===== DADO ===== (in. Given; fr. Donné, al. Gegeben; it. Dato). Em [[lexico:g:geral|geral]], o [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida ou a base de uma [[lexico:i:indagacao|indagação]] qualquer, o [[lexico:e:elemento|elemento]], o [[lexico:a:antecedente|antecedente]], a [[lexico:s:situacao|situação]] da qual se [[lexico:p:parte|parte]] ou que serve de respaldo para formular um [[lexico:p:problema|problema]], fazer uma [[lexico:i:inferencia|inferência]], aventar uma [[lexico:h:hipotese|hipótese]]. O dado tem, portanto, [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:f:funcional|funcional]]: o que se assume como dado para certo [[lexico:t:tipo|tipo]] ou [[lexico:o:ordem|ordem]] de indagação pode [[lexico:s:ser|ser]], por sua vez, tomado como problema para [[lexico:o:outro|outro]] tipo ou ordem de [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]]. A [[lexico:p:palavra|palavra]] [[lexico:m:moderna|moderna]] tem provavelmente [[lexico:o:origem|origem]] [[lexico:m:matematica|matemática]] ("um segmento dado", "um [[lexico:n:numero|número]] dado", etc). Na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], a [[lexico:e:existencia|existência]] de dado últimos, irredutíveis, foi utilizada como a existência de um [[lexico:l:limite|limite]] ao [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], ou seja, de uma [[lexico:c:condicao|condição]] que ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] restringe e garante a [[lexico:v:validade|validade]] do [[lexico:p:proprio|próprio]] conhecimento. Foi desse [[lexico:m:modo|modo]] que [[lexico:l:locke|Locke]] utilizou as [[lexico:i:ideias|ideias]]: sem ideias [[lexico:n:nao|não]] é [[lexico:p:possivel|possível]] o conhecimento, que é [[lexico:p:percepcao|percepção]] de uma [[lexico:r:relacao|relação]] entre as próprias ideias (Ensaio, IV, 3, 1). Para ele, [[lexico:a:alem|além]] das ideias, também são dadas (embora ele não lhes dê [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:n:nome|nome]]) as condições da percepção, do conhecimento [[lexico:r:racional|racional]] e do [[lexico:c:conhecimento-sensorial|conhecimento sensorial]]; estas limitam a [[lexico:e:extensao|extensão]] do conhecimento, que acaba sendo menor do que o das ideias (Ibid., IV, III, 6). Para [[lexico:k:kant|Kant]], o dado é a [[lexico:p:presenca|presença]] do [[lexico:o:objeto|objeto]] na [[lexico:i:intuicao-sensivel|intuição sensível]] (Crít. R. Pura, § 1): presença que torna a [[lexico:i:intuicao|intuição]] uma [[lexico:f:faculdade|faculdade]] passiva, não criadora, como poderia ser a [[lexico:i:intuicao-intelectual|intuição intelectual]] de [[lexico:d:deus|Deus]] (Ibid., IV, § 8). Como é óbvio, nesse [[lexico:s:sentido|sentido]] o dado é eliminado das filosofias que negam o caráter condicionado e limitado do conhecimento [[lexico:h:humano|humano]] e o transformam em [[lexico:a:atividade|atividade]] criadora. Assim, [[lexico:f:fichte|Fichte]] de certo modo contrapõe o [[lexico:c:conceito|conceito]] de [[lexico:p:posicao|posição]] ao conceito de dado: "[[lexico:f:fonte|fonte]] da [[lexico:r:realidade|realidade]] é o [[lexico:e:eu|eu]]. Só através do Eu e com ele é dado o conceito da realidade. Mas o Eu é porque se põe e põe-se porque é. Portanto, pôr-se e ser são uma e a mesma [[lexico:c:coisa|coisa]]" (Wissenschaftslehre, 1794, § 4, C). Por outro lado, não é só o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] romântico que elimina a [[lexico:n:nocao|noção]] e a [[lexico:f:funcao|função]] do dado. O próprio neo-criticismo, que interpreta a doutrina de Kant como idealismo gnosiológico, nega a função do dado. Diz [[lexico:c:cohen|Cohen]]: "O [[lexico:p:pensamento|pensamento]] não é [[lexico:s:sintese|síntese]], mas produção, e o [[lexico:p:principio|princípio]] do pensamento