===== ERGA ===== ἔργα, erga; v. [[lexico:e:ergon|ergon]] É com este [[lexico:s:sentido|sentido]] que se pode trazer à colação ο ἔργον ἴππου ou de qualquer outra [[lexico:c:coisa|coisa]] ([[lexico:r:republica|República]], 352e). Ο ἔργον é aquilo com o qual apenas se faz qualquer coisa ou se faz o melhor [[lexico:p:possivel|possível]] (Rep., 352e3). Assim, ο ἔργον dos olhos, e [[lexico:n:nao|não]] os olhos só, é o que nos permite [[lexico:v:ver|ver]]. Ο ἔργον dos ouvidos, e não apenas os ouvidos, é o que nos permite ouvir. A [[lexico:v:visao|visão]] e a [[lexico:a:audicao|audição]] são os verdadeiros ἔργα (Rep., 352e9). Uma determinada ferramenta encontra o seu ἔργον na sua utilização específica. Um ramo de uma vinha pode [[lexico:s:ser|ser]] cortado com uma faca (Rep., 353a1) ou com uma navalha tal como com muitos outros instrumentos de corte, só que nenhum deles o faz melhor (Rep., 353a4) do que a foice (ibid.), uma vez que foi concebida para este [[lexico:t:trabalho|trabalho]] (Rep., 353a). De entre [[lexico:t:todo|todo]] um conjunto de instrumentos que têm a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de cortar um cacho de uvas, é ela que realiza melhor essa possibilidade. A [[lexico:l:lingua|língua]] grega não faz [[lexico:d:distincao|distinção]] entre “obras” e “feitos”, mas chama-os de erga quando são duráveis o bastante para subsistirem e grandiosos o bastante para serem lembrados. [ArendtCH, 3, nota] A essa altura aparece, quase entre [[lexico:p:parenteses|parênteses]], a [[lexico:d:definicao|definição]] do [[lexico:e:escravo|escravo]] como “ser cuja [[lexico:o:obra|obra]] é o [[lexico:u:uso|uso]] do [[lexico:c:corpo|corpo]]”: Aqueles homens que diferem entre si assim como a [[lexico:a:alma|alma]] com [[lexico:r:relacao|relação]] ao corpo e o [[lexico:h:homem|homem]] com relação ao [[lexico:a:animal|animal]] - e estão nessa [[lexico:c:condicao|condição]] aqueles cuja obra é o uso do corpo e isto é o melhor (que pode vir) deles —, estes por [[lexico:n:natureza|natureza]] são [[lexico:e:escravos|escravos]], para os quais é melhor ser comandados com [[lexico:e:esse|esse]] comando, conforme já foi [[lexico:d:dito|dito]]. O [[lexico:p:problema|problema]] sobre qual é o ergon, a obra e a [[lexico:f:funcao|função]] própria do homem, havia sido apresentado por [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] em [[lexico:e:etica-a-nicomaco|Ética a Nicômaco]]. Frente à [[lexico:p:pergunta|pergunta]] se há algo parecido com uma obra do homem como tal (e não simplesmente do carpinteiro, do flautista ou do sapateiro) ou se o homem, pelo contrário, nasceu sem obra (argos), Aristóteles aqui afirma que “a obra do homem é o ser-em-obra da alma segundo o [[lexico:l:logos|Logos]]” (ergon anthropou psyches [[lexico:e:energeia|energeia]] katà logon — 1098a 7). Por isso, é ainda mais [[lexico:s:singular|singular]] a definição do escravo como aquele homem cuja obra consiste unicamente no uso do corpo. Que o escravo seja e continue sendo um homem está, para Aristóteles, fora de [[lexico:q:questao|questão]] ([[lexico:a:anthropos|anthropos]] on, “mesmo sendo homem...” — 1254a 16). Contudo, isso significa que há homens cujo ergon não é propriamente [[lexico:h:humano|humano]] ou é diferente daquele dos outros homens. [[lexico:p:platao|Platão]] já havia [[lexico:e:escrito|escrito]] que a obra de cada ser (quer se trate de um homem, de um cavalo, de qualquer [[lexico:o:outro|outro]] ser vivo) é “aquilo que ele é o [[lexico:u:unico|único]] a fazer ou faz de [[lexico:m:modo|modo]] mais [[lexico:b:belo|belo]] do que outros” (monon ti e kallista ton allon apergazetai — A República, 353a 10). Os escravos representam a [[lexico:e:emergencia|emergência]] de uma [[lexico:d:dimensao|dimensão]] do humano em que a obra melhor (“o melhor deles” — o beltiston de [[lexico:p:politica|Política]] remete com [[lexico:v:verossimilhanca|verossimilhança]] ao kallista de A República) -não é o ser-em-obra (energeia) da alma segundo o logos, mas algo para que Aristóteles encontra outra [[lexico:d:denominacao|denominação]], o “uso do corpo”. Nas duas fórmulas simétricas, ergon anthropou psyches energeia katà logon e ergon (doulou) he tou somatos chresis, a obra do homem é o ser-em-ato da alma segundo o logos e a obra do escravo é o uso do corpo, energeia e chresis, ser-em-obra e uso, parecem justapor-se pontualmente, como [[lexico:p:psyche|psyche]] e [[lexico:s:soma|soma]], alma e corpo. [AGAMBEN, Giorgio. O Uso dos Corpos. São Paulo: Boitempo, 2017, p. 22-23]