===== ESCOTO ERÍGENA ===== Inesperadamente aparece, na primeira metade do século IX, a grande [[lexico:f:figura|figura]] de João Escoto. Na [[lexico:p:pobreza|pobreza]] cultural e especulativa do seu [[lexico:t:tempo|tempo]], este [[lexico:h:homem|homem]] dotado de um [[lexico:e:espirito|espírito]] extremamente livre, de excepcional [[lexico:c:capacidade|capacidade]] especulativa e vasta erudição greco-latina, surge como um [[lexico:m:milagre|milagre]]. Através de [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]], João Escoto relaciona-se como o mais genuíno espírito da [[lexico:i:investigacao|investigação]] filosófica, tal como havia surgido na idade clássica da [[lexico:g:grecia|Grécia]]. [[lexico:e:erigena|Erígena]] tem [[lexico:c:consciencia|consciência]] das exigências soberanas da investigação e afirma-as decididamente. Quando tropeça com a [[lexico:r:realidade|realidade]] incompreensível de [[lexico:d:deus|Deus]] ou da [[lexico:e:essencia|essência]] das [[lexico:c:coisas|coisas]], [[lexico:n:nao|não]] afasta as armas dialéticas nem prescreve o [[lexico:a:abandono|abandono]], à [[lexico:f:fe|fé]], mas volta a assumir a mesma incompreensibilidade no âmbito da investigação, dialetiza-a e faz dela um [[lexico:e:elemento|elemento]] de clareza. A [[lexico:r:razao-preguicosa|razão preguiçosa]], que neste período da [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]] descobre tantas formas de entrincheirar-se por detrás das exigências da fé, não consegue assenhorear-se dele. A [[lexico:o:obra|obra]] de João Escoto teve uma importância decisiva para a ulterior [[lexico:e:evolucao|evolução]] da [[lexico:e:escolastica|escolástica]]. As suas fontes principais são as obras de Santo Agostinho, do Pseudo-Dionísio (que o [[lexico:p:proprio|próprio]] Escoto traduziu do [[lexico:g:grego|grego]]) e dos Padres da Igreja, especialmente de S. Gregório e S. Máximo. Em toda a [[lexico:e:especulacao|especulação]] posterior, não há [[lexico:f:filosofo|filósofo]] da escolástica que não se relacione com ele direta ou polemicamente. O papa Honório III, numa Bula de 23 de Janeiro de 1225, condenou a sua obra-prima: De divisione naturae. Muitos doutores escolásticos, antes e depois da condenação, entram em polêmica contra as suas afirmações; mas a sua especulação assinala em todos os pontos um marco fundamental na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] escolástica. [[lexico:v:vida|vida]] E OBRA João Escoto é [[lexico:c:chamado|chamado]] Erígena devido ao [[lexico:f:fato|fato]] de [[lexico:t:ter|ter]] nascido na Irlanda (Eriu-Erin, Irlanda). A data do seu nascimento deve andar à volta de 810. Não se sabe com [[lexico:p:precisao|precisão]] o ano em que se dirigiu a França, para a corte de Carlos o Calvo; mas deve ter sido nos primeiros anos do reinado deste rei. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], [[lexico:e:escoto-erigena|Escoto Erígena]] participou na controvérsia teológica suscitada pela [[lexico:t:tese|tese]] do monge Godescalco sobre a [[lexico:p:predestinacao|predestinação]]; ora a condenação de Godescalco verificou-se em 853, depois de largos e solenes debates. Muito provavelmente, a vinda de João Escoto para França foi anterior ao ano de 847. Carlos o Calvo nomeou-o diretor da [[lexico:a:academia|Academia]] do Palácio, a Schola Palatina, em Paris; a convite do mesmo rei, Erígena traduz as obras de [[lexico:d:dionisio-o-areopagita|Dionísio o Areopagita]], cujos textos o imperador bizantino, Miguel Balbo, tinha oferecido a Ludovico Pio no ano de 827. O papa Nicolau I queixou-se ao rei do fato de Erígena não haver submetido essa [[lexico:t:traducao|tradução]] à censura eclesiástica antes de a publicar e quis instaurar um [[lexico:p:processo|processo]] contra as heresias que a mesma continha. Depois da [[lexico:m:morte|morte]] de Carlos o Calvo, no ano de 877, não há notícias seguras sobre João Escoto. Segundo alguns, teria morrido em França nesse mesmo ano; segundo outros, teria sido chamado pelo rei Alfredo o Grande, para a [[lexico:e:escola|escola]] de Oxford e, mais [[lexico:t:tarde|Tarde]], como abade de Malmesbury ou de Athelney, teria sido assassinado pelos monges. A [[lexico:a:atividade|atividade]] filosófica de João Escoto pode [[lexico:s:ser|ser]] dividida em dois períodos. No primeiro período, Escoto Erígena inspirou-se sobretudo nos Padres latinos, isto é, em Gregório Magno, Isidoro e especialmente em Santo Agostinho. A este período pertence o [[lexico:t:texto|texto]] contra o monge Godescalco: De divina praedestinatione. Num segundo período, Erígena sofre a [[lexico:i:influencia|influência]] dos teólogos e filósofos gregos. Em 858, traduz os textos do Pseudo-Dionísio o Areopagita; em 864, os Ambígua de Máximo o Confessor e o texto De hominis opificio de Gregório de Nisa. Estes trabalhos guiaram-no na [[lexico:c:criacao|criação]] da sua obra-prima, a De divisione naturae, em cinco livros. [[lexico:e:escrita|escrita]] em [[lexico:f:forma|forma]] de [[lexico:d:dialogo|diálogo]] entre [[lexico:m:mestre|mestre]] e aluno, é o primeiro grande texto especulativo da Idade Média. Esta obra denuncia já o [[lexico:c:caracter|carácter]] da investigação escolástica: o [[lexico:m:metodo|método]] apriorístico ou dedutivo que o autor maneja com grande mestria. As glosas de Erígena aos Opuscula theologica de [[lexico:b:boecio|Boécio]], são o comentário mais antigo aos escritos teológicos de Boécio. Muito conhecidas na Idade Média, mas nunca impressas, deviam ter sido escritas nos últimos anos da sua vida, à volta de 870, e apresentam com a Divisio naturae a mesma [[lexico:r:relacao|relação]] que existe entre as Retraciationes e as outras obras de Santo Agostinho. A [[lexico:c:cultura|cultura]] e capacidade especulativa de João Escoto colocam-no acima do nível dos seus contemporâneos. Não só conhece o grego e o traduz, como adquire dos escritores e do espírito grego, grande [[lexico:l:liberdade|liberdade]] tanto no [[lexico:c:campo|campo]] da investigação como da [[lexico:o:orientacao|orientação]] especulativa.