===== DIALÉTICA PLATÔNICA ===== A [[lexico:m:maieutica-socratica:start|maiêutica socrática]] da [[lexico:i:interrogacao:start|interrogação]], da [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] e da resposta, é o que [[lexico:p:platao:start|Platão]], discípulo de [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]], aperfeiçoa. Platão aperfeiçoa a [[lexico:m:maieutica:start|maiêutica]] de Sócrates e a transforma no que ele chama [[lexico:d:dialetica:start|dialética]]. A [[lexico:d:dialetica-platonica:start|dialética platônica]] conserva os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] fundamentais da maiêutica socrática. A dialética platônica conserva a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de que o [[lexico:m:metodo-filosofico:start|método filosófico]] é uma [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]]., [[lexico:n:nao:start|não]] de opiniões distintas, mas de uma [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] e a [[lexico:c:critica:start|crítica]] da mesma. Conserva, pois, a ideia de que é preciso partir de uma [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] primeira e depois ir melhorando-a à [[lexico:f:forca:start|força]] das críticas que se lhe fizerem, e essas críticas onde melhor se fazem é no [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]], no intercâmbio de afirmações e negações; e por isso a denomina de dialética. Vamos [[lexico:v:ver:start|ver]] quais são os [[lexico:p:principios:start|princípios]], as [[lexico:e:essencias:start|essências]] filosóficas, que estão na base deste procedimento dialético. A dialética se decompõe, para Platão, em dois momentos. Um primeiro [[lexico:m:momento:start|momento]] consiste na [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] da ideia; um segundo momento consiste no [[lexico:e:esforco:start|esforço]] crítico para esclarecer esta intuição da ideia. De [[lexico:m:modo:start|modo]] que, primeiramente, quando nos situamos ante a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de resolver um [[lexico:p:problema:start|problema]], quando sentimos essa [[lexico:a:admiracao:start|admiração]] que Platão elogia tanto, essa admiração diante do [[lexico:m:misterio:start|mistério]], quando estamos diante do mistério, diante da interrogação, diante do problema, a primeira [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] faz é jogar-se como uma [[lexico:f:flecha:start|flecha]], como uma intuição que dispara em direção à ideia da coisa, em direção à ideia do mistério que se tem diante. Mas essa primeira intuição da ideia é uma intuição grosseira, insuficiente. Mais que a própria intuição, é a [[lexico:d:designacao:start|designação]] do [[lexico:c:caminho:start|caminho]] por onde iremos em direção à conquista dessa ideia. E então constitui-se a dialética propriamente dita em seu segundo momento, que consiste em que os esforços sucessivos do espírito para intuir, para ver, para contemplar, ou, [[lexico:c:como-se:start|como se]] diz em [[lexico:g:grego:start|grego]], [[lexico:t:theorein:start|theorein]] (daí provém a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "[[lexico:t:teoria:start|teoria]]") as [[lexico:i:ideias:start|ideias]], vão-se depurando cada vez mais, aproximando-se cada vez mais da meta, até chegar a uma aproximação, a maior [[lexico:p:possivel:start|possível]], nunca à coincidência absoluta com a ideia, porque esta é algo que se encontra num [[lexico:m:mundo:start|mundo]] do [[lexico:s:ser:start|ser]] tão diferente do mundo de nossa [[lexico:r:realidade:start|realidade]] [[lexico:v:vivente:start|vivente]] que os esforços do [[lexico:h:homem:start|homem]] para atingir esta realidade vivente, para chegar ao mundo dessas essências eternas, imóveis e puramente inteligíveis que são as ideias, nunca podem ser perfeitamente [[lexico:b:bem:start|Bem]] sucedidos. Tudo isto expõe Platão de uma maneira viva, [[lexico:i:interessante:start|interessante]], por [[lexico:m:meio:start|meio]] dessas ficções do que tanto gosta. Ele gosta muito de expor seus [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] filosóficos sob a [[lexico:f:forma:start|forma]] do que ele mesmo denomina "contos", como os contos que os velhos contam às crianças; denomina-os com a palavra grega [[lexico:m:mito:start|mito]]. Pois Platão gosta muito dos mitos, e para expressar seu [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]] apela a eles muitas vezes. Assim, para expressar seu [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] da intuição, da ideia e da dialética, que nos conduz a depurar essa intuição, emprega o mito da "[[lexico:r:reminiscencia:start|reminiscência]]". Narra o [[lexico:c:conto:start|conto]] seguinte: As almas humanas, antes de [[lexico:v:viver:start|viver]] neste mundo e de alojar-se cada uma delas num [[lexico:c:corpo:start|corpo]] de homem, viveram em [[lexico:o:outro:start|outro]] mundo, viveram no mundo onde não há homens, nem [[lexico:c:coisas:start|coisas]] sólidas, nem cores, nem odores, nem [[lexico:n:nada:start|nada]] que passe e mude, nem nada que flua no [[lexico:t:tempo:start|tempo]] e no [[lexico:e:espaco:start|espaço]]. Viveram num mundo de puras essências intelectuais, no mundo das ideias. [[lexico:e:esse:start|esse]] mundo está num [[lexico:l:lugar:start|lugar]] que Platão metaforicamente denomina lugar celeste, [[lexico:t:topos:start|topos]] uranos. Lá vivem as almas em perpétua [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] das belezas imperecíveis das ideias, conhecendo a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] sem nenhum esforço porque a têm intuitivamente pela frente, sem nascer nem morrer, em absoluta [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]]. Mas essas almas, de vez em quando, vêm à [[lexico:t:terra:start|Terra]] e se alojam num corpo [[lexico:h:humano:start|humano]] dando-lhe [[lexico:v:vida:start|vida]]. Estando na terra e alojando-se num corpo humano, naturalmente têm que submeter-se às condições em que se desenvolve a vida na terra, às condições da espacialidade, da [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]], do nascer e do morrer, da [[lexico:d:dor:start|dor]] e do [[lexico:s:sofrimento:start|sofrimento]], da insuficiência dos esforços, da brevidade da vida, das desilusões, da [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]] e do [[lexico:e:esquecimento:start|esquecimento]]. Estas almas esquecem, esquecem as ideias que conheceram quando viviam ou estavam no topos uranos, no lugar celeste onde moram as ideias. Esquecidas de suas ideias, estão e vivem no mundo. Mas como estiveram antes nesse topos uranos, onde estão as ideias, bastará algum esforço bem dirigido, bastarão algumas perguntas bem feitas para que, do fundo do esquecimento, por meio da reminiscência vislumbrem alguma vaga lembrança dessas ideias. Logo que Platão narra este conto (porque é um conto, não vamos crer que Platão acredita em tudo isto) a uns amigos seus em Atenas, estes ficam um pouco receosos; pensam: Parece que este senhor está caçoando. Então Platão lhes diz: "Vou demonstrá-lo a vocês." Nesse momento passa por lá um rapaz de quinze anos, [[lexico:e:escravo:start|escravo]] de um dos participantes da reunião. Platão lhe diz: "Mênon, seu escravo sabe [[lexico:m:matematica:start|matemática]]?" "Não, homem; que há de [[lexico:s:saber:start|saber]]! É um criado, um escravo de minha casa." "Pois, que venha aqui; você vai ver." Então Sócrates (que nos [[lexico:d:dialogos:start|diálogos]] de Platão é sempre o porta-voz) começa a perguntar. Diz-lhe: "Vamos ver, rapaz: imagina três linhas retas", e o rapaz as imagina. E assim, à força de perguntas bem feitas, vai tirando dele toda a [[lexico:g:geometria:start|geometria]]. E diz Sócrates: "Vêem? Não a sabia? Pois a sabe! está recordando-a dos tempos em que vivia no lugar celeste das ideias." As perguntas bem feitas, o esforço por dirigir a intuição para a [[lexico:e:essencia:start|essência]] do [[lexico:o:objeto:start|objeto]] proposto, pouco a pouco e não de chofre, com uma [[lexico:s:serie:start|série]] de flechadas sucessivas, encaminhando o esforço do espírito para onde deve ir, conduzirão à reminiscência, à recordação daquelas ideias intelectuais que as almas conheceram e que logo, ao se encarnar em corpos humanos, esqueceram. A dialética consiste, para Platão, numa contraposição de intuições sucessivas, cada uma das quais aspira a ser a intuição plena da ideia, do [[lexico:c:conceito:start|conceito]], da essência; mas como não pode sê-lo, a intuição seguinte, contraposta à anterior, retifica e aperfeiçoa essa anterior. E assim sucessivamente, em diálogo ou contraposição de uma intuição à outra, chega-se a purificar, a depurar o mais possível esta vista intelectual, esta vista dos olhos do espírito, até aproximarse o mais possível dessas essências ideais que constituem a verdade absoluta. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}