===== ETERNO ===== Em nosso contexto, [[lexico:n:nao:start|não]] faz muita [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] se foi o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]] ou se foi [[lexico:p:platao:start|Platão]] [[lexico:q:quem:start|quem]] descobriu o eterno como o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] centro do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] estritamente metafísico. Depõe muito a favor de Sócrates o [[lexico:f:fato:start|fato]] de que só ele, entre todos os grandes pensadores – [[lexico:s:singular:start|singular]] nesse [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] como em muitos outros –, jamais tenha se importado em dar [[lexico:f:forma:start|forma]] [[lexico:e:escrita:start|escrita]] a seus [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]]; pois é óbvio que, não importa o quanto um pensador possa [[lexico:e:estar:start|estar]] preocupado com a [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]], no [[lexico:i:instante:start|instante]] em que se põe a escrever os seus pensamentos ele deixa de estar fundamentalmente preocupado com a eternidade e volta a sua [[lexico:a:atencao:start|atenção]] para a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] de legar algum vestígio deles. Ele ingressou na [[lexico:v:vita-activa:start|vita activa]] e escolheu sua forma de [[lexico:p:permanencia:start|permanência]] e de [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] potencial. Uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] é certa: é somente em Platão que a [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] com o eterno e a [[lexico:v:vida:start|vida]] do [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] são vistas como inerentemente contraditórias e em conflito com a [[lexico:l:luta:start|luta]] pela imortalidade, que é o [[lexico:m:modo:start|modo]] de vida do cidadão, o [[lexico:b:bios-politikos:start|bios politikos]]. A [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] que o filósofo tem do eterno – experiência que, para Platão, era arrheton (“indizível”) e, para [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], aneu logou (“sem [[lexico:p:palavras:start|palavras]]”), e que, mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]], foi conceitualizada no paradoxal nunc stans (“aquilo que é [[lexico:a:agora:start|agora]]”) – só pode ocorrer fora do domínio dos assuntos humanos e fora da [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] dos homens. Sabemos disso desde a [[lexico:p:parabola:start|parábola]] da Caverna, na [[lexico:r:republica:start|República]] de Platão, na qual o filósofo, tendo se libertado dos grilhões que o prendiam aos seus semelhantes, deixa a caverna em perfeita “[[lexico:s:singularidade:start|singularidade]]” por assim dizer, nem acompanhado, nem seguido de outros. Politicamente falando, se morrer é o mesmo que “deixar de estar entre os homens” a experiência do eterno é uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:m:morte:start|morte]], e a única coisa que a separa da morte [[lexico:r:real:start|real]] é que ela não é definitiva, porque nenhuma criatura viva pode suportá-la durante muito [[lexico:t:tempo:start|tempo]]. E é isso precisamente que separa a [[lexico:v:vita-contemplativa:start|vita contemplativa]] da vita activa no pensamento medieval. [“In vita activa fixi permanere possumus; in contemplativa autem intenta mente manere nullo modo valemus” (Tomás de Aquino, Suma teológica, ii. 2. 181. 4).] No entanto, é decisivo que a experiência do eterno, diferentemente da experiência do imortal, não corresponda a qualquer [[lexico:a:atividade:start|atividade]] nem possa [[lexico:s:ser:start|ser]] convertida em nenhuma delas, visto que mesmo a atividade do pensamento, que ocorre no interior de uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] por [[lexico:m:meio:start|meio]] de palavras, é obviamente não apenas inadequada para propiciar tal experiência, mas a interromperia e a arruinaria. A [[lexico:t:theoria:start|theoria]], ou “[[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]]” é a [[lexico:d:designacao:start|designação]] dada à experiência do eterno, em [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] a todas as outras atitudes que, no máximo, podem [[lexico:t:ter:start|ter]] a [[lexico:v:ver:start|ver]] com a imortalidade. Talvez a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] do eterno pelos filósofos tenha sido favorecida pelo fato de que eles, muito justificadamente, duvidavam das possibilidades da pólis no tocante à imortalidade ou mesmo à permanência; e talvez o choque de tal descoberta tenha sido tão atordoante que eles não puderam deixar de considerar como vaidade ou vanglória qualquer busca de imortalidade, o que certamente os colocava em franca [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] à antiga cidade-Estado e à [[lexico:r:religiao:start|religião]] que a inspirava. Contudo, a vitória derradeira da preocupação com a eternidade sobre todos os tipos de [[lexico:a:aspiracao:start|aspiração]] à imortalidade não se deveu ao [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]]. A [[lexico:q:queda:start|Queda]] do Império Romano demonstrou claramente que nenhuma [[lexico:o:obra:start|obra]] de [[lexico:m:maos:start|mãos]] [[lexico:m:mortais:start|mortais]] pode ser imortal, e foi acompanhada pela [[lexico:p:promocao:start|promoção]] do evangelho cristão, que pregava uma vida individual eterna, à [[lexico:p:posicao:start|posição]] de religião exclusiva da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] ocidental. Juntas, ambas tornavam fútil e desnecessária qualquer busca de imortalidade terrena; e conseguiram tão [[lexico:b:bem:start|Bem]] transformar a vita activa e o bios politikos em servos da contemplação que nem mesmo a ascendência do [[lexico:s:secular:start|secular]] na era [[lexico:m:moderna:start|moderna]] e a concomitante inversão da [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] tradicional entre [[lexico:a:acao:start|ação]] e contemplação foram suficientes para resgatar do oblívio a procura da imortalidade que, originalmente, fora a [[lexico:f:fonte:start|fonte]] e o centro da vita activa. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}