===== DOUTRINA TOMISTA DA ALMA ===== Uma primeira vez, no [[lexico:e:estudo:start|estudo]] [[lexico:g:geral:start|geral]] do [[lexico:v:vivente:start|vivente]], havíamos abordado o [[lexico:p:problema-da-alma:start|problema da alma]]. Eis o que havíamos concluído. A [[lexico:a:alma:start|alma]], antes de tudo, apareceu-nos como o primeiro [[lexico:p:principio:start|princípio]] de [[lexico:v:vida:start|vida]], concepção espontânea e comum em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Considerando, em seguida, a alma, na linha da [[lexico:t:teoria:start|teoria]] hilemorfista da [[lexico:s:substancia:start|substância]], fomos levados a esta segunda [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]], [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] do peripatetismo: a alma é a [[lexico:f:forma:start|forma]] do [[lexico:c:corpo:start|corpo]]. Disto decorria [[lexico:t:todo:start|todo]] um conjunto de propriedades: sendo princípio [[lexico:f:formal:start|formal]] de um vivente que é [[lexico:u:uno:start|uno]], a alma só pode [[lexico:s:ser:start|ser]] una e única; consequentemente, é indivisível e encontra-se toda inteira presente em todas as partes do corpo. Ainda mais, em conformidade com as leis gerais das [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] físicas, impõe-se que desapareça ou se corrompa quando se dissolver o [[lexico:c:composto:start|composto]]. Sobre és-te [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:p:ponto:start|ponto]], já havíamos reservado o caso da alma humana que, sendo princípio de uma vida de [[lexico:g:grau:start|grau]] mais elevado, a vida iniciativa, parecia gozar de prerrogativas especiais e diferir mesmo, em sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]] profunda, das almas inferiores. É o que devemos presentemente estabelecer de maneira mais explícita. A afirmação da [[lexico:s:separacao:start|separação]], com [[lexico:r:relacao:start|relação]] à [[lexico:m:materia:start|matéria]], do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]], e, consequentemente, da alma intelectiva, havia sido uma das conquistas essenciais do [[lexico:p:platonismo:start|platonismo]]. Em [[lexico:r:reacao:start|reação]] contra o que lhe parecia excessivo nesta teoria, [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] havia proposto sua [[lexico:f:formula:start|fórmula]] original da [[lexico:d:definicao:start|definição]] da alma como forma do corpo. Mas, nesta concepção, o [[lexico:p:problema:start|problema]] de um "[[lexico:n:nous:start|noûs]]" puramente espiritual encontrava-se apenas diferido e, efetivamente, nós o vemos reaparecer quando é abordada a [[lexico:q:questao:start|questão]] da vida intelectiva ([[lexico:d:de-anima:start|De anima]] III, c. 4 e 5). A [[lexico:p:potencia:start|potência]] de conhecer manifesta-se, então, dotada de propriedades que a distinguem absolutamente das realidades materiais. De uma [[lexico:p:parte:start|parte]] (cf. c. 4, 429, a 18-28), como o queria [[lexico:a:anaxagoras:start|Anaxágoras]], ela deve ser sem [[lexico:m:mistura:start|mistura]], isto é, privada de todas as naturezas corporais: estando, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], em potência para todas as determinações destas naturezas, o [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] [[lexico:n:nao:start|não]] deve atualmente possuir nenhuma. De outra parte (cf. 5, 430 a. 17), surge esta potência, enquanto [[lexico:a:agente:start|agente]], como separada da matéria, imortal e eterna. Estas passagens, vimos, não deixaram de suscitar interpretações diversas por [[lexico:c:causa:start|causa]] de sua obscuridade. Antes de [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]], concluía-se mais comumente pela [[lexico:e:existencia:start|existência]] de um princípio intelectivo espiritual, mas absolutamente separado e [[lexico:u:unico:start|único]] para todos os homens, sacrificando-se assim a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] da alma. A [[lexico:p:posicao:start|posição]] de Tomás de Aquino. Como todos os doutores cristãos, Tomás de Aquino possuía, pela [[lexico:r:revelacao:start|Revelação]], uma doutrina da alma espiritual e imortal que se lhe impunha. Assim, não se deve surpreender ao vê-lo dar aos textos precedentes, de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com esta doutrina, um [[lexico:s:sentido:start|sentido]] ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] espiritualista e personalista: a alma humana é forma do corpo, mas tem a mais uma [[lexico:s:subsistencia:start|subsistência]] espiritual em cada [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] e é incorruptível. A [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] destas afirmações deverá ser [[lexico:b:bem:start|Bem]] precisada. (§ II. A natureza da alma humana.) Mas, à [[lexico:l:luz:start|luz]] da [[lexico:f:filosofia-crista:start|filosofia cristã]], e em [[lexico:p:particular:start|particular]] do agostinianismo, novos aprofundamentos se impõem. O mundo dos [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]], em todas as suas dimensões, [[lexico:e:espirito:start|espírito]] [[lexico:h:humano:start|humano]], espírito angélico, espírito [[lexico:d:divino:start|divino]], encontra-se [[lexico:a:aberto:start|aberto]] a nossos olhos. A alma espiritual não trará em si a marca deste mundo [[lexico:s:superior:start|superior]], e não participará de sua vida mais íntima? É o que haveremos de perguntar, em segundo [[lexico:l:lugar:start|lugar]] (§ III. A [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] intelectiva da alma humana). **A natureza da alma humana** Três afirmações exprimem essencialmente a doutrina da natureza da alma humana: a alma humana é espiritual, é subsistente, é incorruptível. - A alma humana é espiritual. A natureza de nossa alma, já o sabemos, só se nos pode manifestar através de suas operações, pois só elas nos são diretamente perceptíveis. Consideremos aquela [[lexico:o:operacao:start|operação]] que, entre as outras, pertence especificamente ao [[lexico:h:homem:start|homem]]: a [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]]. Sua espiritualidade manifesta-se de dois pontos de vista. Quanto a seu [[lexico:o:objeto:start|objeto]], antes de tudo. Com efeito, pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de todas as naturezas corporais poderem ser apreendidas pela nossa [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] superior de conhecer, impõe-se que esta faculdade não seja determinadamente nenhuma destas naturezas, portanto, que seja incorpórea, ou espiritual. É o que Tomás de Aquino exprime perfeitamente nesta passagem da Summa: "É manifesto que o homem, por sua [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]], pode conhecer as naturezas de todos os corpos. Ora, impõe-se que o que tem o poder de conhecer algumas [[lexico:c:coisas:start|coisas]], não possua [[lexico:n:nada:start|nada]] delas em si: assim, vemos que a [[lexico:l:lingua:start|língua]] do enfermo que está infectada de bílis e de [[lexico:h:humor:start|humor]] amargo, não pode [[lexico:t:ter:start|ter]] a [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] do doce e que tudo lhe apareça amargo. Se, pois, o princípio intelectivo possuísse em si a natureza de algum corpo, não poderia ter o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] de todos, tendo cada um deles, com efeito, uma natureza determinada. É, portanto, [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] que o princípio intelectual seja um corpo. . . ". Ia Pª, q. 75 a. 2 Nem tampouco, continua Tomás de Aquino, deve-se dizer que a inteligência é mesclada de [[lexico:c:corporeidade:start|corporeidade]] em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] dos órgãos que utiliza. Tendo uma natureza determinada, tais órgãos não poderiam deixar de fazer [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] ao conhecimento de todos os corpos: "Assim, se houvesse uma cor determinada, não somente na pupila mas ainda em um vaso de vidro, o líquido que nele se lançasse apareceria da mesma cor O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] princípio intelectual que é [[lexico:c:chamado:start|chamado]] de "[[lexico:m:mens:start|mens]]" ou intelecto tem, portanto, uma operação própria pela qual não entra em comunhão direta com o corpo." Em segundo lugar, quanto a seu [[lexico:m:modo:start|modo]]. A inteligência, com efeito, de si capta seu objeto de modo [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] e [[lexico:u:universal:start|universal]], ou independentemente de todas as circunstâncias materiais. Ainda mais, graças a seu [[lexico:p:processo:start|processo]] abstrativo, esta faculdade é capaz de [[lexico:r:representar:start|representar]] realidades puramente espirituais, o que não seria [[lexico:p:possivel:start|possível]] se ela mesma estivesse, em seu [[lexico:a:ato:start|ato]], implicada na matéria. A operação intelectual, por estas razões, só pode ser puramente espiritual. Mas, tal ser, tal operação, e inversamente. Portanto da [[lexico:i:imaterialidade:start|imaterialidade]] da operação deve-se subir imediatamente à imaterialidade de seu princípio: de modo que a espiritualidade requerida pelas condições da intelecção é ao mesmo tempo suposta para o ato, para a potência e também para o ser