===== DIALÉTICA ===== [[lexico:d:dialektike:start|dialektike]] [[lexico:t:termo:start|termo]] derivado do [[lexico:g:grego:start|grego]] dialegesthai e que, etimologicamente, designa a [[lexico:a:arte:start|arte]] de conversar. Empregada já em tempos anteriores a [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]], este a praticou por uma [[lexico:f:forma:start|forma]] que se tornou clássica. Servindo-se da dialética, propunha-se ele levar os homens a conhecer a verdadeira [[lexico:e:essencia:start|essência]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]], mediante elucidações graduais dos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]]. Sobre esta base assentam e se desenvolvem amplamente os [[lexico:d:dialogos:start|diálogos]] de [[lexico:p:platao:start|Platão]], os quais, pela [[lexico:e:exposicao:start|exposição]] e contra-argumentação dos interlocutores, extraem do [[lexico:d:dado:start|dado]] as [[lexico:e:essencias:start|essências]] e facultam, por essa forma, a ascensão à sua realização fundamental e originária: as [[lexico:i:ideias:start|ideias]]. A dialética é, pois, para Platão, o [[lexico:m:metodo:start|método]] da [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. [[lexico:c:carater:start|Caráter]] [[lexico:i:identico:start|idêntico]] apresenta o método escolástico da metafísica medieval. As disputas são levadas a [[lexico:e:efeito:start|efeito]] em forma de diálogos; [[lexico:t:tipo:start|tipo]] idêntico determina a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] da "[[lexico:q:quaestio:start|quaestio]]" ([[lexico:q:questao:start|questão]]) [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]]. Em toda a [[lexico:p:parte:start|parte]], a [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]] do "Sic et non" estimula o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]]. Quão profundamente o [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] caracterize o [[lexico:h:homem:start|homem]] em sua peculiar maneira de [[lexico:s:ser:start|ser]], dizem-no estas [[lexico:p:palavras:start|palavras]] de Hölderlin: "Existimos desde que dialogamos". De [[lexico:f:fato:start|fato]], encontramo-nos sempre dialogando, senão com outros, ao menos conosco A [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] espiritual da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] é também um colóquio continuado das várias épocas, no qual a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] plena vai abrindo [[lexico:c:caminho:start|caminho]] paulatinamente através do choque de oposições antagônicas. Assim, a [[lexico:h:historia:start|história]] encontra-se sob o [[lexico:s:signo:start|signo]] da dialética do [[lexico:e:espirito:start|espírito]]. Dentro desta [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] se situa a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] para arvorar a dialética em [[lexico:l:lei:start|lei]] fundamental do ser. Já [[lexico:h:heraclito:start|Heráclito]] via "na [[lexico:g:guerra:start|guerra]]", isto é, na [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] dos contrários, o "pai de todas as coisas" ou a mais íntima essência do ser. O [[lexico:i:idealismo-alemao:start|idealismo alemão]], e principalmente [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], desenvolveu esta concepção. Para Hegel, o [[lexico:r:real:start|real]] é essencialmente [[lexico:d:devir:start|devir]], que avança, passo a passo, na marcha ternária de [[lexico:t:tese:start|tese]] — [[lexico:a:antitese:start|antítese]] — [[lexico:s:sintese:start|síntese]]; por isso, nosso pensamento deve seguir o mesmo curso. Nesta [[lexico:i:ideia:start|ideia]] se alberga um núcleo de verdade, mesclado todavia de [[lexico:p:panteismo:start|panteísmo]], uma vez que, segundo Hegel, também [[lexico:d:deus:start|Deus]] está [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] à dialética; [[lexico:a:alem:start|além]] disso, via de [[lexico:r:regra:start|regra]], [[lexico:n:nao:start|não]] se toma em consideração que a dialética não avança na oposição contraditória, senão na contrária. Se [[lexico:b:bem:start|Bem]] que, no [[lexico:l:limiar:start|limiar]] da Idade [[lexico:m:moderna:start|moderna]], [[lexico:n:nicolau-de-cusa:start|Nicolau de Cusa]] caracterize Deus como "[[lexico:c:coincidentia-oppositorum:start|coincidentia oppositorum]]" ([[lexico:u:unidade:start|unidade]] dos contrários), todavia isto não deve entender-se panteisticamente. — Partindo de Hegel, o [[lexico:m:materialismo-dialetico:start|materialismo dialético]] transfere a dialética para a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] do material e do econômico. Em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] mais amplo, a dialética coincide com a [[lexico:l:logica-formal:start|lógica formal]], com a doutrina das formas do pensamento [[lexico:h:humano:start|humano]] em [[lexico:g:geral:start|geral]]. O [[lexico:n:nome:start|nome]] explica-se pelo fato de a [[lexico:l:logica:start|lógica]] [[lexico:t:ter:start|ter]] começado a partir da arte do [[lexico:d:discurso:start|discurso]] e da [[lexico:d:disputa:start|disputa]] científica. As épocas de [[lexico:d:decadencia:start|decadência]] abusaram dela para cavilações balofas, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que, hoje, dialética significa também, muitas vezes, [[lexico:s:sutileza:start|sutileza]]. Tudo quanto fica exposto conflui na "dialética [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]" de [[lexico:k:kant:start|Kant]]. Seguindo a grande [[lexico:t:tradicao:start|tradição]], sob este nome vem tratada a metafísica. Também entra em [[lexico:j:jogo:start|jogo]] a [[lexico:c:contradicao:start|contradição]], não como [[lexico:m:momento:start|momento]] fecundo que impele para diante, mas em forma de [[lexico:a:antinomias:start|antinomias]] destrutoras de uma metafísica [[lexico:t:teoretica:start|teorética]]. Com isso, segundo Kant, procura-se desmascarar a [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] vã de uma metafísica especulativa. — Lotz. O termo “dialéctica” e mais propriamente a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] “a dialéctica”, teve estreita [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o vocábulo diálogo; “a dialéctica” pode definir-se, primeiramente, com “arte do diálogo”. Tal