===== ENTENDIMENTO ===== [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. — Distingue-se do "[[lexico:j:juizo|juízo]]", que consiste em empregar os conhecimentos abstratos do entendimento nos casos particulares da [[lexico:v:vida|vida]]. Os filósofos cartesianos opunham o "entendimento" (a faculdade de conhecer) à "[[lexico:v:vontade|vontade]]" (a [[lexico:f:faculdade-de-julgar|faculdade de julgar]] e agir). Em [[lexico:s:spinoza|Spinoza]], o entendimento designa a faculdade de [[lexico:c:compreender|compreender]] a [[lexico:v:verdade|verdade]] e situa-se acima da "[[lexico:r:razao|razão]]", que é o poder de discutir e argumentar; em [[lexico:k:kant|Kant]], ao contrário, o entendimento situa-se abaixo da "razão": é a faculdade de compreender as [[lexico:r:relacoes|relações]] entre os objetos do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:r:real|real]], enquanto que a razão está identificada a nossas aspirações infinitas, ao [[lexico:s:sentimento|sentimento]] [[lexico:m:moral|moral]] do [[lexico:d:dever|dever]], [[lexico:e:entusiasmo|entusiasmo]], [[lexico:e:estado|Estado]] de excitação alegre que os filósofos gregos (principalmente [[lexico:p:platao|Platão]], no [[lexico:d:dialogo|diálogo]] Ion) atribuem à [[lexico:p:posse|posse]] divina (em gr. en-theos, [[lexico:e:estar|estar]] em [[lexico:d:deus|Deus]]), que ergue e "transporta" o [[lexico:e:espirito|espírito]] acima das preocupações humanas. Curiosamente, a [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] considerava o ardor [[lexico:a:apaixonado|apaixonado]] que confere o entusiasmo por um estado favorável ao [[lexico:f:filosofo|filósofo]] em sua busca da verdade, tanto quanto para o músico, para o guerreiro ou para o sacerdote. O entendimento [[lexico:h:humano|humano]] é a faculdade de [[lexico:p:pensar|pensar]] ([[lexico:p:pensamento|pensamento]]), isto é, a faculdade de perceber, de [[lexico:m:modo|modo]] intuitivo, o [[lexico:s:ser|ser]] e as relações. Sendo assim, difere essencialmente da confusamente chamada inteligência [[lexico:a:animal|animal]], mesmo em suas mais elevadas operações instintivas. ([[lexico:i:instinto|instinto]]). — O entendimento baseia-se na [[lexico:n:natureza|natureza]] da [[lexico:a:alma|alma]] humana considerada como [[lexico:s:ser-espiritual|ser espiritual]] (espírito, alma); todavia em sua peculiaridade de entendimento humano, está circunscrito, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], às condições particulares do espírito do [[lexico:h:homem|homem]], que é [[lexico:f:forma|forma]] [[lexico:e:essencial|essencial]] configuradora de um [[lexico:c:corpo|corpo]]. Embora o entendimento nos seja [[lexico:d:dado|dado]], antes de mais [[lexico:n:nada|nada]], como entendimento humano, o entendimento em [[lexico:g:geral|geral]], por sua [[lexico:e:essencia|essência]], [[lexico:n:nao|não]] é a mesma [[lexico:c:coisa|coisa]] que entendimento humano. O entendimento em geral está associado ao conhecimento espiritual enquanto tal, sem [[lexico:d:diferenca|diferença]] alguma, quer o conhecimento se realize de maneira ilimitada, como no espírito [[lexico:i:infinito|infinito]] de Deus, quer de maneira limitada, como no espírito criado ou mesmo ligado ao corpo. O [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:c:caracteristico|característico]] do conhecimento espiritual e do entendimento em geral é o [[lexico:e:ente|ente]] enquanto tal (ser). Enquanto o entendimento do homem está unido ao corpo e ao [[lexico:c:conhecimento-sensorial|conhecimento sensorial]], [[lexico:d:dito|dito]] objeto só lhe é dado na essência que brilha na coisa [[lexico:s:sensivel|sensível]] (intelligibile in sensibili). Sendo assim, a peculiaridade do entendimento humano caracteriza-se pelos seguintes binômios de [[lexico:c:conceitos|conceitos]] opostos: Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], ele é espiritual e orientado para o espiritual, e todavia está ligado a funções sensoriais e, portanto, à [[lexico:m:materia|matéria]]. É espiritual, porque