico:m:moral:start|moral]] e [[lexico:p:politica:start|política]]: a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], mediante o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], alcança a [[lexico:v:virtude:start|virtude]] e a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de governar a [[lexico:c:cidade:start|cidade]]. Tudo isso se dissocia em [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]. O [[lexico:b:bem:start|Bem]] moral ou bem [[lexico:p:pratico:start|prático]], isto é, aquele que o [[lexico:h:homem:start|homem]] pode alcançar por suas [[lexico:a:acoes:start|ações]], [[lexico:n:nada:start|nada]] tem a [[lexico:v:ver:start|ver]] com a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] do Bem que a [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] situava na cúspide dos seres. [Ética a Nicômaco, I, 6.] A moral [[lexico:n:nao:start|não]] é [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] exata, como as matemáticas, mas ensino que visa a tornar os homens melhores, e não apenas dar-lhes opiniões acertadas sobre as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que devem procurar ou evitar, mas, efetivamente, fazer com que as procurem ou evitem. "Quando se trata de virtude, não é suficiente [[lexico:s:saber:start|saber]]; é preciso possuí-la e praticá-la." Acerca do alcance desse preceito, o moralista não deve alimentar ilusões: [[lexico:s:simples:start|simples]] discursos não bastam para inspirar a [[lexico:b:bondade:start|bondade]]; serão frutíferos na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que se dirigem aos jovens de [[lexico:c:carater:start|caráter]] nobre e liberal, mas totalmente incapazes de inspirar a virtude ao vulgo. A moral, portanto, é ensino, mas ensino aristocrático. Não uma prédica para a [[lexico:m:multidao:start|multidão]], mas convite à [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] para os mais bem dotados; aos demais, bastarão o [[lexico:h:habito:start|hábito]] e medo do castigo. [Ibid., X, 9, 1179 b I sq.] E até parece que a virtude não pode desenvolver-se plenamente senão nas classes ricas. "É [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] ou muito difícil a um indigente praticar belas ações, porque há muitas coisas que não se podem fazer senão servindo-se de instrumentos, como os amigos, a [[lexico:r:riqueza:start|riqueza]], o poder [[lexico:p:politico:start|político]]." Um homem muito feio, de nascença humilde, solitário e sem filhos não poderia alcançar a [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] perfeita. [Ibid., I, 8, 1099 a 31] [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]] tão preciosas, como a [[lexico:c:coragem:start|coragem]], a liberalidade, a polidez, a [[lexico:j:justica:start|justiça]], não se podem exercer senão a um certo nível [[lexico:s:social:start|social]]. "O pobre não pode [[lexico:s:ser:start|ser]] magnífico, porque não tem com que gastar convenientemente; se tentar, é um tolo." [Ibid., IV, 2, 1122 b 25.] Essa [[lexico:e:etica:start|ética]] é a da burguesia endinheirada, decidida a aproveitar, sabiamente, os privilégios sociais. Aqui não se percebe, quer o [[lexico:s:sopro:start|sopro]] popular de um despertar de consciências, como em [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]], quer a [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] que animava [[lexico:p:platao:start|Platão]]. Ela está em plena [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] com o resto da filosofia: em ética, como em tudo, trata-se de definir um [[lexico:f:fim:start|fim]]; depois, determinar os meios adequados para atingir [[lexico:e:esse:start|esse]] fim. Tal fim é prático e [[lexico:h:humano:start|humano]], isto é, deve ser acessível ao homem por [[lexico:m:meio:start|meio]] das ações. Para conhecê-lo será preciso valer-se da [[lexico:o:observacao:start|observação]] e da [[lexico:i:inducao:start|indução]], ou seja, saber com que fins agem os homens. Não é duvidoso que todos procurem a felicidade; o [[lexico:p:prazer:start|prazer]], a ciência e a riqueza não são senão meios de atingir essa [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]], que não se subordina a qualquer outra. O fim, então, é a felicidade, mas felicidade humana, que nos seja acessível