===== ERRO ===== É um [[lexico:j:juizo:start|juízo]] [[lexico:e:explicito:start|explícito]] ou [[lexico:i:implicito:start|implícito]], no qual [[lexico:q:quem:start|quem]] o formula, inconscientemente [[lexico:n:nao:start|não]] acerta no [[lexico:o:objeto:start|objeto]]. O erro difere da [[lexico:f:falsidade:start|falsidade]] [[lexico:l:logica:start|lógica]], porque esta se refere unicamente à [[lexico:r:relacao:start|relação]] objetiva de um juízo com o objeto, ao passo que o erro inclui também a tomada de [[lexico:p:posicao:start|posição]] subjetiva. É [[lexico:f:falso:start|falso]] o conteúdo de um juízo que não corresponda ao objeto; deve, outrossim, contar-se como [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] do erro, o afirmar como [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] um conteúdo judicativo falso, por ignorar sua falsidade. — A [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] do erro é [[lexico:f:fato:start|fato]] demasiado conhecido; não obstante, implica também um [[lexico:p:problema:start|problema]]: como pode errar o [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]], se, por sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]], é orientado para a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] ? O entendimento, em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] de sua [[lexico:f:finitude:start|finitude]], pode sucumbir em face da [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] de verdade e da [[lexico:i:influencia:start|influência]] de interesses teoréticos da [[lexico:v:vontade:start|vontade]], que o induzem a julgar precipitadamente. — Segundo isso, podemos distinguir fontes lógicas e fontes psicológicas do erro. Ambas cooperam sempre, embora em [[lexico:m:medida:start|medida]] diversa. As mais importantes fontes lógicas do erro são as seguintes: a [[lexico:g:generalizacao:start|generalização]], quando sem [[lexico:r:razao-suficiente:start|razão suficiente]] concluímos de casos particulares para todos os casos em [[lexico:g:geral:start|geral]]; o [[lexico:u:uso:start|uso]] de frases feitas ou "[[lexico:t:topicos:start|tópicos]]", isto é, de fórmulas verbais, que provocam uma tomada de posição de base [[lexico:s:sentimental:start|sentimental]], falha de fundamentação objetiva; o concluir do inconcebível para o [[lexico:i:impossivel:start|impossível]]: o fato de nossa [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] limitada não lograr penetrar uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] não implica que esta seja impossível; o [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] "post hoc, ergo propter hoc": da circunstância de um [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] se seguir a [[lexico:o:outro:start|outro]] no [[lexico:t:tempo:start|tempo]], injustificadamente se infere que o primeiro (no tempo) seja a [[lexico:r:razao:start|razão]] do segundo; por [[lexico:u:ultimo:start|último]], os [[lexico:s:sofismas:start|sofismas]] de toda [[lexico:e:especie:start|espécie]]. — As fontes psicológicas do erro resultam da [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] de nosso [[lexico:p:pensar:start|pensar]] e querer, a cada passo perturbados pela [[lexico:p:paixao:start|paixão]]. Por [[lexico:p:parte:start|parte]] do entendimento, os erros podem [[lexico:s:ser:start|ser]] condicionados pela dependência em que nosso [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] está da [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]], que é ambígua; pela dependência relativamente aos sentidos e à [[lexico:m:memoria:start|memória]], que podem enganar; pelos preconceitos, pela falsa [[lexico:e:educacao:start|educação]] e pela precipitação em julgar; pela [[lexico:f:falta:start|falta]] de [[lexico:f:formacao:start|formação]] e de [[lexico:s:saber:start|saber]], aliada à [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de resolver rapidamente as questões; e ainda pelo embotamento e [[lexico:p:preguica:start|preguiça]] intelectual e pela supervalorização da humana [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]]. Por parte da vontade, são fontes de erro: o [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:a:apaixonado:start|apaixonado]], a inclinação desordenada do [[lexico:c:coracao:start|coração]] a um falso objeto, o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] de [[lexico:c:contradicao:start|contradição]], a pouca