só uma faculdade, cujos atos não são imediatamente co-realizados por um [[lexico:p:principio|princípio]] material, por conseguinte uma faculdade rigorosamente imaterial, pode dirigir-se a objetos espirituais e neles encontrar a [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] de seu ser e [[lexico:s:sentido|sentido]]. Só uma faculdade espiritual pode apresentar em seu ser [[lexico:p:proprio|próprio]] o inintuitivo e o [[lexico:s:simples|simples]]. A [[lexico:d:distincao|distinção]] de [[lexico:e:eu|eu]], [[lexico:n:nao-eu|não-eu]] e [[lexico:a:ato|ato]], e a [[lexico:p:pergunta|pergunta]], por tal [[lexico:m:meio|meio]] possibilitada, acerca do [[lexico:v:valor|valor]] [[lexico:l:logico|lógico]], ético e estético, dos atos e da [[lexico:e:existencia|existência]] própria, [[lexico:b:bem|Bem]] como o [[lexico:p:perfeito|perfeito]] "con-sigo" (Bei-sich) da [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]], pressupõem também um princípio espiritual do conhecimento. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, é notória a ligação com o conhecimento [[lexico:s:sensorial|sensorial]]: o entendimento humano deve extrair da [[lexico:e:experiencia|experiência]] sensível quase todos os conceitos primitivos; não possui nenhuma [[lexico:i:intuicao|intuição]] imediata das [[lexico:e:essencias|essências]] espirituais ([[lexico:f:formacao-do-conceito|formação do conceito]], [[lexico:o:ontologismo|ontologismo]]). O entendimento mantém igualmente, no curso global do pensar, a vinculação às imagens sensíveis (a conversio ad phantasmata dos escolásticos). Pode erguer-se ao espiritual e ao [[lexico:s:supra-sensivel|supra-sensível]], mas só pelo [[lexico:c:caminho|caminho]] da [[lexico:a:analogia|analogia]]. Com esta ligação ao conhecimento sensorial está conexo o [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:d:discursivo|discursivo]] e abstrativo da [[lexico:a:atividade|atividade]] do conhecimento humano, de tal maneira que o entendimento em sentido [[lexico:e:estrito|estrito]] designa a faculdade de pensar discursiva e abstrativamente. Sobre a diferença entre entendimento e razão, "intellectus" e "[[lexico:r:ratio|ratio]]": VIDE razão. A [[lexico:c:caracteristica|característica]] peculiar do entendimento humano manifesta-se, em segundo lugar, no contraste entre [[lexico:r:receptividade|receptividade]] e [[lexico:e:espontaneidade|espontaneidade]]. É clássica a distinção entre entendimento [[lexico:a:agente|agente]] ([[lexico:a:atuante|atuante]]) e paciente ou [[lexico:p:passivo|passivo]] (que se torna atuado) na doutrina da [[lexico:a:abstracao|abstração]], tal como desde [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] tem sido elaborada de diversas formas ([[lexico:f:formacao|formação]] do [[lexico:c:conceito|conceito]]). [[lexico:a:alem|Além]] disso, a espontaneidade do espírito manifesta-se na direção da [[lexico:a:atencao|atenção]], nos atos de tomada de [[lexico:p:posicao|posição]] próprios do juízo e no pensamento criador que supõe sempre a recepção de um conteúdo cognitivo. Em [[lexico:t:terceiro|terceiro]] lugar, a [[lexico:o:oposicao|oposição]] de [[lexico:i:imanencia|imanência]] e [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] na atividade do entendimento é superada pela [[lexico:i:imagem|imagem]] cognoscitiva intelectual, pelo verbum menti» (conhecimento), imagem que, do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista [[lexico:o:ontologico|ontológico]], permanece toda no cognoscente, mas que, no entanto, por seu caráter de imagem, o leva, para além de si mesma, ao objeto. — Sobrepujando essencialmente as [[lexico:f:faculdades|faculdades]] sensoriais, o entendimento, inclusive nas operações perfeitas do pensamento criador, permanece, segundo o exposto, unido, de maneira [[lexico:n:natural|natural]], ao conjunto do modo de conhecer sensitivo-intelectual e, ao mesmo tempo, ao [[lexico:t:todo|todo]] da [[lexico:p:personalidade|personalidade]] psicológica, incluindo a [[lexico:p:parte|parte]] [[lexico:i:irracional|irracional]] desta. Pelo contrário, o [[lexico:c:culto|culto]] de uma chamada intuição extra-intelectual do espiritual, com eliminação ou menosprezo do entendimento, é tão deformante ou mais do que o cultivo e valorização unilaterais do entendimento. — Willwoll. Apesar de na antiguidade e na idade média se [[lexico:t:ter|ter]] falado mais de [[lexico:i:intelecto|intelecto]] do que de entendimento, vamos unificar sob este [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:t:termo|termo]] todas as doutrinas referentes à [[lexico:r:realidade|realidade]] aludida por estes dois termos. Depressa se distinguiu entre o entendimento como [[lexico:o:ordem|ordem]] do cosmos e o entendimento como uma faculdade pensante que, além disso, reflete ou pode refletir, a citada ordem cósmica. Aristóteles - do qual procede a maioria das concepções medievais - defende que como o entendimento é uma faculdade da alma humana não se pode identificar simplesmente com a alma. A alma tem várias faculdades, e o entendimento é uma delas. É “a parte da alma com a qual conhece e pensa” (Da Alma). Esta [[lexico:d:definicao|definição]] suscita vários problemas; o da [[lexico:f:funcao|função]] própria do entendimento e o da sua natureza última são dois dos mais importantes. No que diz [[lexico:r:respeito|respeito]] ao primeiro [[lexico:p:problema|problema]], pode perguntar-se se o entendimento é principalmente intuitivo ou principalmente discursivo. Aristóteles parece destacar o primeiro [[lexico:a:aspecto|aspecto]]. Em todo o caso, este aspecto foi o que maior [[lexico:i:influencia|influência]] teve entre os seguidores de Aristóteles.. Sublinhou-se, com [[lexico:e:efeito|efeito]], que o entendimento é capaz de compreender os [[lexico:p:principios|princípios]] da [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] e os fins últimos da acção; concebeu-se então como um [[lexico:h:habito|hábito]] que não procede nem da [[lexico:c:ciencia|ciência]] nem da [[lexico:a:arte|arte]], mas sem o qual não haveria nem ciência nem arte. Portanto, não é propriamente o [[lexico:s:saber|saber]] mas antes uma [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]]. No que se refere ao segundo problema, pode perguntar-se se o entendimento, enquanto faculdade da alma, é realmente distinto de outras faculdades (a sensível, a imaginativa, etc) ou se há, por assim dizer, uma continuidade entre todas as faculdades. Umas vezes, Aristóteles parece [[lexico:f:falar|falar]] do entendimento como de uma faculdade separada e, outras vezes, em contrapartida, opõe-se rigorosamente ao [[lexico:d:dualismo|dualismo]] platônico e manifesta-se hostil a toda a [[lexico:s:separacao|separação]]; ao [[lexico:f:fim|fim]] e ao cabo, a conhecida definição aristotélica da alma faz dela una com o corpo. Pode falar-se, pois, de um Aristóteles intelectualista e por vezes platonizante e de um Aristóteles fundamentalmente naturalista e funcionalista. Digamos, rapidamente, que Aristóteles considera que , na [[lexico:s:sensacao|sensação]] há “algo de conhecimento”, de modo que pode dizer-se que a [[lexico:a:apreensao|apreensão]] sensível tem algo intelectual. Contudo, a [[lexico:n:noticia|notícia]] dada pela faculdade sensível não é, todavia, conhecimento propriamente dito. Este surge unicamente quando há, como acontece na alma humana, não só faculdade sensível, nem tão- pouco apenas [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] e [[lexico:m:memoria|memória]], mas também precisamente entendimento. Enquanto a faculdade sensível tem a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de [[lexico:a:apreender|apreender]] os “aspectos sensíveis” das [[lexico:c:coisas|coisas]], o entendimento tem a capacidade de apreender “os aspectos inteligíveis”. Ambos os aspectos têm de ser atualizados por serem apreendidos. Mas enquanto a atualização dos aspectos sensíveis é uma [[lexico:c:causa|causa]] ou [[lexico:m:movimento|movimento]], parece difícil admitir que haja uma causa ou movimento que atualize “os