===== DOCUMENTO HISTÓRICO ===== Estes vestígios a que chamamos documentos observa-os o historiador diretamente, [[lexico:n:nao|não]] há [[lexico:d:duvida|dúvida]], mas depois [[lexico:n:nada|nada]] mais pode observar; procede daí em diante por [[lexico:m:meio|meio]] de [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]], tentando concluir, tão corretamente quanto [[lexico:p:possivel|possível]], dos vestígios para os fatos. O documento é o [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida; o [[lexico:f:fato|fato]] passado, o ponto de chegada . Entre este ponto de partida e este ponto de chegada tem de passar-se por uma [[lexico:s:serie|série]] de raciocínios, encadeados uns nos outros, em que as oportunidades de [[lexico:e:erro|erro]] são inumeráveis. [...] É o domínio da [[lexico:c:critica|crítica]]. Tentemos esboçar primeiro, muito sumariamente, as suas linhas gerais e as suas grandes divisões. I. Podemos distinguir duas espécies de documentos. Às vezes o fato passado deixou um vestígio material (um monumento, um [[lexico:o:objeto|objeto]] fabricado). Outras vezes, e é o caso mais frequente, o vestígio do fato é de [[lexico:o:ordem|ordem]] psicológica: é uma [[lexico:d:descricao|descrição]] ou uma [[lexico:r:relacao|relação]] escritas . O primeiro caso é muito mais [[lexico:s:simples|simples]] que o segundo. Existe, com [[lexico:e:efeito|efeito]], uma relação fixa entre certas marcas ou sinais materiais e as suas [[lexico:c:causas|causas]], e esta relação, determinada por leis físicas, é [[lexico:b:bem|Bem]] conhecida. O vestígio [[lexico:p:psicologico|psicológico]], pelo, contrário, é puramente [[lexico:s:simbolico|simbólico]]: não é o [[lexico:p:proprio|próprio]] fato; não é mesmo a [[lexico:i:impressao|impressão]] imediata do fato no [[lexico:e:espirito|espírito]] da testemunha; é somente um [[lexico:s:sinal|sinal]] convencional da impressão produzida pelo fato no espírito da testemunha. Os documentos escritos não têm, pois, [[lexico:v:valor|valor]] em si mesmos, como os documentos materiais; só o têm como sinais de operações psicológicas, complicadas e difíceis de deslindar. A imensa maioria dos documentos que fornecem ao historiador o ponto de partida dos seus raciocínios não passam, em [[lexico:s:suma|suma]], de vestígios de operações psicológicas. Posto isto, para concluir de um documento [[lexico:e:escrito|escrito]] o fato que foi sua [[lexico:c:causa|causa]] longínqua, quer dizer, para [[lexico:s:saber|saber]] a relação que liga o documento ao fato, cumpre reconstituir toda a série de causas intermediárias que produziram o documento. Devemos imaginar toda a cadeia de atos efetuados pelo autor do documento a partir do fato observado por ele até ao manuscrito (ou impresso) que temos hoje sob os olhos. Essa cadeia, percorremo-la em [[lexico:s:sentido|sentido]] inverso, começando pela inspeção do manuscrito (ou impresso), para concluir no fato antigo. Tais são o [[lexico:f:fim|fim]] e o [[lexico:p:processo|processo]] da [[lexico:a:analise|análise]] crítica. Primeiro observa-se o documento. Está ele tal como quando foi produzido? Não se deteriorou depois? Procura-se determinar como foi elaborado, a fim de o reconstituir, se for preciso, no seu teor original e determinar-lhe a proveniência. Este primeiro [[lexico:g:grupo|grupo]] de pesquisas prévias, que diz [[lexico:r:respeito|respeito]] à letra, à [[lexico:l:lingua|língua]], às formas, às fontes, etc., constitui o domínio da crítica externa ou crítica de erudição. Em seguida intervém a crítica interna: procura ela, mediante raciocínios por [[lexico:a:analogia|analogia]], na maior [[lexico:p:parte|parte]] inspirados na [[lexico:p:psicologia|psicologia]] [[lexico:g:geral|geral]], imaginar os estados psicológicos por que o autor do documento passou. Sabendo o que o autor disse, pergunta-se: 1.°, que quis ele dizer; 2.°, se acreditou no que disse; 3.°, se havia [[lexico:f:fundamento|fundamento]] para crer no que acreditou. Nesta altura encontra-se o documento reduzido a um ponto em que se assemelha a uma das operações científicas pelas quais se constitui toda [[lexico:c:ciencia|ciência]] objetiva: torna-se uma [[lexico:o:observacao|observação]]; basta [[lexico:a:agora|agora]] tratá-lo segundo o [[lexico:m:metodo|método]] das ciências objetivas. [[lexico:t:todo|todo]] documento vale exatamente na [[lexico:m:medida|medida]] em que, após ter-se estudado a sua [[lexico:g:genese|gênese]], o reduzimos a uma observação bem feita. II. Duas conclusões se tiram do que precede: complexidade extrema, [[lexico:n:necessidade|necessidade]] absoluta da crítica histórica. Comparado com os outros sábios, encontra-se o historiador numa [[lexico:s:situacao|situação]] muito delicada. Não só jamais lhe é [[lexico:d:dado|dado]], como ao químico, observar diretamente os fatos, mas raras vezes os documentos de que tem de servir-se reproduzem observações precisas. Não dispõe desses relatórios de observações cientificamente elaborados que, nas ciências constituídas, podem substituir e substituem as observações diretas. Está na situação do químico que conhecesse uma série de experiências apenas pelo [[lexico:t:testemunho|testemunho]] do seu servente de laboratório. O historiador é obrigado a tirar proveito de testemunhos muito grosseiros, com que nenhum [[lexico:s:sabio|sábio]] se contentaria. As precauções a [[lexico:t:ter|ter]] na utilização de tais documentos são tanto mais necessárias quanto é certo constituírem eles os únicos materiais de que dispõe a [[lexico:c:ciencia-historica|ciência histórica]]: importa, evidentemente, eliminar os que não têm valor algum e distinguir nos outros o que lá houver corretamente observado . Tanto mais necessárias são, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], as advertências a este respeito quanto a inclinação [[lexico:n:natural|natural]] do espírito [[lexico:h:humano|humano]] é não tomar precaução alguma e proceder confusamente em [[lexico:m:materia|matéria]] em que a mais exata [[lexico:p:precisao|precisão]] seria indispensável.