como no diálogo, na dialéctica há também duas razões ou posições entre as quais se estabelece precisamente um diálogo. Num sentido mais técnico, entendeu-se a dialéctica como um tipo de [[lexico:a:argumentacao:start|argumentação]] [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] ao [[lexico:a:argumento:start|argumento]] [[lexico:c:chamado:start|chamado]] “[[lexico:r:reducao:start|redução]] ao [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]]” mas não idêntico ao mesmo. Neste caso, continua a haver na dialéctica um confronto, mas não tem [[lexico:l:lugar:start|lugar]] necessariamente entre dois interlocutores, mas, por assim dizer, “dentro do mesmo argumento”. Neste sentido mais preciso, a “arte dialéctica” foi usada por [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]] para provar que, como [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] de “[[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] é” e “o que não é não é” enquanto é não muda, pois se mudasse converter-se-ia em [[lexico:o:outro:start|outro]], mas não há outro, excepto “o que é”. Este tipo de argumentação consiste em supor o que aconteceria se uma dada [[lexico:p:proposicao:start|proposição]], afirmada verdadeira, fosse negada. Encontramos em Platão duas formas de dialéctica. Observou-se muitas vezes que enquanto em certos diálogos (FEDON, [[lexico:f:fedro:start|Fedro]], [[lexico:r:republica:start|REPÚBLICA]]) Platão apresenta a dialéctica como um método de ascensão do [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] para o [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] em alguns dos chamados últimos diálogos (como o Parmênides e em [[lexico:p:particular:start|particular]] o [[lexico:s:sofista:start|sofista]] e o [[lexico:f:filebo:start|Filebo]]) apresenta a como um método de [[lexico:d:deducao:start|dedução]] [[lexico:r:racional:start|racional]] das formas. Como método de ascensão para o inteligível, a dialéctica vale-se de operações tais como a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] e a composição, as quais não são distintas, mas dois aspectos da mesma [[lexico:o:operacao:start|operação]]. A dialéctica permite então passar da [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] para a unidade e mostrar esta como [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] daquela. Como método de dedução racional, a dialéctica permite descriminar as ordens entre si e não confundi-las. mas persiste o [[lexico:p:problema:start|problema]] de como relacioná-los. A questão é como a dialéctica torna [[lexico:p:possivel:start|possível]] uma [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] dos [[lexico:p:principios:start|princípios]] fundada na ideia da unidade. Uma das soluções mais óbvias consiste em estabelecer uma [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] de ordens e de princípios. Em [[lexico:t:todo:start|todo]] o caso, a dialéctica nunca é, em Platão, nem uma mera disputa, nem um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] [[lexico:f:formal:start|formal]]. [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] contrasta a dialéctica com a [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]], pelas mesmas razões pelas quais contrasta a [[lexico:i:inducao:start|indução]] com o [[lexico:s:silogismo:start|silogismo]]. A dialéctica é, para Aristóteles, uma forma não demonstrativa de [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]: é uma aparência de [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], mas não a própria filosofia. Daí que tenda a considerar no mesmo nível disputa, [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]] e dialéctica. A dialéctica é disputa e não ciência; probabilidade e não [[lexico:c:certeza:start|certeza]]; indução e não propriamente demonstração. E até acontece que a dialéctica é tomada por Aristóteles num sentido pejorativo, não só como um [[lexico:s:saber:start|saber]] do meramente [[lexico:p:provavel:start|provável]], mas também como um saber (que é, certamente, um pseudo-saber) do [[lexico:a:aparente:start|aparente]] domado como real. O sentido [[lexico:p:positivo:start|positivo]] da dialéctica ressurgiu, em contrapartida, com o [[lexico:n:neoplatonismo:start|neoplatonismo]], que a considerou o [[lexico:m:modo:start|modo]] de ascensão para as realidades superiores, para o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] inteligível. Também entre os estoicos a dialéctica era um modo positivo de conhecimento. Na idade média, a dialéctica forma com a [[lexico:g:gramatica:start|gramática]] e a [[lexico:r:retorica:start|retórica]] o [[lexico:t:trivium:start|Trivium]] das artes liberais. Como tal, era uma das artes que referem ao método e não à [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. Por outro lado, constituiu uma das partes da lógica que se propõe elaborar a demonstração probatória. Finalmente, constituiu o modo [[lexico:p:proprio:start|próprio]] de [[lexico:a:acesso:start|acesso]] intelectual ao que podia ser conhecido do [[lexico:r:reino:start|reino]] das coisas críveis. No [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]], rejeitou-se muitas vezes a dialéctica, que representou um mero conteúdo formal da [[lexico:l:logica-aristotelica:start|lógica aristotélica]]. O sentido pejorativo da dialéctica foi comum no século dezoito. Assim, Kant considerou a lógica geral com uma “lógica da aparência, isto é, dialéctica”, pois “[[lexico:n:nada:start|nada]] ensina sobre o conteúdo do conhecimento e só se limita a expor as condições formais da conformidade do conhecimento com o [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]]”. A [[lexico:c:critica:start|crítica]] da aparência dialéctica constitui a segunda parte da lógica transcendental, isto é, a dialéctica transcendental, tal que, segundo Kant, não como arte de suscitar dogmaticamente esta aparência, mas como crítica do entendimento da [[lexico:r:razao:start|razão]] no seu [[lexico:u:uso:start|uso]] hipercrítico”. Daí que a dialéctica transcendental seja a crítica deste [[lexico:g:genero:start|gênero]] de aparências que não procedem da lógica nem da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], mas da razão enquanto pretende ultrapassar os limites impostos pela [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] da experiência - limites traçados na [[lexico:e:estetica-transcendental:start|ESTÉTICA TRANSCENDENTAL]] - e aspira a conhecer [[lexico:p:por-si:start|por si]] só e segundo osseus próprios princípios, o mundo, a [[lexico:a:alma:start|alma]] e Deus. É muito importante o papel desempenhado pela dialéctica no sistema de Hegel. Contudo, são consideráveis as dificuldades para [[lexico:c:compreender:start|compreender]] o [[lexico:s:significado:start|significado]] preciso da dialéctica neste [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]]. Com efeito, dialéctica significa, em Hegel, para já, um momento [[lexico:n:negativo:start|negativo]] de qualquer realidade. Dir-se-á que, por ser realidade total de caráter dialéctico - em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] da prévia [[lexico:i:identidade:start|identidade]] entre a realidade e a razão, identidade que faz do método dialéctico a própria forma em que a realidade se desenvolve -, [[lexico:e:esse:start|esse]] caráter afeta o mais positivo dela. E se tivermos em conta a omnipresença dos momentos da tese, da antítese e da síntese, em todo o sistema de Hegel, e o fato de que só pelo [[lexico:p:processo:start|processo]] dialéctico do ser e do [[lexico:p:pensar:start|pensar]] o [[lexico:c:concreto:start|concreto]] pode ser absorvido pela razão, inclinar-nos-emos a considerar a dialéctica sob uma [[lexico:s:significacao:start|significação]] univocamente positiva. Note-se, não obstante, que o dialéctico sublinha, perante o [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]], o caráter deste enquanto realidade morta e esvaziada da sua própria [[lexico:s:substancia:start|substância]]. Para que assim aconteça, o real precisa de [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] sob um [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] em que se negue a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]. Este aspecto é precisamente o dialéctico. Daí que a dialéctica não seja a forma de toda a realidade, mas aquilo que lhe permite alcançar o caráter verdadeiramente positivo. Isto foi afirmado muito claramente por Hegel: “o [[lexico:l:logico:start|lógico]] - escreveu ele - tem na sua forma três aspectos: a) o abstrato ou intelectual; b) o dialéctico ou negativo-racional; c) o especulativo positivo-racional”. O mais importante é que “ estes três aspectos não constituem três partes da lógica, mas são momentos de todo o lógico-real” ([[lexico:e:enciclopedia:start|ENCICLOPÉDIA]]). Assim, aquilo que tem realidade dialéctica é aquilo que tem a possibilidade de não ser abstrato. Em [[lexico:s:suma:start|suma]], a dialéctica é aquilo que torna possível o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] e, por conseguinte a maturação e realização da realidade. Só neste sentido se pode dizer que, para Hegel, a realidade é dialéctica. Portanto, é a “realidade realizada” que interessa a Hegel e não apenas o [[lexico:m:movimento:start|movimento]] dialéctico que o realiza. Na base da dialéctica de Hegel há uma [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] do real, e, além disso, essa ontologia baseia-se numa [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de [[lexico:s:salvacao:start|salvação]] da própria realidade no que tenha de positivo-racional. Não menos central é o papel desempenhado pela dialéctica em [[lexico:m:marx:start|Marx]]. Contudo, esta dialéctica não se apresenta já como uma [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] de momentos especulativos, mas como o resultado de uma [[lexico:d:descricao:start|descrição]] empírica do real. Portanto, a dialéctica marxista - que foi elaborada mais por [[lexico:e:engels:start|Engels]] que por Marx - não se refere ao processo da ideia, mas à “própria realidade”. O uso da dialéctica permite compreender o [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] das mudanças historicamente ([[lexico:m:materialismo-historico:start|materialismo histórico]]) e das mudanças naturais ([[lexico:m:materialismo:start|materialismo]] dialéctico). Todas estas mudanças se regem pelas “três grandes leis dialécticas”. A lei da [[lexico:n:negacao:start|negação]] da negação, a lei da passagem da [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]] à [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]], e a lei da coincidência dos opostos. As leis da dialéctica citadas representam uma verdadeira modificação das leis lógicas formais e, portanto, os princípios de identidade, de contradição e de [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] excluído não regem na lógica dialéctica. Por isso a lógica formal (não dialéctica) foi inteiramente rejeitada ou considerada como uma lógica inferior , aponta só para descrever a realidade na sua fase estável. Nas últimas décadas, houve por parte dos filósofos marxistas oficiais certas mudanças nas suas concepções da dialéctica. Houve um [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] cada vez maior da importância da lógica formal (não dialéctica). Como resultado disso, o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de dialéctica na filosofia marxista ficou ainda mais obscurecido do que é habitual. Não pode afirmar-se, com efeito, se a dialéctica é um nome para a filosofia geral, que inclui a lógica formal como uma das suas partes, ou se é um [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] da realidade, ou se é simplesmente um método para a [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] desta. (gr. dialektike techne; lat. dialectica; in. Dialectic; fr. Dialectique; al. Dialektik; it. Dialetticà). Esse termo, que deriva de diálogo, não foi empregado, na [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]], com significado [[lexico:u:univoco:start|unívoco]], que possa ser determinado e esclarecido uma vez por todas; recebeu significados diferentes, com diversas interrelações, não sendo redutíveis uns aos outros ou a um significado comum. Todavia, é possível distinguir [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] significados fundamentais: 1) dialética como método da divisão; 2) dialética como lógica do provável; 3) dialética como lógica; 4) dialética como síntese dos opostos. Esses quatro concei tos têm [[lexico:o:origem:start|origem]] nas quatro doutrinas que mais influenciaram a história desse termo, mais precisamente