===== DISCIPLINAS FILOSÓFICAS ===== Já se disse, cum grano salis, que a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] é, de certo [[lexico:m:modo|modo]], tudo. Assim, ao lado das [[lexico:d:disciplinas-filosoficas|disciplinas filosóficas]] tradicionais, poderiam perfilar inumeráveis outras, legítimas ou estapafúrdias, como, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], filosofia da medicina ou filosofia do capitalismo ou filosofia da culinária ou filosofia do automobilista etc. etc. Desde [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] registra a [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]] a [[lexico:c:constituicao|constituição]] de diversas disciplinas filosóficas, como a [[lexico:l:logica|lógica]] (ainda que considerada um "[[lexico:i:instrumento|instrumento]]" e [[lexico:n:nao|não]] uma [[lexico:p:parte|parte]]), a [[lexico:e:etica|ética]], a [[lexico:e:estetica|estética]] (poética), a [[lexico:p:psicologia|psicologia]] (doutrina da [[lexico:a:alma|alma]]), a [[lexico:f:filosofia-politica|filosofia política]] e a [[lexico:f:filosofia-da-natureza|filosofia da natureza]] ([[lexico:f:fisica|física]]). Todas elas estão dominadas pela [[lexico:f:filosofia-primeira|filosofia primeira]] ou [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. Essas mesmas disciplinas são reunidas em grupos de mais amplo conteúdo, tais como ciências teóricas, ciências práticas e ciências poéticas (ou produtivas), com a lógica como [[lexico:o:orgao|órgão]] ou instrumento. Outra [[lexico:c:classificacao|classificação]], adotada pelos estoicos, é: lógica, física e ética. Em tudo isso se percebe uma classificação das disciplinas filosóficas em metodológicas, teóricas e práticas, que teve [[lexico:s:singular|singular]] [[lexico:f:fortuna|fortuna]] no [[lexico:p:pensamento|pensamento]] do Ocidente e que persistiu até quase nossos dias. Durante grande parte da [[lexico:e:epoca|época]] [[lexico:m:moderna|moderna]] até hoje foram realizados muitos esforços para apresentar a filosofia em diversas disciplinas sistematizadas. Uma destas apresentações é a que, com diversas variantes, foi adotada pela [[lexico:e:escola|escola]] de [[lexico:w:wolff|Wolff]] e depois por muitos escolásticos — ou neoescolásticos —: filosofia teórica (subdividida em lógica — [[lexico:f:formal|formal]] e material — e metafísica — [[lexico:g:geral|geral]] ou filosofia primeira ou [[lexico:o:ontologia|ontologia]]; especial ou [[lexico:t:teologia|teologia]], cosmologia e psicologia racionais) e [[lexico:f:filosofia-pratica|filosofia prática]] (principalmente ética). A isso se acrescentou, depois, a [[lexico:c:criteriologia|criteriologia]] como [[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]]. Outra destas apresentações foi a adotada e muito usada entre os idealistas alemães do século XIX: lógica (metafísica), filosofia da [[lexico:n:natureza|natureza]] e [[lexico:f:filosofia-do-espirito|Filosofia do Espírito]]. Assim, cada um dos filósofos importantes ofereceu seu [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:s:sistema|sistema]] de [[lexico:d:divisao|divisão]] das disciplinas filosóficas. Em geral, porém, podemos dizer que até fins do século XIX, e em [[lexico:p:particular|particular]] para fins didáticos, consideram-se como disciplinas filosóficas a lógica, a ética, a [[lexico:g:gnosiologia|gnosiologia]], [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]] ou [[lexico:t:teoria|teoria]] do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], a ontologia, a metafísica, às vezes a criteriologia, a psicologia, com frequência a [[lexico:s:sociologia|sociologia]], e ainda um conjunto de disciplinas tais como a [[lexico:f:filosofia-da-religiao|filosofia da religião]], do [[lexico:e:estado|Estado]], do [[lexico:d:direito|direito]], da [[lexico:h:historia|história]], da natureza, da [[lexico:a:arte|arte]], da [[lexico:l:linguagem|linguagem]], da [[lexico:s:sociedade|sociedade]] etc. etc. assim como a história da filosofia. Desse conjunto umas saíram, outras entraram, como é o caso da psicologia, que não é incluída dentro do sistema das disciplinas filosóficas, ou então se é incluída é eliminada a psicologia [[lexico:e:experimental|experimental]], conservando-se apenas a chamada, às vezes, psicologia teórica e outras vezes psicologia filosófica. O mesmo [[lexico:d:destino|destino]] teve a sociologia. Uma das disciplinas que voltaram foi a ontologia, enquanto tende a sair a lógica, especialmente como [[lexico:l:logistica|logística]], que para alguns deveria [[lexico:s:ser|ser]] eliminada do quadro filosófico e passar a formar parte da [[lexico:m:matematica|matemática]]. Por sua vez, novas disciplinas fizeram-se anunciar, como por exemplo a [[lexico:t:teoria-dos-objetos|teoria dos objetos]], a [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]], a [[lexico:a:antropologia-filosofica|antropologia filosófica]], a [[lexico:s:semiotica|semiótica]] (e