===== ESPÍRITOS ===== Se nos detivemos na [[lexico:o:obra:start|obra]] de Sinésio, discípulo da mártir neoplatônica Hipátia e depois convertido ao cristianismo, isso se deve ao [[lexico:f:fato:start|fato]] de já se encontrar formulado, neste pequeno e curioso livro, pelo menos em seus traços essenciais, o conjunto doutrinal que, identificando a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] interior da [[lexico:f:fantasmologia:start|fantasmologia]] aristotélica com o [[lexico:s:sopro:start|sopro]] quente, veículo da [[lexico:a:alma:start|alma]] e da [[lexico:v:vida:start|vida]], da [[lexico:p:pneumatologia:start|pneumatologia]] estoico-neoplatônica, alimentará tão fecundamente a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], a [[lexico:e:especulacao:start|especulação]] e a [[lexico:p:poesia:start|poesia]] do [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]] intelectual do século XI até o século XIII. A [[lexico:s:sintese:start|síntese]] que disso resulta é tão marcante que a [[lexico:c:cultura:start|cultura]] europeia desse período poderia [[lexico:s:ser:start|ser]] definida com [[lexico:r:razao:start|razão]] como uma pneuma-fantasmologia, em cujo âmbito, que circunscreve ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] uma cosmologia, uma [[lexico:f:fisiologia:start|fisiologia]], uma [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] e uma [[lexico:s:soteriologia:start|soteriologia]], o sopro que [[lexico:a:anima:start|anima]] o [[lexico:u:universo:start|universo]], circula nas artérias e fecunda o esperma, é o mesmo que, no cérebro e no [[lexico:c:coracao:start|coração]], recebe e [[lexico:f:forma:start|forma]] os fantasmas das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que vemos, imaginamos, sonhamos e amamos; como [[lexico:c:corpo:start|corpo]] sutil da alma, ele é, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, o intermediário entre a alma e a [[lexico:m:materia:start|matéria]], o [[lexico:d:divino:start|divino]] e o [[lexico:h:humano:start|humano]], e, como tal, permite que se expliquem todas as influências entre corpóreo e [[lexico:i:incorporeo:start|incorpóreo]], desde a fascinação mágica até às inclinações astrais. Na transmissão deste conjunto doutrinal, cabe papel de destaque à medicina. O renascimento da pneumatologia no século XI começa com a [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] em latim, por obra de Constantino Africano, com o Uber regius de Ali ibn Abbas al-Magiusi, e alcança um primeiro ápice por volta da metade do século XII, com a [[lexico:t:traducao:start|tradução]] do De differentia animae et [[lexico:s:spiritus:start|spiritus]], do médico árabe Costa ben Luca. Nesse [[lexico:e:espaco:start|espaço]] de tempo, a fisiologia pneumática dos médicos exerceu uma [[lexico:i:influencia:start|influência]] profunda sobre toda a cultura contemporânea. *É [[lexico:n:necessario:start|necessário]] que o corpo — lê-se no De motu cordis, do médico Alfredo o Inglês - cuja matéria é sólida e obtusa, e a alma, que é de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] sutilíssima e incorpórea, estejam reunidos por uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:m:meio:start|meio]] que, participando da natureza de ambos, una, em um [[lexico:u:unico:start|único]] pacto, uma variedade tão discorde. Se tal meio fosse de natureza totalmente incorpórea, [[lexico:n:nao:start|não]] se distinguiria da alma; se estivesse submetido em tudo às leis da matéria, não diferiria da obtusidade do corpo. E, pois, necessário que não seja nem totalmente [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], nem totalmente incorpóreo... Este vínculo dos extremos e [[lexico:o:orgao:start|órgão]] do [[lexico:m:movimento:start|movimento]] corpóreo é [[lexico:c:chamado:start|chamado]] [[lexico:e:espirito:start|espírito]]... * Enquanto, para alguns autores (entre eles, o citado Alfredo e a sua fonte, Costa ben Luca), há duas espécies de espírito, o vital e o [[lexico:a:animal:start|animal]], para a maioria dos médicos elas são três: o espírito [[lexico:n:natural:start|natural]]. que tem [[lexico:o:origem:start|origem]] no fígado (“aquela [[lexico:p:parte:start|parte]] onde se ministra a nossa nutrição”, nas [[lexico:p:palavras:start|palavras]] de Dante), a partir das exalações do [[lexico:s:sangue:start|sangue]] que aí é purificado e digerido; do fígado ele passa, através das veias, para todos os membros do corpo, aumentando o seu vigor natural; o espírito vital que tem origem no coração e se difunde, através das artérias, por [[lexico:t:todo:start|todo]] o