===== DIVISÃO DO SABER ===== [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] e, em seguida, S. Tomás nos deixaram uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da organização do [[lexico:s:saber:start|saber]] que, a despeito de algumas incertezas, é sólida em suas grandes linhas. A [[lexico:d:divisao:start|divisão]] mais [[lexico:g:geral:start|geral]] do saber é a que se encontra na [[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]] (E, c. I), exposta também em outros [[lexico:l:lugares:start|lugares]]: ciências especulativas, práticas e técnicas (literalmente "poiéticas", de [[lexico:p:poiein:start|poiein]], fazer). As ciências especulativas ou teoréticas são aquelas que [[lexico:n:nao:start|não]] têm [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:f:fim:start|fim]] senão o [[lexico:p:puro:start|puro]] [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]. As ciências práticas e as ciências técnicas são ordenadas à [[lexico:a:acao:start|ação]]. As ciências práticas concernem à ação humana ou [[lexico:m:moral:start|moral]] (ação [[lexico:i:imanente:start|imanente]], dir-se-á, porque tal ação não sai do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]]) e, as técnicas, à [[lexico:a:atividade:start|atividade]] [[lexico:e:exterior:start|exterior]] ou à [[lexico:f:fabricacao:start|fabricação]] ([[lexico:a:acao-transitiva:start|ação transitiva]], quer dizer que sai do sujeito para um [[lexico:o:objeto:start|objeto]]). Essas ciências técnicas são, no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] mais geral [[lexico:d:dado:start|dado]] aqui a este têrmo, as artes. Assim aparecem, em Aristóteles, as divisões supremas do saber. [[lexico:c:como-se:start|como se]] vê, é o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista da [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] do saber que as diferencia. S. Tomás adotou essa divisão geral unificando, às vezes, os dois últimos grupos, uma vez que, um e outro tendo uma finalidade prática, têm uma [[lexico:a:afinidade:start|afinidade]] [[lexico:p:particular:start|particular]]. Porém no primeiro livro de seu comentário sobre as Éticas, em um [[lexico:t:texto:start|texto]] notável, ele distingue uma quarta [[lexico:o:ordem:start|ordem]] de conhecimentos filosóficos, a rationalis [[lexico:p:philosophia:start|philosophia]] ([[lexico:l:logica:start|lógica]]). Aristóteles não a havia mencionado em sua [[lexico:c:classificacao:start|classificação]], sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] porque a considerava mais como o [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] geral, [[lexico:o:organon:start|Organon]], da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], do que como uma uma de suas partes. De qualquer [[lexico:f:forma:start|forma]], eis o que diz S. Tomás: "É [[lexico:p:proprio:start|próprio]] do [[lexico:s:sabio:start|sábio]] [[lexico:p:por:start|pôr]] ordem nas [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. A [[lexico:r:razao:start|razão]] disso é que a [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] é a [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] suprema da razão e o próprio da razão é conhecer a ordem... Ora, uma ordem pode relacionar-se com a razão de [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] maneiras diferentes. Há uma ordem que a razão não estabelece, mas apenas conhece e considera: é a ordem das coisas da [[lexico:n:natureza:start|natureza]]. Há uma outra que a própria razão, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que a conhece, a estabelece (considerando facit), dentro de sua própria atividade: é quando, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], ela ordena seus [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] uns com [[lexico:r:relacao:start|relação]] aos outros, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como os [[lexico:s:simbolos:start|símbolos]] desses conceitos, que são [[lexico:p:palavras:start|palavras]] dotadas de [[lexico:s:significacao:start|significação]]. A terceira ordem é aquela em que a razão, ao mesmo tempo que a conhece, a estabelece, desta vez nas operações da [[lexico:v:vontade:start|vontade]]. A quarta ordem, enfim, é a que a razão, ao mesmo tempo que conhece, estabelece, nas coisas exteriores de que ela própria é [[lexico:c:causa:start|causa]]: um armário, uma casa, por exemplo. Ora, como a atividade da razão só se torna perfeita por um [[lexico:h:habito:start|hábito]], conclui-se que as diversas ciências se dividem exatamente segundo essas diferentes ordens que a razão considera como algo que lhe é próprio. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], cabe à [[lexico:f:filosofia-da-natureza:start|filosofia da natureza]] tomar como objeto a ordem que a razão humana considera mas não estabelece. A ordem que a razão humana conhece e estabelece em seu próprio [[lexico:a:ato:start|ato]], constitui a filosofia [[lexico:r:racional:start|racional]] (lógica)... A ordem das [[lexico:a:acoes:start|ações]] voluntárias pertence às especulações da filosofia moral... A ordem, finalmente, que a razão estabelece quando conhece, nas coisas que lhes são exteriores, constitui as artes mecânicas". Deixando de lado o caso da lógica, que pode [[lexico:s:ser:start|ser]] encarado seja como instrumento de toda a filosofia (Aristóteles, habitualmente), seja como uma [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] especial (S. Tomás no texto precedente), este quadro corresponde bem à divisão tripartida clássica do [[lexico:a:aristotelismo:start|aristotelismo]], e nós poderemos, em definitivo, adotar a classificação seguinte: Rationalis philosophia vel Logica (Ciência ou Organon) Philosophia speculativa Philosophia practica (Activa: Moralis philosophia; Factiva: Artes) Não menos importante é a subdivisão, feita por Aristóteles, das ciências teoréticas ou especulativas em três partes, segundo o que se chama os três graus de [[lexico:a:abstracao:start|abstração]]. Essa divisão não tem por [[lexico:p:principio:start|princípio]] a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] exterior ou material dos objetos, mas uma distinção de [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] ou [[lexico:n:noetica:start|noética]]: o [[lexico:g:grau:start|grau]] de [[lexico:i:imaterialidade:start|imaterialidade]]. Quanto mais um objeto de ciência é imaterial, quer dizer, elevado acima das condições da [[lexico:m:materia:start|matéria]], mais ele é inteligível em si, mais o conhecimento que se tem dele é de um grau elevado. Na filosofia de S. Tomás, o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] [[lexico:p:profundo:start|profundo]] e a razão própria da [[lexico:i:inteligibilidade:start|inteligibilidade]] como, aliás, da [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] intelectual, é a imaterialidade. Os homens, assim, são mais elevados do que os animais na escala dos seres dotados de conhecimento. E os [[lexico:a:anjos:start|anjos]], por sua vez, o são mais do que os homens. Isto posto, vejamos como se definem os três graus de abstração e, por este mesmo [[lexico:f:fato:start|fato]], as três grandes partes da filosofia teórica que lhes correspondem. O primeiro esfôrço da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] abstrativa consiste em considerar as coisas sensíveis independentemente de seus [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] individuais: o [[lexico:h:homem:start|homem]], por exemplo, sem [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] próprio a cada homem em particular. Neste caso, [[lexico:e:eu:start|eu]] abstraio de "tal matéria" ou da "matéria individual", a matéria signata vel individuali, conservando os caracteres sensíveis comuns, materia sensibilis. A este primeiro grau de abstração corresponde a filosofia da natureza ou cosmologia, a [[lexico:f:fisica:start|física]] de Aristóteles. O segundo esfôrço da inteligência abstrativa consiste em considerar as coisas independentemente de suas [[lexico:q:qualidades-sensiveis:start|qualidades sensíveis]] e de seus movimentos, para reter tão somente as determinações de ordem quantitativa, [[lexico:f:figura:start|figura]] geométrica, [[lexico:r:relacoes:start|relações]] numéricas, etc . . . Mantém-se, entretanto, ainda neste nível, o que na matéria se relaciona com a ordem quantitativa: a matéria inteligível, materia intelligibilis. A este segundo grau de abstração correspondem as ciências matemáticas. Finalmente, a inteligência abstrativa considera as coisas independentemente de toda matéria, não retendo senão as suas determinações absolutamente imateriais: abstração separativa da matéria inteligível e do [[lexico:m:movimento:start|movimento]]: a materia intelligibili et motu. Ao [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] grau de abstração corresponde a metafísica ([[lexico:f:filosofia-primeira:start|filosofia primeira]] ou [[lexico:t:teologia:start|teologia]] conforme as designações de Aristóteles). E S. Tomás conclui (Metafísica, VI, 1. 1, n.o 1166): "Há, portanto, três partes na filosofia [[lexico:t:teoretica:start|teorética]]: a [[lexico:m:matematica:start|matemática]], a física e a teologia, que é a filosofia primeira". "... tres ergo sunt partes philosophiae theoricae, scilicet mathematica, [[lexico:p:physica:start|Physica]] et [[lexico:t:theologia:start|theologia]] quae est [[lexico:p:philosophia-prima:start|philosophia prima]]." {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}