seus ramos: [[lexico:s:sintaxe|sintaxe]], [[lexico:s:semantica|semântica]] e [[lexico:p:pragmatica|pragmática]]), assim como disciplinas diversas acerca das ciências especiais: filosofia da física, da [[lexico:b:biologia|biologia]], da [[lexico:e:educacao|educação]] etc. etc. Tudo isso formulou de novo o [[lexico:p:problema|problema]] de se a filosofia é simplesmente uma matriz das ciências (que, depois, vão se tornando independentes de sua [[lexico:o:origem|origem]] comum) ou de se tem que englobá-las a todas, adotando um [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista distinto das ciências. Para José [[lexico:f:ferrater|Ferrater]] Mora "uma única conclusão parece certa se adotamos o [[lexico:m:metodo|método]] da [[lexico:i:inducao|indução]] histórica: que a filosofia possui um [[lexico:g:grau|grau]] de flexibilidade maior que nenhum [[lexico:o:outro|outro]] conhecimento [[lexico:h:humano|humano]]". Daí a filosofia ser, de certo modo, tudo. De modo que há um [[lexico:p:processo|processo]] de [[lexico:d:desprendimento|desprendimento]]. As ciências particulares vão se constituindo com [[lexico:a:autonomia|autonomia]] própria e diminuindo a [[lexico:e:extensao|extensão]] designada pela [[lexico:p:palavra|palavra]] "filosofia". Vão outras ciências saindo, e então, que resta? Atualmente, de modo provisório e muito flutuante, poderemos enumerar do seguinte modo. as disciplinas compreendidas dentro da palavra "filosofia". Diremos que a filosofia compreende a ontologia, ou seja a [[lexico:r:reflexao|reflexão]] sobre os objetos em geral; e como uma das partes da ontologia, a metafísica. Compreende também a lógica, a teoria do conhecimento, a ética, a estética, a filosofia da [[lexico:r:religiao|religião]], e compreende ou não compreende — não sabemos — a psicologia e sociologia; porque justamente a psicologia e a sociologia estão neste [[lexico:m:momento|momento]] na [[lexico:a:alternativa|alternativa]] de se separarem ou não da filosofia. Ainda há psicólogos que querem conservar a psicologia dentro da filosofia; mas já há muitos outros, e não dos piores, que querem constituí-la em [[lexico:c:ciencia|ciência]] à parte, [[lexico:i:independente|independente]]. Pois o mesmo acontece com a sociologia. Augusto [[lexico:c:comte|Comte]], que foi [[lexico:q:quem|quem]] deu [[lexico:n:nome|nome]] a esta ciência (e ao fazê-lo, como diz Fausto, deu-lhe [[lexico:v:vida|vida]]), ainda considera a sociologia como o conteúdo mais importante e seleto da filosofia positiva. Mas outros sociólogos a constituem já em ciência à parte. Há [[lexico:d:discussao|discussão]]. Não vamos nós resolver por enquanto esta discussão o assim diremos que em geral todas as disciplinas e estudos que enumerei: a ontologia, a metafísica, a lógica, a teoria do conhecimento, a ética, a estética, a filosofia da religião, a psicologia e a sociologia, formam parte e constituem as diversas províncias do território filosófico. Podemos perguntar-nos o que há de comum nessas disciplinas que acabo de enumerar; que é o comum nelas que as faz incluir dentro do âmbito [[lexico:d:designado|designado]] pela palavra "filosofia"; que têm de comum para ser todas parte da filosofia. O primeiro e muito importante que têm de comum é que todas são o resíduo desse processo [[lexico:h:historico|histórico]] de [[lexico:d:desintegracao|desintegração]]. A História pulverizou o velho [[lexico:s:sentido|sentido]] da palavra "filosofia". A História eliminou do continente filosófico as ciências particulares. O que restou é a filosofia. [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:f:fato-historico|fato histórico]], apesar de ser somente um [[lexico:f:fato|fato]], é muito importante. É já uma [[lexico:a:afinidade|afinidade]] extraordinária a que mantém entre si essas disciplinas, só pelo fato de serem os resíduos desse processo de desintegração do velho sentido da palavra "filosofia". Mas aprofundemos-nos mais no problema. Por que ficaram dentro da filosofia essas disciplinas? Vou responder a esta [[lexico:p:pergunta|pergunta]] de uma maneira muito filosófica, que consiste em inverter a pergunta. Como disse muitas vezes [[lexico:b:bergson|Bergson]], uma das técnicas para definir o [[lexico:c:carater|caráter]] de uma [[lexico:p:pessoa|pessoa]] consiste não somente em enumerar o que prefere, mas também, e sobretudo, em enumerar o que não prefere; do mesmo modo, em vez de perguntarmos por que sobreviveram filosoficamente estas disciplinas, vamos perguntar-nos por que foram embora as matemáticas, a física, a química e as demais. E se nos perguntarmos por que se desprenderam, encontramos o seguinte: que uma ciência se desprendeu do velho tronco da filosofia quando conseguiu circunscrever um pedaço no imenso âmbito da [[lexico:r:realidade|realidade]], defini-lo perfeitamente e dedicar exclusivamente sua [[lexico:a:atencao|atenção]] a essa parte, a esse [[lexico:a:aspecto|aspecto]] da realidade.