===== ESTADO ROMÂNTICO ===== O [[lexico:c:culto:start|culto]] do [[lexico:e:estado:start|Estado]] nos românticos [[lexico:n:nao:start|não]] vinha de que atribuíssem ao Estado poderes arbitrários e sim de que viam no Estado a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] do [[lexico:v:volk:start|Volk]], que exprime da maneira mais completa os mesmos [[lexico:p:principios:start|princípios]] que regem as vidas individuais isoladas. O culto do Estado foi [[lexico:p:proprio:start|próprio]] inclusive dos liberais românticos. Leopold von Ranke, Henrich von Treitschke e Wilhelm von [[lexico:h:humboldt:start|Humboldt]], vivamente preocupados com a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] individual e com o papel da [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] na [[lexico:h:historia:start|História]], consignaram no entanto ao Estado os mais plenos poderes. Os economistas, poetas e filósofos românticos acreditaram no Estado. Mas na concepção romântica, os poderes não eram conferidos ao Estado enquanto [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de opressão, e sim enquanto [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]] de Volk, e imagem da [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] e da [[lexico:u:unidade:start|unidade]]. O Estado era então considerado como incarnando o mesmo [[lexico:p:principio:start|princípio]] que dá [[lexico:r:realidade:start|realidade]] e [[lexico:s:sentido:start|sentido]] às liberdades individuais. O Estado tem então poder [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], não como [[lexico:a:antitese:start|antítese]] do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]], e sim como [[lexico:e:expressao:start|expressão]] do mesmo princípio que [[lexico:f:forma:start|forma]] o indivíduo. Nesta linha é que Treitschke respondeu ao ensaio de [[lexico:s:stuart-mill:start|Stuart Mill]], On Liberty, com [[lexico:o:outro:start|outro]] ensaio Die Freiheit, onde sublinha o papel do Estado nacional contra o cosmopolitismo. Treitschke, grande historiador e historicista, lutou pelo Estado nacional, não enquanto [[lexico:i:instituicao:start|instituição]] jurídica, e sim enquanto [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] [[lexico:m:moral:start|moral]]; foi, neste sentido, um dos mais vigorosos nacionalistas que se conheçam. Para Treitschke, o poder do Estado nacional era a [[lexico:m:medida:start|medida]] da liberdade. É o cosmopolitismo, o internacionalismo, e não o Estado nacional o sinônimo da opressão e da miséria moral verdadeira. O Estado nacional, que protege e explicita os valores nacionais, que nasce desses valores na medida em que é realmente nacional, é sinônimo de liberdade, justamente porque o cosmopolitismo e toda tutela internacional representam a [[lexico:n:negacao:start|negação]] da liberdade. O cosmopolitismo é próprio só de povos desfibrabrados, que perderam a unidade de si mesmos, que não têm [[lexico:c:cultura:start|cultura]] própria, e que por isso mesmo não existem historicamente. A [[lexico:n:nocao:start|noção]] romântica de Estado, em [[lexico:s:suma:start|suma]], só pode [[lexico:s:ser:start|ser]] compreendida a partir da noção romântica de Volk. O Volk não pode nem deve ser considerado uma [[lexico:e:entidade:start|entidade]] coletiva, no sentido de uma coleção avulsa de indivíduos; o indivíduo é uma realidade concreta, cuja [[lexico:e:existencia:start|existência]] aliás os românticos sublinharam. Porém, não são os indivíduos que formam o Volk, e sim o Volk é que forma os indivíduos. E este Volk, que forma os indivíduos, não se parece absolutamente com aquele "[[lexico:g:grupo:start|grupo]] [[lexico:s:social:start|social]]" de que falavam os sociólogos positivistas e que era um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] [[lexico:s:superior:start|superior]] e [[lexico:e:exterior:start|exterior]] ao indivíduo; o Volk não tem nenhuma das características atribuídas pelos positivistas ao grupo social. Ao contrário, enquanto matriz [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], enquanto [[lexico:c:categoria:start|categoria]] cultural e [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], é um princípio [[lexico:i:intrinseco:start|intrínseco]], originário, interior e não exterior ao indivíduo. [[lexico:f:fichte:start|Fichte]], [[lexico:s:schelling:start|Schelling]] e [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] são essencialmente os filósofos do [[lexico:p:processo:start|processo]] [[lexico:d:dinamico:start|dinâmico]]. Concebem o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] com