por via de nossas ações e dure a maior [[lexico:p:parte:start|parte]] de nossa vida. Mas importa saber que essa felicidade orientadora da [[lexico:a:acao:start|ação]] como um fim não é parte ou resultado da ação (do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] que a [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] intelectual não é resultado do [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] mental, embora oriente esse trabalho). A felicidade situa-se em outra [[lexico:c:categoria:start|categoria]], diferente da ação: a felicidade é um [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] e um [[lexico:a:ato:start|ato]]; a ação é relativa a um fim. (Ética, I, 9, início.) Chega a nós como dádiva dos [[lexico:d:deuses:start|deuses]] e recompensa de nossa virtude; é [[lexico:p:principio:start|princípio]] de [[lexico:b:bens:start|bens]] e possui algo de [[lexico:d:divino:start|divino]]. (Ibid., I, 12, final) Ademais, a [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] [[lexico:u:universal:start|universal]] dos homens considera a felicidade como a [[lexico:c:coisa:start|coisa]] mais preciosa entre todas, mas não como coisa louvável. É de se supor que Aristóteles lutasse contra esse [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de [[lexico:e:eudemonismo:start|eudemonismo]] [etimologicamente, em grego, significa o demônio, sinônimo de felicidade; é o espírito orientado para o homem. O possuidor do daimon era detentor de valiosos bens e feliz, nesse sentido.], tão diferente do seu, que prevalece após ele e , une o que queria diferençar antes de tudo: o louvável e o precioso, a ação e o fim. (Ibid., I, 12) É uma [[lexico:r:regra:start|regra]] universal que um ser não alcança seu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] fim se não preenche a [[lexico:f:funcao:start|função]] que lhe é própria; a virtude, para o ser, consiste no excelente cumprimento dessa função. A [[lexico:n:nocao:start|noção]] de virtude, em [[lexico:g:geral:start|geral]], ultrapassa de muito a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] da moral. Pode-se [[lexico:f:falar:start|falar]] da virtude de um ser vivo e mesmo de um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] inanimado ou de um [[lexico:u:utensilio:start|utensílio]] fabricado. A [[lexico:p:palavra:start|palavra]] não sugere [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] especificamente moral. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, a virtude de um ser é algo [[lexico:a:adquirido:start|adquirido]] que se acrescenta à [[lexico:e:essencia:start|essência]]. Não há, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], na essência, [[lexico:q:questao:start|questão]] de mais ou de menos, e. nesse [[lexico:p:particular:start|particular]], Aristóteles é irredutível: ou se é homem ou não se é; não se pode ser mais ou menos homem. Contudo, da essência de um ser não se deduzem sempre todas suas qualidades, com a mesma [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] com que as propriedades de um [[lexico:t:triangulo:start|triângulo]] se deduzem de sua essência. Há graus de [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] diferentes para um ser da mesma essência; há instrumentos de boa e má qualidade, sem que a boa ou má qualidade façam parte da essência. Na categoria de qualidade, portanto, encontra-se a virtude, ou, mais exatamente, entre as qualidades adquiridas (Ética, I,13; II. 1). Apliquem-se esses [[lexico:p:principios:start|princípios]] ao homem: sua função própria e distintiva é a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] conforme á [[lexico:r:razao:start|razão]]; toda atividade boa ou má é [[lexico:r:racional:start|racional]]; a virtude humana consiste na perfeição ou [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] dessa atividade. Realizar o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] dessa [[lexico:f:formula:start|fórmula]], tal é o fim da [[lexico:t:teoria:start|teoria]] das virtudes; esse sentido é extraordinariamente [[lexico:c:complexo:start|complexo]] e rico, se se deseja vê-lo realizado em todos os detalhes particulares da vida humana. E é isso, precisamente, o que [[lexico:f:falta:start|falta]], [[lexico:d:dado:start|dado]] que a ética deve