===== ENDOXON ===== éndoxon: [[lexico:o:opiniao:start|opinião]], opinião [[lexico:g:geral:start|geral]] 1. Nos Anal. post. [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] expõe com pormenor um [[lexico:m:metodo:start|método]] de procedimento científico que ele designa por «[[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]]» ([[lexico:a:apodeixis:start|apodeixis]]) e que pode [[lexico:s:ser:start|ser]] descrito como o [[lexico:p:progresso:start|progresso]], através da via [[lexico:s:silogistica:start|silogística]], de premissas conhecidas para conclusões novas, verdadeiras e válidas. Como [[lexico:t:teoria:start|teoria]] é admirável, mas como método é desmentido na maior [[lexico:p:parte:start|parte]] do [[lexico:c:corpus:start|corpus]] aristotélico onde o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] procedimento seguido é mais frequentemente aporemático ([[lexico:v:ver:start|ver]] [[lexico:a:aporia:start|aporia]] e o passo [[lexico:e:esquema:start|esquema]] tico na [[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]] 995-b) 2. Este [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:c:caminho:start|caminho]], que vê a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] como partindo de problemas que exigem solução, é inteiramente [[lexico:s:socratico:start|socrático]] tal como o [[lexico:c:consequente:start|consequente]] solicitar de opiniões que são então dialeticamente elaboradas no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de uma solução. 0 que o [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]] [[lexico:h:historico:start|histórico]] fez na conversa e [[lexico:p:platao:start|Platão]] aperfeiçoou na [[lexico:f:forma:start|forma]] literária do [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]], Aristóteles analisou-o em método: «Um [[lexico:s:silogismo:start|silogismo]] é demonstrativo (apodeixis) quando procede de premissas que são verdadeiras e primordiais...; é dialético quando se articula a partir das endoxa... Endoxa são proposições que parecem verdadeiras a todos ou à maioria ou aos sábios» (Top. I, lOOa-b). 3. É este procedimento, [[lexico:c:chamado:start|chamado]] dialético ([[lexico:d:dialektike:start|dialektike]]), que é frequentemente invocado por Aristóteles no decurso do seu filosofar, despido, por certo, dos seus rigores silogísticos ideais. 4. A [[lexico:d:definicao:start|definição]] das endoxa no [[lexico:t:texto:start|texto]] supracitado sugere que as opiniões têm simultaneamente uma base quantitativa e qualitativa. A primeira parece socrática, i. é, discutindo o que se pode chamar o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista do «[[lexico:s:senso-comum:start|senso comum]]», e esta aproximação é seguida em vários pontos nos trabalhos da [[lexico:e:etica:start|ética]] (ver [[lexico:e:ethica-nichomacos:start|Ethica Nichomacos]] VII, 1145 b), de igual forma que na grande abertura da Metafísica (982 a). Neste último texto Aristóteles procura obter a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] da [[lexico:s:sophia:start|Sophia]], e o [[lexico:p:processo:start|processo]] que adaptou é partir da [[lexico:v:visao:start|visão]] [[lexico:v:vulgar:start|vulgar]] do que é um [[lexico:h:homem:start|homem]] [[lexico:s:sabio:start|sábio]]. E pode tomar esta [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] [[lexico:d:dado:start|dado]] o [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] que havia ficado por tratar em Platão: a natureza una e progressiva da filosofia, onde a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] [[lexico:n:nao:start|não]] é salvaguarda de qualquer homem mas o resultado de uma contínua e acumulada [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] (Metafísica 993 a-b). 5. Mas a definição de endoxa no [[lexico:t:topicos:start|Tópicos]] abre a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de um recurso à opinião qualitativa, ao «profissional» de preferência ao ponto de vista do «[[lexico:s:senso:start|senso]] comum» e «àquilo que parece verdade aos sophoi». Assim começa a [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] moldada, não como uma [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] histórica [[lexico:i:independente:start|independente]], mas sim como uma parte do método da própria filosofia, a [[lexico:p:premissa:start|premissa]] maior ou seja um silogismo dialético. Nas considerações de Aristóteles as opiniões dos seus predecessores filosóficos foram sempre integradas nas suas próprias investigações. O primeiro a apresentar uma [[lexico:s:separacao:start|separação]] [[lexico:f:fisica:start|física]] do material histórico foi o seu discípulo [[lexico:t:teofrasto:start|Teofrasto]] cujas Opiniões dos Filósofos Naturalistas constituiu um [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] de livre inovação e é o antecessor de todas as colecções doxográficas que lhe sucederam (ver paralela separação do esboço do caracter em Teofrasto tirada dos seus contextos éticos no seu [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]]). 