===== EMPOBRECIMENTO DA COMUNICAÇÃO ===== Podem-se [[lexico:p:pensar|pensar]], em [[lexico:r:relacao|relação]] à maior ou menor [[lexico:r:riqueza|riqueza]] de [[lexico:c:comunicacao|comunicação]], dois níveis distintos. O primeiro seria aquele que através de uma [[lexico:t:teoria|teoria]] da comunicação procurasse caracterizar [[lexico:c:como-se|como se]] dá este [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]]. Ver-se-ia que a comunicação no [[lexico:h:homem|homem]] é bastante definida mas que [[lexico:n:nao|não]] pode [[lexico:s:ser|ser]] limitada ao [[lexico:s:sistema|sistema]] de comunicação tal como é conceituado fisicamente, já que tanto o emissor e o [[lexico:r:receptor|receptor]] principais para o homem são o [[lexico:p:proprio|próprio]] homem. A exigência do [[lexico:o:outro|outro]] não tem similar entre os animais. Um homem afastado do convívio dos seus perde a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] verbal (conforme aconteceu efetivamente com o Robinson Crusoé que inspirou Defoe), [[lexico:s:sintoma|sintoma]] [[lexico:e:empirico|empírico]] da [[lexico:p:perda|perda]] da cadeia do significante. Nenhum exercício empírico pode retornar o homem à sua [[lexico:n:norma|norma]] em relação ao seu [[lexico:g:grupo|grupo]] cultural, desde que ele sofra uma desestruturação ou não chegue a ser estruturado. Isto pôde ser observado no caso das chamadas "crianças selvagens". O exame das necessidades e [[lexico:a:atividades|atividades]] humanas, que é feito através da [[lexico:m:mediacao|mediação]] teórica, é [[lexico:v:vivido|vivido]] imediatamente pelos sujeitos que participam da cadeia do significante (e é este o segundo nível). Aos sujeitos parece-lhes que são sua [[lexico:c:causa|causa]] criadora. Os valores, juízos e [[lexico:c:costumes|costumes]] que o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] aprendeu e apreendeu numa dada [[lexico:c:cultura|cultura]] manifestam-se a ele como [[lexico:f:fonte|fonte]] de sua [[lexico:v:verdade|verdade]] e [[lexico:a:atividade|atividade]]. Os fatos que nela se passam se colocam como constitutivos e fundamentais de sua [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] e, através dela, da dos outros. Daí o exame individual, [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]], ficar limitado a uma única faceta: a dos fatos acontecidos e resolvidos ideologicamente, fatos estes que justificarão teoricamente os acontecimentos. Neste nível [[lexico:i:imediato|imediato]] o [[lexico:j:juizo|juízo]] a [[lexico:r:respeito|respeito]] da riqueza ou [[lexico:p:pobreza|pobreza]] da comunicação é sustentado subjetivamente, tendo como [[lexico:r:referencia|referência]] principal as noções de importância e [[lexico:u:utilidade|utilidade]] [[lexico:s:social|social]]. Tome-se, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], o programa "Show sem limites", onde se fazem perguntas relativas à [[lexico:v:vida|vida]] de celebridades. Um menino, por exemplo, responde sobre a vida de Santos Dumont: qual a marca de seu primeiro automóvel, o [[lexico:n:nome|nome]] de seu primeiro balão, a data da [[lexico:m:morte|morte]] de seu pai etc. O [[lexico:p:publico|público]] considera este programa como "cultural", ou seja, o que traduz uma comunicação qualitativamente rica. Mas a [[lexico:a:analise|análise]] mostra que não há "cultura" aí, e sim apenas exploração [[lexico:e:emocional|emocional]] em torno das possibilidades de uma [[lexico:m:memoria|memória]] não criadora. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], a Gestalt já demonstrou que a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] é [[lexico:a:apreensao|apreensão]] de [[lexico:r:relacoes|relações]] e poder-se-ia mostrar como "[[lexico:t:ter|ter]] cultura" significa [[lexico:a:apreender|apreender]] formas, relações e não simplesmente mimetizar livros. A [[lexico:n:nocao|noção]] empírica de "ter cultura" equivale a ter um nível mais rico de informação cultural. Neste quadro os programas que apenas pretendem propiciar entretenimento são considerados de comunicação pobre. Esta confusão entre conhecimentos