===== DOGMATISMO ===== [[lexico:t:tendencia:start|Tendência]] a afirmar sem [[lexico:d:discussao:start|discussão]]. — Em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], designa toda doutrina que [[lexico:p:parte:start|parte]] de uma [[lexico:c:certeza:start|certeza]] prévia (nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]], o dogmatismo se opõe ao "[[lexico:c:criticismo:start|criticismo]]": a filosofia [[lexico:c:critica:start|crítica]] começa por duvidar de tudo — como [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] nas Meditações; como [[lexico:k:kant:start|Kant]], cuja [[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|Crítica da razão pura]] deixa em suspenso todos os problemas metafísicos, como a [[lexico:i:imortalidade-da-alma:start|imortalidade da alma]], a [[lexico:o:origem:start|origem]] do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] e a [[lexico:e:existencia-de-deus:start|existência de Deus]]), ou mesmo, toda doutrina que alcança uma certeza (a filosofia de [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]] é um dogmatismo na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que conclui num [[lexico:s:sistema:start|sistema]] do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]]). A "filosofia dogmática" designa mais particularmente a filosofia da Idade Média, baseada na [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]] do [[lexico:d:dogma:start|dogma]] [[lexico:r:religioso:start|religioso]] (doutrina fixa que a Igreja prega em [[lexico:n:nome:start|nome]] de [[lexico:d:deus:start|Deus]] e da [[lexico:r:revelacao:start|Revelação]]). O dogmatismo opõe-se teoricamente ao [[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]]; na [[lexico:v:vida:start|vida]] prática, ao [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]]: [[lexico:o:o-politico:start|O Político]] dogmático é aquele que orienta sua [[lexico:a:acao:start|ação]] em [[lexico:f:funcao:start|função]] de uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]], [[lexico:n:nao:start|não]] levando em consideração as realidades históricas do mundo [[lexico:a:atual:start|atual]]. A [[lexico:a:atitude:start|atitude]] subjacente ao dogmatismo é a intolerância ou o [[lexico:f:fanatismo:start|fanatismo]]. Como [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] científica, significa (1) originariamente o contrário do ceticismo. — Kant entende por dogmatismo (2) o [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]] e, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, toda filosofia em que a [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] procura avançar sem crítica do conhecimento. — Na [[lexico:n:neo-escolastica:start|neo-escolástica]] dá-se também o nome de dogmatismo (3) à chamada teoria das [[lexico:v:verdades-fundamentais:start|verdades fundamentais]]. De [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:g:geral:start|geral]], pode caracterizar-se como dogmatismo (4) toda concepção que pretenda subtrair suas afirmações e pressuposições a uma crítica justificativa. — O dogmatismo (5), enquanto atitude [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]], tende a dizer em tudo a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] definitiva e a não tolerar qualquer [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]. Dogmático significa: (1) "sem crítica’’, ou (2) [[lexico:a:apoditico:start|apodítico]], estritamente demonstrativo, [[lexico:n:necessario:start|necessário]] por [[lexico:f:forca:start|força]] de [[lexico:p:principios:start|princípios]] puramente racionais", ou (3) "pertencente à [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] teológica da dogmática, isto é, ao dogma enquanto doutrina de [[lexico:f:fe:start|fé]] da Igreja". Santeler. O sentido em que se usa em filosofia, o [[lexico:t:termo:start|termo]] dogmatismo é diferente daquele em que se usa em [[lexico:r:religiao:start|religião]]. Nesta última, o dogmatismo é o conjunto dos dogmas, os quais são considerados (pelo menos em muitas Igrejas cristãs, e em particular no catolicismo) como proposições pertencentes à palavra de Deus e propostas pela Igreja. Filosoficamente, em contrapartida, o vocábulo dogmatismo significou primitivamente [[lexico:o:oposicao:start|oposição]]. Tratava-se de uma oposição filosófica, isto é, de algo que se referia aos princípios. Por isso, o termo dogmático significou “[[lexico:r:relativo:start|relativo]] a uma doutrina” ou “fundado em princípios”. Ora, os filósofos que insistiam demasiado nos princípios acabavam por não prestar [[lexico:a:atencao:start|atenção]] aos fatos ou aos argumentos que pudessem [[lexico:p:por:start|pôr]] em [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] esses princípios. Esses filósofos não consagravam a sua [[lexico:a:atividade:start|atividade]] à [[lexico:o:observacao:start|observação]] ou ao exame, mas à [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]]. Foram por isso chamados “filósofos dogmáticos”, ao contrário dos filósofos examinadores ou cépticos. O dogmatismo entende-se principalmente em três sentidos: 1) como [[lexico:p:posicao:start|posição]] própria do [[lexico:r:realismo:start|realismo]] ingênuo, que admite não só a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de conhecer as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] no seu [[lexico:s:ser:start|ser]] verdadeiro (ou em si) mas também a efetividade deste conhecimento no trato diário e direto com as coisas. 2) como a confiança absoluta num determinado [[lexico:o:orgao:start|órgão]] de conhecimento (ou [[lexico:s:suposto:start|suposto]] conhecimento), principalmente da [[lexico:r:razao:start|razão]]. 3) como a completa submissão, sem exame pessoal, a determinados princípios ou à autoridade que os impõe ou revela. Em geral, é uma atitude adoptada no [[lexico:p:problema:start|problema]] da [[lexico:p:possibilidade-do-conhecimento:start|possibilidade do conhecimento]] e, portanto, compreende as duas primeiras acepções. Contudo, a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] do exame crítico revela - se também em certas formas de cepticismo e por isso se diz que certos cépticos são, a seu modo, dogmáticos. O dogmatismo [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] e o realismo ingênuo não existem propriamente na filosofia, que começa sempre pela [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] acerca do ser verdadeiro e, portanto, procura este ser mediante um exame crítico da [[lexico:a:aparencia:start|aparência]]. Isso acontece não só no [[lexico:c:chamado:start|chamado]] dogmatismo dos primeiros pensadores gregos, mas também no dogmatismo racionalista do século XVIII, que desemboca numa grande confiança na razão, mas depois de a [[lexico:t:ter:start|ter]] submetido a exame. Como posição gnoseológica, o dogmatismo opõe-se ao criticismo mais que ao cepticismo. Esta oposição entre o dogmatismo e o criticismo foi sublinhada especialmente por Kant, que, ao proclamar o seu despertar do “sono dogmático” por [[lexico:o:obra:start|obra]] da crítica de [[lexico:h:hume:start|Hume]], opõe a crítica da [[lexico:r:razao-pura:start|razão pura]] ao dogmatismo em metafísica. “dogmatismo é, pois, o procedimento dogmático da razão pura sem uma prévia crítica do seu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] poder” (CRÍTICA DA RAZÃO PURA). A oposição entre o dogmatismo e o cepticismo adquire sentido em [[lexico:c:comte:start|Comte]], quando considera estas duas atitudes não só como posições perante o problema do conhecimento, mas também como formas últimas da vida humana. A vida humana pode [[lexico:e:existir:start|existir]], com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], em [[lexico:e:estado:start|Estado]] dogmático ou em estado céptico. Este [[lexico:u:ultimo:start|último]] não é mais que uma passagem de um dogmatismo anterior a um novo dogmatismo. A palavra dogma vem do [[lexico:v:verbo:start|verbo]] [[lexico:g:grego:start|grego]] dokein, que significa parecer. Antigamente a empregavam os gregos para significar qualquer [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] aceita, e também como [[lexico:o:ordem:start|ordem]], decreto. Chamavam de dogmática a toda filosofia que afirmasse certas teses como verdadeiras. Finalmente, tomou, sobretudo entre nós, a acepção de doutrina fixada, incontestada. Por isso é sempre a palavra dogmatismo oposta a cepticismo, que vem do grego [[lexico:s:skepsis:start|skepsis]], que significa [[lexico:a:analise:start|análise]], e do verbo skeptomai, examinar atentivamente. É [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que hoje se emprega o termo dogmatismo para significar toda a posição doutrinária que afirma, sem justificar suficientemente as suas opiniões, impõe-nas como verdadeiras e indiscutíveis, fundadas em autoridade. O dogmatismo é, neste sentido, uma [[lexico:f:forma:start|forma]] viciosa do [[lexico:a:absolutismo:start|absolutismo]], quer no terreno das [[lexico:i:ideias:start|ideias]], quer no das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] jurídicas. É preciso, por isso, ter o máximo cuidado no emprego de