===== DESCRIÇÃO FENOMENOLÓGICA ===== A) Era preciso, primeiramente, libertar-se abertamente da hipoteca ao «[[lexico:p:psicologismo:start|psicologismo]]» e é a essa [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] que o primeiro tomo das [[lexico:i:investigacoes-logicas:start|Investigações Lógicas]], [[lexico:p:prolegomenos:start|Prolegômenos]] à [[lexico:l:logica:start|Lógica]] Pura, será consagrado, apresentando o segundo tomo um [[lexico:e:estudo:start|estudo]] dos «vividos» actuantes na lógica e no [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], ou ainda os modos de [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] ou atos correlativos às «objetividades ideais da lógica». Os Prolegômenos aplicam-se, primeiramente, a inventariar os erros e contradições do psicologismo ([[lexico:b:bem:start|Bem]] como das concepções empiristas e antropológicas na lógica) e a opôr-lhes argumentos tirados da [[lexico:e:essencia:start|essência]] mesma da lógica, isto é, da sua [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]]. Afirmar a dependência do [[lexico:l:logico:start|lógico]] relativamente à [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]] e à [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] do nosso [[lexico:e:espirito:start|espírito]] é negar a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de [[lexico:v:verdade:start|verdade]] e, por conseguinte, encerrar-se no [[lexico:c:circulo:start|círculo]] do [[lexico:r:relativismo:start|relativismo]]. Se as leis do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] dependessem de leis causais naturais, [[lexico:n:nao:start|não]] poderiam ser-nos dadas senão como probabilidades e não com a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] e a universalidade que as caracterizam. A [[lexico:e:expressao:start|expressão]] «leis do pensamento» trai, aliás, [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesma, a essência do lógico, que é tão pouco normativa como [[lexico:n:natural:start|natural]]. Essas leis são ideais, dizem [[lexico:r:respeito:start|respeito]] ao [[lexico:o:objeto:start|objeto]] ou ao conteúdo do pensamento. A polêmica travada por [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] convida, portanto, a uma [[lexico:c:conversao:start|conversão]] de [[lexico:a:atitude:start|atitude]] e é nesta conversão que reside o [[lexico:i:interesse:start|interesse]] central dos Prolegômenos. O objeto do matemático e do lógico é [[lexico:d:dado:start|dado]] numa [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] que não é menor que o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] da evidência, mas a consciência da «[[lexico:c:coisa:start|coisa]] mesma». A essência (ou objeto [[lexico:i:ideal:start|ideal]]) é um objeto de consciência como qualquer [[lexico:o:outro:start|outro]] objeto; distingue-se como [[lexico:i:invariante:start|invariante]], da [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] das representações subjetivas. Com a abstracção idealizadora ou [[lexico:i:ideacao:start|ideação]] a permitir chegar, através de variações livres, até ao núcleo [[lexico:e:essencial:start|essencial]], os Prolegômenos, restauram, por novos caminhos, a ideia de verdade e uma [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] que o psicologismo, e também uma [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] como o [[lexico:k:kantismo:start|kantismo]], tinham contribuído para desacreditar. Contra os psicólogos, e para precisar o que ele mesmo já adiantara na sua Filosofia da [[lexico:a:aritmetica:start|Aritmética]], Husserl reafirma que os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] e as leis matemáticas não se originam numa [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]], ainda que sejam acessíveis nos atos psíquicos: o [[lexico:n:numero:start|número]] 5 não é o resultado da numeração de 5 objetos, mas sim «a [[lexico:e:especie:start|espécie]] ideal de uma [[lexico:f:forma:start|forma]] que encontra em certos atos de numeração os seus casos particulares concretos». Contra [[lexico:k:kant:start|Kant]], e a concepção de uma [[lexico:s:sintese:start|síntese]] [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] engendrando o número numa [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] pura, mas [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], Husserl