6. A abordagem histórica da filosofia não é completamente desconhecida para Platão; no mínimo dá uma panorâmica retrospectiva do decurso da [[lexico:e:especulacao:start|especulação]] pré-socrática (Soph. 242b-249d; ver [[lexico:e:eidos:start|eidos]]), e alguns dos [[lexico:d:dialogos:start|diálogos]] centrais tomam o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] de [[lexico:d:discussao:start|discussão]] [[lexico:d:dialetica:start|dialética]], não como algo [[lexico:r:representativo:start|representativo]] da communis opinio, mas como divagações dramáticas duma [[lexico:g:geracao:start|geração]] mais próxima de filósofos [[lexico:s:sofistas:start|sofistas]] (e. g. [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]], [[lexico:p:protagoras:start|Protágoras]], [[lexico:g:gorgias:start|Górgias]]). A [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] na [[lexico:a:atitude:start|atitude]] aristotélica é expressa no já citado texto da Metafísica (993a-b): a filosofia é cumulativa, evolutiva e progressiva. As linhas mestras de Platão podem ser históricas, mas não há qualquer [[lexico:p:prova:start|prova]] de um [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de filosofia como parte de uma [[lexico:h:historia:start|história]] [[lexico:s:social:start|social]] do homem; na verdade as implicações da teoria da [[lexico:a:anamnesis:start|anamnesis]] são que cada homem deve emergir da Caverna; neste ponto de vista não há progresso na [[lexico:c:criacao:start|criação]] da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]]. 7. As perspectivas históricas de Aristóteles aparecem cedo; os fragmentos (v. g. 3, 6, 7) do Livro I do primeiro diálogo Sobre a Filosofia mostram Aristóteles perseguindo a [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] da sophia num contexto ainda mais lato do que o da Metafísica. Aqui tem perante si um panorama histórico que abarca não só os sábios gregos do passado mas também um [[lexico:c:campo:start|campo]] mais vasto que tem em conta não só a busca religioso-mítica da verdade (ver niythos, aporia), mas igualmente a [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] do Oriente; em [[lexico:s:suma:start|suma]], uma [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] que começa com os Egípcios, passa por Zoroastro e atinge o clímax em Platão. 8. A natureza fragmentária do diálogo não permite muita especulação acerca dos métodos aí [[lexico:e:empregados:start|empregados]], mas há provas evidentes da utilização que Aristóteles faz dos seus predecessores nos tratados que chegaram até nós. O Livro I da Metafísica inclui uma panorâmica (983b-988a) das opiniões anteriores sobre a [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]]; A Física I faz uma recapitulação [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] (184b-189b) das archai. O [[lexico:d:de-anima:start|De anima]] apresenta uma história das especulações sobre a natureza da [[lexico:a:alma:start|alma]] (403b-411b) e o De gen. et corr. sobre a natureza da gênesis (314a-317a). Cada um destes passos tem a sua própria [[lexico:f:forca:start|força]]. Por vezes, como no passo da Metafísica, as endoxa fornecem uma [[lexico:c:confirmacao:start|confirmação]] da própria teorização de Aristóteles; ou ainda como no De [[lexico:a:anima:start|anima]], elas iniciam e limitam os termos do [[lexico:p:problema:start|problema]], cuja solução começará de novo no Livro II (ver 403b). Mas em cada caso as posições dos outros filósofos são apresentadas sob um ponto de vista mais [[lexico:p:problematico:start|problemático]] do que histórico e, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, são sujeitas a uma [[lexico:c:critica:start|crítica]] mais ou menos pormenorizada, ainda sob o ponto de vista problemático. Assim a recapitulação na Metafísica I, caps. 3-6 é seguida, nos caps. 8-10, por uma crítica de especulação prévia. 9. A [[lexico:a:apresentacao:start|apresentação]] e a crítica que Aristóteles faz da [[lexico:o:obra:start|obra]] dos seus antecessores, e particularmente de Platão, têm sido muito criticadas (ver [[lexico:a:agrapha-dogmata:start|agrapha dogmata]]). O problema parece surgir do [[lexico:f:fato:start|fato]] de que, enquanto Aristóteles tinha um ponto de vista que lhe permitia ou mesmo lhe exigia que incorporasse a história anterior da busca da sophia nas suas próprias investigações, esta abordagem foi estritamente processual, dado que viu a história só como aporia ou lysis, o que obstou a que prestasse a devida [[lexico:j:justica:start|justiça]] à [[lexico:r:realidade:start|realidade]] histórica da obra dos seus antecessores. 