que está em sua [[lexico:r:raiz:start|raiz]]. - A subsistência da alma espiritual. Que a alma seja de per si subsistente, um "hoc aliquid" como diz Tomás de Aquino, isto se segue, igualmente de modo [[lexico:i:imediato:start|imediato]], do que acaba de ser estabelecido. Nada, com efeito, pode agir a título de princípio radical se não for de per si subsistente: a alma espiritual, a "mens", o mais [[lexico:p:profundo:start|profundo]] princípio de vida intelectiva, é, portanto, uma [[lexico:s:substancia-espiritual:start|substância espiritual]]. Mas, nestas condições, não somos levados invencivelmente à [[lexico:t:tese:start|tese]] sustentada por [[lexico:p:platao:start|Platão]] de uma alma bastando-se a si mesma e tendo no corpo somente uma habitação precária? Como manter ao mesmo tempo que a alma é a forma do corpo e que o indivíduo humano é uno? Reconhecendo, como Tomás de Aquino, que há para um ser dois modos de [[lexico:s:subsistir:start|subsistir]]: de modo especificamente completo, como acontece para esta planta, para esta pedra e igualmente para este homem, e de modo especificamente incompleto, como é o caso da alma: a alma humana, com efeito, como substância específica, só se encontra acabada e perfeita se unida ao corpo ... Seja na formulação precisa de Tomás de Aquino: "Relinquitur igitur [[lexico:q:quod:start|quod]] [[lexico:a:anima:start|anima]] est hoc aliquid ut per se potens subsistere, non quasi habens in se completam speciem, sed quasi perficiens speciem humanam ut forma corporis, et sic similiter est forma et hoc aliquid" Quaest. Disput. De Anima, a. 1 - A incorruptibilidade da alma. A afirmação da incorruptibilidade ou, o que dá no mesmo, da [[lexico:i:imortalidade-da-alma:start|imortalidade da alma]], é tão-somente uma [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] do que precede. Uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]], com efeito, pode corromper-se de duas maneiras: acidentalmente ([[lexico:p:per-accidens:start|per accidens]]) ou de per si (per se). Corrompe-se de modo acidental (per accidens) aquilo que desaparece com a supressão de uma [[lexico:r:realidade:start|realidade]] conjunta, como as formas que se encontram em um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] que é destruído. Assim, nos animais, a [[lexico:c:corrupcao:start|corrupção]] do indivíduo acarreta o desaparecimento da forma [[lexico:s:substancial:start|substancial]] ou da alma. É claro que um tal modo de corrupção não pode ser reconhecido para um ser que, como a alma, subsiste [[lexico:p:por-si:start|por si]] (per se), isto é, independentemente de qualquer [[lexico:o:outro:start|outro]]. Portanto, aqui só se pode [[lexico:f:falar:start|falar]] em corrupção substancial, ou que atinge em si a coisa considerada. Ora, também isto é impossível. Sendo uma forma absolutamente [[lexico:s:simples:start|simples]], a alma não pode perder aquilo que é seu [[lexico:c:constitutivo:start|constitutivo]] próprio, sua forma. Nem tampouco pode perder, por si mesma, seu ser que com ela é solidário: assim é incorruptível e por consequência imortal. Segue-se daí que de nenhum modo possa desaparecer? Uma tal conclusão é evidentemente absurda. O ser da alma é criado: continua, pois, na dependência da causa que está no seu princípio, a qual, como pôde criá-la, pode igualmente aniquilá-la, pois nenhum agente subordinado tem poder sobre si próprio. Incorruptível ou imortal no [[lexico:p:plano:start|plano]] da realidade criada e de sua eficacidade, traz a alma em seu ser profundo o estigma de absoluta submissão ao seu criador. Não é sem [[lexico:i:interesse:start|interesse]] revelar que ao lado dessa [[lexico:a:argumentacao:start|argumentação]] em favor da incorruptibilidade da alma, Tomás de Aquino faça valer uma outra [[lexico:p:prova:start|prova]] que se apoia, por [[lexico:s:sinal:start|sinal]], sobre o [[lexico:d:desejo:start|desejo]] da imortalidade, o qual, sendo um desejo [[lexico:n:natural:start|natural]], não pode ser vão. Eis o [[lexico:a:argumento:start|argumento]] em sua forma original: "Cada coisa deseja, de maneira natural, [[lexico:e:existir:start|existir]] do modo que lhe convém; ora, nos seres cognoscentes, o desejo segue-se ao conhecimento; o sentido, por sua parte, só conhece o que existe hic et nunc, enquanto a inteligência apreende o ser de modo [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] e independentemente do tempo. Segue-se que todos os que têm uma inteligência, têm o desejo de uma existência perpétua. Mas um desejo de natureza não pode ser vão: toda substância intelectual é, portanto, incorruptível" I, c. 75, a. 6 {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}