===== DARWIN ===== A [[lexico:t:teoria|teoria]] da [[lexico:e:evolucao|evolução]] representou, no século passado, [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] [[lexico:a:analogo|análogo]] ao que, alguns séculos antes, acontecera na [[lexico:a:astronomia|astronomia]] com Copérnico: verdadeira [[lexico:r:revolucao|revolução]] científica, fecunda de grandes desdobramentos, [[lexico:n:nao|não]] apenas no [[lexico:c:campo|campo]] da [[lexico:b:biologia|biologia]]. Com o [[lexico:e:evolucionismo|evolucionismo]] desapareceu a [[lexico:i:imagem|imagem]] milenar do [[lexico:h:homem|homem]], imagem encarnada na teoria fixista, que falava de espécies fixas e imutáveis, existentes desde a sua [[lexico:c:criacao|criação]]. E se, com Copérnico, a revolução astronômica reorganiza a [[lexico:o:ordem|ordem]] espacial, dando à [[lexico:t:terra|Terra]] e ao homem [[lexico:l:lugar|lugar]] [[lexico:b:bem|Bem]] diferente de antes no [[lexico:u:universo|universo]], com Darwin, a revolução biológica reorganiza a ordem [[lexico:t:temporal|temporal]] do homem. Com Copérnico e com Darwin, em [[lexico:s:substancia|substância]], muda a teoria relativa ao lugar do homem na [[lexico:n:natureza|natureza]]. Darwin (1809-1882) procurou estudar medicina e, depois, pensou em encaminhar-se para a carreira eclesiástica, mas, em 1831, embarcou como naturalista de bordo no bergantim inglês de três mastros Beagle (cujo capitão era Roberto Fitz-Roy), que se preparava para realizar uma exploração científica em tomo do [[lexico:m:mundo|mundo]]. A nave saiu de Devonport em 27 de dezembro de 1831 e aportou de volta em Falmouth em 2 de outubro de 1836. Darwin nos deixou uma viva [[lexico:d:descricao|descrição]] dessa sua aventura científica em sua Viagem de um naturalista ao redor do m.undo (1839; republicado, com variantes, em 1865). Escreve Darwin em sua Autobiografia (publicada em 1887, cinco anos depois de sua [[lexico:m:morte|morte]], por seu [[lexico:f:filho|filho]] Francis): "A viagem no Beagle foi de longe o [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] mais importante da minha [[lexico:v:vida|vida]], aquele acontecimento que determinou toda a minha carreira". A viagem foi importante, mas também foi importante que, durante essa viagem, Darwin tenha estudado os [[lexico:p:principios|Princípios]] de geologia, de Charles Lyell. Em sua [[lexico:o:obra|obra]], Lyell (1797-1875) sustentava a teoria de que, para [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:h:historia|história]] passada da Terra, deve-se recorrer a forças geológicas ainda atuantes, ou seja, àquelas mesmas [[lexico:c:causas|causas]] que modificam e moldam a superfície da Terra e que (como os aluviões, os fenômenos do vulcanismo, as chuvas, o vento etc.) podem [[lexico:s:ser|ser]] vistas atuantes ainda hoje. Essencialmente, o "uniformismo" ou "[[lexico:a:atualismo|atualismo]]" de Lyell afirma que a história passada da Terra deve ser explicada por obra das mesmas leis que explicam os fatos atuais. Confessa Darwin: "Desde a primeira [[lexico:o:observacao|observação]] que fiz em Santiago, nas ilhas de Cabo Verde, me dei conta da maravilhosa superioridade com que Lyell tratava dos assuntos de geologia, em [[lexico:r:relacao|relação]] a outras obras que levava comigo e às que li depois". Partindo para a sua viagem com a [[lexico:i:ideia|ideia]] de que a "letra" da Bíblia estava com a [[lexico:r:razao|razão]], pouco a pouco Darwin teve que mudar de ideia sobre a história dos seres vivos. Em 15 de setembro de 1835, o Beagle aportou nas ilhas Galápagos, um arquipélago do Pacífico. Aqui, Darwin encontrou-se diante de uma [[lexico:e:especie|espécie]] de fringilídeos com bicos de proporções diferentes conforme a ilha