a doutrina platônica, a aristotélica, a estoica e a hegeliana. Com base na documentação histórica correspondente, é possível chegar a uma caracterização bastante genérica da dialética, que de algum modo resuma todas as outras. Pode-se dizer, p. ex., que a dialética é o processo em que há um adversário a ser combatido ou uma tese a ser refutada, e que supõe, portanto, dois protagonistas ou duas teses em conflito; ou então que é um processo resultante do conflito ou da oposição entre dois princípios, dois momentos ou duas [[lexico:a:atividades:start|atividades]] quaisquer. Mas trata-se, [[lexico:c:como-se:start|como se]] vê, de uma caracterização tão genérica que não teria nenhum significado [[lexico:h:historico:start|histórico]] ou orientador. O problema histórico é mais de identificar claramente os significados fundamentais e as múltiplas e díspares [[lexico:r:relacoes:start|relações]] que ocorrem entre eles (cf. Studi sulla Dialetticà, de vários autores, em Rivista di Filosofia, 1958, n. 2). 1) dialética como método de divisão. Este foi o conceito de Platão. Para ele, a dialética é a [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] da [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] conjunta, feita através da colaboração de duas ou mais pessoas, segundo o procedimento [[lexico:s:socratico:start|socrático]] de perguntar e responder. De fato, para Platão, a filosofia não era [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] individual e privada, mas [[lexico:o:obra:start|obra]] de homens que "vivem juntamente" e "discutem com [[lexico:b:benevolencia:start|benevolência]]"; é a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] própria de "uma [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] da [[lexico:e:educacao:start|educação]] livre" (Leis, VII, 344 b). A dialética é o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] mais alto a que pode chegar a investigação conjunta e compõe-se de dois momentos: a) O primeiro consiste em remeter as coisas dispersas para uma ideia única e em definir essa ideia de tal modo que possa ser comunicada a todos (Fed., 265 c). Em República, Platão diz que, ao remontar à ideia, a dialética situa-se além das ciências particulares porque considera as [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] das ciências (que sempre fazem [[lexico:r:referencia:start|referência]] ao [[lexico:m:multiplo:start|múltiplo]] sensível) como [[lexico:s:simples:start|simples]] ponto de partida para chegar aos princípios, dos quais depois se pode chegar às conclusões últimas (Rep., VI, 511 b-c). Mas esse segundo procedimento que vai dos princípios (por [[lexico:m:meio:start|meio]] das ideias) às conclusões últimas, nos diálogos posteriores, é analisado, explicitamente, como o da divisão. b) O procedimento da divisão consiste "em poder dividir de novo a ideia em suas espécies, seguindo suas interações naturais e evitando fragmentar suas partes como faria um trinchador canhestro" (Fed., 265 d). Nesse aspecto, é próprio da dialética "dividir segundo gêneros e não assumir como diferente a mesma forma, ou como idêntica uma forma diferente" (Sof, 253 d). Num trecho famoso de O Sofista, Platão enumera as três alternativas fundamentais que o procedimento dialética pode deparar: 1) que uma única ideia permeie e abarque muitas outras, que no entanto permanecem separadas dela e exteriores umas às outras; 2) que uma única ideia reduza à unidade muitas outras ideias, na sua [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]]; 3) que muitas ideias permaneçam inteiramente distintas entre si (Sof, 253 d). Essas três alternativas apresentam dois casos extremos, o da unidade de muitas ideias em uma delas e o de sua heterogeneidade radical, e um caso intermediário, em que uma ideia que abrange outras sem fundi-las numa unidade. A dialética consiste em reconhecer, nas situações que se apresentam, qual dessas possibilidades é a apropriada em proceder coerentemente. Se observarmos o modo como Platão aplicou o procedimento em Fedro, O Sofista e [[lexico:o:o-politico:start|O Político]], chegaremos a outros esclarecimentos. Uma vez definida a ideia, Platão divide-a em duas partes que chama, respectivamente, de lado esquerdo e lado [[lexico:d:direito:start|direito]], caracterizadas pela [[lexico:p:presenca:start|presença]] e pela [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de certo caráter; depois, divide o lado direito da divisão, em duas outras partes, que também serão chamadas de esquerda e direita, utilizando um novo caráter; e assim por diante (Fed., 266 a-b). Esse procedimento pode deter-se em certo ponto ou ser retomado a partir de outra ideia. Enfim, será possível reunir ou recapitular as determinações assim obtidas do [[lexico:p:principio:start|princípio]] ao [[lexico:f:fim:start|fim]] (Sof., 268 c). Esse é o procedimento que Platão utiliza em Fedro para definir o [[lexico:a:amor:start|amor]] como "[[lexico:m:mania:start|mania]]", dividindo depois a mania em má (esquerda) e boa (direita) e procurando ainda as determinações da boa mania. Em O Sofista, esse mesmo procedimento serve para definir a [[lexico:f:figura:start|figura]] sofista. A [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] desse procedimento é a possibilidade de [[lexico:e:escolha:start|escolha]] (em cada passo) da característica capaz de determinar a divisão oportuna em direita e esquerda, ou seja, de tal modo que a linha de articulação do conceito seja seguida, e não "cortada". Logo, a [[lexico:d:dialetica-platonica:start|dialética platônica]] não é um [[lexico:m:metodo-dedutivo:start|método dedutivo]] ou [[lexico:a:analitico:start|analítico]], mas indutivo e [[lexico:s:sintetico:start|sintético]], mais semelhante aos procedimentos da [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] empírica (não obstante a pretensão platônica de que ele prescinda dos "sentidos") do que aos procedimentos do raciocínio [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] ou do silogismo. O que Aristóteles reprova no método da divisão, ou seja, o fato de não ter a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] dedutiva do silogismo (An. pr., I, 31,46 a 31 ss.), não é propriamente uma crítica, porque o método de Platão não tem essa pretensão. Certamente, a partir de "o homem é um [[lexico:a:animal:start|animal]]" e