um termo que se presta a equívocos. Na [[lexico:g:gnoseologia:start|gnoseologia]], considera-se dogmatismo (que chamaremos de dogmatismo gnoseológico), aquele que afirma, quanto à possibilidade do conhecimento, que o contacto entre o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] e o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] implica um conhecimento [[lexico:e:exato:start|exato]] e verdadeiro, sobre o qual não põe dúvidas. O dogmatismo gnoseológico, portanto, não duvida do conhecimento. Percepções, conhecimentos racionais são ou podem ser verdadeiros para o dogmático. Também, para estes, os valores existem, pura e simplesmente. A [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] é virtualizada por ele como o é a consciência cognoscente. Subdivide-se o dogmatismo, em: [[lexico:t:teorico:start|teórico]] — quando se refere ao conhecimento teórico; ético — quando se refere ao conhecimento dos valores mentais; axiológico — quando se refere aos valores em geral; religioso — quando se refere ao conhecimento dos valores religiosos; científico — quando se refere ao conhecimento dos factos cientificamente analisados. Considera-se como dogmatismo ingênuo o do [[lexico:h:homem:start|homem]] comum, que não põe em dúvida o [[lexico:v:valor:start|valor]] dos seus conhecimentos. As reflexões gnoseológicas, surgidas entre os jônicos, na [[lexico:g:grecia:start|Grécia]], prepararam o terreno para as posteriores análises dos eleáticos e para a crítica dos [[lexico:s:sofistas:start|sofistas]] e da skepsis, dos cépticos gregos em geral, já no período da [[lexico:d:decadencia:start|decadência]] helênica. O cepticismo é assim a posição diametralmente oposta ao dogmatismo. Em sua atitude prática, os céticos não afirmavam que o sujeito pudesse [[lexico:a:apreender:start|apreender]] o objeto. Ao contrário: que tal captação não se dava completa, razão pela qual propunham que nos abstivéssemos de qualquer [[lexico:j:juizo:start|juízo]] ([[lexico:s:suspensao-do-juizo:start|suspensão do juízo]] - [[lexico:e:epoche:start|epoche]]), evitando julgar, já que nos faltava um [[lexico:m:meio:start|meio]] seguro de conhecimento. O dogmatismo virtualizava o sujeito, para atualizar o objeto; o cético atualiza o sujeito para virtualizar o objeto. Se o primeiro ainda afirma a captação; o segundo nega-a pela condicionalidade relativa do sujeito, [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] recusado pelos primeiros, que afirmam que o ser do conhecido não é um ser cognoscível, enquanto os segundos afirmam a relacionalidade do ser do conhecimento, porque [[lexico:t:todo:start|todo]] conhecimento é apenas condicionado pelo sujeito, portanto falível e limitado. Consequentemente, por [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]], deveria o homem suspender o [[lexico:j:julgamento:start|julgamento]] (epoche, que significa suspensão). Do grego, dogma, que significa opinião, [[lexico:d:decisao:start|decisão]], decreto, aresto; dogmatikos, que se funda em princípios, ou é relativo a uma doutrina. Os antigos céticos chamavam dogmáticos os filósofos que, sem olhar e examinar cuidadosamente, pois tal é o sentido do verbo grego sképtomai, limitavam-se a afirmar suas teses ou opiniões. Na obra intitulada Contra os dogmáticos (lógicos, físicos e moralistas), considerada por Leon Robin "um dos mais úteis monumentos da erudição antiga", [[lexico:s:sexto-empirico:start|Sexto Empírico]] classifica as doutrinas ou escolas filosóficas em dogmáticas (aristotélicos, epicuristas, estoicos), que supõem ter encontrado a verdade, dos "acadêmicos", que sustentam que a verdade não pode ser conhecida e daqueles que se propõem examinar ou investigar, os céticos. Na primeira fase da [[lexico:h:historia:start|história]] do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] cristão, com a filosofia chamada [[lexico:p:patristica:start|patrística]], o dogmatismo deixa de ser filosófico e assume um [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] nitidamente religioso. Na [[lexico:l:luta:start|luta]] contra as heresias e o [[lexico:p:paganismo:start|paganismo]], os padres da Igreja recorrem às armas intelectuais de que dispõem, a [[lexico:f:filosofia-grega:start|filosofia grega]] e especialmente o [[lexico:n:neoplatonismo:start|neoplatonismo]], a [[lexico:f:fim:start|fim]] de formular e defender os dogmas que, por serem dogmas, admitem [[lexico:e:enunciacao:start|enunciação]] [[lexico:r:racional:start|racional]], mas excluem discussão quanto à sua [[lexico:v:validade:start|validade]] ou verdade. O dogma comporta um [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] de [[lexico:e:exegese:start|exegese]] intelectual, desde que seu conteúdo, mesmo [[lexico:i:irracional:start|irracional]], permaneça intocado, pois o [[lexico:c:criterio:start|critério]] da verdade não é a razão, mas a [[lexico:c:crenca:start|crença]]. A [[lexico:e:expressao:start|expressão]] mais concisa desse dogmatismo nós a encontramos na famosa [[lexico:s:sentenca:start|sentença]] atribuída a [[lexico:t:tertuliano:start|Tertuliano]] [[lexico:c:credo-quia-absurdum:start|credo quia absurdum]], que também se acha em [[lexico:s:santo:start|santo]] [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]]. Na Idade Média, o dogmatismo é religioso e teológico, traduzindo-se na censura ao pensamento, na condenação das teses julgadas heterodoxas, na proibição de ensinar, na inclusão das obras dissidentes no index librorum prohibitorum, na condenação à [[lexico:m:morte:start|morte]] dos herejes queimados em praça pública para escarmento e edificação dos fiéis. A "santa inquisição" significa, historicamente, o dogmatismo levado às suas últimas consequências, até o extermínio, por aqueles que julgam ter o monopólio da verdade, e detém circunstancialmente o monopólio do poder, daqueles que representam o inconformismo, o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] crítico, a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] de pensamento. Giordano [[lexico:b:bruno:start|Bruno]], cujas ideias estavam em consonância com as necessidades e aspirações de sua [[lexico:e:epoca:start|época]], é uma das vítimas mais ilustres do dogmatismo e da intolerância religiosa. Modernamente, a palavra assume outras conotações, especialmente na obra de Kant. Segundo o autor das Criticas, David Hume o teria despertado do "sono dogmático". Em que consistia [[lexico:e:esse:start|esse]] sono? Na adoção, pela razão pura, de "um [[lexico:m:metodo:start|método]] dogmático, sem submeter seu próprio poder a uma crítica prévia". A filosofia dogmática, para Kant, é a metafísica tradicional que, "elevando-se acima das lições da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], apóia-se em [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]]", recaindo no "velho dogmatismo carcomido". A filosofia dogmática, no entanto, é o [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] da filosofia crítica cujo objeto, ou conteúdo, é precisamente a crítica dos dogmas metafísicos, fruto de uma razão que se exerce à revelia da experiência e não reflete sobre si mesma. Nos "anexos" à [[lexico:c:ciencia-da-logica:start|Ciência da Lógica]], inclusa na [[lexico:e:enciclopedia:start|Enciclopédia]] das Ciências Filosóficas, [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], lembrando que os antigos céticos consideravam dogmática qualquer filosofia que sustentasse teses determinadas, observa que "nesse sentido amplo a filosofia propriamente especulativa passaria também por dogmática aos olhos dos céticos". Distinguindo dois sentidos do termo, o lato do restrito, observa que, neste último, o dogmatismo consiste "em manter com firmeza as determinações unilaterais do [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]], com exclusão das determinações opostas. É, de modo geral, o "ou isto ou aquilo", que leva a dizer que o mundo ou é [[lexico:f:finito:start|finito]] ou [[lexico:i:infinito:start|infinito]], mas apenas um dos dois. O verdadeiro, enquanto [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]], contém nele reunidas essas de-determinações que, para o dogmatismo, valem, separadas, como algo firme e verdadeiro". Para Hegel, a própria filosofia de Kant, crítica em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao dogmatismo da metafísica tradicional, ainda ou também é uma filosofia dogmática, porque não ultrapassa o [[lexico:p:plano:start|plano]] do "entendimento" para alcançar o plano [[lexico:s:superior:start|superior]] da "razão", no qual as [[lexico:c:categorias:start|categorias]] do entendimento, unilaterais e abstratas, são assumidas e superadas na [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] da totalização ou da [[lexico:s:sintese:start|síntese]]. Contemporaneamente, o dogmatismo tem assumido [[lexico:c:carater:start|caráter]] principalmente ideológico e [[lexico:p:politico:start|político]]. Convertendo-se em [[lexico:i:ideologia:start|ideologia]], a [[lexico:f:filosofia-politica:start|filosofia política]] torna-se doutrina oficial do Estado, ortodoxia a ser defendida pela censura e pelo aparelho policial e militar. Embora não inclua