corpo, vivificando-o; o espírito animal, que nasce nos recintos do cérebro de uma [[lexico:p:purificacao:start|purificação]] do espírito vital. A partir do tálamo esquerdo do coração, o espírito vital sobe para o cérebro através da artéria, passa através de suas três celas, e ali, “por [[lexico:v:virtude:start|virtude]] da [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]] e da [[lexico:m:memoria:start|memória]], se torna mais [[lexico:p:puro:start|puro]] e digerido (digestior purgatiorque) e se transforma em espírito animal” [Ibidem, p. 45]. A partir do cérebro, o espírito animal enche os nervos e se irradia por todo o corpo, produzindo a [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]] e o movimento. A partir da cela fantástica, ramifica-se o nervo ótico, que, ao bifurcar-se, alcança os olhos. Pela cavidade desse nervo passa o espírito animal, que aí se torna ainda mais sutil [“...Et cum altior et subtilior sit spiritus qui ad oculos dirigitur...” [“...E sendo o espírito que se dirige aos olhos mais elevado e sutil...”] (JOÃO DE SALISBURY. De septem septenis, em: Patrologia latina, 199, 952). Este é o espírito sutil dos estilo-novistas (cf. GUIDO CAVALCANTI. “E quel sottile spirito ehe vede” em: Rimatori dei dolce stil novo, op. at, p. 38; “Pegli occhi fere un spirito sottile”, em ibidem, p. 39).], e, segundo uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]], sai dos olhos como [[lexico:e:espirito-visual:start|espírito visual]], se dirige até o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] através do [[lexico:a:ar:start|ar]], que para ele cumpre o papel de “suplemento” e, tendo-se informado de sua [[lexico:f:figura:start|figura]] e de sua cor, volta ao olho e daí para a cela fantástica; de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com outra teoria, o espírito visual, sem sair do olho, recebe através do ar a marca do objeto e a transmite para o espírito [[lexico:f:fantastico:start|fantástico]]. [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] [[lexico:a:analogo:start|análogo]] vale para o ouvido e para os outros sentidos. Na cela fantástica, o espírito animal ativa as imagens da fantasia, na cela memorial produz a memória e, na [[lexico:l:logistica:start|logística]], a razão. Todo o [[lexico:p:processo:start|processo]] [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] descrito no capítulo anterior é traduzido e “espiritualizado” nos termos desta circulação pneumática. E eis [[lexico:c:como-se:start|como se]] apresenta a psicologia de [[lexico:a:avicena:start|Avicena]], que expusemos anteriormente em termos puramente estáticos, uma vez que tenha sido recolocada no seu contexto “espiritual” [[lexico:e:essencial:start|essencial]]: *A similitude (da [[lexico:c:coisa:start|coisa]]) une-se à parte do espírito que traz consigo a virtude visual... e penetra no espírito que se encontra no primeiro ventrículo do cérebro e se imprime neste espírito, que traz consigo a virtude do [[lexico:s:senso-comum:start|senso comum]]... a partir daí, o [[lexico:s:senso:start|senso]] comum transmite a forma àquela parte do espírito que está próxima do espírito, que o traz consigo e imprime aí essa forma, e a põe assim na virtude [[lexico:f:formal:start|formal]], que é a imaginativa... depois, a forma que está na [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] penetra no ventrículo posterior e se une com o espírito que traz consigo a virtude estimativa através do espírito, que traz consigo a virtude imaginativa que, nos homens, se chama cogitativa, e a forma que estava na imaginativa imprime-se no espírito da virtude estimativa...[AVICENA. De anima, III, 8.]* [[lexico:a:agora:start|agora]] já temos [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de entender, sem dificuldade, a teoria segundo a qual está no coração a sede primeira da sensibilidade e da imaginação, mas estas se atuam no cérebro. O espírito vital realmente tem sua origem no coração, e é este mesmo espírito que, refinado e purificado, sobe até ao cérebro e se converte em espírito animal. Uma única corrente pneumática circula no [[lexico:o:organismo:start|organismo]], e nela unifica-se dinamicamente o que só estaticamente pode ser considerado dividido. Além disso, o espírito animal é naturalmente inerente ao esperma: irradiando-se pelo corpo, chega aos testículos, converte-se em “suco lácteo e tenaz e, realizado o coito, sai para o [[lexico:e:exterior:start|exterior]]” , onde, unindo-se ao esperma feminino, forma o embrião e recebe os influxos astrais. [AgambenE:163-166] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}