distingue o número, enquanto ideia ou espécie, da [[lexico:s:singularidade:start|singularidade]] [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]] que serve de base e de [[lexico:i:ilustracao:start|ilustração]] ou [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]]. Numa tal evidência, o que doravante é visado (e o caso do número pode [[lexico:s:ser:start|ser]] imediatamente alargado a outras espécies ideais, a cor vermelha, por exemplo) «não é o intuído enquanto [[lexico:t:todo:start|todo]], nem a forma que lhe é inerente, ainda que não seja separável para si mesma, [...] mas antes a espécie [[lexico:f:formal:start|formal]] ideal que, em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] aritmético é absolutamente una [...] e que, assim, não participa, de forma alguma, na [[lexico:c:contingencia:start|contingência]] dos atos com a sua [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]] e [[lexico:i:instabilidade:start|instabilidade]]» (Investigações Lógicas, I, p. 189). Assim, e é um resultado essencial dos Prolegômenos, uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] pura das idealidades, tal como os matemáticos contemporâneos, retomando as fecundas perspectivas de [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] e Bolzano, tentam concebê-las sem recurso a uma constução na [[lexico:i:intuicao-sensivel:start|intuição sensível]], deixa de constituir [[lexico:m:misterio:start|mistério]]. A consciência de uma necessidade da essência ao nível dos conceitos e das leis actualizadas na evidência dão a [[lexico:c:certeza:start|certeza]] de que não nos encontramos aqui perante uma [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] sem conteúdo. Mais genericamente, fica assim definida uma [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre objetividades ideais, uma «ontologia formal». B) Mas as preocupações ontológicas, dando de novo sentido, para lá do [[lexico:c:criticismo:start|criticismo]], à ideia de verdade, não podiam significar o [[lexico:r:retorno:start|retorno]] a uma [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. Tratava-se de reconhecer o que, no [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] do lógico «[[lexico:p:puro:start|puro]]», do matemático, está em [[lexico:j:jogo:start|jogo]], de definir, previamente, o [[lexico:c:campo:start|campo]] e o objeto efectivos do conhecimento. Por isso, os Prolegômenos, embora proclamando a independência da «verdade em si» — expressão, aliás, que, dado o seu cariz dogmático, será, mais tade, abandonada por Husserl — anunciam a elucidação dos «vividos» do pensamento lógico e do conhecimento, o que será objeto do segundo tomo das Investigações. Num certo sentido, tratar-se-á, realmente, de uma [[lexico:d:descricao:start|descrição]] de operações psicológicas correlativas ao domínio definido no primeiro tomo. Mas esta psicologia descritiva que a [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] ainda é, extravaza os limites de toda a psicologia (entendida em sentido corrente) pelo seu [[lexico:p:projeto:start|projeto]] e pelo seu [[lexico:m:metodo:start|método]]: o que ela pretende analisar, o [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] [[lexico:v:vivido:start|vivido]] enquanto tal, exclui qualquer [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] relativamente a uma [[lexico:n:natureza:start|natureza]] psíquica, a uma consciência interna. A [[lexico:a:analise:start|análise]] fenomenológica precede toda a teoria, toda a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de serem animados e de uma natureza; com ela, Husserl funda uma [[lexico:c:ciencia-nova:start|ciência nova]], não empírica, da [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]]. Projeto [[lexico:p:proximo:start|próximo]], em certa [[lexico:m:medida:start|medida]], do de Kant, mas, ao contrário de Kant, e mais radicalmente que ele, em [[lexico:l:lugar:start|lugar]] de admitir formas puras existindo em nós, cujo inventário prefigurasse a organização da nossa [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] na [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] de uma consciência imutável, é a consciência viva que Husserl interroga, abordando-a ao nível em que ela exprime e dá sentido à sua experiência. Este nível, o da expressão, que Kant negligenciara, é aquilo de que Husserl faz [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida e [[lexico:t:tema:start|tema]] de estudo. A expressão, enquanto tal, é animada por um sentido que procede, não da [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] [[lexico:f:fisica:start|física]] da [[lexico:p:palavra:start|palavra]], nem das imagens que lhe estão associadas, nem da [[lexico:p:presenca:start|presença]] pura e [[lexico:s:simples:start|simples]] do objeto [[lexico:d:designado:start|designado]] (pois umas e outras podem não se verificar), mas de um [[lexico:a:ato:start|ato]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]] ou [[lexico:i:intencao:start|intenção]] de significar. Os «atos que dão sentido» devem ser distinguidos dos atos que dão o objeto ou «que preenchem» a [[lexico:s:significacao:start|significação]]. A palavra não é uma marca que se aplica ao objeto ou aos vividos internos, mas relaciona-se ao objeto por uma intenção significante específica, «nomeia o objeto através da sua significação». Aos atos específicos correspondem as [[lexico:s:significacoes:start|significações]] enquanto unidades ideais, que não são componentes reais da consciência nem produções subjetivas, no sentido psicológico do [[lexico:t:termo:start|termo]], como imagens que ilustram a significação, mas não a constituem. O desconhecimento, pela psicologia e pela lógica, da idealidade das significações e do nível fenomenológico correlativo é o defeito que conduziu ao relativismo ou ao [[lexico:d:dogmatismo:start|dogmatismo]]. Não souberam destrinçar, entre a simples [[lexico:r:representacao:start|representação]] e o objeto, [[lexico:e:esse:start|esse]] ato [[lexico:m:mediador:start|mediador]], através do qual a expressão se relaciona ao objeto e que, só ele, pode torná-lo, para nós conhecido. Se é verdade que o conhecimento apenas se acaba na intuição do objeto ou preenchimento, o que, no entanto, o torna [[lexico:p:possivel:start|possível]] é a intenção de significação, que pode [[lexico:e:existir:start|existir]] independentemente da intuição e do objeto, e através da qual, primeiramente, a experiência é exprimível. É ao seu nível que se opera a inserção do lógico no vivido. Por isso, a independência das significações permite evidenciar um conjunto de leis a priori que constituem o nível elementar do lógico. A linguagem organiza-se em torno de unidades ideais, tende a constituir um [[lexico:s:sistema-formal:start|sistema formal]], segundo o qual são tais [[lexico:p:palavras:start|palavras]] e não as outras que podem entrar em combinação. Os conceitos e juízos da lógica clássica não são simples sínteses arbitrárias operadas pelo espírito; reenviam para uma «[[lexico:m:morfologia:start|morfologia]] pura das significações». Por outro lado o a priori destas últimas exclui a sua [[lexico:o:origem:start|origem]] empírica: se há [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]] entre o objeto e a significação, esta não é moldada por aquele — do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] que, a cada [[lexico:p:parte:start|parte]] da palavra, não corresponde uma parte [[lexico:r:real:start|real]] da significação. Há, para lá da [[lexico:l:lingua:start|língua]] empírica, uma «[[lexico:g:gramatica:start|gramática]] [[lexico:g:geral:start|geral]]» que marca a presença da lógica na experiência. Esta «armação ideal» da língua é a «ponte», que os empiristas não souberam discernir e ao qual os lógicos não dão [[lexico:a:atencao:start|atenção]], entre a [[lexico:m:materia:start|matéria]] sensível e o [[lexico:u:universo:start|universo]] conceitual. Mas, por essenciais que sejam o [[lexico:p:por:start|pôr]] em evidência o nível onde o sentido aparece e o legitimar o pensamento formal (enquanto [[lexico:s:sintaxe:start|sintaxe]] geral da experiência), isso não basta ao desígnio das Investigações. Pois o seu [[lexico:f:fim:start|fim]] [[lexico:u:ultimo:start|último]] é realmente uma [[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]], isto é, a elucidação da [[lexico:r:relacao:start|relação]] da consciência ao objeto por [[lexico:m:meio:start|meio]] da significação — e não somente, como nos Prolegômenos, o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] da [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de uma lógica pura. Será, por isso, [[lexico:n:necessario:start|necessário]], contemporaneamente, explicitar o [[lexico:g:genero:start|gênero]] de objetos que correspondem às intenções de significação dos nomes gerais e mostrar como o pensamento significador pode «encher-se» intuitivamente, distinguir os diversos níveis deste preenchimento até ao conhecimento da «coisa mesma». A análise fenomenológica reabilita a «consciência da generalidade» negada pelos empiristas. Explicita, do lado dos atos de consciência, a abstracção idealizadora. A significação, una, relativamente à [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] das imagens e dos enunciados, e ideal, não se confunde com o simples «[[lexico:m:momento:start|momento]]» qualitativo do objeto, mas encontra, na «espécie», um novo conteúdo [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]. Quando a expressão se liga a um dos momentos do objeto, por exemplo a cor vermelha, o que ela exprime não é aquela parte qualitativa separada, de algum modo, pela atenção, mas o vermelho in specie. Quando formamos o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de vermelho, ou o seu derivado nominal «vermelhidão», pomos em evidência a «[[lexico:o:objetidade:start|objetidade]] ideal» que unifica as qualidades vermelhas e permite afirmar as suas semelhanças ou diferenças. A espécie, assim separada, é uma essência. Um [[lexico:e:eidos:start|eidos]] platónico? A este respeito, Husserl explicou-se, por várias vezes, sem [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]]: é [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]] chamar [[lexico:r:realismo:start|realismo]] platónico a uma concepção que, precisamente, rejeita, por [[lexico:p:principio:start|princípio]], qualquer [[lexico:h:hipostase:start|hipóstase]], real ou mental, do geral. A ideia geral não está, realmente, nem fora nem dentro da consciência. A [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] do geral é provada pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de o podermos visar, fazer um [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] sobre ele. Segundo Husserl, o [[lexico:n:nominalismo:start|nominalismo]] tem [[lexico:r:razao:start|razão]] quando nega a [[lexico:e:existencia:start|existência]] de uma «representação geral» no pensamento, mas não a tem quando não quer admitir estes pólos de [[lexico:i:identidade:start|identidade]] que fundam a possibilidade dos enunciados e das semelhanças. E somente neste sentido, fora de qualquer realismo, a fenomenologia é uma descrição das [[lexico:e:essencias:start|essências]]. No que diz respeito à teoria do conhecimento propriamente dita, não conhecemos autenticamente, não atingimos a plena evidência da coisa, senão na concordância entre significação e intuição. Esta não é uma componente do pensamento significador, mas constitui uma nova [[lexico:c:classe:start|classe]] de atos cuja elucidação faz [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] os diferentes níveis. Ainda neste domínio, um certo parentesco entre a análise fenomenológica e a [[lexico:c:critica:start|crítica]] kantiana do conhecimento é acompanhado de divergências essenciais. Para Husserl, como para Kant, os conceitos sem intuição são vazios. Mas Kant apenas concebe a intuição como sensível e, por conseguinte, limita o alcance do conhecimento na sua captação do ser. Porque define ainda a intuição pela representação ou conteúdo [[lexico:e:empirico:start|empírico]] da consciência e não vê nela o ato que consiste em [[lexico:v:viver:start|viver]] a presença do objeto. Ora, para uma [[lexico:d:descricao-fenomenologica:start|descrição fenomenológica]] liberta de qualquer pressuposto, a significação não é apenas preenchida na simples intuição sensível, mas também na [[lexico:a:apresentacao:start|apresentação]] da coisa mesma — ainda que esta apresentação nunca se opere completamente na [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] e deixe [[lexico:s:subsistir:start|subsistir]], a título de [[lexico:c:caracter:start|carácter]] feno-menológico, a [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] da coisa — e, enfim, na intuição [[lexico:c:categorial:start|categorial]], na qual a evidência da espécie significada, ou essência, tem acabamento. A expressão «[[lexico:i:intuicao-das-essencias:start|intuição das essências]]» que, com a [[lexico:f:formula:start|fórmula]] «[[lexico:i:ir-as-coisas-mesmas:start|ir às coisas mesmas]]», contribuiu