vontade de conhecer a verdade. — O erro é um grande [[lexico:m:mal:start|mal]] para o [[lexico:h:homem:start|homem]], que cedo ou [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] lhe sente as consequências. Embora fundamentalmente seja sempre superável mediante exame e [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]], o erro muitas vezes não pode ser evitado, devido a dificuldades extraordinárias (êiro moralmente invencível). O homem só é responsável pelo erro moralmente vencível. — Santeler. Segundo [[lexico:z:zenao:start|Zenão]] de Eleia, só se pode [[lexico:f:falar:start|falar]] do ser. Do não ser não pode enunciar-se [[lexico:n:nada:start|nada]]. Portanto, o erro é impossível. Uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] que não seja verdadeira não pode receber o [[lexico:n:nome:start|nome]] de proposição; é, em [[lexico:s:suma:start|suma]], um conjunto de signos que carece de [[lexico:s:sentido:start|sentido]]. Os autores que não admitem essa doutrina radical assinalam que o erro se dá em proposições tão significativas como as que expressam a verdade. A [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre as proposições falsas e as verdadeiras consiste em que enquanto as primeiras não designam nada [[lexico:r:real:start|real]], as segundas designam algo real. [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] sustentou que por vezes nos equivocamos na posição dos termos, mas também erramos no juízo expresso sobre eles. Como, segundo Aristóteles, nós vemos as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] particulares por [[lexico:m:meio:start|meio]] do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do geral, é [[lexico:p:possivel:start|possível]] o erro sem excluir o conhecimento, pois o conhecimento refere-se ao geral, enquanto o erro atinge o [[lexico:p:particular:start|particular]]. Os escolásticos trataram o problema do erro dentro da [[lexico:q:questao:start|questão]] da [[lexico:c:certeza:start|certeza]]; em rigor, pode entender-se o erro unicamente quando pusemos a claro as diferentes formas como a verdade se pode apresentar. Se a verdade é coincidência entre o juízo e a coisa julgada, o erro será a discrepância entre eles. Outra questão, em contrapartida, é a que se refere às [[lexico:c:causas:start|causas]] do erro, questão que foi muito especialmente destacada pelos filósofos modernos que, antes de se preocuparem com atingir a verdade, procuraram eliminar o erro. Por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] refere-se a este [[lexico:p:ponto:start|ponto]] em muitas passagens dos seus escritos (Regras para a Direção do Espírito; Meditações Metafísicas; [[lexico:p:principios:start|Princípios]] da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]). Descartes deu um caráter [[lexico:e:extremo:start|extremo]] à [[lexico:t:tese:start|tese]] (em parte antecipada por João Duns Escoto), segundo a qual o erro reside no [[lexico:a:ato:start|ato]] da vontade que formula o juízo. O entendimento não nega nem afirma; é a vontade que afirma ou nega e que, portanto, pode equivocar-se. Os erros nascem do fato de “como a vontade é muito mais ampla e é mais extensa que o entendimento, não a contenho nos mesmos limites, mas estendo-a também às coisas que não compreendo” ([[lexico:m:meditacoes-metafisicas:start|Meditações Metafísicas]]). E essa vontade pode estender-se desse [[lexico:m:modo:start|modo]] ilegítimo não só à [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de [[lexico:i:ideias:start|ideias]] que não correspondem à [[lexico:r:realidade:start|realidade]], mas também à [[lexico:e:escolha:start|escolha]] do mal em vez do [[lexico:b:bem:start|Bem]]. Deste modo, a [[lexico:c:causa:start|causa]] do erro e do [[lexico:p:pecado:start|pecado]] é a mesma. Distinguiu-se entre o erro e o engano. O primeiro só se dá na [[lexico:e:esfera:start|esfera]] das proposições e dos juízos; o engano só se dá na esfera das percepções. Os que acreditaram que não pode haver engano na [[lexico:p:percepcao:start|percepção]], por exemplo os fenomenistas, confundiram a percepção com a [[lexico:s:sensacao:start|sensação]] e entenderam mal a [[lexico:f:frase:start|frase]] de Aristóteles: “não pode haver engano dos sentidos”. Na sensação, não pode haver engano nem erro. no juízo, não pode haver engano, mas sim erro. Na percepção, não pode haver erro, mas sim engano. Por isso, um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] pode