aspectos inteligíveis”. Daí que se chame a este entendimento passivo e se reclame a existência de outro a que posteriormente se chamou ativo ou agente, ao qual se refere Aristóteles quando diz que, por meio dele, a capacidade de apreensão dos aspectos inteligíveis se atualiza ou chega a ser efetiva. A [[lexico:t:tradicao|tradição]] aristotélica discutiu profusamente se o entendimento agente estava ou não separado do [[lexico:c:composto-humano|composto humano]] ou se era [[lexico:i:imanente|imanente]] ao mesmo e próprio de cada homem. S. Tomás afirmou que o entendimento ativo se encontra na alma como uma [[lexico:v:virtude|virtude]] capaz de tornar [[lexico:i:inteligivel|inteligível]] aquilo que o sensível tem de inteligível. Deste modo sublinhava o [[lexico:i:imanentismo|imanentismo]] contra o [[lexico:t:transcendentalismo|transcendentalismo]] e o separatismo de Averróis. Para este não há diferença entre o entendimento ativo e o passivo; ambos formam um só. Por conseguinte, os homens não pensam; o entendimento é a única coisa que neles pensa. Havendo um só entendimento [[lexico:t:transcendente|transcendente]] às almas, estas não podem ser imortais: só o entendimento [[lexico:u:unico|único]] é imortal. Daí a oposição de S. Tomás e mais autores ao averroismo (v. [[lexico:a:averroes|Averroes]]). Apesar de se poder dizer que a [[lexico:q:questao|questão]] formulada nestes termos deixou de [[lexico:e:existir|existir]], é inegável que perdurou na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], apesar de reformulada de outro modo. Aproxima-se mais do sentido [[lexico:m:moderno|moderno]] ao colocá-la nesta pergunta: “como é [[lexico:p:possivel|possível]] o conhecimento - enquanto ciência - em sujeitos que, pela sua [[lexico:e:estrutura|estrutura]] psicológica e psicofisiológica, parecem poder apreender unicamente [[lexico:d:dados-dos-sentidos|dados dos sentidos]] e não dados inteligíveis, [[lexico:u:universais|universais]], etc?” Neste sentido, muitos filósofos modernos se ocuparam do problema. Pode mesmo estudar-se a [[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]] de Kant como uma resposta à questão da natureza e função de uma [[lexico:e:especie|espécie]] de entendimento ativo: constituído pelos conceitos do entendimento. Seja como for, é forçoso dar algumas indicações sobre o termo entendimento na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] [[lexico:m:moderna|moderna]]. É comum, nesta filosofia, o [[lexico:u:uso|uso]] do termo entendimento para designar toda a faculdade intelectual, embora organizada em diversos graus. Em alguns casos, como em Espinosa, o entendimento equivale à “faculdade de conhecimento” nos seus diversos graus. Os modos como pode exercitar-se o entendimento ou “modos de [[lexico:p:percepcao|percepção]]” são, ao mesmo tempo, “modos do entendimento”. Esses modos são [[lexico:q:quatro|Quatro]]: 1) segundo o que se diz, ou segundo qualquer [[lexico:s:signo|signo]] escolhido arbitrariamente; 2) por experiência vaga; 3) por [[lexico:a:apreensao-da-essencia|apreensão da essência]] de uma coisa concluída de outra essência, mas não adequadamente, e 4) por percepção apenas da essência da coisa ou conhecimento da causa próxima. Esta [[lexico:i:ideia|ideia]] do entendimento como [[lexico:p:potencia|potência]] cognoscitiva completa encontra-se noutros autores modernos, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] em [[lexico:l:locke|Locke]]. Para este, os objetos do entendimento são as [[lexico:i:ideias|ideias]], tanto as de sensação como as de [[lexico:r:reflexao|reflexão]]. Isso mostra que, em Locke, o entendimento compreende, no seu primeiro [[lexico:g:grau|grau]], aquilo a que, por vezes, se chama [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]]. [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] distingue entre sensibilidade e entendimento e afirma que esta diferença não é essencial mas gradual. Com efeito, conhecer equivale a ter representações, as quais podem ser menos claras (sensibilidade) ou