para o [[lexico:s:sucesso:start|sucesso]] mais [[lexico:i:imediato:start|imediato]] da fenomenologia não implica, de resto, nenhuma atitude [[lexico:m:mistica:start|mística]], nenhum mistério. Não deve ser entendida como uma [[lexico:e:extrapolacao:start|extrapolação]] da intuição sensível para um domínio [[lexico:s:supra-sensivel:start|supra-sensível]]; a intuição das essências ou intuição categorial é sempre «fundada» no sensível, sem, no entanto, se confundir com ele. Ainda aqui os direitos da descrição rigorosa, que deve dar conta da consciência da evidência e do seu correlato, a verdade, sobrelevam os pressupostos criticistas e psicologistas. Assim se afirma, de novo, a independência de espírito que, nesta [[lexico:o:obra:start|obra]], [[lexico:a:anima:start|anima]] Husserl: a sua [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] de elucidação sem preconceitos, e não de [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] [[lexico:g:genetica:start|genética]], introduz modificações essenciais nas teorias tradicionais do conhecimento. Deslocamentos de conceitos e de problemas, que encontrariam [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] na Quinta [[lexico:i:investigacao:start|Investigação]] consagrada à nova concepção da consciência e da sua relação ao objeto, implicada pela [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:i:intencionalidade:start|intencionalidade]]. É verdade que já [[lexico:b:brentano:start|Brentano]] operara uma primeira [[lexico:r:revolucao:start|revolução]] na descrição da consciência. A noção de intencionalidade definia um carácter original do fenômeno [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]]. Mas, embora conservando este carácter como uma das aquisições definitivas da psicologia, Husserl vai servir-se dele para outros fins: esse carácter permitir--lhe-á, justamente, ultrapassar os limites do fenômeno psíquico dado na percepção interna. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], segundo Brentano, o modo de relação da consciência ao seu conteúdo é ainda entendido como relação a um objeto [[lexico:i:imanente:start|imanente]], «in-existência [[lexico:i:intencional:start|intencional]]» do objeto. Desta [[lexico:d:definicao:start|definição]], Husserl guarda somente a ideia de que a consciência se relaciona sempre a qualquer coisa, e «que existem variedades específicas da relação intencional: os modos [[lexico:r:representativo:start|representativo]], judicativo, volitivo, [[lexico:e:emotivo:start|emotivo]], estético», nos quais o objeto é visado, cada vez, de maneira diferente. A fenomenologia fará grande [[lexico:u:uso:start|uso]] destas modalidades para garantir a autenticidade do «visar», por exemplo, do [[lexico:j:juizo:start|juízo]] [[lexico:r:relativo:start|relativo]] a um «[[lexico:e:estado:start|Estado]] de [[lexico:c:coisas:start|coisas]]» e que não é redutível à simples [[lexico:a:associacao:start|associação]] de representações. [[lexico:a:alem:start|Além]] de que esse carácter é realmente [[lexico:d:descritivo:start|descritivo]], é um dado irredutível que não necessita de outra explicação. A intencionalidade é estranha a toda a «[[lexico:i:influencia:start|influência]] real» da consciência sobre o objeto correspondente: «Que uma representação se relacione a certo objeto, e de certa maneira, não se deve a uma [[lexico:o:operacao:start|operação]] que ela exerceria sobre o objeto em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], fora dela, [[lexico:c:como-se:start|como se]] ela se lhe dirigisse, no sentido literal da palavra, ou como se, de algum outro modo, se ocupasse dele, o manipulasse, tal como a mão que escreve entra em contato com uma caneta». A relação intencional não significa, portanto, uma intervenção da consciência no [[lexico:m:mundo:start|mundo]]; a intenção, do ponto de vista fenomenológico, ou o ato, não é uma actividade, uma operação real implicando uma relação causal. Mas esta relação, inerente à consciência, também não tem [[lexico:n:nada:start|nada]] de uma relação «interna», no sentido em que a psicologia a entendia. [[lexico:d:diferenca:start|Diferença]] maior relativamente a Brentano e à sua concepção do conteúdo imanente do fenômeno psíquico: para Husserl, é [[lexico:c:capital:start|capital]] distinguir entre o conteúdo vivido e o objeto; este último só em sentido impróprio é