===== DESCONSTRUÇÃO ===== Derrida toma como seu [[lexico:o:objeto:start|objeto]] [[lexico:n:nada:start|nada]] menos que a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] daquilo a que ele se refere como, no rastro de [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]], [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] ou [[lexico:o:ontoteologia:start|ontoteologia]] ocidental. Sua [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]], ainda seguindo Heidegger, é de que essa [[lexico:t:tradicao:start|tradição]], pelo menos desde [[lexico:p:platao:start|Platão]], tentou determinar o [[lexico:s:ser:start|ser]] como [[lexico:p:presenca:start|presença]], mas que tal [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] é dogmática, apoiando-se em uma "[[lexico:d:decisao:start|decisão]] ético-teórica", e [[lexico:n:nao:start|não]] em alguma [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] teórica, e sempre pode ser exposta como falha em toda uma variedade de maneiras. No [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista de Derrida, o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] ocidental tem avançado habitualmente num [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de [[lexico:o:oposicao:start|oposição]], propondo pares binários de [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] (dos quais alguns dos mais difundidos e gerais talvez sej am dentro/fora, [[lexico:b:bom:start|Bom]]/mau, [[lexico:p:puro:start|puro]]/impuro, presença/[[lexico:a:ausencia:start|ausência]]). Ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] em que apresenta esses pares como neutros e descritivos, o pensamento ocidental está na [[lexico:v:verdade:start|verdade]] determinando um desses termos como [[lexico:p:primario:start|primário]] ou privilegiado e o [[lexico:o:outro:start|outro]] como secundário, derivado, inferior, ou parasitário, com [[lexico:r:respeito:start|respeito]] ao primeiro. Os primeiros trabalhos de Derrida tentam demonstrar isso, de [[lexico:f:forma:start|forma]] improvável, seguindo a [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] fornecida pela [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] tradicional da [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre [[lexico:f:fala:start|fala]] e [[lexico:e:escrita:start|escrita]] (em [[lexico:h:husserl:start|Husserl]], Platão, [[lexico:r:rousseau:start|Rousseau]], [[lexico:s:saussure:start|Saussure]], [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] entre outros). Derrida demonstra, num primeiro [[lexico:m:momento:start|momento]] de [[lexico:e:exegese:start|exegese]], como a fala é tradicionalmente valorizada em relação à escrita, fazendo reverter para si mesma todos os valores de presença, enquanto a escrita é (des)qualificada como corporificando [[lexico:e:exterioridade:start|exterioridade]], materialidade, [[lexico:m:morte:start|morte]] e ausência. Em um segundo momento, Derrida afirma que, mesmo em seus próprios termos, os autores em [[lexico:q:questao:start|questão]] não conseguem deixar de expor, apesar de seus argumentos mais patentes, que os [[lexico:p:predicados:start|predicados]] habitualmente usados na [[lexico:d:descricao:start|descrição]] da escrita são, na verdade, predicados essenciais da [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] em [[lexico:g:geral:start|geral]] e, portanto, também da fala. Os filósofos parecem querer demonstrar que a fala é básica e a escrita, derivativa: terminam demonstrando, contra sua própria [[lexico:v:vontade:start|vontade]], que a fala é ela própria, na verdade, uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de "escrita". O cerne da [[lexico:a:argumentacao:start|argumentação]] é o seguinte: a escrita é tradicionalmente representada como implicando o funcionamento repetível de um [[lexico:s:signo:start|signo]] na ausência da minha [[lexico:i:intencao:start|intenção]] animadora (por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], depois de minha morte); mas, sem a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] (a possibilidade [[lexico:e:essencial:start|essencial]]) da [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] descontextualizada (se [[lexico:n:necessario:start|necessário]], depois de minha morte) mesmo das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que [[lexico:e:eu:start|eu]] falo e que tenho a plena intenção de dizer, a linguagem não funcionaria em [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. A possibilidade da repetição (como o mesmo, mas repetido e, nessa [[lexico:m:medida:start|medida]], não [[lexico:i:identico:start|idêntico]]) é definidora da linguagem como um [[lexico:t:todo:start|todo]] e não pode ser confinada à escrita. A desconstrução da oposição clássica (aqui, fala/escrita) implica a [[lexico:r:retencao:start|retenção]] polêmica do [[lexico:t:termo:start|termo]] previamente desvalorizado (aqui, escrita) para [[lexico:n:nomear:start|nomear]] uma [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] mais geral que inclui o termo previamente valorizado (aqui, fala). [[lexico:e:esse:start|esse]] termo (escrita) sofreu um deslocamento (ou "reinscrição") nesse [[lexico:p:processo:start|processo]] e rompeu a oposição binária em que era tradicionalmente definido. Esse deslocamento imediatamente desqualifica todo um âmbito de reações "textualistas" a Derrida (sejam elas de apoio ou de [[lexico:c:critica:start|crítica]]), as quais assumem que o termo conserva o seu sentido antigo. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] deslocado de "escrita", assim elaborado, funciona ao mesmo tempo como a [[lexico:c:condicao:start|condição]] da possibilidade da linguagem e como a condição de [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] de ela jamais alcançar seu tradicional [[lexico:t:telos:start|telos]] de auto-obliteração no [[lexico:i:interesse:start|interesse]] do pensamento. Esse "exemplo" de desconstrução indica imediatamente inúmeras e importantes consequências "metodológicas": 1. textos (até mesmos os textos filosóficos) não são [[lexico:s:simples:start|simples]] e unificados, mas habitualmente implicam, ao lado do conteúdo ou doutrina mais obviamente proposto, recursos mais ou menos óbvios que funcionam contra esse conteúdo ou doutrina; 2. o funcionamento desses recursos pode ser demonstrado, independentemente de qualquer alegação quanto ao que o autor pretendia; 3. a desconstrução não é essencialmente uma [[lexico:a:atividade:start|atividade]] crítica posta em [[lexico:a:acao:start|ação]] pelo leitor, a partir de uma [[lexico:p:posicao:start|posição]] de fora do [[lexico:t:texto:start|texto]], mas em certo sentido já está "no" texto; 4. na medida em que os textos fogem ao controle de qualquer [[lexico:l:leitura:start|leitura]] internamente proposta (item 1 acima), então eles tampouco "se desconstroem" simplesmente (isso mais uma vez desqualifica todo um âmbito de reações a Derrida, tanto elogiosas quanto críticas). A des-construção ocorre em algum ponto "entre", digamos, Derrida e Platão, mas não pode ser localizada dentro dos esquemas históricos de nenhuma [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] ou das [[lexico:i:ideias:start|ideias]]. Essas consequências talvez fossem de importância apenas limitada (afetando, por exemplo, o historiador ou leitor de [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], mas não o que "faz" filosofia), não fosse por uma nova afirmativa extraída dessa descrição sobre como a linguagem em geral pode funcionar. A desconstrução tende a demonstrar como é incoerente qualquer tentativa de definir conceitos ou significados como auto-suficientes, e como desaba qualquer tentativa de determinar as consequentes [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre conceitos como opositivas (ou, por [[lexico:e:extensao:start|extensão]], dialéticas). Uma das afirmações mais significativas da desconstrução é que as explicações binárias e dialéticas ainda funcionam no sentido de uma [[lexico:u:unidade:start|unidade]] indiferenciada (a "presença" da metafísica, para sermos precisos). Numa [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] desconstrutiva, esse relação deve ser concebida como diferencial, mas não opositiva, ou como implicando uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] que (contrariamente a Hegel) não precisa tornar-se oposição ([[lexico:v:ver:start|ver]] [[lexico:d:dialetica:start|dialética]]). Significados ou efeitos disso (pois Derrida acredita tão pouco em "significados" quanto Quine ou [[lexico:w:wittgenstein:start|Wittgenstein]]) resultam da rede multiplamente diferencial em que os termos são definidos unicamente por suas inter-relações. Essa rede é intrinsecamente histórica, na medida em que os termos só estão "presentes" através de sua repetibilidade como o mesmo (mas não idêntico), e portanto é inerentemente tradicionalista. Os únicos meios para o pensamento são herdados com essa rede, e é [[lexico:i:ingenuidade:start|ingenuidade]] esperar que alguém seja capaz de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] sem recorrer a ela. No [[lexico:c:campo:start|campo]] da conceitualidade filosófica, essa [[lexico:h:historicidade:start|historicidade]] da rede implica que qualquer [[lexico:u:uso:start|uso]] de um conceito filosófico (e, na verdade, de qualquer conceito) envolve uma "leitura" pelo menos implícita da tradição, que assim não pode ser ignorada. Essa dívida ambivalente e inevitável para com a tradição é também o [[lexico:m:motivo:start|motivo]] pelo qual Derrida conserva o [[lexico:n:nome:start|nome]] do antigo conceito (aqui, "escrita"), em vez de tentar simplesmente introduzir um nome novo para aquilo que ele está tentando pensar. Em outros pontos, a [[lexico:l:logica:start|lógica]] desse [[lexico:a:argumento:start|argumento]] traduz-se nos hábitos de Derrida de tomar emprestados os operadores lógicos de seus argumentos dos textos sob [[lexico:d:discussao:start|discussão]], negando assim a possibilidade de qualquer demarcação clara de objeto-linguagem e meta-linguagem. Essa [[lexico:r:recusa:start|recusa]] da tradicional [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]] filosófica de se obter um ponto de [[lexico:o:observacao:start|observação]] fora do ponto do campo da [[lexico:i:investigacao:start|investigação]], no entanto, não obriga Derrida a uma posição de pura [[lexico:i:imanencia:start|imanência]]: certos termos (pharmakon, suplemento, parergon e até mesmo o notório neo-logismo "différance" - tentativa de dar nome ao "tornar-se diferente" da rede diferencial; ver [[lexico:e:estruturalismo:start|estruturalismo]] - através de uma modificação jocosa da noção-chave de diferença) ganham um [[lexico:v:valor:start|valor]] sempre limitado nos textos dentro dos quais, não obstante, permanecem embutidos: esse [[lexico:s:status:start|status]] "quase [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]" (tal como formalizado especialmente por Rodolphe Gasché) implica um estágio intermediário entre o [[lexico:i:imanente:start|imanente]] e o [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]] que talvez capte melhor a posição desconstrutiva. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}