enganar-se nas percepções e não enganar-se nos juízos, e vice-versa. engano intelectual ou [[lexico:m:moral:start|moral]]. — O erro reside na [[lexico:c:crenca:start|crença]] injustificada no [[lexico:v:valor:start|valor]] [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] de uma [[lexico:r:representacao:start|representação]] concreta (erro [[lexico:d:dito:start|dito]] dos sentidos, por exemplo, a [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] de ótica) ou abstrata (erro de raciocínio, a generalização apressada, a omissão, o [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]], a [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]] etc, por exemplo). No [[lexico:p:plano:start|plano]] moral, as [[lexico:o:origens:start|origens]] do erro são múltiplas: o preconceito, o [[lexico:h:habito:start|hábito]], a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de [[lexico:m:metodo:start|método]] etc; o erro recebe então o nome de "falta". Por outro lado, a filosofia coloca um problema mais geral e mais grave, de [[lexico:o:ordem:start|ordem]] [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]: não está o erro ligado ao homem, à [[lexico:c:condicao-humana:start|condição humana]]? Em sua busca da verdade, poderia o homem jamais atingir outra coisa senão aparências, isto é, erros? A [[lexico:t:teologia:start|teologia]] o nega, em nome do privilégio [[lexico:d:divino:start|divino]] do conhecimento [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], e a [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] clássica chega à mesma conclusão, recusando às percepções e aos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] do homem toda outra verdade que não a relativa, prática, provisória, isto é, indefinidamente sujeita a revisão, "recolocada em questão". Quanto à filosofia propriamente dita, desde os [[lexico:d:dialogos:start|diálogos]] de [[lexico:p:platao:start|Platão]] ([[lexico:t:teeteto:start|Teeteto]] e O [[lexico:s:sofista:start|sofista]]) até a [[lexico:o:obra:start|obra]] de [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] sobre A [[lexico:e:essencia:start|essência]] da verdade, passando pela [[lexico:e:etica:start|Ética]] de [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]], a [[lexico:d:dialetica:start|Dialética]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] de [[lexico:k:kant:start|Kant]] (3.a parte da [[lexico:c:critica:start|Crítica]]) e as dialéticas pós-kantianas ([[lexico:f:fichte:start|Fichte]], [[lexico:h:hegel:start|Hegel]]), parece [[lexico:t:ter:start|ter]] estabelecido que o erro é o [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:n:natural:start|natural]] do homem que vive no [[lexico:m:mundo:start|mundo]], que sua [[lexico:o:origem:start|origem]] metafísica se encontra na [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] humana, e que o homem só pode sair do erro engajando-se livremente no [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] da reflexão. "A filosofia, dizia [[lexico:l:lachelier:start|Lachelier]], consiste somente em afastar os erros pouco a pouco; talvez ao [[lexico:t:termo:start|termo]] dessa crítica possamos atingir a verdade." (gr. pseudos; lat. error; in. Error; fr. Erreur; al. Irrtum; it. Errore). O erro não pertence à esfera das proposições (ou dos enunciados), mas à do juízo, das atitudes valorativas. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], não consiste em uma proposição falsa, embora uma proposição falsa seja um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] do erro consistente em acreditá-la ou julgá-la verdadeira. Elemento do erro também podem ser uma proposição verdadeira, se considerada falsa, e qualquer declaração de valor — moral, [[lexico:e:estetica:start|estética]], [[lexico:p:politica:start|política]], [[lexico:e:economica:start|econômica]], etc. — se acreditada ou assumida como exata e desmentida por critérios ou regras reconhecidamente válidos. P. ex., é um È. acreditar que pode haver duas moedas correntes simultaneamente no mesmo mercado, pois sabe-se que "a moeda ruim expulsa a boa". O erro pode consistir também em julgar um objeto com base num [[lexico:c:criterio:start|critério]] estranho ao [[lexico:p:proprio:start|próprio]] objeto, ou melhor, ao [[lexico:c:campo:start|campo]] de objetos a que ele pertence, ou então em julgar com base num critério [[lexico:a:apropriado:start|apropriado]] um