conteúdo, não é vivido nem interiormente compreendido no fenômeno psíquico. No vivido intencional, o objeto aparece, mas não como parte real desse vivido. Progressivamente, ao longo das análises da Quinta Investigação, liberta-se o [[lexico:e:estatuto:start|estatuto]] do fenômeno, no novo sentido, não psicológico, que a fenomenologia lhe dá. «Nunca é demais insistirmos sobre o equívoco que nos permite dar o [[lexico:n:nome:start|nome]] de fenômeno não somente ao vivido, no qual reside o aparecer do objeto, mas também ao objeto que aparece, enquanto tal». Só o primeiro sentido é válido, mas não o segundo, com a [[lexico:r:reducao:start|redução]] idealista que implica: «Vivemos os fenômenos como pertencendo trama da consciência, enquanto que as coisas nos aparecem como pertencendo ao mundo fenomenal: Os fenômenos não nos aparecem, são vividos»; e é no seio desse vivido que o mundo, as coisas, se objetivam. A consciência é, portanto, a «complexão fenomenológica» dos vividos intencionais e nunca um reservatório; o objeto não entra na consciência. Se se pode [[lexico:f:falar:start|falar]] de percepção interna, é apenas por [[lexico:r:referencia:start|referência]] à evidência ou à [[lexico:a:adequacao:start|adequação]] na qual são dados certos conteúdos intencionais, mas esta «[[lexico:i:interioridade:start|interioridade]]», que é um carácter fenomenológico do vivido, não diz respeito, [[lexico:p:particular:start|particular]] e exclusivamente, ao psíquico. Este último, relativamente ao nível fenomenológico, é também objeto, transcendência. Assim, Husserl, no que diz respeito ao psiquismo e ao mundo real natural, põe uma espécie de parêntesis (antes mesmo de utilizar esta expressão), que permite evidenciar na sua pureza a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] fenomenológica. Nesta são dados, não os acontecimentos do mundo real, mas o a priori último do vivido no qual se fundam o pensamento lógico e o conhecimento em geral. C) Evidentemente, é possível considerar que, assim entendidas, as Investigações fornecem o essencial de um método já muito acabado, e abrindo um [[lexico:c:caminho:start|caminho]] original, a descrição fenomenológica, que permite evitar os becos sem saída das teorias genéticas e explicativas do conhecimento. No entanto, o próprio Husserl considerará as Investigações como um simples trabalho preparatório, ainda manchado de imprecisões. Estava, sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], alcançado o objetivo que se propunha: elucidação dos atos do pensamento e do conhecimento que não são do âmbito de uma psicologia, porque a própria psicologia os pressupõe. Mas esta elucidação «descritiva» deixava em suspenso duas ordens de problemas que as Investigações pareciam rejeitar ou ignorar: o da relação da consciência a um [[lexico:e:eu:start|eu]] ou [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] «puro» e o do estatuto de um mundo real ou «natural». A fenomenologia das Investigações Lógicas recusava a [[lexico:e:escolha:start|escolha]] entre um [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] e um realismo, e é desta «neutralidade», talvez, que este [[lexico:e:estadio:start|estádio]] da filosofia de Husserl recebe o interesse que tem para nós. Todavia, e é assim, pelo menos, que o caminhar ulterior do pensamento do [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] a vai fazer aparecer, a análise, no seu trajeto em direção aos fundamentos últimos, chocava, do lado do sujeito e do lado do objeto, contra uma dupla [[lexico:l:limitacao:start|limitação]]. Era possível tratar do «fluxo dos vividos» e da sua [[lexico:u:unidade:start|unidade]], como Husserl fazia na Quinta Investigação, sem os referir a um [[lexico:e:eu-puro:start|eu puro]], não empírico, como seu fundamento? Era possível, numa teoria do conhecimento, tratar a transcendência da coisa, que apenas se dá sempre em «esboços», sem colocar, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], o [[lexico:p:problema:start|problema]] geral da transcendência ou do ser do mundo, relativamente ao ser da consciência? Evocar estas questões é já entrar no lento [[lexico:m:movimento:start|movimento]] que conduzirá até à [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] e fará, por assim dizer, a fenomenologia pender para o idealismo. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}