10. No período que se segue a Teofrasto tornam-se visíveis mais dois desenvolvimentos. Primeiro, o conjunto das endoxa que em Aristóteles serve para delinear a natureza evolutiva do perguntar filosófico volta-se para novos fins. O [[lexico:e:esforco:start|esforço]] acentuado do cepticismo, que formulou poderosamente os problemas e métodos do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] pós-aristotélico até aos [[lexico:p:principios:start|princípios]] da era cristã, encontrou uma nova aplicação da [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] doxográfiea, empregando-a [[lexico:a:agora:start|agora]], de uma maneira completamente oposta ao [[lexico:u:uso:start|uso]] aristotélico, para reforçar, em bases históricas, uma [[lexico:p:posicao:start|posição]] de [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] [[lexico:m:metodica:start|metódica]]. Como pode ser, perguntam eles, termos qualquer [[lexico:g:garantia:start|garantia]] de [[lexico:c:certeza:start|certeza]] quando os grandes filósofos do passado eram tão contraditórios nas questões básicas da filosofia? São citados capítulos e versos e o [[lexico:e:efeito:start|efeito]] cumulativo é persuadir o leitor de que o [[lexico:u:unico:start|único]] caminho [[lexico:r:racional:start|racional]] é uma suspensão céptica do [[lexico:j:juizo:start|juízo]] ([[lexico:e:epoche:start|epoche]]; ver Cícero, Acad. pr. 48, 148 e [[lexico:s:sexto-empirico:start|Sexto Empírico]], Pyrrh. I, 36-38). É este, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], o claro [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] da doxografia em Cícero, Acad. pr. 36, 116-47, 146, herdado, sem dúvida, de algum antigo professor da Nova [[lexico:a:academia:start|Academia]] céptica. 11. A Nova Academia também tem um papel na [[lexico:h:historiografia:start|historiografia]] do período. A polêmica da [[lexico:e:epoca:start|época]] de Cícero é dominada por uma [[lexico:l:luta:start|luta]] a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] da ortodoxia das várias escolas. A filosofia passara já para o seu estágio «[[lexico:c:classico:start|clássico]]» e a batalha por um [[lexico:l:lugar:start|lugar]] de proteção sob os mantos dos mestres do passado estava no seu auge, batalha em que uma das técnicas favoritas era o escrever —¦ e reescrever — a história da filosofia. As páginas da Acadêmica de Cícero são, de novo, o principal [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]]. Surgem duas concepções, a céptica e a estóica. A primeira vê os [[lexico:p:pre-socraticos:start|pré-socráticos]] como uma [[lexico:s:serie:start|série]] de protocépticos, atingindo o [[lexico:m:movimento:start|movimento]] o clímax na aporta de Sócrates. O [[lexico:d:dogmatismo:start|dogmatismo]] de Platão é mais [[lexico:a:aparente:start|aparente]] do que [[lexico:r:real:start|real]] e a Nova Academia desde [[lexico:a:arcesilau:start|Arcesilau]] até Carnéades está na corrente principal do [[lexico:s:socratismo:start|socratismo]], tal como os Cirenaicos (Acad. post. 12, 44-46; 23, 72-74, 76). O ponto de vista estoico da história, derivado por Cícero do acadêmico Antíoco mas provavelmente atribuível ao estoico [[lexico:p:panecio:start|Panécio]], tende a não considerar os pré-socráticos e a começar a [[lexico:m:moderna:start|moderna]] tradição filosófica com Sócrates cujo alegado cepticismo não foi, em qualquer caso, mais do que [[lexico:i:ironia:start|ironia]]. Procede-se então à [[lexico:s:sincrise:start|síncrise]] da Velha Academia e do Perípato num único [[lexico:s:sistema:start|sistema]] que difere em [[lexico:n:nome:start|nome]] mas é fundamentalmente concordante (Acad. post. 4, 15-18). O sistema de [[lexico:z:zenao:start|Zenão]] deriva dessa [[lexico:f:fonte:start|fonte]] e não é mais do que uma correção do [[lexico:p:platonismo:start|platonismo]] (ibid, 9, 25; 12, 43), enquanto a Nova Academia de Arcesilau é realmente uma [[lexico:a:aberracao:start|aberração]] (Acad. pr. 6, 16). É deste [[lexico:m:modo:start|modo]] que o [[lexico:e:estoicismo:start|estoicismo]] médio pode colocar-se na tradição platônica (com efeitos filosóficos visíveis em [[lexico:p:posidonio:start|Posidônio]]; ver [[lexico:n:noesis:start|noesis]] 17 e [[lexico:p:psyche:start|psyche]] 29) e Antíoco pode efetuar a sua «restauração» da Velha Academia exaltando as doutrinas estóicas (ver a hábil caracterização de Cícero in Acad. pr. 43, 132). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}