objeto não discriminável por tal critério. Tem-se um erro da primeira espécie quando se quer decidir da realidade de um fato com base num critério moral ("não deve, não pode, ter acontecido assim"). Tem-se um erro da segunda espécie quando se quer decidir das verdades ou falsidades dos postulados ou proposições iniciais das ciçncias ou de enunciados não significativos. Em geral, pode-se chamar de erro [[lexico:t:todo:start|todo]] juízo ou valoração que contrarie critério reconhecido como válido no campo a que se refere o juízo, ou aos limites de aplicabilidade do próprio critério. Portanto, o contrário de um juízo errado não é um juízo "verdadeiro", como comumente se crê, mas um juízo "correto", "[[lexico:e:exato:start|exato]]" ou "regular"; o oposto de erro poderia ser a correção. A possibilidade de erro supõe duas condições: a) que haja um critério válido de juízo aplicável na [[lexico:s:situacao:start|situação]] dada; b) que tal critério não seja [[lexico:n:necessario:start|necessário]] e infalível. Sem a [[lexico:c:condicao:start|condição]] a) não haveria a possibilidade de distinguir o erro do que não é erro Sem a condição ti) o erro seria impossível em [[lexico:p:principio:start|princípio]]. Platão procurou satisfazer essas condições com a doutrina do erro exposta em O Sofista. Platão observou corretamente que o erro é impossível do ponto de vista dos [[lexico:e:eleatas:start|eleatas]] e seus discípulos, segundo os quais "o ser é" e que o [[lexico:n:nao-ser:start|não-ser]] não pode ser nem pensado nem expresso. Nesse caso, efetivamente, qualquer coisa que se diga diz-se [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]], por isso diz-se a verdade. Mas se assim é, entre o sofista e o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]], entre o charlatão e o investigador honesto, não haverá nenhuma diferença e a própria [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] será inútil. A possibilidade do erro condiciona, em outros termos, a investigação da verdade e não se pode negar sem negar a própria verdade. Por isso, Platão abandona a tese eleática da necessidade do ser e define o ser como possibilidade ([[lexico:d:dynamis:start|dynamis]], Sof., 247 e). Como possibilidade, o ser não é nem um nem muitos, nem [[lexico:m:movimento:start|movimento]] nem repouso, etc, mas pode ser uma coisa ou outra, e tudo está em [[lexico:v:ver:start|ver]] quais são as determinações dele que podem unir-se e permanecer juntas, e quais, ao contrário, são as não suscetíveis disso. A [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] que estuda as combinações possíveis das formas (ou gêneros) do ser — ciência análoga à [[lexico:g:gramatica:start|gramática]], que estuda as combinações possíveis das letras, e à [[lexico:m:musica:start|música]], que estuda as combinações possíveis dos sons — é a dialética. Em vista disso, o erro é simplesmente uma combinação de determinações do ser e de [[lexico:p:palavras:start|palavras]] que exprimem tais determinações, a qual não se conforme às regras da dialética; em outros termos, uma combinação que combine ou una o que, com base em tais regras, não pode ser combinado ou unido. Portanto, quem diz o falso não diz "o que não é" (o que seria impossível), mas diz algo diferente do que é: exprime uma combinação de formas (gêneros e espécies) não conforme às possibilidades objetivas de relação entre essas formas. O erro é como um conjunto de letras sem sentido ou um conjunto de sons sem [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] (Sof, 263). Essa doutrina platônica do erro é adaptada por Aristóteles aos princípios da sua filosofia. Aristóteles parte de uma [[lexico:d:definicao:start|definição]] do erro que repete a definição encontrada em O Sofista: ‘O erro é a [[lexico:n:negacao:start|negação]] do que é ou a afirmação do que não é" (Met., IV, 7, 1011 b 26). Mas "o que é" não é o mesmo para Aristóteles e para Platão: para este, é a "possibilidade"; para Aristóteles, é a "[[lexico:s:substancia:start|substância]]" ou realidade necessária. Aristóteles procura, portanto. definir a possibilidade do erro justamente em relação à substância, neste caso em seu [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] de essência necessária ([[lexico:q:quod:start|quod]] [[lexico:q:quid:start|quid]] erat [[lexico:e:esse:start|esse]]). Aristóteles reafirma a tese platônica de que o erro é possível só onde há "combinação", "[[lexico:s:sintese:start|síntese]]" de [[lexico:e:elementos:start|elementos]] diferentes. Onde há [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]] de indivisíveis não há possibilidade de erro; este sempre se verifica na síntese (ou, o que dá na mesma, numa [[lexico:d:divisao:start|divisão]]), e o princípio que realiza essa síntese é o [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] (De an., III, 6, 430 b 2). Ora, nessas sínteses o intelecto está na verdade "se enuncia a essência segundo a essência [[lexico:s:substancial:start|substancial]]", mas não está na verdade "se enuncia uma coisa qualquer segundo uma coisa qualquer". Com efeito, para o intelecto a essência substancial ou necessária é o que o branco é para o olho: assim como ninguém se engana ao perceber o branco, mas alguém se pode enganar ao achar que o branco percebido é um homem, ninguém se pode enganar ao pensar o homem "segundo a sua essência necessária", ou seja, como "[[lexico:a:animal:start|animal]] [[lexico:r:racional:start|racional]]", mas alguém se pode enganar afirmando que "este é um homem" ou que "este homem é músico", ou seja, realizando sínteses ou divisões que não são guiadas pela essência necessária do objeto (Ibid., 430 b 26 ss.). Com isso, Aristóteles restringe a possibilidade do erro à esfera das intelecções que não se referem à [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] substancial do ser, já que essa estrutura é apreendida nos seus princípios com um ato [[lexico:a:analogo:start|análogo]] à percepção das qualidades corpóreas, ato que, como "intelecção do indivisível", subtrai-se à possibilidade de erro. Em outros termos, a estrutura necessária do ser exclui a possibilidade de erro no que diz [[lexico:r:respeito:start|respeito]] ao pensamento do ser. O erro fica então circunscrito à esfera das afirmações acidentais, ou seja, que não têm [[lexico:l:lugar:start|lugar]] na ciência. Mas, na realidade, mesmo na esfera das afirmações acidentais é difícil entender, do ponto de vista aristotélico, a possibilidade do erro, visto que a necessidade da ciência [[lexico:s:silogistica:start|silogística]], constituindo a medida e o controle também da parte do conhecimento que não tem tal necessidade, elimina, mesmo dessa parte, a possibilidade de erro. Na verdade, a partir de Aristóteles, o problema que a filosofia deve enfrentar não é o da verdade, mas o do erro, no sentido de que os princípios a que habitualmente a filosofia recorre implicam que o homem está "necessariamente" em verdade e excluem, assim, a possibilidade de erro. Portanto, as soluções mais comuns do problema do erro são as seguintes: 1) o erro não existe; 2) o erro deve-se a uma [[lexico:f:forca:start|força]] que intervém para perturbar o funcionamento [[lexico:n:normal:start|normal]] do intelecto, precisamente A) na vontade ou B) na [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]]. 1) Ambas essas soluções do problema do erro estão em S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]], mas a primeira acaba predominando. Para S. Agostinho o erro consiste "em julgar e acatar como supremo o que, de per si, é ínfimo" (De vera rei, 21), ou seja, em afastar-se "da ordem estabelecida por [[lexico:d:deus:start|Deus]], apesar de iludir-se achando que a conserva intacta" (Ibid., 20). O erro é, portanto, devido à "vontade maléfica", ou seja, ao propósito deliberado de prescindir da ordem divina do mundo e da [[lexico:h:hierarquia-dos-valores:start|hierarquia dos valores]] que ela implica. Mas qual é a causa dessa vontade maléfica e como ela é possível na ordem divina do mundo? S. Agostinho nega que possa tratar-se de uma causa positiva e eficiente; trata-se de uma causa defeituosa ou deficiente. E querer encontrar a causa dessas defecções seria como querer ver as trevas ou ouvir o [[lexico:s:silencio:start|silêncio]]. "As coisas que ficam sendo conhecidas não em sua [[lexico:f:forma:start|forma]] positiva, mas como [[lexico:p:privacao:start|privação]] de algo, são de algum modo apreendidas, por assim dizer, exatamente ao não serem conhecidas, tanto que, se as conhecêssemos, não as ficaríamos conhecendo. Quando a acuidade da [[lexico:v:visao:start|visão]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] percorre as espécies corpóreas, não vê trevas em lugar algum, a não ser no lugar onde começa a não ver as coisas. Assim, não cabe a nenhum outro sentido perceber o silêncio; a não ser ao