===== DESAPEGO ===== Na [[lexico:m:mistica:start|mística]] e para a mística de toda [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], tudo que podemos fazer é [[lexico:n:nao:start|não]] fazer, em [[lexico:t:todo:start|todo]] nosso fazer. E deixar o fazer nos fazer. [[lexico:e:eckhart:start|Eckhart]] denominou esta [[lexico:a:atitude:start|atitude]] de “deixar [[lexico:s:ser:start|ser]]”, sein lassen, cuja [[lexico:f:forca:start|força]] e poder de vigência ele chamou de Gelassenheit, que, em português, poderíamos invocar com a atitude de serenidade e/ou desapego, de disponibilidade e/ou [[lexico:d:desprendimento:start|desprendimento]], de despojamento e/ou [[lexico:t:tranquilidade:start|tranquilidade]]. É a partir e dentro dessa atitude que, originariamente, sempre experimentamos o [[lexico:m:mundo:start|mundo]], o [[lexico:h:homem:start|homem]], [[lexico:d:deus:start|Deus]], em nós mesmos e nos outros. Mas como é que o homem, o mundo e Deus se dão e se apresentam no deixar ser [[lexico:m:mistico:start|místico]] de uma serenidade tranquila e despojada, disponível e desprendida? Deixar, deixar de, deixar ser, que há de mais banal e corriqueiro na [[lexico:v:vida:start|vida]] de todo o dia do que uma atitude dessas? A mãe diz para a criança arteira: Deixa de brincar com [[lexico:f:fogo:start|fogo]]! O pai diz para a filha adolescente: Deixa de [[lexico:c:cavilacao:start|cavilação]]! De [[lexico:q:quem:start|quem]] entrou para o mosteiro, ou do anacoreta, que foi para o deserto, costuma-se dizer que deixou o mundo. Nesses casos, deixar, lassen, é [[lexico:v:verbo:start|verbo]] transitivo, e significa renunciar, abandonar. Prevalece, então, o lado [[lexico:n:negativo:start|negativo]] do [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] de deixar, ao menos aparentemente. Trata-se do [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] mais claro e evidente, embora menos [[lexico:e:essencial:start|essencial]] e decisivo na experiência de deixar. Pois esta só se completa e conclui se, implícita ou explicitamente, se acrescentar ser, deixar ser, como no apelo que, muitas vezes, se faz a um adulto invasivo: Deixa a criança ser criança! Não que o adulto possa impedir a criança de ser criança. E que o adulto se incomoda tanto com ele ser criança que tenta e busca não ser criança na criança. Deixar ser remete não apenas para uma [[lexico:r:renuncia:start|renúncia]], mas para a vigência de ser e não ser, aquém de toda intervenção da [[lexico:p:parte:start|parte]] do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]]. A renúncia não vive primordialmente de rejeição, mas se alimenta de aceitar [[lexico:t:transformacao:start|transformação]]. O [[lexico:l:lema:start|lema]] de reformador de Eckhart é [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]]: Tendo de reformar-se sempre, o homem deve transformar-se para não se deformar. A mística é, pois, a [[lexico:n:negacao:start|negação]] da negação – sem estardalhaço até mesmo no estardalhaço –, mas na serenidade tranquila de deixar ser o ser que se dá no sendo que se é. Deixando ser, a serenidade se toma disponível e, nessa disponibilidade, encontra-se com o mundo, com Deus, com o homem, justamente naquilo que eles mesmos são em si, para si e [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmos. Segundo [[lexico:m:mestre:start|mestre]] Eckhart, na mística penetramos onde já sempre estamos, nos arcanos ônticos, ontológicos e místicos da serenidade, vivendo, como “a rosa, sem porquê”. Pois, então, vai-se abolindo o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] transitivo e [[lexico:p:passivo:start|passivo]] e aparecendo o sentido criativo de deixar ser. No deixar ser radical de Deus, homem e mundo, a [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] “quem