ensinar como agir e, consequentemente, descer a todos os casos particulares. "Em [[lexico:m:materia:start|matéria]] de ação, as noções gerais são vazias e as particularidades estão mais próximas da [[lexico:v:verdade:start|verdade]], porque as ações incidem sobre o particular" (III, 7, início). A ética é, pois, uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:d:descricao:start|descrição]] muito concreta da maneira pela qual a razão pode penetrar e dirigir toda a atividade humana. Nenhum pormenor da vida passional e de [[lexico:r:relacoes:start|relações]] sociais pode ser omitido, porque é graças a esse pormenor que a razão cobra sentido. A ética orienta-se naturalmente para a descrição das paixões, como, pouco mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]], a [[lexico:c:comedia:start|comédia]] nova de Menandro (342-290) substitui a [[lexico:v:violencia:start|violência]] das diatribes de Aristófanes pela delicada [[lexico:a:analise:start|análise]] dos [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]]. Essas análises emprestam-todo [[lexico:v:valor:start|valor]] à [[lexico:e:etica-a-nicomaco:start|Ética a Nicômaco]]. Não se trata de regras gerais, mas de investigar "quando se trata de agir, em que casos, a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] de [[lexico:q:quem:start|quem]], em vista do que e de que maneira" (II,7). A virtude é uma [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] estável de que se origina a ação virtuosa. Essa disposição não é [[lexico:n:natural:start|natural]] e inata, uma vez que o homem nasce com inclinação para certas paixões, como, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], a cólera ou o medo. Entretanto, essas disposições não constituem [[lexico:v:vicio:start|vício]] ou virtude, e por elas não deve o homem ser louvado Ou censurado. A virtude é uma disposição adquirida, e se conquista pela [[lexico:v:vontade:start|vontade]], para ser louvada. Não existe, realmente, senão quando se torna hábito, isto é, quando, embora adquirida, provoca as ações com a mesma facilidade de uma disposição inata. O homem não é verdadeiramente justo a não ser quando realiza uma ação justa, não apenas sem desgosto, mas com prazer. Esse hábito, provindo da vontade, torna-se, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], mais firme. Tudo que existe de virtude no homem promana de sua eleição voluntária. Mas em que consiste essa [[lexico:e:escolha:start|escolha]], para ser racional e virtuosa? Sobre esse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] [[lexico:c:capital:start|capital]], Aristóteles (é a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] de seu [[lexico:m:metodo:start|método]] de moral) faz apelo, de uma parte, à [[lexico:a:analogia:start|analogia]]; de outra, á opinião comum (II, 6). De início, a analogia do ato virtuoso com as obras da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e da [[lexico:a:arte:start|arte]]: tais obras visam, antes de tudo, a evitar excessos, o muito ou o muito pouco. Os médicos sabem que a saúde ou excelência do [[lexico:c:corpo:start|corpo]] é a justa proporção de forças ativas contrárias, quente e frio, que influem sobre o corpo. O escultor e o arquiteto tendem, também, para certas proporções justas. A natureza e a arte encontram sua excelência quando alcançam o [[lexico:t:termo:start|termo]] médio entre dois excessos. A [[lexico:c:condicao:start|condição]] material desse [[lexico:i:ideal:start|ideal]] é que operem sobre um desses contínuos que comportam o mais e o menos, um desses múltiplos infinitos de que [[lexico:f:fala:start|fala]] Platão, no [[lexico:f:filebo:start|Filebo]], onde se reúnem o quente e o frio, o grave e o agudo. Ora, essa condição realiza-se na vida moral, em que a vontade trabalha sobre ações e paixões que envolvem a falta e o excesso, o mais e o menos, e se apresentam por pares, como temor e audácia, [[lexico:d:desejo:start|desejo]] e aversão, e onde o [[lexico:a:aumento:start|aumento]] de um dos termos é [[lexico:d:diminuicao:start|diminuição]] de [[lexico:o:outro:start|outro]]. A virtude consistirá em alcançar o justo meio entre esses contínuos. Incide, também, a opinião comum de que existe uma única maneira de ser [[lexico:b:bom:start|Bom]] e mil maneiras de