ouvido, que, todavia, adverte-o quando não ouve nada. Assim, nossa [[lexico:m:mente:start|mente]] vê com o intelecto as espécies inteligíveis, mas onde elas se acham em forma negativa conhece-as não as conhecendo" (De civ. Dei, XII, 7). Assim, para S. Agostinho erro é o conhecimento de um não-conhecimento: como ouvir o silêncio. Em sentido próprio e rigoroso, é um não conhecimento e um não ser: ele não existe. Essa [[lexico:r:reducao:start|redução]] do erro ao nada é característica de grande parte das doutrinas filosóficas tradicionais. Spinoza expressa-o com a costumeira nitidez: "A falsidade consiste na privação de [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] que está implícita nas ideias inadequadas, falhas ou confusas". P. ex., os homens erram ao se acreditarem livres, porque estão cônscios de suas [[lexico:a:acoes:start|ações]], mas desconhecem as causas que as determinam. Assim também erram quando acham que o [[lexico:s:sol:start|sol]] está [[lexico:p:proximo:start|próximo]], porque são ativados pela [[lexico:a:acao:start|ação]] do Sol, mas ignoram sua distância real (Et., II, 35, scol.). O erro, portanto, não consiste na [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] (que é a [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] das ideias inadequadas e confusas), mas na falta de conhecimento, na falta da [[lexico:i:ideia:start|ideia]] que excluiria a [[lexico:e:existencia:start|existência]] dos objetos que a imaginação crê presentes (Ibid, II, 17, scol.). Com outra [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]], tradicional, [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] afirmava a mesma coisa, reconhecendo como causa do erro uma causa "deficiente", ou seja, a limitação ou a imperfeição da [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]] (Théod., I, § 20). Para o [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] romântico, o erro é o "[[lexico:f:finito:start|finito]]", o "[[lexico:n:negativo:start|negativo]]", o "acidental": o que se destina a ser eliminado e a encontrar sua "verdade" no [[lexico:i:infinito:start|infinito]], no Necessário e no [[lexico:p:positivo:start|positivo]] da [[lexico:a:autoconsciencia:start|Autoconsciência]] absoluta. Assim, a rigor, não existe erro. Como dizia Gentile, exprimindo bem a posição do idealismo romântico, "o erro é o superado: aquilo que, em outros termos, está em face do nosso [[lexico:c:conceito:start|conceito]], como seu não ser. Portanto, assim como a [[lexico:d:dor:start|dor]], não é uma realidade que se oponha à realidade espírito (Conceptus Sui), mas é a própria realidade aquém de sua realização, num [[lexico:m:momento:start|momento]] [[lexico:i:ideal:start|ideal]]" ([[lexico:t:teoria:start|teoria]] do espírito, cap. 16, § 8). Essa é a solução tipicamente dialética (no sentido hege-liano do termo) do problema do erro: o erro é o momento negativo, destinado a ser "superado" ou a "ser transformado em verdade" pelo momento positivo e [[lexico:c:concreto:start|concreto]]: como erro, não existe. 2) À segunda solução [[lexico:t:tipica:start|típica]] do problema do erro consiste em atribuí-lo a uma faculdade diferente do intelecto, mas capaz de agir sobre ele e de desviá-lo do seu funcionamento correto. A) A primeira [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]] nesse sentido é a que o atribui à vontade. Já se viu que S. Agostinho começou julgando o erro como o afastamento voluntário da ordem das coisas estabelecida por Deus. A ideia do caráter voluntário do erro acaba prevalecendo na última fase da [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]]: é defendida por Duns Scot e Ockham. De fato, ambos entendem a vontade como a faculdade de executar atos opostos porquanto é absolutamente livre. A ela se deve o [[lexico:a:assentimento:start|assentimento]] [[lexico:d:dado:start|dado]] a uma proposição e, portanto, também a faculdade de dar assentimento a proposições falsas ou de dissentir de proposições verdadeiras (Ockham, In Sent, II, q. 25, L). Para Ockham, o assentimento da vontade deve necessariamente seguir-se à [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]] dos [[lexico:p:primeiros-principios:start|primeiros princípios]] da [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]], ou das verdades empíricas ou conclusões das demonstrações; por outro lado, pode se dar assentimento ao que é desprovido de qualquer evidência (Ibid., II, q. 