===== ESCOLHA ===== (gr. [[lexico:a:airesis:start|airesis]], [[lexico:p:proairesis:start|proairesis]]; lat. electio; in. Cboice; fr. Choix; al. Wabl; it. Scelta). Procedimento pelo qual determinada [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] é assumida, adotada, decidida ou realizada de um [[lexico:m:modo:start|modo]] qualquer, preferentemente a outras. O [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de escolha está estreitamente vinculado ao de possibilidade, de tal modo que [[lexico:n:nao:start|não]] só não há escolha onde não há possibilidade (visto [[lexico:s:ser:start|ser]] justamente a possibilidade o que se oferece à escolha), como tampouco há possibilidade onde não há escolha, já que a [[lexico:a:antecipacao:start|antecipação]], a [[lexico:p:projecao:start|projeção]] ou a [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:p:previsao:start|previsão]] das possibilidades são escolhas. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, o conceito de escolha é uma das determinações fundamentais do conceito de [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]]. O conceito de escolha é constante em [[lexico:p:platao:start|Platão]], que, usando o [[lexico:m:mito:start|mito]] de Er, mostra que o [[lexico:d:destino:start|destino]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] depende da escolha que ele faz do [[lexico:m:modelo:start|modelo]] de [[lexico:v:vida:start|vida]]: "Não havia [[lexico:n:nada:start|nada]] de necessariamente preestabelecido para a [[lexico:a:alma:start|alma]] porque cada uma devia mudar segundo a escolha que fizesse" (Rep., X, 618 b). Mas foi [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] [[lexico:q:quem:start|quem]] fez a primeira [[lexico:a:analise:start|análise]] exaustiva da escolha, distinguindo-a: primeiro do [[lexico:d:desejo:start|desejo]], que é comum também aos seres irracionais, ao passo que a escolha não é (Et. Nic, III, 2, 1111 b 3); 2e da [[lexico:v:vontade:start|vontade]], porque também se podem querer as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] impossíveis (p. ex., a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]]), mas não escolher (Ibid., 1111b 19); 3e da [[lexico:o:opiniao:start|opinião]], que também pode referir-se às coisas impossíveis (p. ex., as eternas) que não dependem de nós (Ibid., 1111 b 30). A essas determinações negativas Aristóteles acrescentou a [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] positiva de que a escolha "é sempre acompanhada por [[lexico:r:razao:start|razão]] e [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]]" (Ibid., 1112 a 15). A essa determinação pode-se acrescentar outra, fundamental, extraída das determinações negativas: a escolha diz [[lexico:r:respeito:start|respeito]] só às coisas possíveis. Essa última determinação, que é a fundamental, era explicitamente ressaltada por [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]], que repetia substancialmente a análise aristotélica (S. Th., II, 1, q. 13, a. 5). A [[lexico:n:nocao:start|noção]] de escolha sempre foi amplamente utilizada pelos filósofos, em especial na [[lexico:d:discussao:start|discussão]] do [[lexico:p:problema:start|problema]] da liberdade, mas não foi analisada com frequência. A partir de [[lexico:k:kierkegaard:start|Kierkegaard]], a [[lexico:f:filosofia-da-existencia:start|filosofia da existência]] enfatizou o [[lexico:v:valor:start|valor]] da escolha no que concerne à própria [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] do homem ou à sua [[lexico:e:existencia:start|existência]], considerando a escolha sobretudo sob o ângulo da sua própria possibilidade, ou seja, como escolha da escolha. Diz Kierkegaard: "A escolha é decisiva para o conteúdo da personalidade: com a escolha ela aprofunda-se na [[lexico:c:coisa:start|coisa]] escolhida, mas se não escolhe definha" (Werke, II, p. 148). Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, a escolha importante não é entre o [[lexico:b:bem:start|Bem]] e o [[lexico:m:mal:start|mal]], mas entre escolher e não escolher. "Com essa escolha, não escolho entre o bem e o mal, mas escolho o bem; mas, porquanto escolho o bem, escolho com isso a escolha entre o bem e o mal. A escolha original está sempre presente em toda escolha ulterior" (Ibid., II, p. 196). [[lexico:e:esse:start|esse]] conceito foi frequentemente repetido no [[lexico:e:existencialismo:start|existencialismo]] contemporâneo. Segundo [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]], a escolha autêntica é a escolha do que já foi escolhido, a escolha das possibilidades que já são do homem. "[[lexico:r:repeticao:start|Repetição]] da escolha significa escolhimento dessa escolha, opção por uma possibilidade que tem [[lexico:r:raiz:start|raiz]] no [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]. Ao escolher a escolha, o ser-ai possibilita pela primeira vez o seu [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] poder-ser" (Sein und Zeit, § 54). Mas nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]] a "escolha da escolha" é simplesmente a aceitação ou o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] daquilo que se é, renunciando-se a qualquer pretensão de [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] ou [[lexico:l:libertacao:start|libertação]]. No mesmo sentido, [[lexico:j:jaspers:start|Jaspers]] diz: "Não posso recomeçar e escolher entre ser [[lexico:e:eu:start|eu]] mesmo e não ser eu mesmo, [[lexico:c:como-se:start|como se]] a liberdade fosse apenas um [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]]. Mas, quando escolho, sou, e, se não sou, não escolho" (Phil, II, p. 182). Quer dizer: o que posso escolher é apenas meu eu-mesmo: o eu-mesmo que é [[lexico:i:identico:start|idêntico]] à [[lexico:s:situacao:start|situação]], ao [[lexico:l:lugar:start|lugar]] da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] em que me encontro (Ibid., I, p. 245). A escolha da escolha na [[lexico:v:verdade:start|verdade]] é a escolha do que já se é e não se pode não ser. Esse conceito de escolha da escolha acaba eliminando a própria escolha, que, como Aristóteles reconhecera, está sempre ligada ao [[lexico:p:possivel:start|possível]]. Por outro lado, [[lexico:s:sartre:start|Sartre]] insistiu na perfeita arbitrariedade da escolha, identificou escolha e [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] e viu, por isso, um [[lexico:a:ato:start|ato]] de escolha em [[lexico:t:todo:start|todo]] ato de consciência (L’être et le néant, pp. 539 ss.). Isso pode ser verdade, mas de certo modo é oportuno sair em busca de um sentido mais específico de escolha, segundo o qual nem todos os atos sejam escolhas. Esse sentido pode ser precisamente o de escolha da escolha, não como escolha do que já foi escolhido, mas como escolha do que pode ainda ser escolhido. Nesse sentido, a "escolha possível" é não só a escolha que se oferece como possibilidade, mas a escolha que, uma vez feita, afigura-se ainda possível. Entendido nesse sentido, o conceito de escolha torna-se suscetível de tratamento [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] e capaz de orientar a análise das técnicas de escolha Desse ponto de vista, é indispensável determinar, em primeiro lugar o contexto das escolha, ou seja, o [[lexico:c:campo:start|campo]] de possibilidades objetivas em que a escolha deve atuar. P. ex., para o homem que sofreu uma afronta, as opções de vingança pela [[lexico:f:forca:start|força]] ou pela [[lexico:v:violencia:start|violência]] são diferentes das que lhe são oferecidas pelo [[lexico:s:sistema:start|sistema]] jurídico em que vive. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, sempre com [[lexico:r:referencia:start|referência]] a um contexto determinado, pode-se fazer a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre [[lexico:g:grau:start|grau]] de escolha, que é o [[lexico:n:numero:start|número]] de possibilidades oferecidas por determinado contexto, e [[lexico:e:extensao:start|extensão]] da escolha, que é o número de indivíduos que têm [[lexico:a:acesso:start|acesso]] a determinada escolha em [[lexico:d:dado:start|dado]] contexto. Entre extensão e grau pode haver todas as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] possíveis, pois o [[lexico:a:aumento:start|aumento]] no grau pode influir na extensão e vice-versa. O [[lexico:c:criterio:start|critério]] da repetibilidade das escolha, com base nas considerações acima, especialmente com base nas normas técnicas do contexto, é adotado por todas as disciplinas (conquanto implicitamente): p. ex., um [[lexico:a:axioma:start|axioma]] matemático ou [[lexico:l:logico:start|lógico]] continuará sendo admitido (ou seja, sua escolha se repete) enquanto não levar a uma [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]; uma [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] científica ou produtiva continuará em [[lexico:u:uso:start|uso]] (ou seja, será sempre escolhida) enquanto não der ensejo a inconvenientes ou não for encontrada outra melhor; e assim por diante. Hoje, em todas as ciências, especialmente na [[lexico:m:matematica:start|matemática]], na [[lexico:l:logica:start|lógica]], na [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] e na [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]], é grande o uso da noção de escolha Mas, como se disse, raramente ela é analisada por essas ciências, que pressupõem seu [[lexico:s:significado:start|significado]] corrente. Por outro lado, as análises feitas pelos filósofos nem sempre dão conta dos [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] fundamentais da escolha [[lexico:b:bergson:start|Bergson]], p. ex., considerou as alternativas diante das quais se encontra situada toda escolha como falsas "espacializações" dos estados interiores de hesitação; portanto, concebeu a escolha como algo que, "à maneira de um fruto maduro, separa-se dos estados consecutivos do eu" (Les données immédiates de la conscience, 1889, p. 134). Mas está claro que, se as alternativas são fictícias, fictícia é a própria escolha que vive só no possível, que é constituído por alternativas. [[lexico:c:caracteristica:start|Característica]] mais autêntica da escolha humana foi evidenciada por [[lexico:d:dewey:start|Dewey]]: "A escolha não é uma preferência que emerge da indiferença.- é a [[lexico:e:emergencia:start|emergência]] de uma preferência unificada a partir de um conjunto de preferências competitivas". Portanto, a escolha [[lexico:r:racional:start|racional]] é apenas aquela que unifica e harmoniza diferentes tendências concorrentes (Human Nature and Conduct, 1929, p. 193). Assim, Dewey alija da escolha o critério de [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]], pondo-se num [[lexico:p:plano:start|plano]] em que é possível sugerir inúmeros critérios. Tem, contudo, o [[lexico:m:merito:start|mérito]] de [[lexico:t:ter:start|ter]] ressaltado a importância da escolha e sua [[lexico:o:onipresenca:start|onipresença]]. "A [[lexico:o:operacao:start|operação]] de escolha", disse ele, "é inevitável em qualquer empreendimento que exija a [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]]. Em si mesma, não é falsificadora. A [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] reside no [[lexico:f:fato:start|fato]] de que a sua [[lexico:p:presenca:start|presença]] é oculta, camuflada, negada. Um [[lexico:m:metodo:start|método]] [[lexico:e:empirico:start|empírico]] descobre e põe a nu a operação de escolha, como faz com qualquer outro [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]]" (Experience and Nature, 1926, p. 35). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}