todos os seus fenômenos como [[lexico:p:posicao:start|posição]], [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] e [[lexico:s:sintese:start|síntese]] provisória dos contrários. [[lexico:d:deus:start|Deus]], a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e o Estado são partes de um processo absoluto no qual o ser, o [[lexico:v:vir-a-ser:start|vir-a-ser]] e o [[lexico:d:dever-ser:start|dever-ser]] se identificam. Schelling não altera essa [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] quando põe o Estado, não como [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] do processo dialético, e sim como a [[lexico:c:condicao:start|condição]] desse processo. Schelling diz, na sua Philosophie der Mythologie (23.a lição), que o Estado, com sua [[lexico:r:raiz:start|raiz]] na [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]], é a base durável e indestrutível de toda a [[lexico:v:vida:start|vida]] humana e de [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] posterior do [[lexico:e:espirito:start|espírito]]. Ele é [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] estável e o que não comporta revoluções. No processo dinâmico, o Estado é o [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] do que permanece; todas as reformas devem dar-se dentro dele e não contra ele; a missão do Estado é garantir ao indivíduo a [[lexico:m:maxima:start|máxima]] liberdade, uma liberdade que se exerça acima e fora do Estado e nunca no âmbito do Estado; o Estado é uma base, uma [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]], uma ponte de passagem necessária no processo do Espírito. O Estado, como espelho da [[lexico:n:nacao:start|Nação]], deve permanecer desenvolvendo-se, refletindo o processo de que é a [[lexico:e:emanacao:start|emanação]]. Hegel insere a Nação no processo [[lexico:u:universal:start|universal]] dialético, como o desenvolvimento coerente de um princípio [[lexico:p:particular:start|particular]] que exprime o Espírito Absoluto. A Nação é uma [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] particular, [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] e inconfundível, do Espírito universal; o Volksgeist, ou espírito do [[lexico:p:povo:start|povo]], é a [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] do Welt-geist, ou espírito do mundo; mas há no Volk um absoluto, enquanto ele encarna um [[lexico:d:destino:start|destino]] intransferível, constituído pela explicitação das suas virtualidades. Em Hegel, a Natureza e a História são exteriorizações do Espírito, que toma [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de si, determinando-se em entidades particulares. O Espírito Absoluto é a [[lexico:e:essencia:start|essência]] da Natureza e da História, que são etapas do seu desenvolvimento. A História é o Espírito nas épocas e nas Nações. A Nação, que se identifica com o Estado que a espelha, aparece como realidade muito mais concreta que o indivíduo, porque mais universal do que este [[lexico:u:ultimo:start|último]] e porque [[lexico:e:encarnacao:start|encarnação]] mais ampla do Espírito universal. Um Volk em Hegel se define como determinação do Absoluto incarnando-se no Estado. É uma determinação do Espírito Absoluto sob a forma do Espírito de um Povo. O Espírito do Povo é a fonte da liberdade; Hegel diz, numa passagem da [[lexico:f:filosofia-do-espirito:start|Filosofia do Espírito]] (§ 73), que a [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] só existe como tal pela [[lexico:f:forca:start|força]] interna e pela [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] que o espírito do povo lhe comunica; a pessoa só é livre no espírito do Povo. Em outra passagem (§ 257) Hegel diz que o Estado é a realidade em [[lexico:a:ato:start|ato]] da [[lexico:i:ideia:start|ideia]] moral objetiva; é o espírito moral como [[lexico:v:vontade:start|vontade]] [[lexico:s:substancial:start|substancial]] revelada, ciara a si mesma, que se conhece, se pensa, e realiza o que sabe por sabê-lo; o indivíduo tem sua liberdade substancial ligando-se ao Estado, como à sua essência, como [[lexico:f:fim:start|fim]] e como [[lexico:p:produto:start|produto]] de sua [[lexico:a:atividade:start|atividade]]. Seria [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]] então confundir o Estado com a [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] civil, como a [[lexico:r:revolucao:start|Revolução]] Francesa e os regimes individualistas confundiram. Quando o Estado é confundido com a sociedade civil e visto como instituição destinada à segurança e à proteção da [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] e da liberdade individual — quando em suma os interesses individuais são vistos como o fim do Estado, então o Estado não passa de um contrato civil e se torna facultativo ser membro ou não de um Estado. Mas se o Estado, como afirma Hegel, é o Espírito [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]], então o indivíduo não tem [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]], nem [[lexico:v:verdade:start|verdade]], nem [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]] senão com a condição de exprimir o espírito do seu Volk, cuja corporificação deve ser o Estado. O Volk é uma categoria mais [[lexico:g:geral:start|geral]] que o indivíduo; nele se nasce e se morre; nele não se entra, dele não se sai por um ato de vontade deliberada. Sair do seu Volk seria o mesmo que querer sair de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], ser o que não se é. Numa passagem da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] do Espírito (§98) Hegel critica os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] de liberdade, [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]] e fraternidade; e noutra passagem (Phil. des Rechts, § 279) critica a noção de "[[lexico:s:soberania:start|soberania]] do povo". Tais críticas decorrem espontaneamente da [[lexico:v:visao:start|visão]] hegeliana do Estado e da noção do Volk como totalidade anterior às partes que a representam e como fonte da liberdade. Em Schelling também (Phil. de Myth., lição 23) o Estado, longe de suprimir a liberdade individual, ao contrário, a torna [[lexico:p:possivel:start|possível]], elevando o indivíduo à [[lexico:d:dignidade:start|dignidade]] de pessoa. A [[lexico:l:lei:start|lei]], que o Estado impõe, só se torna opressiva quando não se processa a [[lexico:l:libertacao:start|libertação]] moral interior. Mas o Estado, assim visto por esses filósofos, não é o Estado burguês, o Estado mercador e o Estado de classes, e sim o Estado como reflexo da imagem divina, como forma superior da comunidade, no sentido [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] de Gemeinschaft. Não só em Fichte, Hegel e Schelling, mas nos românticos em geral, inclusive nos católicos, a nacionalidade, com o Estado que dela decorre, assume o [[lexico:s:significado:start|significado]] de um reflexo da imagem divina, isto é, do que Hegel chamava o Espírito Absoluto. [[lexico:s:schleiermacher:start|Schleiermacher]], teólogo, Arndt, [[lexico:p:poeta:start|poeta]], Humboldt, filólogo, veem a Nação sob essa perspectiva. Define-se claramente em Schleiermacher e Hegel a [[lexico:t:tese:start|tese]] de que Deus confere a cada nacionalidade a sua missão terrena, animando-a de um espírito definido, que promove as suas inconfundíveis características peculiares, e cujo fim é sublimar o Espírito de Deus no mundo. Os católicos se lembravam da antiga doutrina [[lexico:p:patristica:start|patrística]] de que cada Nação tem a marca do seu [[lexico:a:anjo:start|anjo]]. Só no Estado se realizam todas as características do Volk, e o Volk é uma totalidade que assume e transcende o indivíduo. O destino do indivíduo se define em [[lexico:f:funcao:start|função]] duma escala de valores que emanam da cultura do seu Volk; os destinos e as realizações individuais não se compreenderiam fora dessas opções cuja essência está no Volk. O Espírito do Povo, assim como é concebido pelos românticos, não é portanto resultado do desenvolvimento [[lexico:h:historico:start|histórico]] (ou dos sentimentos comuns, ou das experiências e derrotas sofridas em comum) e sim ao contrário, o desenvolvimento histórico de um povo é que é o resultado do seu Espírito particular. O Espírito particular emana de uma determinação do Absoluto, que projeta [[lexico:e:esse:start|esse]] Volk, juntamente com a sua particular visão do mundo, com todo o conjunto das exteriorizações orgânicas da sua [[lexico:v:vitalidade:start|vitalidade]], com sua [[lexico:l:lingua:start|língua]] e com sua [[lexico:m:musica:start|música]], numa determinada e intransferível [[lexico:m:missao-historica:start|missão histórica]]. De Hegel — como de Fichte e Adam Müller — derivam todas as doutrinas de [[lexico:w:weltanschauung:start|Weltanschauung]], toda a Völkerpsychologie, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] spengleriana das fisionomias culturais. Porque [[lexico:s:spengler:start|Spengler]], afinal, pertence à linhagem dos idealistas, e não dos positivistas, [[lexico:c:como-se:start|como se]] tem erradamente afirmado. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}