===== DIONISO ===== //Resumo de entrada em BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. 2a. ed ed. Petrópolis: Vozes, 1992.// * Dioniso, filho de Zeus e Sêmele, é uma divindade complexa cujo mito abrange desde o nascimento duplo até a instituição de seu culto orgiástico, passando por perseguições, metamorfoses e sua ascensão ao Olimpo. * O nome Dioniso possui variantes dialetais, sendo Διόνυσος a forma mais comum, com ocorrências em Homero, no tessálio e em outras tradições, e sua etimologia parece ligada ao genitivo Διός (Diós), designativo de céu em trácio, que aparece no primeiro elemento do composto. * O nascimento de Dioniso envolve a morte trágica de Sêmele, fulminada pelo raio de Zeus, e a segunda gestação na coxa do pai dos deuses, que conferiu ao filho a imortalidade que a simples ascendência paterna não lhe garantiria. * Sêmele, enganada por Hera, pediu a Zeus que se apresentasse em todo o seu esplendor, sendo carbonizada, e o feto foi salvo por Zeus, que o colocou em sua coxa até completar a gestação. * Esse nascimento prematuro e a subsequente gestação na coxa divina simbolizam a adoção paterna, um rito de "choco" ou a reminiscência de um mito fundamentado em um ancestral andrógino, conferindo a Dioniso a imortalidade. * A coxa de Zeus, com seu significado sexual e matriarcal, funciona como um segundo ventre, um eufemismo para o ventre materno, e Dioniso, nascido duas vezes, torna-se uma divindade poderosa por compartilhar do úmido e do ígneo. * Após o nascimento, Dioniso foi entregue por Hermes aos cuidados de Átamas e Ino, mas a ira de Hera enlouqueceu o casal, levando à morte de seus filhos e à fuga de Ino para o mar, até que Zeus transformou o menino em bode e o confiou às Ninfas e aos Sátiros no monte Nisa. * No monte Nisa, Dioniso descobriu o vinho ao espremer cachos de uva em taças de ouro, e a bebida provocou danças vertiginosas e embriaguez entre Sátiros, Ninfas e o próprio deus, originando as festas do vinho novo celebradas em Atenas e na Ática. * A descoberta do vinho despertou a ira e o ciúme de Hera, que enlouqueceu Dioniso, levando-o a peregrinar pelo Egito, Síria e Frígia, onde foi purificado por Cibele e iniciado nos ritos orgiásticos, antes de chegar à Trácia e sofrer perseguição do rei Licurgo. * Licurgo, enlouquecido por Zeus, decepou braços e pernas de seu próprio filho, julgando cortar as videiras sagradas, e a Trácia tornou-se estéril até que o rei fosse morto, amarrado a quatro cavalos e esquartejado. * Da Trácia, Dioniso penetrou na Índia, conquistando o país com armas e encantamentos, e retornou à Hélade em triunfo, com carro tirado por panteras e acompanhado por Sátiros, Bacantes e divindades menores como Priapo. * Na Beócia, o rei Penteu opôs-se violentamente ao culto dionisíaco, e o deus o puniu enlouquecendo as mulheres beócias, incluindo Agave, que despedaçou o próprio filho julgando abater uma fera; em Argos, manifestou poder análogo ao enlouquecer as Prétidas, curadas depois por Melampo. * Dioniso contratou piratas etruscos para viajar a Naxos, mas estes tentaram vendê-lo como escravo, e o deus transformou os remos em serpentes, encheu o barco de heras e sons de flautas, precipitando os marinheiros no mar, onde foram metamorfoseados em delfins. * Antes de ascender definitivamente ao Olimpo, Dioniso desceu ao mundo dos mortos para resgatar o eidolon de sua mãe Sêmele, oferecendo a Plutão o mirto em troca, e ela subiu aos céus como deusa em companhia do filho, recebendo o nome de Tione. * As perseguições a Dioniso por Hera, Licurgo, Penteu e piratas etruscos sintetizam um rito catártico e iniciático e a perseguição à vítima sacrificial, refletindo politicamente a longa oposição à penetração do culto orgiástico na pólis aristocrática grega. * Como deus do Olimpo, Dioniso raptou Ariadne em Naxos e participou da luta contra os Gigantes ao lado de Zeus, matando Éurito com um golpe de tirso. * Deus das orgias, do êxtase, do entusiasmo e da liberação, Dioniso era festejado com procissões ruidosas que deram origem ao ditirambo, ao drama satírico, à tragédia e à comédia. * Com a helenização de Roma a partir do século III a.C., os mistérios dionisíacos penetraram na Itália central e meridional, e o Senado romano proibiu as Bacchanalia por decreto de 186 a.C., embora a proibição jamais tenha sido levada muito a sério. * As seitas místicas mantiveram a tradição dionisíaca, e o deus das orgias chegou intacto à época imperial, quando Juvenal, desejando fugir da Roma corrupta, criticava aqueles que fingiam ser como Cúrio e viviam as Bacanais.