da divisão seguinte "o animal é mortal ou imortal" não se segue que "o homem é mortal", mas só que "o homem é mortal ou imortal", mas o [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] da divisão dialética não é essa dedução, mas a busca, a escolha e o uso das características efetivas de um [[lexico:o:objeto:start|objeto]], com o fim de esclarecer a [[lexico:n:natureza:start|natureza]], ou melhor, as possibilidades (dynameis) desse objeto. O conceito platônico de dialética não teve seguidores diretos, embora sejam evidentes as conexões entre ele e as noções de dialética elaboradas por Aristóteles, pelos estoicos e pelos neoplatônicos. Entre estas, [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] marca a passagem da concepção platônica da dialética à metafísica triádica de [[lexico:p:proclo:start|Proclo]]. Diz ele que a dialética "utiliza o método platônico da divisão para distinguir as espécies de um gênero, para defini-las e para chegar aos gêneros primeiros; com o pensamento faz combinações complexas desses gêneros, até percorrer todo o domínio do inteligível; depois, por caminho inverso, da [[lexico:a:analise:start|análise]], volta ao princípio" (Enn., I, 3, 4). Aqui o método platônico da divisão, que para Platão é o segundo momento da dialética, tornou-se o primeiro e a ele foi acrescentado, como segundo momento, "o [[lexico:r:retorno:start|retorno]] ao princípio", ou seja, à Unidade, acenando assim para aquele que será o [[lexico:e:esquema:start|esquema]] de Proclo. 2) dialética como lógica do provável. Para Aristóteles, a dialética é simplesmente o procedimento racional não demonstrativo; dialético é o silogismo que, em vez de partir de premissas verdadeiras, parte de premissas prováveis, geralmente admitidas. "Provável", diz Aristóteles, "é o que parece aceitável a todos, à maioria ou aos sábios, e, entre estes, a todos, à maioria ou aos mais notáveis e ilustres" (Top., 1,1,100 b 23 ss.). Por [[lexico:e:extensao:start|extensão]], Aristóteles chama de dialético também o silogismo erístico, que parte-de premissas que parecem~prõva.veis, mas não são (Jbíd., 100 b 23 ss.). Por esse conceito, Aristóteles atribuía a [[lexico:i:invencao:start|invenção]] da dialética a [[lexico:z:zenao:start|Zenão]] de Eleia (dialéticaL., VIII, 57), que, em [[lexico:r:refutacao:start|refutação]] do movimento, parte da tese provável, ou seja, aceita pela maioria, de que o movimento existe. O [[lexico:m:motivo:start|motivo]] do uso do termo "dialética" nesse sentido é explicado pelo próprio Aristóteles, dizendo que, "enquanto a [[lexico:p:premissa:start|premissa]] demonstrativa e a [[lexico:a:assuncao:start|assunção]] de uma das duas partes da contradição, a premissa dialética é a [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] que apresenta a contradição como [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]]" (An. pr., I, 1, 24 a 20 e segs.); e assim ela faz um certa referência ao diálogo. Essa [[lexico:n:nocao:start|noção]] de dialética, que permanece secundária e às vezes esquecida no primeiro período da escolástica (na qual prevalece o conceito estoico da dialética como lógica), é retomada, embora sem eliminar a outra, a partir do séc. XII, quando um conhecimento mais completo do [[lexico:o:organon:start|Organon]] de Aristóteles, mais especialmente dos [[lexico:t:topicos:start|Tópicos]] e dos Elencos sofisticos, chama a [[lexico:a:atencao:start|atenção]] para a dialética, entendida como arte da [[lexico:d:discussao:start|discussão]] e da exercitação lógica: arte que se vale de premissas prováveis e é, portanto, dialética no sentido aristotélico do termo. Esse significado, portanto, é admitido e ilustrado mesmo por aqueles que continuam a considerar a dialética como lógica geral ou ciência das ciências (como p. ex. [[lexico:p:pedro-hispano:start|Pedro Hispano]], Summ. log., 7, 41). Foi somente João de Salisbury que tendeu a restringir o significado de dialética à "ciência das coisas prováveis". Mas justamente nesse significado ele descobre novas aplicações da dialética (para ele inútil se não se unir a outras disciplinas), pois, dada a dificuldade de obter conhecimentos necessários no domínio das coisas naturais, as premissas prováveis serão as únicas a que se poderá recorrer: e elas são próprias da dialética (Metalogicon, II, 13). Dante parece referir-se a uma concepção análoga quando compara a dialética a Mercúrio, o menor e o mais [[lexico:o:oculto:start|oculto]] dos planetas; com efeito, "a dialética tem [[lexico:c:corpo:start|corpo]] menor do que qualquer outra ciência; é perfeitamente compilada e acabada no que de [[lexico:t:texto:start|texto]] se encontra na Arte velha e na ‘nova; é mais velada do que qualquer outra ciência porquanto procede com argumentos mais sofisticos e prováveis do que qualquer outra" (Convívio, II, 14). À concepção da dialética como "arte da discussão" reportam-se, via de regra, os [[lexico:h:humanistas:start|humanistas]] a partir de Lorenzo Valia (Dialecticae disputationes, II, Prol. 693): aproximam-se, pois, da retórica, com a qual Nizolio a identifica explicitamente (De veris principiis, II, 5). Por outro lado, Pedro Ramus acentuava na dialética o aspecto inventivo que os antigos já tinham reconhecido na [[lexico:t:topica:start|Tópica]] e nela via a arte da invenção e, portanto, "a própria [[lexico:l:luz:start|luz]] da razão" (Dialectique, 1555, p. 1, 69-119). Mas oscilando entre a retórica e a doutrina da invenção, a dialética mantinha-se no âmbito da noção aristotélica. Todavia, a mais notável [[lexico:r:recorrencia:start|recorrência]] histórica dessa noção só deveria ocorrer com Kant; este partia, exatamente como Aristóteles, da desvalorização preliminar da dialética como [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] de conhecimento. Para Kant, a dialética é uma "lógica da aparência". Isso significa que ela é "uma [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] [[lexico:n:natural:start|natural]] e inevitável, que se funda em princípios subjetivos e os toma por objetivos", mas que está "inseparavelmente ligada à razão humana, permanecendo mesmo depois de [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] a sua [[lexico:r:raiz:start|raiz]]" (Crít. R. Pura, Dialética transcendental, Intr., I). Objeto da dialética são as três ideias de Alma, Mundo