===== DESTRUIÇÃO ===== Um [[lexico:h:homem|homem]] recusa-se a habitar em casa que [[lexico:n:nao|não]] é a sua, a [[lexico:v:viver|viver]] em [[lexico:m:mundo|mundo]] que não é o seu? A maneira mais fácil de [[lexico:p:pensar|pensar]] a [[lexico:r:recusa|recusa]] é imaginar que ele não aceita ou não quer [[lexico:t:ter|ter]] como seu senão o que fez por suas próprias [[lexico:m:maos|mãos]]. Nenhum reparo nos mereceria o fascínio da operosidade construtiva se por despercebido passasse que [[lexico:n:necessario|necessário]] [[lexico:a:antecedente|antecedente]] de [[lexico:t:todo|todo]] o fazer é um desfazer. Não sei de [[lexico:c:coisa|coisa]] que se faça sem que outra ou outras [[lexico:c:coisas|coisas]] se desfaçam, não sei de construção que não suceda à destruição. É certo que o presente se vinga do passado, como o [[lexico:f:futuro|futuro]] se vingará do presente: o presente, destruindo o que no passado se fez, e o futuro, destruindo o que no presente se faz. Mas há um [[lexico:p:ponto|ponto]] fenomenologicamente [[lexico:b:bem|Bem]] determinado, no circuito em que o futuro do futuro se reúne ao passado do passado: é o que representa uma destruição do que o homem não fez nem poderia fazer — e essa atinge as dimensões do sacrilégio. Efetivamente, o primeiro episódio da Recusa, primeiro em qualquer dos dramas, cujos argumentos são variantes do [[lexico:t:tema|tema]] da «hominização», consiste em o homem verificar que tão [[lexico:m:mal|mal]] à [[lexico:v:vontade|vontade]] se sente na [[lexico:n:natureza|natureza]] quanto Adão se sentira no Paraíso. O Exílio Adâmico é [[lexico:m:mito|mito]] que corre paralelamente à [[lexico:h:historia|história]], embora Paraíso e Natureza não sejam o mesmo, já que esta não volta sempre para o homem a sua face benéfica. Adão pôde sair do Paraíso, mas o homem não pode exilar-se da Natureza. Destruí-la é a precaríssima solução do insolúvel, pois, consumada, lhe custará a [[lexico:v:vida|vida]]. Mas Natureza não é o seu mundo... [EudoroMito:28]