===== DISTINÇÃO NA ESCOLÁSTICA ===== Opunham os escolásticos a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] à [[lexico:i:identidade:start|identidade]]. O que distingue uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] é o [[lexico:n:nao:start|não]] [[lexico:s:ser:start|ser]] outra, portanto, a •[[lexico:c:carencia:start|carência]] de identidade com outra. A primeira [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] entre os escolásticos foi: distinção [[lexico:l:logica:start|lógica]] ou de [[lexico:r:razao:start|razão]], e distinção [[lexico:r:real:start|real]]. Consiste a distinção real (distinctio realis) no que pertence à [[lexico:n:natureza:start|natureza]] da coisa, independentemente da [[lexico:o:operacao:start|operação]] mental que a capta. Consiste ela, para os escolásticos, na carência de identidade entre uma coisa e outra, independentemente de qualquer operação mental. A distinção lógica ou de razão (distinctio lógica ou distinctio rationis) é aquela que se estabelece apenas através de uma operação mental, mesmo quando não há distinção real entre as [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. Assim podem ser consideradas as distinções entre animalidade e [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]], no [[lexico:h:homem:start|homem]], ou os atributos em [[lexico:d:deus:start|Deus]]. Há distinção [[lexico:m:modal:start|modal]] (distinctio modalis), quando se distingue, na coisa, esta do seu [[lexico:m:modo:start|modo]], como já vimos. A distinção real pode ser: real [[lexico:s:simpliciter:start|simpliciter]] (real-real) também chamada entitativa; modal (modalis); [[lexico:v:virtual:start|virtual]] (virtualis). É real simpliciter quando se refere à distinção própria entre uma coisa e outra coisa. É real modal, quando se refere à distinção entre uma coisa e o seu modo (a distinção entre um [[lexico:c:corpo:start|corpo]] e a sua [[lexico:f:figura:start|figura]]). É virtual, quando se refere à [[lexico:v:virtude:start|virtude]] ou [[lexico:f:forca:start|força]] resistente numa coisa que permite transfundir-se em outra. [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]]: A [[lexico:a:alma:start|alma]] humana, apesar de [[lexico:r:racional:start|racional]], possui [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]] correspondentes ao [[lexico:p:principio-vital:start|princípio vital]] de outros corpos animais. Classifica-se ainda a distinção em adequada e inadequada. É adequada a distinção, por exemplo, entre duas partes que formam a metade, cada uma, de um [[lexico:t:todo:start|todo]]; é inadequada, a distinção entre o todo e uma das suas partes. Há ainda: distinção de razão raciocinante (distinctio rationis ratiotinantis); distinção de razão raciocinada (distinctio rationis ratiotinatae). A distinção de razão raciocinante é a que se estabelece, pela [[lexico:m:mente:start|mente]], nas coisas, sem haver [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] para tal. A distinção de razão raciocinada é aquela que a mente estabelece nas coisas não realmente distintas, mas em que há algum fundamento na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] para tal distinção. Há ainda a distinção [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], que é aquela que metafi-sicamente podemos fazer entre [[lexico:c:categorias:start|categorias]] ontológicas, como a distinção entre [[lexico:q:quantidade-e-qualidade:start|quantidade e qualidade]], entre [[lexico:e:existencia-e-essencia:start|existência e essência]]. Surge aqui uma grande [[lexico:p:problematica:start|problemática]], como, por ex., o dar-se, ou não, uma distinção metafísica, ao lado de uma distinção real, etc. Há momentos importantes onde a distinção penetra como [[lexico:e:elemento:start|elemento]] primordial, como nos temas de [[lexico:a:ato-e-potencia:start|ato e potência]], [[lexico:e:essencia-e-existencia:start|essência e existência]], [[lexico:m:materia-e-forma:start|matéria e forma]], etc, que em breve analisaremos. **SOBRE A DISTINÇÃO NA [[lexico:e:escola:start|escola]] TOMISTA** Entre a distinção real e a de pura razão, coloca São Tomás a distinção de razão com fundamento na coisa, sobre a qual raciocina (cum fundamente in re). A distinção real expressa coisas realmente distintas, independentes de toda consideração de nossa mente, por ex., alma e corpo, no homem. A distinção de pura razão é a que se dá entre nomes ou [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] só nominalmente distintos de uma mesma coisa, por ex. João, como [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] e [[lexico:p:predicado:start|predicado]] de uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]]. A distinção cum fundamento in re é a que se dá entre objetos formalmente distintos de uma mesma realidade, como [[lexico:a:animal:start|animal]], racional, espiritual, livre, imortal no tocante ao homem, pois, na [[lexico:e:essencia:start|essência]] humana, se identificam todos esses objetos. Animalidade e racionalidade não significam a mesma coisa, por isso são objetos formais distintos. Fora do homem têm esses objetos realidades distintas, não, porém, no homem. A [[lexico:a:acao:start|ação]] abstraidora do nosso [[lexico:e:espirito:start|espírito]] nos permite distinguir tais objetos. A distinção de razão cum fundamento in re pode ser maior ou menor. É maior quando os objetos distintos prescindem completamente uns dos outros. O [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de animal prescinde objetivamente, e de modo completo, do conceito de racional, pois pode dar-se sem ele. A distinção tem um fundamento [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]]. É menor quando os objetos distintos se incluem como o [[lexico:i:implicito:start|implícito]] e o [[lexico:e:explicito:start|explícito]]. O conceito de racional é distinto de o de animal, mas, como o inclui, ao tratar-se do homem, é de distinção menor, pois não poder-se-ia dar um homem, que é racional, sem a animalidade que o antecede. **A DISTINÇÃO [[lexico:f:formal:start|formal]] ESCOTISTA** Em "[[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]]", abordamos por várias vezes os fundamentos epistemológicos da distinção formal escotista, ao estudarmos a "[[lexico:t:teoria:start|teoria]] da [[lexico:p:projecao:start|projeção]] e a da "[[lexico:a:abstracao:start|abstração]] total". Vimos que os correlativos objetivos dos conceitos [[lexico:u:universais:start|universais]] têm de ser distintos, sob [[lexico:p:pena:start|pena]] de cair todo o [[lexico:f:fundamento-do-realismo:start|fundamento do realismo]] moderado. E essa distinção é dada com anterioridade à [[lexico:a:atividade:start|atividade]] abstrativa do espírito [[lexico:h:humano:start|humano]], portanto é uma distinção ex natura rei. A distinção meramente formal é combatida por muitos por não poderem enquadrá-la entre a excludência: ou a distinção é real (in re), ou é conceptual, na mente humana. Não há [[lexico:l:lugar:start|lugar]], portanto, para uma distinção formal. Colocada assim a [[lexico:o:objecao:start|objeção]] parece muito fácil combater a [[lexico:p:posicao:start|posição]] escotista. Ademais é frágil, pois seria excessiva [[lexico:i:ingenuidade:start|ingenuidade]] [[lexico:p:pensar:start|pensar]] que os escotistas não tivessem meditado sobre este [[lexico:d:dilema:start|dilema]]: ou uma coisa tem a sua realidade fora da mente humana ou a tem na mente. Não há lugar para um [[lexico:m:meio:start|meio]] [[lexico:t:termo:start|termo]]. Mas, primeiramente, antes de se discutir sobre meios termos, é preciso esclarecer o que se compreende por real. É real o que independe do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] (ex natura rei). Neste caso, não há lugar para mais ou menos, pois estamos em face do que só se coloca dentro de uma excludência. Mas os objetos, por sua índole, distinguem-se em três grupos: res-modus-formalitas. Não cabe [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] que a modal seja ex natura rei, pois o rodar de uma roda se distingue real-modalmente desta, como veremos ao examinar a teoria das [[lexico:m:modais:start|modais]]. Para que a distinção formal fosse improcedente era mister reduzi-la à mera distinção conceptual. Como esta pode ser cum fundamento in re ou apenas elaborada pela nossa mente, se as formalidades fossem apenas elaboradas pela nossa mente, cairia, ipso facto, o [[lexico:r:realismo:start|realismo]] moderado, e estaríamos afirmando apenas o [[lexico:n:nominalismo:start|nominalismo]], que, como vimos, na [[lexico:o:obra:start|obra]] citada, actualiza apenas o [[lexico:e:esquema:start|esquema]] abstrato-noético e virtualiza os outros, o que o torna, do ângulo dialéctico, uma [[lexico:p:posicao-filosofica:start|posição filosófica]] deficitária. Resta, nesse caso, reduzir a distinção formal à distinção conceptual cum fundamento in re, como o pretendem fazer quase todos os tomistas. Ora, o fundamento da distinção formal escotista, epistemologicamente, está no realismo, isto é, no conteúdo [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] que têm os conceitos universais, fundando-se no paralelismo entre a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] do conhecimento e a ordem do ser. Tal afirmativa não encerra uma [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] interna para ser recusada, pois, como já vimos, na "Teoria do Conhecimento", o esquema noético-abstrato, que é post rem, é um esquema intentionaliter [[lexico:c:construido:start|construído]] do esquema [[lexico:c:concreto:start|concreto]] (in re), que é simbolicamente um [[lexico:r:referente:start|referente]] do esquema [[lexico:e:essencial:start|essencial]] (ante rem), na ordem [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] do ser. Portanto há um paralelismo entre a ordem gnoseológica, a ôntica e a ontológica, o que dá um fundamento à distinção formal escotista, que é real, sem ser uma distinção real ut res et re, pois o esquema concreto é a existencialização da essência, [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] que será examinado e discutido mais adiante. Assim a animalitas e a [[lexico:r:rationalitas:start|rationalitas]], no homem, não se distinguem real-fisicamente, mas apenas real-formalmente. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}