ser mau. Entretanto, o [[lexico:p:problema:start|problema]] do meio-termo apresenta-se, igualmente, com características particulares, devidas ao objeto da moral: não se trata, com o fim de encontrar o objeto da virtude, de definir de modo preciso e absoluto o meio-termo, [[lexico:c:como-se:start|como se]] define a média [[lexico:a:aritmetica:start|aritmética]] entre dois extremos. A moral não comporta [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] rigor; ela se dirige a homens naturalmente inclinados a paixões opostas, de qualquer [[lexico:g:grau:start|grau]] ou natureza. Tende a proporcionar a esses homens uma [[lexico:d:definicao:start|definição]] teórica da virtude mais do que neles produzir a virtude. É claro que não se produzirá a coragem da mesma maneira que no tímido, a quem é preciso excitar, e no audacioso, que é preciso reprimir. Segundo os casos, o meio-termo estará mais [[lexico:p:proximo:start|próximo]] de um ou de outro [[lexico:e:extremo:start|extremo]]. E será meio-termo em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a nós e não segundo a própria coisa. A [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] do meio-termo, inseparável dos processos tendentes a produzi-lo, é, por conseguinte, uma questão de [[lexico:t:tato:start|tato]] e de [[lexico:p:prudencia:start|prudência]]. Acrescente-se que numa média aritmética, o meio é posterior aos extremos e por eles determinado. Na vida moral, os extremos, pelo menos idealmente, são posteriores ao meio-termo, e não são extremos senão relativamente a ele: o imperfeito não se concebe como tal senão em relação ao [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]]; e, em certo sentido, o meio-termo é o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] extremo, isto é, o mais alto grau de perfeição (II, 6). A virtude é, em resumo, uma disposição adquirida (exis) pela vontade, que consiste em um meio-termo [[lexico:r:relativo:start|relativo]] a nós, definido em razão, isto é, tal como um homem de tato pode defini-lo. [Ética, II, 6, 1106 b 36.] É um quadro muito geral que virá preencher a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] moral com tantos pares de paixões opostas quanto de virtudes, e outros tantos pares de vícios opostos entre si e a virtude. Relativamente ao temor e à audácia, por exemplo, há uma virtude, que é a coragem, e dois vícios, que são a temeridade e a covardia. Em relação à busca do prazer, a virtude é a [[lexico:t:temperanca:start|temperança]], e os vícios opostos são a intemperança e a insensibilidade. Da mesma [[lexico:f:forma:start|forma]], acontece quando deparamos com um par de ações opostas entre si: quanto ao [[lexico:d:dom:start|dom]] de riquezas, a virtude é a liberalidade; os vícios opostos são, de uma parte, a mesquinhez, de outra, a prodigalidade (II, 7). Tais exemplos nos induzem a ver como a virtude é o meio-termo totalmente relativo à nossa [[lexico:c:condicao-humana:start|condição humana]] e à nossa condição social. Assim, a liberalidade, virtude dos homens privados de [[lexico:f:fortuna:start|fortuna]] média, é muito diferente da [[lexico:m:magnificencia:start|magnificência]], virtude do rico magistrado benfeitor de sua cidade: [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] generosidade num, será mesquinharia em outro. Conquanto Aristóteles defina a virtude por uma disposição voluntária, longe está de nela incluir qualquer coisa como a intuição. Tal disposição não é vista senão como [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] à ação; e estando as condições materiais da ação ausentes, a virtude deixa de [[lexico:t:ter:start|ter]] sentido. "O liberal tem necessidade de riqueza para agir com liberalidade: e o justo, analogamente, necessita de intercâmbios sociais, porque as intenções são invisíveis, e o injusto se vangloria, também, de sua vontade de justiça." As virtudes humanas são inseparáveis do meio social, virtudes políticas, que os deuses, por exemplo, jamais possuem. "Como poderiam os deuses ser justos? Seria o caso de, sem tentarmos rir, vê-los estabelecendo contratos ou restituindo depósito?" (X, 8, 1178 a 24 e 1178 b 28) Disso surge sua análise da vontade (III, 1 a 5); ela é considerada não em si mesma, mas em suas relações com a ação que