e Deus: delas, a primeira é fruto de um [[lexico:p:paralogismo:start|paralogismo]], a segunda mostra sua ilegitimidade ao dar lugar a antinomias insolúveis, a terceira é [[lexico:i:indemonstravel:start|indemonstrável]]. Obviamente, o significado kantiano de dialética identifica-se com o segundo dos dois significados do termo distinguidos por Aristóteles, ou seja, com aquele segundo o qual a dialética é o procedimento sofistico. O próprio Kant estabelece essa conexão: "Embora tenham sido vários os significados com que os antigos usaram essa [[lexico:d:denominacao:start|denominação]] de ciência ou de arte, pode-se deduzir com segurança do uso que dela fizeram que a dialética para eles nada mais era que a lógica da aparência, a arte sofistica de dar à [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]], aliás, às ilusões voluntárias, laivos de verdade, imitando o método da fundação que a lógica geral prescreve e servindo-se de sua tópica para colorir qualquer procedimento [[lexico:v:vazio:start|vazio]]" (Ibid., Lógica transcendental, Intr., III; cf. Grundlegung zur Met. der Sitten, I). Por outro lado, a esse mesmo conceito de dialética liga-se a noção propriamente kantiana de dialética transcendental como "crítica do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] e da razão ao seu uso hiperfísico, a fim de tirar os véus da aparência falaz de suas infundada presunções" (Crít. R. Pura, Lógica transcendental, Intr., § IV) ou, em outros termos, como um kathartikon do intelecto (Logik, Intr., § II). 3) A dialética como lógica. O terceiro conceito de dialética deve-se aos estoicos, que a identificaram com a lógica em geral ou, pelo menos, com a parte da lógica que não é retórica. Considerando a retórica como a ciência do bem [[lexico:f:falar:start|falar]] nos discursos que dizem [[lexico:r:respeito:start|respeito]] às "vias de saída", ao passo que a dialética é a ciência do discutir corretamente nos discursos que consistem em perguntas e respostas ( dialéticaL., VII, 1, 42). Essa identificação da dialética com a lógica geral foi possibilitada pela [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] radical a que os estoicos submeteram a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] aristotélica do raciocínio. Como, para eles, a demonstração era "utilizar as coisas mais compreensíveis para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] as menos compreensíveis" (Ibid., VII, 1, 45), e como as coisas mais compreensíveis eram as evidentes para os sentidos (Ibid., VII, 1, 46), as bases de qualquer demonstração eram os raciocínios anapodíticos, que se apoiam diretamente na [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] sensível. De resto, para eles, o raciocínio em geral constava de premissa e conclusão; isso também é o silogismo (Ibid., VII, 1, 45). Sua teoria do raciocínio não permitia, pois, a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre premissas necessariamente verdadeiras e premissas prováveis em que, segundo Aristóteles, se fundava a distinção entre [[lexico:s:silogismo-demonstrativo:start|silogismo demonstrativo]] e silogismo dialético. A dialética identificou-se assim com a lógica, que, para eles, era uma teoria dos signos e das coisas significadas e se definia como "ciência do [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] e do [[lexico:f:falso:start|falso]], e do que não é nem verdadeiro nem falso" (Ibid., VII, 1, 42). Por "aquilo que não é nem verdadeiro nem falso" entendiam (como resulta do trecho de Cícero citado mais abaixo) a conexão da conclusão com a premissa, cujas condições de verdade a dialética estabelece. Essa [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] da lógica toda como dialética não é um simples retorno à concepção platônica de dialética Na verdade, a lógica estoica, tão centrada nas deduções anapodíticas (do tipo "Se é dia, há luz"), não conhece raciocínios que não partam de premissas hipotéticas, e as premissas hipotéticas são as que, mesmo para Aristóteles, dão caráter dialético ao raciocínio. A doutrina estoica da dialética foi a mais difundida na [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] e na Idade Média. Foi adotada por Cícero, que entendia por dialética "a arte que ensina a dividir uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] inteira em suas partes, a explicar uma coisa oculta com uma [[lexico:d:definicao:start|definição]], a esclarecer uma coisa obscura com uma interpretação, a entrever primeiro e a distinguir depois o que é ambíguo e, finalmente, a obter uma regra com a qual se julgue o verdadeiro e o falso e se as consequências derivam das premissas assumidas" (Brut., 41, 152; cf. também De or., II, 38, 157; Tusc, V, 25, 72; Acad., II, 28, 91; Top., 2, 6). Quintiliano (Inst. or., XII, 2, 13) e [[lexico:s:seneca:start|Sêneca]] (Ep., 1,1) aceitam esse conceito da dialética, que se encontra igualmente na [[lexico:p:patristica:start|patrística]] oriental, p. ex. em Orígenes e Gregório de Nissa (Dehominis opificio, 16), bem como na patrística latina, p. ex. em S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] (De ordine, 13, 38). Através da tradição desses escritores e da obra de [[lexico:b:boecio:start|Boécio]] (Ad Cie. Top., I, P. L, 64a, col. 1047) a noção da dialética como lógica geral, segundo o conceito estoico, persiste por toda a Idade Média, coexistindo com o conceito mais restrito de dialética como arte da discussão ou do raciocínio provável, mesmo quando esse conceito se difunde nas escolas a partir do séc. XII como efeito do melhor conhecimento dos Tópicos e dos Elencos sofísticos. Isidoro de Sevilha retomara o conceito estoico (Etymol., II, 22-24); o mesmo fez Rábano Mauro, que repete as palavras de Agostinho: "A dialética é a [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] das disciplinas: ensina a ensinar, ensina a aprender, e nela a própria razão manifesta o que é, o que quer, o que vê" (De clericorum institutione, III, 20). [[lexico:a:abelardo:start|Abelardo]], por sua vez, defende a dialética com as mesmas palavras de Agostinho (Ep., 13), e Hugo de São Vítor considera-as segundo o [[lexico:m:modelo:start|modelo]] estoico, parte da lógica racional ao lado da retórica (Didascalion, I, 12). Ainda no séc. XIII, Pedro Hispano dizia em Summulae logicales: "A dialética é a arte das artes e a ciência das ciências porque detém o caminho para chegar aos princípios de todos os métodos. Só a dialética pode discutir com probabilidade os princípios de todas as outras artes; por isso, no aprendizado das ciências, a dialética deve vir antes" (1.01). Encontra-se [[lexico:a:analogia:start|analogia]] no conceito de Santayana, de dialética como "ciência [[lexico:i:ideal:start|ideal]]" ou formal, que compreende a [[lexico:m:matematica:start|matemática]] e procura "esclarecer e desenvolver a essência do que descobrimos, com o foco nas harmonias internas e nas implicações das formas que nossa atenção ou nossas metas definiram inicialmente" (The Life of Reason, 19542, p. 436). 