===== DISPUTA DOS UNIVERSAIS ===== Essa [[lexico:e:expressao|expressão]] designa a [[lexico:d:disputa|disputa]] sobre o [[lexico:s:status|status]] [[lexico:o:ontologico|ontológico]] dos [[lexico:u:universais|universais]] (gêneros e espécies), que começou na [[lexico:e:escolastica|Escolástica]] do séc. XI e caracterizou toda a [[lexico:f:filosofia-medieval|filosofia medieval]], continuando depois, com formas pouco diferentes, na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]]. Essa disputa foi motivada por um trecho da [[lexico:i:isagoge|Isagoge]] (Introdução) de [[lexico:p:porfirio|Porfírio]] às [[lexico:c:categorias|categorias]] de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] e pelos comentários de [[lexico:b:boecio|Boécio]] a ela [[lexico:r:relativos|relativos]]. O trecho de Porfírio é o seguinte: "Dos gêneros e das espécies [[lexico:n:nao|não]] direi aqui se subsistem ou se são apenas postos no [[lexico:i:intelecto|intelecto]], nem — caso subsistam — se são corpóreos ou incorpóreos, se separados das [[lexico:c:coisas|coisas]] sensíveis ou situados nas coisas, expressando seus [[lexico:c:caracteres|caracteres]] comuns" (Isag., I). Das alternativas indicadas por Porfírio nesse trecho, apenas uma não se encontra na [[lexico:h:historia|história]] da disputa: aquela segundo a qual os universais seriam realidades corpóreas. Em compensação, uma [[lexico:a:alternativa|alternativa]] que Porfírio não previra verificou-se historicamente, pelo menos segundo dizem: o [[lexico:u:universal|universal]] não existe nem no intelecto e é apenas um [[lexico:n:nome|nome]], um flatus vocis. Essa é a solução atribuída a Roscelin por S. Anselmo (Defide Trinitatis, 2) e por João de Salisbury (Metal, II 13; Policrat., VII, 12). As soluções dadas a esses problemas na Escolástica e depois dela foram muito numerosas, e muitas vezes diferem por ninharias. [[lexico:r:realismo|realismo]] e [[lexico:n:nominalismo|nominalismo]] são as soluções fundamentais, mas Ockham, na [[lexico:r:refutacao|refutação]] [[lexico:s:sistematica|sistemática]] que quis fazer ao realismo, enumerava seis formas fundamentais deste (In Sent., I, d. 2. q. 4-8; Quodl, V, q. 10-14; Summa log., I, 15-17; v. [[lexico:a:abbagnano|Abbagnano]], G. de Ockham, II, § 8-II). Mas o fundamental para entender tanto a [[lexico:o:origem|origem]] histórica da disputa quanto o alcance permanente que ela pode [[lexico:t:ter|ter]] é que suas duas soluções fundamentais, realismo e nominalismo, correspondem às duas tendências fundamentais da [[lexico:l:logica|lógica]] antiga e medieval, a platônico-aristotélica e a estoica. Essas duas tendências correspondem à lógica antiga e à lógica [[lexico:m:moderna|moderna]], nomes medievais daquilo que mais [[lexico:t:tarde|Tarde]] foi [[lexico:c:chamado|chamado]] de [[lexico:f:formalismo|formalismo]] e de [[lexico:t:terminismo|terminismo]]. A primeira dessas correntes defendia as doutrinas lógicas tradicionais; a segunda, a doutrina da [[lexico:s:suposicao|suposição]] e os raciocínios antinômicos. Os tratados lógicos da Idade Média justapõem os dois troncos doutrinários, mas a inconciliabilidade e o antagonismo deles se manifesta na [[lexico:d:disputa-dos-universais|disputa dos universais]], que denuncia a [[lexico:p:presenca|presença]] ativa, na Escolástica, de uma [[lexico:t:tradicao|tradição]] lógica anti-aristotélica, que é a estoica, haurida nas obras de Boécio e de Cícero. Realismo e nominalismo constituem, portanto, as duas soluções típicas e iniciais do [[lexico:p:problema|problema]]. Para o realismo, isto é, para a tradição lógica platônico-aristotélica, o universal é, [[lexico:a:alem|além]] de conceptus