===== ELEATISMO ORIGINÁRIO ===== Esta façanha que [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]] leva a [[lexico:e:efeito:start|efeito]] seis séculos antes de Jesus Cristo, se a olhamos e a contemplamos do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista técnico-filosófico, indubitavelmente aparece-nos como grosseira ou, melhor [[lexico:d:dito:start|dito]], como ingênua, como feita por um [[lexico:h:homem:start|homem]] que pela primeira vez maneja a [[lexico:r:razao:start|razão]], sem [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] anterior, sem [[lexico:e:escola:start|escola]], sem a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] [[lexico:s:secular:start|secular]] dessa elaboração dos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] e das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] que as vai polindo, polindo, até fazê-las encaixar perfeitamente umas nas outras. É um homem que leva a efeito uma façanha ingênua e grosseira, porque [[lexico:n:nao:start|não]] sabe ainda manejar o [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] que tem nas [[lexico:m:maos:start|mãos]]. Descobrem os homens dessa [[lexico:e:epoca:start|época]], os Pitagóricos e Parmênides, a razão, e ficam maravilhados ante o poder do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]]; ficam maravilhados de como o pensamento, [[lexico:p:por-si:start|por si]] só, tem [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]] iluminativas extraordinárias; de como o pensamento, por si só, pode penetrar na [[lexico:e:essencia:start|essência]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. A [[lexico:a:aritmetica:start|aritmética]] dos Pitagóricos, a [[lexico:g:geometria:start|geometria]] incipiente naqueles tempos, tudo isto fez [[lexico:p:pensar:start|pensar]] àqueles homens que com a razão poderiam decifrar imediatamente o [[lexico:m:misterio:start|mistério]] do [[lexico:u:universo:start|universo]] e da [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. E então Parmênides faz da razão uma aplicação exaustiva, leva-a até os últimos extremos, até os últimos limites, e este exagero na aplicação da razão é, provavelmente, o que tem que suportar a [[lexico:c:culpa:start|culpa]] de que o [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de Parmênides apareça no seu conjunto como um [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:f:formalismo:start|formalismo]] metafísico. Com efeito, o [[lexico:p:principio:start|princípio]] [[lexico:r:racional:start|racional]] de que Parmênides faz [[lexico:u:uso:start|uso]] é o [[lexico:p:principio-de-identidade:start|princípio de identidade]]. [[lexico:e:esse:start|esse]] princípio, segundo o qual algo não pode [[lexico:s:ser:start|ser]] e não ser ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], esse princípio de [[lexico:i:identidade:start|identidade]] é, todavia, realmente um princípio" [[lexico:f:formal:start|formal]]. Não tem conteúdo; se o quisermos preencher, temos que preenchê-lo com [[lexico:p:palavras:start|palavras]] como "algo", "isto", "aquilo"; com frases como "uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] não pode ser igual a outra" ou "não pode ser desigual a si mesma". Essas palavras vagas — algo, aquilo, isto, uma coisa — mostram perfeitamente que o princípio é uma [[lexico:f:forma:start|forma]] que carece de um conteúdo [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]]; pois, se não há outras intuições mais que a própria [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] desse princípio, então este princípio constitui um simples molde, dentro do qual não se verte realidade alguma. Vemos isto clarissimamente se refletimos um [[lexico:i:instante:start|instante]] na [[lexico:i:impressao:start|impressão]] que nos produzem argumentações como as de [[lexico:z:zenao:start|Zenão]] de Eleia quando ataca o [[lexico:m:movimento:start|movimento]]. Recordemos a [[lexico:a:argumentacao:start|argumentação]] sutil de Zenão de Eleia para demonstrar que [[lexico:a:aquiles:start|Aquiles]] não pode nunca alcançar a tartaruga. Nossa impressão é que aquilo não convence, que aquilo está [[lexico:b:bem:start|Bem]], que é difícil refutá-lo, que talvez não possa encontrar-se [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:a:argumento:start|argumento]] que se lhe oponha vitoriosamente; mas que, todavia, não convence muito. E na [[lexico:v:verdade:start|verdade]] temos tanta razão, em não conceder mais que [[lexico:a:admiracao:start|admiração]], e não crédito, a esses argumentos, temos tanta razão que os [[lexico:s:sofistas:start|sofistas]] e os cépticos, séculos após, adotam a Zenão de Eleia como um dos seus grandes mestres. Mas, que é aquilo que falha nessa argumentação de Zenão de Eleia? Onde está a [[lexico:c:causa:start|causa]] desse desagrado que sua argumentação produz em nós? E muito simples: a causa está em que Zenão de Eleia faz um uso objetivo e [[lexico:r:real:start|real]] de um princípio que não é mais que formal; e como faz desse princípio um uso objetivo e real, sendo assim que o princípio é puramente formal, não podemos rebatê-lo facilmente com [[lexico:p:principios:start|princípios]] de razão, de argumentação. Mas, em troca, a realidade mesma resulta contrária àquilo que diz Zenão. E em que consiste este choque entre a realidade e o princípio formal? Relembremos o argumento de Zenão. Zenão [[lexico:p:parte:start|parte]] do princípio de que o [[lexico:e:espaco:start|espaço]] é infinitamente divisível. Mas, pensemos um [[lexico:m:momento:start|momento]]: o espaço é infinitamente divisível na [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]]; pode ser infinitamente dividido no pensamento; pode sê-lo como mera possibilidade, como mera forma; porém o [[lexico:s:sofisma:start|sofisma]], por assim dizer, de Zenão de Eleia consiste em que este espaço — que em [[lexico:p:potencia:start|potência]] pode ser infinitamente dividido — é realmente e [[lexico:a:agora:start|agora]] mesmo dividido. De [[lexico:m:modo:start|modo]] que o sofisma de Zenão consiste em confundir as condições simplesmente formais e lógicas da possibilidade com as condições reais, materiais, existenciais do ser mesmo. Diz Zenão que Aquiles não alcança a tartaruga porque a distância entre ele e a tartaruga é um pedaço que pode dividir-se infinitamente. Sim. Mas esse "pode dividir-se infinitamente" tem dois sentidos: um [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de mera possibilidade formal [[lexico:m:matematica:start|matemática]], e outro Sentido de possibilidade real, [[lexico:e:existencial:start|existencial]]. E o trânsito suave, o trânsito [[lexico:o:oculto:start|oculto]], entre um e outro sentido é que faz com que a argumentação surpreenda, mas não convença. Este é o [[lexico:v:vicio:start|vício]] fundamental de [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:e:eleatismo:start|eleatismo]]. Todo o eleatismo não é mais que uma [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] da pura forma, sem conteúdo. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}