dogmas religiosos, cuja aceitação depende da fé, mas apenas teses de conteúdo econômico, [[lexico:s:social:start|social]] e político, discutíveis como quaisquer teses, a dialética da institucionalização ideológica conduz à intolerância e à [[lexico:v:violencia:start|violência]], suscitando um novo [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de dogmatismo que, em suas consequências, pouco difere do medieval. O [[lexico:p:processo:start|processo]] da "intelligentzia", nos países em que se implantaram regimes ditatoriais e fascistas, revela que o dogmatismo não é apenas a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] de filosofias ingênuas ou pré-críticas, a intolerância ou a intransigência no plano da teoria, das ideias, mas, exasperando-se em fanatismo, a [[lexico:v:vontade:start|vontade]] prática de eliminar os adversários, quer dizer, aqueles que divergem da ideologia dominante ou a contestam. [[lexico:i:imposicao:start|Imposição]] unilateral e arbitrária de [[lexico:t:tese:start|tese]] relativa que se pretende absoluta, [[lexico:r:recusa:start|recusa]] ao [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] e à [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] das consciências, o dogmatismo, quer seja religioso, filosófico ou político, é, em sua [[lexico:e:essencia:start|essência]], irracional e antidialético, pois consiste na pretensão de impedir o exercício da [[lexico:n:negacao:start|negação]], ou da [[lexico:n:negatividade:start|negatividade]] (liberdade) do espírito, imobilizando o que é contradição e processo, e por isso história, em uni [[lexico:m:momento:start|momento]] apenas de seu [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]]. (in. Dogmatism; fr. Dogmatisme; al. Dogmatismus; it. Dogmatismó). O [[lexico:s:significado:start|significado]] desse termo foi fixado pela [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] que os céticos estabeleceram entre os filósofos dogmáticos, que definem sua opinião sobre todos os assuntos, e os filósofos céticos, que não a definem (D.L., IX, 74). Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, são dogmáticos todos os filósofos que não são céticos. Um novo significado de dogmatismo foi o que Kant atriburiu a essa palavra, ao identificar dogmatismo com metafísica tradicional, entendendo por ele "o preconceito de poder progredir na metafísica serri uma crítica da razão" (Crít. R. Pura, Pref. à 2- ed.). Esse dogmatismo filosófico, que consiste em aventurar-se a razão em pesquisas que estão fora de sua alçada, por estarem além da [[lexico:e:esfera:start|esfera]] da experiência [[lexico:p:possivel:start|possível]], é incentivado pelo "dogmatismo comum", que consiste em "[[lexico:r:raciocinar:start|raciocinar]] levianamente sobre coisas das quais não se compreende [[lexico:n:nada:start|nada]] e das quais nunca ninguém no mundo entenderá nada" (Ibid.). Essa palavra foi usada por [[lexico:f:fichte:start|Fichte]], para indicar o ponto de vista do realismo, segundo o qual a [[lexico:r:representacao:start|representação]] é produzida por uma [[lexico:r:realidade:start|realidade]] externa, e não pelo [[lexico:e:eu:start|eu]] (Wissenschaftslehre, 1794, I, [[lexico:t:teorema:start|teorema]] IV), e por Hegel, para designar o ponto de vista oposto ao da dialética, segundo o qual "de duas afirmações opostas uma deve ser verdadeira e outra, falsa" (Enc., § 32). Esses dois filósofos deram assim início ao péssimo [[lexico:c:costume:start|costume]] de chamar de dogmatismo os pontos de vista diferentes dos seus próprios, empregando a palavra sem nenhuma [[lexico:r:referencia:start|referência]] ao seu [[lexico:u:uso:start|uso]] [[lexico:h:historico:start|histórico]]. Mais conforme a esse uso é o significado que [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] lhe atribuiu, que não implica nenhuma condenação da atitude correspondente. "A justa atitude no [[lexico:c:campo:start|campo]] das indagações que chamamos de dogmático, em sentido [[lexico:p:positivo:start|positivo]], ou seja, pré-filosófico, e ao qual pertencem as ciências empíricas (mas não só estas), é deixar honestamente de lado, com toda ‘[[lexico:f:filosofia-da-natureza:start|filosofia da natureza]]’ e toda ‘[[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]]’, qualquer ceticismo e assumir os dados cognitivos onde eles efetivamente se encontram" (Ideen, I, § 26). O dogmatismo se contraporia assim à [[lexico:e:epoche-fenomenologica:start|epoché fenomenológica]], própria da filosofia (v. epoche). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}