===== DÚVIDA ===== A incerteza do [[lexico:e:espirito:start|espírito]], [[lexico:r:recusa:start|recusa]] em afirmar ou negar algo. Distinguimos duas formas de dúvida: 1.° a dúvida [[lexico:n:natural:start|natural]], que acompanha a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de conhecimentos certos; 2.° a dúvida [[lexico:m:metodica:start|metódica]] ou filosófica, que consiste em duvidar de todos os nossos conhecimentos, mesmo da nossa [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], enquanto [[lexico:n:nao:start|não]] conhecemos o [[lexico:p:principio:start|princípio]] de [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:s:saber:start|saber]]. Foi essa a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] de [[lexico:p:platao:start|Platão]], de [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] e de [[lexico:f:fichte:start|Fichte]]. É o [[lexico:c:comeco:start|começo]] de toda a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] radical. Distinguimos dois objetos fundamentais de dúvida: 1.° o mundo [[lexico:e:exterior:start|exterior]]: o [[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]] em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao mundo exterior é o dos filósofos antigos ([[lexico:p:pirro:start|Pirro]]); não exclui certa [[lexico:c:crenca:start|crença]] de [[lexico:d:deus:start|Deus]]; 2.° Deus: o ceticismo em relação a Deus corresponde ao [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] [[lexico:m:moderno:start|moderno]], o qual só acredita no que vê e no que toca (positivismo de Augusto [[lexico:c:comte:start|Comte]], [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]]). A dúvida é a oscilação entre o sim e o não, entre [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] ou opiniões que mutuamente se contradizem, sem que se chegue a tomar uma [[lexico:d:decisao:start|decisão]] em favor de alguma das duas. A dúvida pressupõe que se tenha [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de um [[lexico:j:juizo:start|juízo]], em face do qual se deva tomar [[lexico:p:posicao:start|posição]], e, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, a [[lexico:e:existencia:start|existência]] de razões, ou, pelo menos, de razões aparentes em favor de cada uma das hipóteses contraditórias. Nomeadamente tratando-se de questões de [[lexico:r:relevante:start|relevante]] importância para a [[lexico:v:vida:start|vida]], a dúvida costuma aliar-se a um angustiante [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] de inquietação. Enquanto as razões não produzirem uma [[lexico:e:evidencia:start|evidência]], embora imperfeita, pró ou contra a [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] em [[lexico:q:questao:start|questão]], a dúvida justifica-se; se houver um acúmulo notável de razões em favor de uma das partes, é sensato manter uma [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] fundamentada, ou seja uma opinião provisória; contudo, enquanto não se obtiver evidência, não é [[lexico:r:razoavel:start|razoável]] prestar um [[lexico:a:assentimento:start|assentimento]] firme que exclua toda dúvida ([[lexico:c:certeza:start|certeza]]); se, apesar de uma evidência suficiente, a dúvida continuar persistindo, tal dúvida é injustificada. A dúvida descrita é a dúvida em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]], ou seja, a dúvida [[lexico:r:real:start|real]] e positiva. Dela importa distinguir, por um lado a dúvida real mas só negativa, que se verifica onde faltam absolutamente razões pró e contra, e que, por isso, antes deveria denominar-se [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]]; e, por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, a dúvida [[lexico:a:aparente:start|aparente]] (fictícia), tal [[lexico:c:como-se:start|como se]] apresenta na empostação científica de problemas ([[lexico:p:problema:start|problema]]); esta dúvida significa tão-só que se prescinde da certeza natural, aliás firmemente mantida, a [[lexico:f:fim:start|fim]] de chegar à certeza científica mediante o exame e elaboração explícita das razões. É frequente equiparar a dúvida fictícia à metódica. Todavia a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] "dúvida metódica" não significa necessariamente dúvida só aparente, mas denota qualquer dúvida, puramente fictícia ou real, provocada de propósito no intuito de investigar, de maneira científica, a [[lexico:v:verdade:start|verdade]]; esta última dúvida justifica-se plenamente, quando o ojeto é realmente duvidoso. — De Vries. O [[lexico:t:termo:start|termo]] dúvida significa, primeiramente, vacilação, resolução, [[lexico:p:perplexidade:start|perplexidade]]. Na dúvida há sempre, pelo menos, duas proposições ou teses entre as quais a [[lexico:m:mente:start|mente]] se sente flutuante; vai, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], de uma para a outra sem se deter. Por isso, a dúvida não significa [[lexico:f:falta:start|falta]] de crença, mas indecisão relativamente às crenças. Pode entender-se a dúvida de vários modos: 1) dúvida como atitude, 2) a dúvida como [[lexico:m:metodo:start|método]]. é pouco frequente encontrar exemplos