produz. É. antes de tudo, uma questão de [[lexico:p:pedagogia:start|pedagogia]] social; trata-se de saber quais são as ações que o legislador poderá, utilmente, favorecer com seus elogios ou impedir com suas censuras; uma condição é que sejam voluntárias. Tal condição concerne a suas diversas [[lexico:c:causas:start|causas]], isto é, a seu princípio originário, fim e meio. Uma ação é voluntária (ekousios) no sentido mais geral, quando seu ponto de partida é anterior ao ser que a cumpre. Aquilo que torna o ato involuntário é um [[lexico:i:imperativo:start|imperativo]] material, como se o vento nos arrastasse, ou uma coerção moral, como a do tirano (mas aqui não há qualquer regra precisa para discernir o ponto em que a ameaça torna o ato involuntário), ou. ainda, por [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]], não a ignorância do bem e do [[lexico:m:mal:start|mal]], mas a das circunstâncias particulares, cujo conhecimento teria modificado nossa ação. Em sentido geral, a ação voluntária não é, de modo algum, própria do homem, mas se encontra também no [[lexico:a:animal:start|animal]]. O ato propriamente humano é feito por eleição reflexiva ([[lexico:p:proairesis:start|proairesis]]), ou seja, por escolha precedida de [[lexico:d:deliberacao:start|deliberação]] ([[lexico:b:bouleusis:start|bouleusis]]). A deliberação é a [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] pertinente não ao fim do ato, mas aos diversos meios possíveis de atingir esse fim, e não tem [[lexico:l:lugar:start|lugar]] a não ser onde haja [[lexico:i:indeterminacao:start|indeterminação]] e [[lexico:c:contingencia:start|contingência]]. É. no domínio prático, o correspondente do pensamento [[lexico:d:discursivo:start|discursivo]] no domínio [[lexico:t:teorico:start|teórico]]; constrói silogismos (v. [[lexico:s:silogismo:start|silogismo]]) práticos, cuja [[lexico:p:premissa:start|premissa]] maior implica um preceito e um fim (as carnes leves são saudáveis); a premissa menor, uma constatação de [[lexico:f:fato:start|fato]] através da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] (esta [[lexico:c:carne:start|carne]] é leve); a conclusão, a [[lexico:m:maxima:start|máxima]] prática que leva imediatamente à ação ou à [[lexico:a:abstencao:start|abstenção]]. Uma máxima geral, sem o conhecimento particular dos fatos, jamais acarretaria a ação. É privilégio da "[[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] prática" descobrir esses fatos particulares expressos nas premissas menores (aqui, a percepção sensível é realmente inteligência), ao passo que a "inteligência teórica" conhece os [[lexico:p:primeiros-principios:start|primeiros princípios]]. (VI, 11, 1148 a 35) Mas a deliberação é sempre relativa a um fim; a vontade do fim (bouleusis), muito diferente da deliberação que dela depende, é a que visa ao bem, ou, pelo menos, ao que nos parece ser o bem. Essa análise da vontade tem por [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] de duas espécies de virtudes: as [[lexico:v:virtudes-eticas:start|virtudes éticas]], que estão em relação com o caráter, isto é, com nossas disposições naturais para tal ou qual [[lexico:p:paixao:start|paixão]], visando a reduzi-las a seus justos limites, e as virtudes dianoéticas ou virtudes da reflexão, que são qualidades do pensamento prático conducente à ação. Impossível confundir as primeiras com as segundas, ou, em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], a [[lexico:f:forca:start|força]] de vontade que domina as paixões com a clareza da inteligência que busca o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] reto. A [[lexico:u:unidade:start|unidade]] que Sócrates parece haver tentado estabelecer entre o domínio de si e a reflexão fica destruída. A parte [[lexico:i:irracional:start|irracional]] da [[lexico:a:alma:start|alma]] permanece como [[lexico:e:elemento:start|elemento]] irredutível que a razão pode governar, mas não absorver. As virtudes éticas, coragem ou justiça, são, em nós, quase inatas; as virtudes dianoéticas, como a prudência, não se adquirem a não ser através de longa experiência. Impossível também confundir as virtudes dianoéticas com a ciência ou a [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]]. Essas qualidades são a prudência ([[lexico:p:phronesis:start|phronesis]]), que consiste em deliberar bem, isto é, procurar pela reflexão o melhor meio [[lexico:p:possivel:start|possível]] de alcançar um fim e em prescrever esse meio; a penetração (synesis), que consiste em saber julgar corretamente os outros na escolha que fazem; e o [[lexico:b:bom-senso:start|bom senso]], [[lexico:f:faculdade-de-julgar:start|faculdade de julgar]] corretamente o que convém. Ora, enquanto a ciência apenas se ocupa do universal e do [[lexico:n:necessario:start|necessário]], toda a reflexão prática, como se viu, refere-se unicamente a circunstâncias particulares e contingentes. E o conhecimento complexo de meios diversos de alcançar nossos fins não poderia conduzir a verdades [[lexico:u:universais:start|universais]] (livro VI). Essa mesma tendência em separar o que unia o pensamento de Sócrates e Platão volta a manifestar-se na doutrina da justiça (livro V). Em Platão, a justiça é o sustentáculo da unidade das virtudes; em Aristóteles, torna-se virtude à parte. Não que ele abandone inteiramente a ideia de que a justiça é virtude integral. Com efeito, o justo é o que a [[lexico:l:lei:start|lei]] prescreve; e a lei, sobretudo a que foi concebida por Platão, contém grande [[lexico:n:numero:start|número]] de prescrições morais feitas para encorajar a virtude. Ela ordena a temperança, a coragem, a doçura. Mas convém acrescentar que se a legislação prescreve os atos virtuosos, visa menos à perfeição do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] do que à da [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]]. Sob essa forma muito geral, a justiça não envolve senão um [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] da vida morai: o de nossas relações com o outro (V, I). Apresenta, ainda, uma segunda forma, muito especial, em que pode subdividir-se: a virtude que preside à [[lexico:d:distribuicao:start|distribuição]] de honrarias e riquezas entre os cidadãos; a que faz respeitar os contratos de toda [[lexico:c:classe:start|classe]], como a venda, a compra, os empréstimos; e, finalmente, a que proíbe atos arbitrários e de violência. Isso significa que Aristóteles considera o [[lexico:d:direito:start|direito]] como situado em lugar distinto e irredutível, sob três formas então em [[lexico:u:uso:start|uso]]: repartição dos bens comuns entre os cidadãos; direito contratual e direito penal. Para esses três aspectos do direito, ele encontra um só princípio, a [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]], que interpreta diferentemente nos três casos: no direito [[lexico:d:distributivo:start|distributivo]], é a igualdade proporcional que atribui a parte de cada um em seu valor; o princípio do direito contratual e penal, que consigna a igualdade aritmética. Ao juiz cabe, por missão, mediante um [[lexico:j:jogo:start|jogo]] de compensações e de danos e perdas, restabelecer a igualdade em benefício da [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] lesada, quer se trate de violação de contrato ou ato de violência. No intercâmbio de mercadorias, a igualdade torna-se viável por força da [[lexico:i:invencao:start|invenção]] dessa medida comum, que é a moeda. Dessa maneira, Aristóteles tende a [[lexico:c:criar:start|criar]], na moral, esferas distintas, cada uma com seus princípios próprios, Isso não quer dizer que todas as virtudes careçam de condições comuns. Aristóteles dedica tantas páginas ao [[lexico:t:tema:start|tema]] da [[lexico:a:amizade:start|amizade]] (livros VIII e IX), porque a considera condição indispensável à virtude. Mas sua forma mais elevada, a amizade entre homens livres e iguais, animados, individualmente, do [[lexico:a:amor:start|amor]] ao bem, é a única capaz, em virtude da [[lexico:r:reciprocidade:start|reciprocidade]] de serviços que engendra, de propiciar aos homens a meta de toda perfeição possível, afeiçoados uns aos outros e corrigindo-se mutuamente. Não se trata, bem entendido, de formas inferiores de amizade, da amizade por [[lexico:i:interesse:start|interesse]] comum entre os velhos ou da amizade recreativa que une os jovens. Quando Aristóteles estuda o prazer (VIII, 11 a 14 e X, 1 a 5), é também para determinar-lhe a forma mais elevada e nele fazer ver uma condição da excelência moral. É indispensável