mentis, a [[lexico:e:essencia|essência]] necessária ou [[lexico:s:substancia|substância]] das coisas. Para o nominalismo, ou seja, para a tradição estoicizante, o universal é um [[lexico:s:signo|signo]] das coisas. O realismo e o nominalismo medievais constituem, assim, as duas alternativas sempre presentes na [[lexico:t:teoria|teoria]] do [[lexico:c:conceito|conceito]] (v. conceito). Mais especificamente, no que diz [[lexico:r:respeito|respeito]] ao realismo, é [[lexico:p:possivel|possível]] distinguir três formas fundamentais, que podem [[lexico:s:ser|ser]] chamadas de platonizante, aristotélica e semi-aristotélica. A [[lexico:f:forma|forma]] platonizante do realismo é atribuída por [[lexico:a:abelardo|Abelardo]] ao seu [[lexico:m:mestre|mestre]] Guilherme de Champeaux (séc. XI): o universal seria a substância, e os indivíduos constituiriam acidentes dessa substância (Abelardo, OEuvres, ed. [[lexico:c:cousin|Cousin]], p. 513). A solução aristotélica é a mais comumente defendida na escolástica, sendo expressa por [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], para [[lexico:q:quem|quem]] o U. está in re como forma ou substância das coisas, post rem como conceito no intelecto e ante rem na [[lexico:m:mente|mente]] divina como [[lexico:i:ideia|ideia]] ou [[lexico:m:modelo|modelo]] das coisas criadas (In Sent., II, d. 3, q. 2, a. 2). Esses três universais perfazem apenas um, vale dizer, identificam-se com a essência, a substância ou a forma da [[lexico:c:coisa|coisa]], que existe [[lexico:a:ab-aeterno|ab aeterno]] no intelecto [[lexico:d:divino|divino]] e que o intelecto [[lexico:h:humano|humano]] abstrai da coisa ([[lexico:s:suma-teologica|Suma Teológica]], I, q. 85, a. I). Finalmente, pode ser chamada de semi-aristotélica a solução encontrada por Duns Scot, segundo o qual o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] U. existe somente no intelecto, enquanto nas coisas existe uma [[lexico:n:natureza|natureza]] comum que se distingue formalmente da [[lexico:i:individualidade|individualidade]] das coisas, e não numericamente (Op. Ox., II, d. 3, q. 6, n. 15). O [[lexico:c:carater|caráter]] peculiar dessa solução está no [[lexico:p:principio|princípio]] de [[lexico:d:distincao|distinção]] [[lexico:f:formal|formal]], que é uma das características da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] de Duns Scot. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, o nominalismo é mais [[lexico:u:uniforme|uniforme]]. Excetuando a mencionada [[lexico:t:tese|tese]] de Roscelin (sobre a qual, de resto, não existem documentos convincentes), o nominalismo, de Abelardo a Ockham, sempre sustentou as mesmas teses fundamentais, a [[lexico:r:reducao|redução]] do universal à [[lexico:f:funcao|função]] lógica da predicabilidade, dividindo-se apenas no que diz respeito à [[lexico:a:atribuicao|atribuição]] ou não de [[lexico:r:realidade|realidade]] psíquica ao universal Ockham mostra-se indiferente a este [[lexico:u:ultimo|último]] problema: nega, obviamente, que o universal seja uma [[lexico:s:species|species]], mas considera indiferente identificá-lo com o [[lexico:a:ato|ato]] do intelecto ou negar que tenha uma realidade qualquer na [[lexico:a:alma|alma]] (In Sent., I, d. 2, q. 8, E). Seu caráter fundamental é a função de signo, isto é, a suposição. Esses foram os [[lexico:p:principios|princípios]] fundamentais da lógica terminista depois de Ockham; [[lexico:n:nocao|noção]] análoga de universal encontra-se na teoria do conceito defendida pelo [[lexico:e:empirismo-ingles|empirismo inglês]] a partir do séc. XVII: [[lexico:l:locke|Locke]], [[lexico:b:berkeley|Berkeley]] e [[lexico:h:hume|Hume]].