puros destas [[lexico:s:significacoes:start|significações]] na [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]], mas pode falar-se de várias concepções da dúvida nas quais se manifesta a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] para sublinhar uma delas. A dúvida como atitude é frequente entre os cépticos gregos e os renascentistas. É também bastante habitual entre aqueles que, sem pretenderem forjar nenhuma filosofia, se negam a aderir a qualquer crença firme e especifica, ou consideram que não há nenhuma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] cuja verdade possa provar-se de [[lexico:m:modo:start|modo]] suficiente para gerar uma [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] completa. Caraterístico desta [[lexico:f:forma:start|forma]] de dúvida é o considerar como permanente o [[lexico:e:estado:start|Estado]] de irresolução, mas ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] o encontrar nele certa satisfação psicológica. A dúvida como método foi usada por muitos filósofos. Até se disse que é o [[lexico:m:metodo-filosofico:start|método filosófico]] por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]], enquanto a filosofia consiste em [[lexico:p:por:start|pôr]] a claro todo o [[lexico:g:genero:start|gênero]] de supostos, o que não se pode fazer sem os submeter à dúvida. Contudo, só em alguns casos se adoptou explicitamente a dúvida como método. Entre eles, sobressaem [[lexico:s:santo:start|santo]] [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] e Descartes: no primeiro, na proposição “se [[lexico:e:erro:start|erro]] existo”, pela qual aparece como indubitável a existência do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] que erra. O segundo, na proposição “[[lexico:c:cogito:start|cogito]], ergo sum”, pela qual fica assegurada a existência do [[lexico:e:eu:start|eu]] que duvida. Nestes exemplos, pode dizer-se que a dúvida é um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida, já que a evidência (do eu) surge do próprio [[lexico:a:ato:start|ato]] de duvidar, da [[lexico:r:reducao:start|redução]] do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] da dúvida ao [[lexico:f:fato:start|fato]] fundamental e aparentemente inegável de que alguém pensa ao duvidar. (gr. aporia; lat. dubium; in. Doubt; fr. Doute; al. Zweifel; it. Dubbió). [[lexico:e:esse:start|esse]] termo costuma designar duas coisas diferentes, porém mais ou menos ligadas: 1) um estado [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] de incerteza, ou seja, uma crença ou opinião não suficientemente determinadas, ou a hesitação em escolher entre a [[lexico:a:assercao:start|asserção]] da [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] e a asserção da [[lexico:n:negacao:start|negação]]; 2) uma [[lexico:s:situacao:start|situação]] objetiva de [[lexico:i:indeterminacao:start|indeterminação]] ou a [[lexico:p:problematicidade:start|problematicidade]] de uma situação: seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] de indecisão em relação ao [[lexico:p:possivel:start|possível]] êxito ou à possível solução. [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] foi o primeiro a reconhecer (pelo menos implicitamente) essa [[lexico:d:distincao:start|distinção]] de significados quando negou que a dúvida pudesse reduzir-se à "[[lexico:e:equivalencia:start|equivalência]] dos raciocínios contrários", porque é essa equivalência que pode produzir a dúvida. E disse: "Quando raciocinamos em ambas as direções e todos os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] do [[lexico:d:discurso:start|discurso]] parecem desenvolver-se com igual [[lexico:v:validade:start|validade]] em cada um dos dois sentidos, ficamos em dúvida sobre o que fazer" (Top., VI, 7, 145 b 15). A "equivalência de raciocínios opostos" é a situação objetiva de indeterminação; a dúvida é a incerteza subjetiva, a incapacidade de decisão que ela comporta. Esses dois aspectos encontram-se, de forma mais ou menos explícita, na [[lexico:h:historia:start|história]] da filosofia, mas com predominância do [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] subjetivo, que é considerado peculiar ou [[lexico:c:constitutivo:start|constitutivo]] da dúvida. É isso o que se conclui de um comentário de [[lexico:s:sexto-empirico:start|Sexto Empírico]] (Pirr. hyp., I, 7) para [[lexico:q:quem:start|quem]] a dúvida é "a hesitação entre afirmar e negar", conquanto os céticos não neguem os bons fundamentos objetivos dessa hesitação. E mesmo não negando seu [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]], [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] insiste no caráter subjetivo da dúvida como ignorância ou falta de informação, não a considerando, portanto, [[lexico:e:essencial:start|essencial]] à [[lexico:e:escolha:start|escolha]] voluntária (5. Th., III, 2. 