4) A dialética como síntese dos opostos. O quarto conceito de dialética é formulado pelo [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] romântico, em particular por Hegel; seu princípio foi apresentado pela primeira vez por [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] em [[lexico:d:doutrina-da-ciencia:start|doutrina da ciência]], de 1794, como "síntese dos opostos por meio da [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] recíproca". Os opostos de que falava Fichte eram o [[lexico:e:eu:start|eu]] e o [[lexico:n:nao-eu:start|Não-eu]], e a conciliação era dada pela [[lexico:p:posicao:start|posição]] do Não-eu por parte do Eu e pela determinação que do Não-eu se reflete sobre o Eu, produzindo neste a [[lexico:r:representacao:start|representação]] (Wissenschaftslehre, § 4, E). Mas para Hegel a dialética é "a própria natureza do pensamento" (Enc., § 11) visto ser a resolução das contradições em que se enreda a realidade finita, que como tal é objeto do intelecto. A dialética é "a resolução [[lexico:i:imanente:start|imanente]] na qual a unilateralidade e a [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] das determinações intelectuais se expressam como são, ou seja, como sua negação. Todo [[lexico:f:finito:start|finito]] tem a característica de suprimir-se a si mesmo. A dialética constitui, pois, a alma do [[lexico:p:progresso:start|progresso]] científico; e é o [[lexico:u:unico:start|único]] princípio através do qual a conexão imanente e a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] entram no conteúdo da ciência nela também está, sobretudo, a elevação verdadeira e não extrínseca acima do finito" (Ibid, § 81). A dialética consiste: 1) na colocação de um conceito "abstrato e limitado"; 2) no suprimir-se desse conceito algo "finito" e na passagem para o seu oposto; 3) na síntese das duas determinações precedentes, que conserva "o que há de afirmativo na sua solução e na sua [[lexico:t:transposicao:start|transposição]]". Hegel dá a esses três momentos os nomes, respectivamente, de intelectual, dialético e especulativo ou positivo racional. Mas a dialética não é só o segundo desses momentos: é mais o conjunto do movimento, especialmente em seu resultado positivo e em sua realidade [[lexico:s:substancial:start|substancial]]. De fato, pela identidade entre racional e real, a dialética é não só ajgi do pensamento, mas a lei da realidade, e seus resultados não são conceitos puros ou conceitos abstratos, mas "[[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] concretos", ou seja, realidades propriamente ditas necessárias, determinações ou [[lexico:c:categorias:start|categorias]] eternas. Toda a realidade move-se dialeticamente e, portanto, a filosofia.hegeliana vê em toda parte tríades de teses, antíteses e sínteses, nas quais a antítese representa a "negação", "o oposto" ou "outro" da tese, e a síntese constitui a unidade e, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], a [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] de ambas. Hegel viu os precedentes remotos dessa dialética em Heráclito e Proclo. De fato, Heráclito não só concebeu o [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] como "unidade dos opostos" como também concebeu essa unidade como objetiva ou imanente ao objeto", ao contrário de Zenão, que considerou puramente subjetivas as contradições e que, por isso, é uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de Kant da antiguidade. "Em Heráclito", diz Hegel, "encontramos pela primeira vez a ideia filosófica em sua forma especulativa... Aqui finalmente vemos [[lexico:t:terra:start|Terra]]: não há proposição de Heráclito que eu não tenha acolhido na minha lógica" ([[lexico:g:geschichte:start|Geschichte]] der Philosophie, ed. Glockner, I, p. 343). Por outro lado, Proclo foi [[lexico:q:quem:start|quem]] descobriu o caráter [[lexico:t:triadico:start|triádico]] do procedimento dialético, considerando-o como o derivar as coisas do [[lexico:u:uno:start|uno]] e seu retorno ao Uno. Segundo Proclo, esse movimento duplo consta de três momentos: 1) a [[lexico:p:permanencia:start|permanência]] imutável da [[lexico:c:causa:start|causa]] em si mesma; 2) o provir do ser derivado que, pela sua [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] com a causa, fica ligada a ela ao mesmo tempo em que dela se afasta; 3) o retorno ou a [[lexico:c:conversao:start|conversão]] do ser derivado à sua causa originária (Inst. theoL, 29-31). Desse modo, diz Hegel, Proclo "não se limita aos momentos abstratos da [[lexico:t:triade:start|tríade]], mas considera as três determinações abstratas do absoluto, cada uma por si, como totalidade da tríade, obtendo assim uma tríade real" (Geschichteder Philosophie, ed. Glockner, III, pp. 73 ss. ). Na [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]] e contemporânea a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] dialética tem, na [[lexico:m:maioria-das-vezes:start|maioria das vezes]], significado hegeliano. Por um lado, esse significado é conservado pelas numerosas ramificações do Idealismo romântico e por outro é adotado por pontos de vista diferentes, mas que utilizam a noção em que este se baseia. Na primeira direção, pode-se observar que a chamada "[[lexico:r:reforma:start|Reforma]]" da dialética hegeliana, de cuja autoria Gentile se vangloriou, foi simplesmente a distinção entre a dialética do "pensado", do objeto do pensamento, e a dialética do "[[lexico:a:ato:start|ato]] pensante" da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] ou do Espírito absoluto. Mas cada uma dessas dialética distinguidas por Gentile configura-se