em que viviam. Essas pequenas diferenças características impressionaram muito a Darwin. "Evidentemente, fatos como [[lexico:e:esse|esse]] e muitos outros podem ser explicados com a [[lexico:s:suposicao|suposição]] de que as espécies se modificam gradualmente". Esse [[lexico:p:pensamento|pensamento]], diz Darwin, o obcecava. "Mas era igualmente evidente que nem a ordem das condições ambientais nem a [[lexico:v:vontade|vontade]] dos organismos (especialmente no caso das plantas) podiam servir para explicar todos aqueles inúmeros casos de organismos de [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:t:tipo|tipo]] admiravelmente adaptados às condições de vida, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], o pica-pau ou a rã, adaptados para subir pelas árvores, as [[lexico:s:sementes|sementes]] que são disseminadas pela [[lexico:p:presenca|presença]] de garras e penas". Depois de sua volta à Inglaterra, Darwin trabalhou intensamente na coleta de fatos relacionados "com a variação dos animais e das plantas, tanto no [[lexico:e:estado|Estado]] doméstico como na natureza (...). Recolhi o máximo de fatos que me foi [[lexico:p:possivel|possível]], especialmente os [[lexico:r:relativos|relativos]] às formas domésticas, enviando formulários impressos, conversando com os mais hábeis jardineiros e treinadores de animais e me documentando com amplas leituras". O [[lexico:t:trabalho|trabalho]] desenvolvido por Darwin nesse período foi imenso. Ele não tardou a perceber "que a [[lexico:s:selecao|seleção]] era a chave com a qual o homem havia conseguido obter raças úteis de animais e plantas. Mas, por algum [[lexico:t:tempo|tempo]], continuou incompreensível como é que a seleção podia se aplicar a organismos que viviam na natureza". Entretanto, narra Darwin em sua Autobiografia, "em outubro de 1838, isto é, quinze meses depois que comecei minha [[lexico:i:investigacao|investigação]] [[lexico:s:sistematica|sistemática]], aconteceu-me de ler os escritos de Malthus sobre a população. E, estando bem preparado para apreciar a [[lexico:l:luta|luta]] pela [[lexico:e:existencia|existência]], que continua em toda [[lexico:p:parte|parte]], pela passada observação dos hábitos dos animais e das plantas, logo me impactou o [[lexico:f:fato|fato]] de que, nessas circunstâncias, as variações favoráveis tenderiam [[lexico:a:a-se|a se]] conservar e as desfavoráveis a serem destruídas". Com isso, Darwin tinha uma teoria sobre a qual trabalhar. E nela trabalhou por vinte anos, até o início do verão de 1858, quando Alfred [[lexico:r:russell|Russell]] Wallace (1823-1913), jovem naturalista que naquele período se encontrava nas ilhas Molucas, expediu-lhe um ensaio intitulado Sobre a [[lexico:t:tendencia|tendência]] das variedades a afastarem-se indefinidamente do tipo original e viu que Wallace propunha uma teoria como a sua. Foi assim que, solicitado por Lyell e pelo botânico Joseph D. Hooker (1817-1911), Darwin publicou nos Anais da [[lexico:s:sociedade|sociedade]] Linneana de Londres o ensaio de Wallace e um resumo do seu [[lexico:p:proprio|próprio]] manuscrito sobre a teoria da evolução, juntamente com uma carta ao botânico norte-americano Asa Gray (1810-1888), [[lexico:e:escrita|escrita]] em 5 de setembro de 1857. Isso aconteceu em 1858. E, em 1859, finalmente, Darwin publicou o seu A [[lexico:o:origem|origem]] das Espécies pela Seleção [[lexico:n:natural|natural]], sustentando precisamente que as espécies se originam da seleção, pelo [[lexico:a:ambiente|ambiente]], das mais aptas dentre as variações hereditárias existentes. Em [[lexico:s:suma|suma]], a seleção imprime uma [[lexico:o:orientacao|orientação]] à evolução, já que determina uma [[lexico:a:adaptacao|adaptação]] dos