18, a. 4). Aparentemente, o caráter subjetivo da dúvida também prevalece em Descartes: o cunho autobiográfico da busca cartesiana parece fazer da dúvida uma fase subjetiva dessa busca. Mas, na verdade, a dúvida cartesiana não é um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] da história [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] de Descartes, mas a fase [[lexico:c:critica:start|crítica]] do [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de saber próprio do tempo em que Descartes vivia, e que através dele chega a reconhecer a insuficiência e a fragilidade de seus fundamentos. É o que o próprio Descartes reconhecia: "Não concluiremos [[lexico:m:mal:start|mal]], dizendo que a [[lexico:f:fisica:start|física]], a [[lexico:a:astronomia:start|astronomia]], a medicina e todas as outras ciências que dependem do [[lexico:e:estudo:start|estudo]] das coisas compostas são dúbias e incertas; mas que a [[lexico:a:aritmetica:start|aritmética]], a [[lexico:g:geometria:start|geometria]] e as outras ciências dessa [[lexico:n:natureza:start|natureza]], que tratam de coisas bastante [[lexico:s:simples:start|simples]] e gerais, sem se preocuparem com sua existência ou inexistência na natureza, contêm algo de certo e de indubitável" (Méd., I). Embora a dúvida possa [[lexico:s:ser:start|ser]] estendida às ciências matemáticas (aventando-se a hipótese de que um [[lexico:g:genio:start|gênio]] maléfico se divertisse enganando os homens), o certo é que, para Descartes, estas escapam, por [[lexico:m:motivos:start|motivos]] objetivos, à incerteza subjetiva e permitem que ele extraia justamente delas as regras fundamentais do método (Discours, II). O caráter objetivo da dúvida tem sido frequentemente evidenciado pela filosofia contemporânea. Por um lado, em [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] a dúvida, como estado subjetivo, corresponde a um modo de dar-se eu de ser da [[lexico:c:coisa:start|coisa]] (Ideen, I, § 103). Por outro, para [[lexico:d:dewey:start|Dewey]], a [[lexico:r:raiz:start|raiz]] da dúvida está na "situação [[lexico:p:problematica:start|problemática]]", que estimula ou determina a [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]], e a própria pesquisa deve levar a uma nova colocação. "Ao sistematizar a relação perturbada entre [[lexico:o:organismo:start|organismo]] e [[lexico:a:ambiente:start|ambiente]] , a [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] não se limita a afastar a dúvida restabelecendo a [[lexico:i:integracao:start|integração]] primitiva, de boa [[lexico:a:adaptacao:start|adaptação]]. Provoca novas condições ambientais, que são ocasiões de novos problemas" (Logic, cap. 2; trad. it., p. 73). O [[lexico:v:valor:start|valor]] da dúvida para a pesquisa filosófica foi admitido por todas as doutrinas que veem na filosofia a procura e a aquisição da verdade, mais que a [[lexico:p:posse:start|posse]] e a [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] desta. Às vezes, também se acreditou que a dúvida trouxesse em si ou implicasse uma certeza originária [[lexico:s:superior:start|superior]] a toda dúvida. Essa é a corrente de pensamento que Descartes difundiu pelo mundo moderno e no qual baseou a evidência da consciência. Tem [[lexico:o:origem:start|origem]] em S. Agostinho: "Quem sabe que duvida sabe a verdade, e está certo disso que sabe: logo, está certo da verdade. Portanto, quem duvidar de que exista a verdade, já tem em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] uma verdade, a verdade de que não pode duvidar, já que nenhuma coisa verdadeira é verdadeira sem a verdade. Portanto, não deve duvidar da verdade quem pôde por uma só vez duvidar" (De vera religione, 39). E todos recordam a dúvida total de Descartes, que redunda no cogito-. "Enquanto assim rejeitamos tudo aquilo de que podemos duvidar e imaginamos até mesmo que seja [[lexico:f:falso:start|falso]], supomos facilmente que não há Deus, nem [[lexico:c:ceu:start|céu]], nem [[lexico:t:terra:start|Terra]], e que não temos [[lexico:c:corpo:start|corpo]]; mas não somos capazes de supor que não existimos enquanto duvidamos da verdade de todas as coisas, pois causa-nos tanta [[lexico:r:repugnancia:start|repugnância]] conceber que aquilo que pensa não existe realmente enquanto está pensando que, apesar de todas as suposições mais extravagantes, não poderíamos impedir-nos de crer que essa conclusão, penso, logo existo, seria verdadeira e que, por conseguinte, seja a primeira e mais certa conclusão que se apresenta àquele que conduz seus [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] com [[lexico:o:ordem:start|ordem]]" (Princ. phil., I, 7). A certeza ligada à dúvida é a própria certeza do cogito e deve ser submetida às mesmas objeções (v. cogito). A filosofia contemporânea, conquanto insista no aspecto objetivo da dúvida e, portanto, na [[lexico:e:extensao:start|extensão]] desse aspecto a todas as situações que podem constituir o ponto de partida para a pesquisa, tende a utilizar a dúvida "hiperbólica" (como se chamou a dúvida cartesiana) e a considerar a dúvida circunscrita a uma situação ou problema determinado. Em outros termos, a dúvida não é vista hoje como início [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] ou o primeiro princípio da pesquisa filosófica, mas como [[lexico:c:condicao:start|condição]] pela qual uma situação suscita ou exige investigação. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}