como síntese dos opostos: síntese de opostas objetividades objetivamente tais (dialética do pensador), síntese do eu e do não-eu (dialética do pensante) (Spirito come atto [[lexico:p:puro:start|puro]], VIII, 6). Mas com isso não se inova o conceito de dialética Como também não se inova com a distinção, estabelecida por [[lexico:c:croce:start|Croce]], entre o "[[lexico:n:nexo:start|nexo]] dos distintos" (isto é, entre as várias categorias do pensar, do agir e das suas formas) e a "dialética dos opostos" que seria a unidade e a oposição entre [[lexico:b:belo:start|belo]] e feio, verdadeiro e falso, bem e [[lexico:m:mal:start|mal]], [[lexico:u:util:start|útil]] e inútil, no seio de cada forma espiritual (Lógica, I, cap. 6). Por outro lado, a noção de dialética foi utilizada por Marx, Engels e seus discípulos no mesmo sentido atribuído por Hegel, mas sem o significado idealista que recebera no sistema de Hegel. O que Marx censurava no conceito hegeliano era que a dialética, para Hegel, é consciência e permanece na consciência não alcançando nunca o objeto, a realidade, a natureza, a não ser no pensamento e com pensamento. Segundo Marx toda a filosofia hegeliana vive na "[[lexico:a:abstracao:start|abstração]]" e por isso não descreve a realidade ou a história, mas só uma [[lexico:i:imagem:start|imagem]] abstrata desta que, por fim, é colocada como suprema verdade no "Espírito absoluto" (.Manuscritos econômico-filosóficos, III; trad. it., pp. 168 ss.). Marx afirmava, portanto, a exigência de fazer a dialética passar da abstração à realidade, do mundo fechado da "consciência" ao rríundo [[lexico:a:aberto:start|aberto]] da natureza e da história. "A [[lexico:m:mistificacao:start|mistificação]]", escreveu ele, "que a dialética sofre nas [[lexico:m:maos:start|mãos]] de Hegel não impede, de modo algum, o fato de ter sido ele o primeiro a descrever suas formas gerais de movimento de modo abrangente e claro. Em Hegel, a dialética está na cabeça. É preciso virá-la de pernas para o [[lexico:a:ar:start|ar]], para descobrir o cerne racional no envoltório [[lexico:m:mistico:start|místico]]" ([[lexico:o:o-capital:start|O Capital]], I, 1, Post-scriptum à 2a ed.). Retomando a tentiva de Marx, Engels concebia a dialética como a síntese das oposições (todavia relativas e parciais) que a natureza realiza em seu devir. "O reconhecimento de que essas oposições e diferenças estão realmente presentes na natureza, mas com [[lexico:v:validade:start|validade]] relativa, e de que a rigidez e a validade absoluta com que são apresentadas sãó introduzidas na natureza só pela nossa [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] constitui o ponto central da concepção dialética da natureza" (Antidühring, Pref. à 2- ed.). Segundo Engels, pode-se chegar às leis da dialética por abstração, tanto da história da natureza quanto da história da [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] humana. "Elas nada mais são do que as leis mais gerais de ambas essas fases da evolução e do próprio pensamento" (Dialética da natureza, Dialética; trad. it., p. 56). Apesar disso, a noção de dialética permanecia substancialmente inalterada como ocorre em geral nos escritores modernos que fazem uso dela. Assim, pode-se dizer que o conceito 4) de dialética é marcado pelas seguintes características: 1) a dialética é a passagem de um oposto ao outro; 2) essa passagem é a conciliação dos dois opostos; 3) essa passagem (portanto a conciliação) é necessária. Essa última característica é a que opõe mais radicalmente a dialética hegeliana aos outros três conceitos de dialética, cuja característica comum é a ausência da necessidade. A maior parte dos filósofos modernos e de todos os que usam essa palavra fazem referência a essas três teses. Uma [[lexico:e:excecao:start|exceção]] é constituída por [[lexico:k:kierkegaard:start|Kierkegaard]], que só aceita a primeira. Para ele, a dialética é, em geral, a possibilidade de reconhecer o positivo no negativo (Diário, X4, A, 456): conexão entre os opostos que não elimina nem anula a oposição e não determina uma passagem necessária para a conciliação ou para a síntese, mas permanece estaticamente na própria oposição. Kierkegaard diz: "Estamos sós e termos todos contra nós é, em sentido dialético, ter todos por nós, pois o fato de que todos estão contra nós ajuda a evidenciar que estamos sós" (Ibid., VIII, A, 124). E muitas vezes ele dá a essa dialética sem conciliações o nome de "dialética da inversão" ou "dialética dupla" (Ibid.,Vlll, A 84; VIII, A 91). Esse uso de Kierkegaard, embora não se possa dizer em conformidade com o conceito hegeliano de dialética, tem estreito parentesco com um de seus [[lexico:e:elementos:start|elementos]] e, em todo caso, não propõe novo significado do termo. Para indicar a relação de oposição não conciliada, o termo mais [[lexico:a:adequado:start|adequado]] é [[lexico:t:tensao:start|tensão]]. Por outro lado, o caráter oposto da dialética hegeliana, o da unidade, foi assumido por [[lexico:s:sartre:start|Sartre]] como definição de toda a dialética: "A dialética é atividade totalizadora; ela não tem outras leis que não as regras produzidas pela totalização em curso e estas se referem evidentemente às relações da unificação com o unificado, ou seja, aos modos da presença eficaz do devir totalizante nas partes totalizadas" (Critique de la raison dialectique, 1960, pp. 139-40). Portanto, ao longo de sua história, a noção de dialética assumiu quatro significados fundamentais aparentados mas diferentes. Embora o [[lexico:u:ultimo:start|último]] seja o mais difundido hoje em filosofia, e a ele sejam feitas as referências mais frequentes em [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] comum ("dialética da história", "dialética da [[lexico:v:vida:start|vida]] [[lexico:p:politica:start|política]]", "dialética espiritual", "dialética dos partidos", etc), também é o significado mais desacreditado por haver servido como uma espécie de [[lexico:f:formula:start|fórmula]] mágica, capaz de justificar tudo o que aconteceu no passado e que se prevê ou se espera que aconteça no [[lexico:f:futuro:start|futuro]]. Se no futuro couber a essa palavra um uso cientificamente fecundo, certamente não será esse quarto significado que ditará as regras desse uso. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}