===== ESTRUTURA DA NOÇÃO DE SER ===== Até o [[lexico:m:momento|momento]] foi reconhecido que a [[lexico:n:nocao|noção]] primeira da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], correspondendo à mais fundamental [[lexico:d:determinacao|determinação]] e à mais [[lexico:u:universal|universal]] das [[lexico:c:coisas|coisas]], é o [[lexico:s:ser|ser]]; que o ser é constituído de dois aspectos complementares, essência-existência, que o definem como "[[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] que é". É preciso mostrar [[lexico:a:agora|agora]] que esta noção universalíssima tem, se a compararmos aos seus inferiores, um [[lexico:c:comportamento|comportamento]] de [[lexico:t:todo|todo]] especial; [[lexico:b:bem|Bem]] mais, ela implica, nela mesma, como que uma [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:o:oposicao|oposição]] ou de [[lexico:t:tensao|tensão]] íntima, o que vai nos constranger a reconhecer-lhe uma [[lexico:e:estrutura|estrutura]] original, distinta daquela das [[lexico:i:ideias|ideias]] [[lexico:u:universais|universais]] comuns. Mas vejamos de início [[lexico:c:como-se|como se]] põe o [[lexico:p:problema|problema]] da estrutura interna do ser. O ser é a noção mais extensiva que se possa conceber. Tudo na [[lexico:r:realidade|realidade]], [[lexico:a:atual|atual]] ou [[lexico:p:possivel|possível]], se encontra referido ao ser. Como, entretanto, um conjunto de coisas tão diversas conseguirá unificar-se em uma noção comum? Tomemos uma comparação. Como na [[lexico:c:classificacao|classificação]] [[lexico:l:logica|lógica]] das ideias universais passamos do [[lexico:g:genero|gênero]] à espécie, e inversamente? Suponhamos, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], que os animais possam ser divididos em duas grandes espécies, os vertebrados e os invertebrados. Todos os animais pertencem ao mesmo gênero [[lexico:a:animal|animal]] e se dividem em duas espécies através da intervenção das diferenças vertebrado e invertebrado. Dir-se-á, em lógica, que um gênero se contrai em suas espécies pela determinação de diferenças específicas diversas. O que torna possível uma tal [[lexico:d:distincao|distinção]], é que as diferenças em [[lexico:q:questao|questão]] [[lexico:n:nao|não]] estão atualmente contidas no gênero; o animal, como tal, não é nem vertebrado e nem invertebrado. O [[lexico:a:ato|ato]] diversificador vem se juntar, como que do [[lexico:e:exterior|exterior]], ao gênero [[lexico:p:principio|princípio]] de [[lexico:u:unidade|unidade]]. Acontece o mesmo no caso do ser? Coloquemo-nos em face da [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] dos seres que nos dá a [[lexico:e:experiencia|experiência]] e da [[lexico:n:nocao-de-ser|noção de ser]] que pretende representá-los todos. A noção de ser tem uma certa unidade, na [[lexico:a:ausencia|ausência]] da qual não poderia ser atribuída à multiplicidade dos seres [[lexico:d:dito|dito]] de [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:m:modo|modo]], quando afirmo que esta mesa é, que esta cor é, etc . . . pretendo dizer que um mesmo [[lexico:a:atributo|atributo]] lhes convém proporcionalmente. Mas também penso que esta mesa não tem o mesmo modo de ser que esta cor, etc... E esta [[lexico:d:diversidade|diversidade]], compreendida sob a noção de ser, se manifesta ainda mais quando a atribuo a objetos transcendentes, particularmente a [[lexico:d:deus|Deus]]: digo que Deus é; o ser de Deus será comensurável com o das realidades inferiores? O que, pois, em definitivo, virá diferenciar o ser de todas as coisas? Será uma [[lexico:d:diferenca|diferença]] tomada fora do ser? Não, pois se esta diferença não é ela própria do ser, não será [[lexico:n:nada|nada]] e não poderá portanto diferenciar. As diferenças do ser devem ser de uma certa maneira do ser. Mas como poderão ser ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] diferenças? Somos assim levados a reconhecer que o ser não pode se diversificar como um gênero, uma vez que não existe diferenças reais tomadas fora do ser. Trata-se, em [[lexico:s:suma|suma]], de cindir uma noção sem sair dela mesma. É isto que poderemos chamar o problema da [[lexico:e:estrutura-da-nocao-de-ser|estrutura da noção de ser]], problema que se revela desde o início difícil de resolver; pois corre-se o [[lexico:r:risco|risco]], ou de acentuar demais a unidade às custas da diversidade, ou, pelo contrário, de se apoiar de tal modo nesta que a noção termine por ser comprometida. No primeiro caso, termina-se no [[lexico:m:monismo|monismo]] estéril dos [[lexico:e:eleatas|eleatas]] ou no [[lexico:p:panteismo|panteísmo]], no segundo caso, em um [[lexico:p:pluralismo|pluralismo]] [[lexico:i:ininteligivel|ininteligível]], isto é, na [[lexico:n:negacao|negação]] de todo [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:o:organico|orgânico]]. A [[lexico:t:teoria-da-analogia|teoria da analogia]] vai nos permitir sair de um tal [[lexico:d:dilema|dilema]].