organismos ao seu ambiente. Em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], a evolução pode ser vista como uma [[lexico:s:serie|série]] de adaptações, cada qual adquirida ou descartada por determinada espécie sob a pressão do [[lexico:p:processo|processo]] de seleção, durante longo período de tempo. Tão logo saiu, o livro teve grande [[lexico:s:sucesso|sucesso]]. Os 1250 exemplares da primeira edição foram vendidos no primeiro dia do aparecimento do livro. E também os três mil exemplares da segunda edição esgotaram-se rapidamente. Esse sucesso certamente deve ser creditado a inúmeras razões (e não por [[lexico:u:ultimo|último]] ao [[lexico:t:tema|tema]] da obra), mas Darwin o atribui sobretudo ao fato de, ao escrever seu trabalho, ele considerar por [[lexico:a:antecipacao|antecipação]] as possíveis objeções, de [[lexico:m:modo|modo]] que o [[lexico:e:escrito|escrito]] se configurava como fortemente comprovado. Mas quais eram exatamente as provas que sustentavam sua teoria? O próprio Darwin classificou as provas da teoria da evolução em cinco tipos principais: 1) provas extraídas da [[lexico:h:hereditariedade|hereditariedade]] e da criação, particularmente as variações devidas à domesticação; 2) provas provenientes da [[lexico:d:distribuicao|distribuição]] geográfica; 3) provas provenientes dos testemunhos fósseis; 4) provas derivadas da "[[lexico:a:afinidade|afinidade]] recíproca entre os seres vivos"; 5) provas provenientes da embriologia e dos órgãos rudimentares. Na conclusão de A origem das espécies, Darwin observa que "autores" de elevada estatura parecem perfeitamente satisfeitos com a [[lexico:o:opiniao|opinião]] de que cada espécie foi criada de modo [[lexico:i:independente|independente]]. Entretanto, acrescenta ele, "pela minha [[lexico:m:mentalidade|mentalidade]], harmoniza-se melhor com tudo o que conhecemos das leis impressas na [[lexico:m:materia|matéria]] pelo Criador o [[lexico:c:conceito|conceito]] de que a produção e a extinção dos habitantes passados e atuais do mundo sejam derivados de causas segundas, semelhantes às que determinam a morte e o nascimento do [[lexico:i:individuo|indivíduo]]. Quando concebo todos os seres não como criações especiais, mas sim como descendentes diretos de alguns, pouco numerosos, seres vividos muito tempo antes que se depositassem as primeiras camadas do [[lexico:s:sistema|sistema]] siluriano, parece-me que eles saem nobilitados disso". Mas quais são "as leis impressas na matéria" de que [[lexico:f:fala|fala]] Darwin? Essas leis, responde ele, "tomadas em [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:g:geral|geral]], são o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] com [[lexico:r:reproducao|reprodução]], a variabilidade ligada à [[lexico:a:acao|ação]] direta e indireta das condições de vida e do [[lexico:u:uso|uso]] ou não uso em [[lexico:r:ritmo|ritmo]] de incremento numérico a tal [[lexico:p:ponto|ponto]] alto que leva à luta pela vida e, consequentemente, à seleção natural, que, por seu turno, implica na divergência de características e na extinção das formas menos aperfeiçoadas. Portanto, da [[lexico:g:guerra|guerra]] da natureza, da carestia e da morte nasce a [[lexico:c:coisa|coisa]] mais elevada que se possa imaginar: a produção dos animais mais elevados. Há algo de grandioso nessa concepção da vida, com as suas múltiplas capacidades, que inicialmente foi dada a poucas formas ou a uma só [[lexico:f:forma|forma]], mas que, enquanto o planeta continuava girando segundo a [[lexico:l:lei|lei]] imutável da gravidade, evoluiu e evolui, partindo de começos tão [[lexico:s:simples|simples]], a ponto de [[lexico:c:criar|criar]] infinitas formas, extremamente belas e maravilhosas".