mais claras (entendimento propriamente dito). A sensibilidade está subordinada ao entendimento, no qual as representações alcançam o grau desejável de [[lexico:c:clareza-e-distincao|clareza e distinção]]. Kant opõe-se à ideia Leibniziana de que a sensibilidade é uma forma inferior do entendimento e proclama uma distinção fundamental entre ambas. A sensibilidade é uma faculdade de intuição. Mediante a faculdade sensível, agrupam-se os fenômenos segundo as ordens [[lexico:t:transcendentais|transcendentais]] do [[lexico:e:espaco|espaço]] e do tempo. A sensibilidade é a faculdade das intuições [[lexico:a:a-priori|a priori]]. O entendimento, em contrapartida, é uma “faculdade das regras”. Mediante ela, pensa-se sinteticamente a [[lexico:d:diversidade|diversidade]] da experiência. A sensibilidade ocupa-se de intuições; o entendimento de conceitos. Estes são cegos sem as intuições, mas as intuições sem os conceitos são vazias. “O entendimento não pode intuir nada; os sentidos não podem pensar nada” ([[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]]). Em [[lexico:s:suma|suma]], o entendimento pensa o objeto da [[lexico:i:intuicao-sensivel|intuição sensível]], de tal modo que a faculdade do entendimento e a da sensibilidade não podem “trocar as suas funções”: só quando se unem se obtém conhecimento. Pode definir-se o entendimento de modos muito diversos; como espontaneidade (ao contrário da passividade da sensibilidade), como poder de pensar, como faculdade de conceitos, como faculdade de juízos. Segundo Kant, todas estas definições são idênticas, pois equivalem à citada “faculdade das regras” (ibid., A 126). Mas com isso resulta que o entendimento não é propriamente uma faculdade mas uma função ou conjunto de operações que visam produzir sínteses e, assim, a torna possível o conhecimento em formas cada vez mais rigorosas. Portanto o entendimento põe em [[lexico:r:relacao|relação]] as intuições e leva a cabo as sínteses sem as quais não pode haver enunciados necessários e universais. Ao mesmo tempo que estrutura positivamente o conhecimento (ou, melhor, a sua [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]]), o entendimento estrutura-o negativamente, pois estabelece os limites para além dos quais não se pode ir. Estes limites estão marcados pela fronteira que divide o entendimento e a razão. Esta não pode constituir o conhecimento; em suma, pode estabelecer certas e certas diretrizes de caráter muito geral. Ora, a distinção kantiana foi aceite por diversos autores como [[lexico:f:fichte|Fichte]], [[lexico:s:schelling|Schelling]] e [[lexico:h:hegel|Hegel]], mas, ao mesmo tempo, foi voltada do avesso. Considerou-se que o entendimento era uma faculdade inferior que não se pode [[lexico:c:comparar|comparar]] em poder e majestade com a razão, e considerou-se que esta última, mediante a “[[lexico:i:intuicao-intelectual|intuição intelectual]]”, podia penetrar naquele [[lexico:r:reino|reino]] que Kant tinha colocado fora dos limites do conhecimento [[lexico:t:teorico|teórico]]. Não se tratava, como Kant postulara, de afirmar a possibilidade de um contato com “a realidade em si” por meio da [[lexico:r:razao-pratica|razão prática]]; era a razão teórica e especulativa que o apreendia “em si”. Em vez de subordinar o entendimento à razão de um modo romântico, Hegel procurou integrá-lo e hierarquizá-los de um modo [[lexico:s:sistematico|sistemático]]. Concebeu o entendimento como razão abstrata, ao contrário da razão concreta, única que se pode chamar verdadeiramente razão. Enquanto o entendimento é a própria razão identificadora e que habita o [[lexico:c:concreto|concreto]] ou que, em suma, quer assimilar as diferenças do concreto, a razão é a [[lexico:a:absorcao|absorção]] do concreto pelo [[lexico:r:racional|racional]], identificação última do racional com o real para além da simples identificação abstrata. A questão é, na verdade, o espírito, o qual deve ser considerado como algo [[lexico:s:superior|superior]] à pura razão raciocinante.