e informação cultural é inaceitável. Os programas do Chacrinha não oferecem informações culturais estratificadas ([[lexico:v:ver|ver]] adiante como se estratifica a cultura e mais elaboradamente no verbete [[lexico:i:ideologia|ideologia]]) mas são um [[lexico:l:lugar|lugar]] onde a comunicação é a mais rica [[lexico:p:possivel|possível]]. O conjunto de linguagens gestuais, mímicas, costumes, o piano visual, as relações entre ele, os candidatos, as bailarinas, o público, os cantores convidados, constituem um [[lexico:e:espetaculo|espetáculo]] que propicia um [[lexico:r:real|real]] acréscimo de informação. No nível [[lexico:t:teorico|teórico]] o [[lexico:p:problema|problema]] não é de fácil postulação. [[lexico:f:falar|falar]] de empobrecimento significa afirmar afastamentos em relação a um certo optimum considerado como norma. Ora, não se pode postular um optimum em relação ao [[lexico:c:comportamento|comportamento]] de uma [[lexico:s:sociedade|sociedade]] como um [[lexico:t:todo|todo]]. As diversas classes sociais, [[lexico:b:bem|Bem]] como as classes profissionais e etárias, têm [[lexico:n:necessidade|necessidade]] que não podem ser homogeneizadas. É evidente que as metas de [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] do potencial de um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] da [[lexico:c:classe-operaria|classe operária]] serão muito menos exigentes que as de um sujeito da burguesia. O optimum só poderia ser [[lexico:p:postulado|postulado]] da perspectiva mais globalizante, isto é, político-econômica, e assim mesmo em [[lexico:f:funcao|função]] de uma [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] de "[[lexico:c:coisas|coisas]]" a serem alcançadas (em relação a um "desenvolvimento" que também ]á teria um [[lexico:m:modelo|modelo]] realizado) . A [[lexico:s:situacao|situação]] dos sujeitos diante destas metas, isto é, sua [[lexico:p:posicao|posição]] na [[lexico:e:estrutura|estrutura]] social, serão as referências para a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] de uma norma da comunicação: não há referências absolutas já que a [[lexico:e:etica|ética]] não é criadora, mas [[lexico:p:produto|produto]]. As metas a serem alcançadas, a hierarquização valorial dependem do recorte que a [[lexico:c:classe|classe]] dominante faz na sociedade como um todo. Nas chamadas sociedades industriais os analistas costumam falar de maior ou menor comunicação sem se perguntar a respeito do que é comunicado. Poder-se-ia mostrar que nestas sociedades a meta principal é [[lexico:c:criar|criar]] consumidores (ver indústria cultural) e que não há análise de [[lexico:q:quantidade|quantidade]] de informação cultural que não dependa da análise da estrutura de produção. Por outro lado, uma análise dos conteúdos comunicados sem a análise do [[lexico:m:meio|meio]] que os conduz é insuficiente. Já se pôde provar (cf. [[lexico:t:traducao|tradução]]) que não há passagens biunívocas de uma linguagem à outra. A [[lexico:l:leitura|leitura]] de uma peça de Shakespeare é completamente distinta de um filme baseado nesta mesma leitura. E isto independe da estrutura de produção onde se dá. Entretanto, pode-se dar uma referência maior do que é uma comunicação empobrecida (ou enriquecida) se se aceita que a comunicação mais adequada (entendida como optimum) é aquela que se aproxima da estrutura do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. A comunicação será tanto mais rica quanto mais conexões tiver com a explicitação teórica do [[lexico:m:modo-de-producao|modo de produção]] social. Mas mesmo isto é insuficiente, visto que o vivido é a [[lexico:m:materia-prima|matéria prima]] para a elaboração teórica e se ambos trabalhassem em circuito fechado a [[lexico:c:ciencia|ciência]] deixaria de [[lexico:e:existir|existir]] como tal. Já no [[lexico:p:plano|plano]] da teoria [[lexico:m:matematica|matemática]] da informação a [[lexico:q:questao|questão]] é bem mais [[lexico:s:simples|simples]], o [[lexico:e:empobrecimento-da-comunicacao|empobrecimento da comunicação]] (ou informação) deve ser medido através da noção de ruído.