25, Y); nesses casos, determina-se a possibilidade de erro. Essa doutrina foi substancialmente reproduzida por Descartes, em sua tese de que "a vontade é maior que o intelecto, podendo, pois, dar assentimento ao que não tem [[lexico:c:clareza-e-distincao:start|clareza e distinção]] suficientes para o intelecto. A vontade", diz Descartes, "pode parecer de certo modo infinita porque nada percebemos que possa ser o objeto de outra vontade, nem mesmo da vontade imensa de Deus, até a qual a nossa não pode estender-se. Essa é a causa de ordinariamente levarmos a vontade [[lexico:a:alem:start|além]] daquilo que conhecemos clara e distintamente; e quando assim abusamos dela não é de surpreender que aconteça enganar-nos" (Princ. phil., I, 35). De modo análogo, [[lexico:l:locke:start|Locke]] dizia que "o erro não é uma falha do nosso conhecimento, mas um engano do nosso juízo, que dá assentimento ao que não é verdadeiro". E enunciava [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] razões do assentimento errado: 1) falta de provas; 2) falta de [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de usá-las; 3) falta de vontade de vê-las; 4) [[lexico:c:calculo:start|cálculo]] errado de probabilidades (Ensaio, IV, 20, § 1). Rosmini também atribui o erro à vontade, considerando-o decorrente da ausência do elemento ideal (Ideia do ser) ou do elemento real ([[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] ou sensação) da [[lexico:p:percepcao-intelectiva:start|percepção intelectiva]] (Novo ensaio, §§ 1356-59). Mas, dada a formulação geral da teoria de Rosmini, que identifica a ideia do ser com a "forma da razão", a primeira espécie de erro pareceria implicar o poder da vontade de dissociar a razão da "forma". Finalmente, o próprio [[lexico:c:croce:start|Croce]] aceitou essa teoria do erro: "Quem comete um erro não tem nenhum poder de distorcer, desvirtuar ou macular a verdade, que é seu próprio pensamento, o pensamento que opera nele como em todos; aliás, assim que toca o pensamento, é tocado por ele: pensa e não erra. Tem apenas o poder [[lexico:p:pratico:start|prático]] de passar do pensamento ao fazer; e o fazer, e não o pensar, é abrir a boca e emitir sons aos quais não corresponda o pensamento, ou, o que dá no mesmo, um pensamento que tenha valor, [[lexico:p:precisao:start|precisão]], [[lexico:c:coerencia:start|coerência]], verdade" (Lógica, 4-ed., 1920, pp. 254-55). B) A outra alternativa dessa solução é que o erro se deve à sensibilidade ou, pelo menos, à ação da sensibilidade do intelecto. Essa é a doutrina de Kant a respeito. Um juízo errôneo — e o erro, assim como a verdade, só pode [[lexico:e:existir:start|existir]] no juízo — é o que confunde a aparência da verdade com a verdade. Essa confusão não seria possível se o homem não tivesse outra faculdade além do intelecto. Mas como o homem, além do intelecto, tem sensibilidade, não pode evitar a influência oculta da sensibilidade sobre o intelecto, e dessa influência nasce a possibilidade de confundir o [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] com o objetivo, ou seja, a aparência da realidade com a própria realidade (Logik, Einleitung, VII). Essa teoria kantiana retorna em alguns filósofos contemporâneos. P. ex., para C. I. Lewis o erro é devido à combinação dos dados mediados pela [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] com as suas interpretações ou integrações habituais, de natureza intelectual (Analysis of Knowledge and Valuation. p. 26). Em geral, a teoria do erro não é alvo de muita [[lexico:a:atencao:start|atenção]] por parte da filosofia contemporânea. Algumas correntes não elaboram uma teoria do erro pelo mesmo [[lexico:m:motivo:start|motivo]] pelo qual Hegel não a elaborou: porque não admitem a possibilidade do erro. Para outras correntes, porém, o motivo é diferente: elas reconheceram a intrínseca falibilidade dos procedimentos cognoscitivos de que o homem dispõe e, portanto, a possibilidade do erro não se distingue da [[lexico:p:possibilidade-do-conhecimento:start|possibilidade do conhecimento]]. Em certo sentido, esse ponto de vista significa um [[lexico:r:retorno:start|retorno]] à teoria platônica do erro ou, pelo menos, ao seu [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] de que as determinações do conhecimento, assim como as do ser, não devem ser consideradas necessidades, mas possibilidades. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}