===== DISTRAÇÃO ===== 7. Ao contrário do que se diz, [[lexico:n:nada:start|nada]] se faz com [[lexico:a:amor:start|amor]]. O ódio ou — o que talvez seja pior — a indiferença é que impera nos corações empedernidos das «[[lexico:c:coisas:start|coisas]]» que nós somos, tudo dividindo em outras «coisas» separadas, mesmo que elas se amontoem por aí, sem deixar interstícios. O que se faz ou já feito nos aparece «com amor» [[lexico:n:nao:start|não]] é «[[lexico:c:coisa:start|coisa]]» qualquer coisa que se deixe classificar por gêneros e espécies. O «coisificado» é resíduo de uma degenerescência diabólica da [[lexico:c:criacao:start|criação]] divina ou do que de [[lexico:d:divino:start|divino]] ainda persiste no [[lexico:h:homem:start|homem]] e no [[lexico:m:mundo:start|mundo]], do que de nós emana ou do que de nós se derrama em raros momentos de distração, e do que a [[lexico:n:natureza:start|natureza]], sempre distraída, produz, [[lexico:c:como-se:start|como se]] nada produzisse, ou como [[lexico:o:outro:start|outro]] o produzisse por ela. Concentrado, o Homem faz «coisas»; distraído, vê, nas coisas que faz, um acréscimo de [[lexico:s:ser:start|ser]], que sempre lhes excede os limites e, por conseguinte, lhes subverte o [[lexico:c:carater:start|caráter]] de «coisas». Mas, que é a distração? Precisamente o que o [[lexico:d:diabo:start|diabo]] comprou, quando lhe vendemos a [[lexico:a:alma:start|alma]]. O Diabo não quer que nos distraíamos; quer concentração pertinaz na sua [[lexico:o:obra:start|obra]]; quer que sempre concentrados prossigamos, obedientes, à oscilação exata de um metrônomo, e não abandonados à pulsação vital de um [[lexico:c:coracao:start|coração]], naquele construir que é triste arremedo do [[lexico:c:criar:start|criar]]; quer-nos como a moeda falsa com que se compram [[lexico:d:deuses:start|deuses]] que a [[lexico:d:deus:start|Deus]] se oponham. Ele, que nada podia comprar, a [[lexico:q:quem:start|quem]] nada pôs à venda, ardilosamente achou o [[lexico:m:meio:start|meio]] de nos manter atentos, de olhos sempre fitos no afã de construir um mundo premeditado, à custa do que sobra da [[lexico:d:destruicao:start|destruição]] de qualquer mundo nascido da autocontenção momentânea de um Caótico que, por sê-lo, se furta a [[lexico:t:todo:start|todo]] o premeditado. Quem pode prever a configuração de um subproduto do [[lexico:c:caos:start|caos]] Excessivo? A obra do Diabo é demasiado fácil. Daí que ele arrebanhe a maioria dos homens, como o Grande Pastor da [[lexico:n:negacao:start|Negação]]. Quem não se apresta gostosamente a dissecar o [[lexico:u:universo:start|universo]] quando nele se lhe apresenta o cadáver de um deus? Só um distraído, quer dizer, o que resiste, sem querer, à [[lexico:v:visao:start|visão]] atenta e interessada das «coisas». Distraído, é todo o desatento à [[lexico:m:morte:start|morte]]. E o que distrai o distraído, o que desatenta o desatento, é, sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], o amor. [EudoroMito:94-95] 40. Mas de que vale contar histórias que tão naturalmente redundam no anedótico? Da comicidade ou do [[lexico:h:humor:start|humor]], ligados à distração do [[lexico:p:poeta:start|poeta]], do cientista e do [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]], já nem é preciso [[lexico:f:falar:start|falar]]; mas nem tudo se disse acerca da distração genérica que envolve essas distrações específicas. Como se distrai o distraído? Que faz que ele se distraia? Decerto, a distração, é-o, de um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] que se concentra no que a outros sujeitos provoca a distração. A distração do [[lexico:r:religioso:start|religioso]], do poeta, do cientista criador, do filósofo que sempre o é, de cada vez que o for, é concentração no que não é [[lexico:a:acao:start|ação]] premente e urgente no Mundo do forçado [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] que se aplica na [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]] imediata das «coisas», no atento olhar a perigos, como o de cair num fosso, quando se caminha, de noite, contemplando o brilho das estrelas do [[lexico:c:ceu:start|céu]]. O astrônomo de uma [[lexico:e:epoca:start|época]] que não está longe, o astrônomo para o qual «[[lexico:a:astronomia:start|astronomia]]» ainda não era trabalho de laboratório, mas [[lexico:p:puro:start|puro]] deslumbramento, foi [[lexico:t:tipico:start|típico]] das distrações ou da não-concentração nas «coisas» da [[lexico:t:terra:start|Terra]], embora, então, ainda [[lexico:m:mal:start|mal]] tivéssemos emergido do [[lexico:t:tempo:start|tempo]] em que céu e terra eram as duas metades opostas e, por isso, complementares do universo em que vivíamos. A distração relativa a um mundo é, pois, concentração relativa a outro mundo. Por conseguinte, distração e concentração só se opõem no mesmo mundo. Quando se entrevê a [[lexico:e:existencia:start|existência]] de mais algum, a distração de um é concentração no outro. Por isso, [[lexico:a:agora:start|agora]], podemos inverter o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] da comicidade. Pois não será eminentemente [[lexico:c:comico:start|cômico]], que o «homem [[lexico:h:humano:start|humano]]» diga que se distrai quando atenta no [[lexico:e:espetaculo:start|espetáculo]] em que se lhe oferece a visão de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], labutando entre «coisas», no mesmo mundo das «coisas»? O teatro e o cinema, o romance e a novela, «engajados», engajam-nos como tripulação de uma nau fatalmente destinada ao naufrágio. [EudoroMito:127-128] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}