à virtude complacência para com o que se deve fazer e aversão para com o que se deve repudiar. Isso porque, de todos os modos, é impossível negar a tendência ao prazer; e aqueles, como Espeusipo, que declaram que todo prazer é mau, são desmentidos pela experiência universal, que nos mostra todos os seres sensíveis procurando o prazer como um bem. E com tal [[lexico:a:ascetismo:start|ascetismo]] [[lexico:a:aparente:start|aparente]] não se conseguirá afastar os homens dos prazeres perigosos e atraí-los para os prazeres úteis. A verdade é que todo ato, qualquer que seja, uma vez terminado, se acompanha de prazer, da mesma maneira pela qual o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] completo de um ser não se entende sem a [[lexico:b:beleza:start|beleza]]: o prazer alia-se ao ato. Ademais, termina em ato, favorecendo-o; por ser efeito do ato, torna-se [[lexico:c:causa:start|causa]] da perfeição desse ato. Desde então, o prazer não mais é susceptível de ser buscado sem condição, a título de fim, com mais razão do que ser repudiado. Quanto valha o ato, tanto valerá o prazer. Isso mostra quanto é diferente o valor dos prazeres; e, também, que a virtude não poderia ser perfeita se não se desenvolvesse até produzir o prazer quando se manifesta em ato. Amizade e prazer completam, por conseguinte, cada qual à sua maneira, a virtude, mas não lhe dão unidade. A virtude permanece dispersa sob múltiplas formas, e não se pode reduzi-las todas a uma só virtude. Mas como Aristóteles, na teoria da [[lexico:s:substancia:start|substância]], primeiro determinou a substância a título de noção geral, contendo em sua [[lexico:e:extensao:start|extensão]] uma multidão de [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] diversas, e, depois, passou dessa noção geral à de uma substância individual, [[lexico:d:deus:start|Deus]], que é a substância por excelência, de modo [[lexico:a:analogo:start|análogo]], em moral, passa da noção geral de virtude, considerada como o [[lexico:m:modelo:start|modelo]] comum de virtudes humanas, éticas e dianoéticas, a uma virtude que é a virtude por excelência, [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]] às virtudes humanas, virtude divina, que é a [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] da [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] intelectual (X, 6 a 8). Enquanto as outras virtudes implicam a união da alma com o corpo e a vida social, a inteligência, na contemplação da, verdade, está isolada e se basta a si mesma. Enquanto o resto da vida moral é pleno de ocupações incessantes, a [[lexico:v:vida-contemplativa:start|vida contemplativa]] é de [[lexico:l:lazer:start|lazer]], e, por conseguinte, muito [[lexico:s:superior:start|superior]], ao passo que o lazer é o fim da ação, e não o inverso. É, pois, a vida do que existe de verdadeiramente divino no homem, a única vida que o homem pode partilhar com os deuses, que são, antes de tudo, [[lexico:a:atividades:start|atividades]] pensantes, e, finalmente, a que nele produz, com o prazer mais elevado, a felicidade que pode. mais que qualquer outra, prolongar-se sem fadiga. Essa moral do contemplativo ou do homem de [[lexico:e:estudo:start|estudo]], situado acima do político, implica ainda uma dissociação daquilo que Platão havia tentado unir fortemente. Aristóteles sentiu intensamente necessidade de separar a vida intelectual do restante da vida social e dela fazer um fim em si. "Todos os homens desejam naturalmente saber" [Metafísica, A, I, início.], e o saber é como um absoluto que não se refere á qualquer outra coisa. Não se pode dizer que haja em Aristóteles verdadeira [[lexico:d:dualidade:start|dualidade]] de ideal, porque há entre as duas vidas, pratica e contemplativa, [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] e [[lexico:s:subordinacao:start|subordinação]] da primeira à segunda. A vida social de uma cidade grega, com todas as virtudes que implica, é a condição pela qual pode [[lexico:e:existir:start|existir]] o [[lexico:o:ocio:start|ócio]] do [[lexico:s:sabio:start|sábio]] que contempla; são duas vidas inseparáveis, à maneira pela qual são inseparáveis Deus e o [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. [Bréhier] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}