é que deixa ser quem?” é uma pergunta sem sentido, uma vez que deixar ser inclui em si deixar de agir, pois deixar ser já não é [[lexico:a:atividade:start|atividade]] de um sujeito sobre um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] a partir do [[lexico:i:interesse:start|interesse]] de um poder. Tudo, portanto, se deixa ser, mas não há [[lexico:n:nada:start|nada]] que pratique o deixar ser. Na [[lexico:r:raiz:start|raiz]] mística da experiência, é sempre o nada que reina em todo deixar ser. E no nada, não somente se ultrapassa e supera toda negação pela negação, como, sobretudo, não há [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] alguma, nem de afirmar, nem de negar, nem de negar a negação. Reina radical desprendimento, [[lexico:p:puro:start|puro]] despojamento, total disponibilidade. Ser livre de, a independência, e ser livre para, a [[lexico:c:criacao:start|criação]], mergulham ambas e desaparecem na imensidão de uma tranquilidade sem [[lexico:v:vontade:start|vontade]], nem [[lexico:d:desejo:start|desejo]] de nada, sem [[lexico:i:imagem:start|imagem]] nem [[lexico:r:representacao:start|representação]] de [[lexico:c:coisa:start|coisa]] alguma. Eckhart diz, então, que vigora, completa e perfeita, “a limpidez da serenidade”, die Ledigkeit der Gelassenheit. Na serenidade, toda experiência caminha sempre para inscrever-se nas peripécias e vicissitudes das [[lexico:a:acoes:start|ações]] e reações de nosso [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]], tanto conosco mesmos, como com tudo o mais. Nessa caminhada, a serenidade atravessa três níveis, integrados, de busca de si mesma em si mesma: o nível [[lexico:o:ontico:start|ôntico]], o nível ontológico e o nível místico. Todavia, não se trata de três níveis separados que se excluíssem e distinguissem um do [[lexico:o:outro:start|outro]]. São três níveis que se incluem e se identificam, em todo fazer e/ou deixar de fazer dos homens. [[lexico:c:compreender:start|compreender]] e [[lexico:v:viver:start|viver]] essa [[lexico:i:integracao:start|integração]] é compreender e viver a mística de Eckhart em Eckhart. 1o nível: O nível ôntico é o desprendimento com total desapego. Trata-se do despojamento da [[lexico:p:pobreza:start|pobreza]]. Eckhart forja a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] “abegescheidenheit” que, no alemão [[lexico:m:moderno:start|moderno]], se diz Abgeschiedenheit. E uma palavra derivada, por prefixação e sufixação, do verbo scheiden, cindir, dividir, separar. O prefixo ab designa clivagem, tanto no sentido de desfazer-se de [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]], abetuon, como no sentido de afastar-se, desviar-se, abekere. O sufixo, heit, designa a [[lexico:c:condicao:start|condição]], o [[lexico:e:estado:start|Estado]] e a atitude. No [[lexico:u:uso:start|uso]] transitivo, o verbo, abscheiden, significa [[lexico:i:isolar:start|isolar]], e, no uso intransitivo, ir-se embora, morrer. No alemão de hoje, o uso intransitivo significa, quase sempre, morrer. Assim, o [[lexico:p:poeta:start|poeta]] Georg Trakl dedicou um famoso poema a um amigo morto com o título de: Gesang des Abgeschiedenen – Canto do falecido. Eckhart consagrou todo um tratado a este nível ôntico da experiência mística de serenidade, cujo título é precisamente: Abgeschiedenheit, serenidade, desapego. Num sermão, intitulado In diebus suis placuit Deo et inventus est iustus (Ecl 44,16), prega Eckhart: “Se o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] conhecesse a pura serenidade do desprendimento, já não se voltaria para nenhuma coisa, mas inclinar-se-ia e haveria de permanecer no completo desapego da serenidade”. Tudo que somos em nossos afazeres é puro vir a ser vida em realizações. O desapego nos é [[lexico:d:dado:start|dado]] na [[lexico:o:ordem:start|ordem]] e como ordem de todo relacionamento conosco e com os outros. Tal desprendimento de todas as [[lexico:c:coisas:start|coisas]], porém, nem rejeita, nem nega, mas acolhe o ser de Deus em toda criação. Por isso o desprender-se não destrói nada, não rejeita coisa alguma, vem do nada e vai para o nada. Muito [[lexico:b:bem:start|Bem]]! Todavia, como é para se entender concretamente tanto despojamento? Um poeta japonês do século XVII (1644-1694), Tetsuo Bashô, poderá nos valer. Ele compôs um famoso haiku a partir de uma experiência ôntica da serenidade em quinze sílabas de um verso que o velho Suzuki trouxe para o Ocidente. O haiku [[lexico:f:fala:start|fala]] de Nazuna. Nazuna é uma pequenina flor silvestre que se encontra por toda parte no [[lexico:c:campo:start|campo]]. Diz o verso, na citação de Suzuki: Yoku mireba Nazuna hana saku Kakine kana Suzuki traduziu: “Quando olho atentamente, / Vejo florir a nazuna, / Ao pé da sebe” (Zen-budismo e [[lexico:p:psicanalise:start|psicanálise]], Cultrix, 1960, p. 9). A partir da mística de Eckhart, talvez se pudesse dizer num português tosco e desajeitado: “No desapego do desprendimento, sou e não sou nazuna ao pé da sebe”. Bashô é poeta e, como todo poeta, é místico dos seres da [[lexico:n:natureza:start|natureza]]. E tão desprovido de apego que se sente em uníssono com o ser da natureza e de tudo que é [[lexico:n:natural:start|natural]]. Esta identificação da natureza com a natureza se avivou em Bashô quando descobriu uma pequenina flor, brilhando, sem vontade nem desejo de nada, ao pé de uma velha sebe. O poeta sente o [[lexico:p:profundo:start|profundo]] [[lexico:m:misterio:start|mistério]] de a vida ser vida, no esplendor insignificante de uma flor silvestre. É um [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] da experiência de desapego e desprendimento da serenidade em que vive a mística de Eckhart. No século XVII, alguém, na Silésia, fez a mesma experiência mística de Bashô. João Scheffler, doctor philosophiae et medicinae, médico de profissão e místico de [[lexico:v:vocacao:start|vocação]], vivia na Silésia uma [[lexico:g:geracao:start|geração]] antes de [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] (1624-1677). Estudioso de Mestre Eckhart, escreveu uma [[lexico:o:obra:start|obra]] de [[lexico:p:poesia:start|poesia]] mística, publicada em 1657, com o título: Der Cherubinische Wandersmann. Sinnliche Beschreibung der vier letzten Dinge: O peregrino querubínico. [[lexico:d:descricao:start|Descrição]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] dos [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] novíssimos, e publicou, com o pseudônimo de Angelus Silesius, o Mensageiro da Silésia. Os quatro novíssimos são, na experiência cristã: [[lexico:m:morte:start|morte]], [[lexico:j:juizo:start|juízo]], [[lexico:i:inferno:start|Inferno]], paraíso. O [[lexico:n:numero:start|número]] 289 dos poemas traz o título, Ohne Warum, “Sem porquê”. O verso diz: Die Ros’ ist ohn’ Wamm. / Sie blühet, [[lexico:w:weil:start|Weil]] sie blühet. / Sie acht’ nicht ihrer selbst. / Fragt nicht, ob [[lexico:m:man:start|Man]] sie siehet! “A rosa é sem porquê. / Floresce ao florescer. / Não olha p’ra seu buquê. / Nem pergunta se alguém a vê!” O desapego do desprendimento, no entanto, não aparece por [[lexico:a:acaso:start|acaso]], nem se dá, de quando em vez, nas peripécias de nossa experiência na e com a vida. E o vigor místico de todo ser. Por isso, ao despojar-se e para poder despojar-se, a serenidade remete para a [[lexico:f:fonte:start|fonte]], donde ela mesma já vem, remete para o ontológico no [[lexico:p:proprio:start|próprio]] seio ôntico dos seres. E o segundo nível... {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}