não é um dado, de algum modo [[lexico:i:independente|independente]] dele, mas é a origem (Ursprung). A [[lexico:l:logica|lógica]] do conhecimento [[lexico:p:puro|puro]] é uma lógica da origem" (Logik der reinen Erkenntnis, 1902, p. 36). E, para [[lexico:n:natorp|Natorp]], o dado não está no início do [[lexico:p:processo|processo]] do conhecimento, como a sua [[lexico:m:materia|matéria]] bruta, mas no [[lexico:f:fim|fim]] do processo como [[lexico:d:determinacao|determinação]] final. Considera-se como dado o objeto que se conseguiu determinar completamente (Philosophie, 1911, p. 60). Na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] contemporânea, interessada em estabelecer as condições limitativas do conhecimento, a noção de dado volta a [[lexico:t:ter|ter]] seus direitos. O [[lexico:e:espiritualismo|espiritualismo]] francês, de [[lexico:m:maine-de-biran|Maine de Biran]] a [[lexico:b:bergson|Bergson]], considerou o dado como um privilégio da [[lexico:e:experiencia|experiência]] interior, isto é, da [[lexico:c:consciencia|consciência]]. O Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, de Bergson (1889), apresenta-se como a tentativa de rastrear o dado originário da consciência em sua pureza, libertando-o das superestruturas intelectuais. Tal dado originário é, para Bergson, a [[lexico:d:duracao|duração]] da consciência, ou seja, a [[lexico:v:vida|vida]] da consciência como autocriação e [[lexico:l:liberdade|liberdade]]. Para grande parte da filosofia contemporânea, o dado é, como para Bergson, um dado da consciência, que só pode ser descoberto e reconhecido na busca da própria [[lexico:i:interioridade|interioridade]]. Para [[lexico:h:husserl|Husserl]], porém, o dado assume [[lexico:s:significado|significado]] mais geral. Segundo ele, qualquer procedimento rigoroso, seja ele científico ou filosófico, tem o [[lexico:d:dever|dever]] de voltar-se para o "dar-se originário" das [[lexico:c:coisas|coisas]] e fazer as coisas [[lexico:f:falar|falar]]. "Julgar as coisas racional ou cientificamente", diz ele, "significa voltar-se para elas, remontar dos discursos e das opiniões [[lexico:a:as-proprias-coisas|às próprias coisas]], interrogá-las em seu dar-se (Selbstgegebenheit) e eliminar todos os preconceitos alheios a elas" (Ideen, I, § 19). A pesquisa fenomenológica, da [[lexico:f:forma|forma]] como é concebida por Husserl, consiste em pôr-se na condição em que as coisas se dão, em que se revelam na sua [[lexico:e:essencia|essência]]. [[lexico:d:dewey|Dewey]] entende o dado como situação total de onde são extraídos os [[lexico:e:elementos|elementos]] para as soluções de um problema. "[[lexico:o:o-que-e|o que é]] dado, no sentido [[lexico:e:estrito|estrito]] da palavra, é o [[lexico:c:campo|campo]] ou "a situação total. O dado, no sentido de [[lexico:s:singular|singular]], seja objeto ou [[lexico:q:qualidade|qualidade]], é o [[lexico:a:aspecto|aspecto]], o [[lexico:m:momento|momento]] ou o elemento especial da presente situação [[lexico:r:real|real]], e é abstraído desta a fim de localizar e identificar seus traços problemáticos, com [[lexico:r:referencia|referência]] à indagação que se deve efetuar naquele momento e naquele [[lexico:l:lugar|lugar]]. Para ser mais [[lexico:e:exato|exato]], o dado singular é mais uma [[lexico:a:assuncao|assunção]] do que um dado" (Logic, cap. VII; trad. it., p. 181). O [[lexico:u:uso|uso]] filosófico estabelece, portanto, dois [[lexico:c:conceitos|conceitos]] diferentes da noção de dado: 1) o dado é o ponto de partida da [[lexico:a:analise|análise]], isto é, a situação de que se parte para resolver um problema ou as assunções ou os antecedentes de uma inferência ou de um [[lexico:d:discurso|discurso]] qualquer; 2) o dado é o ponto de chegada da busca porque é o que se obtém quando se retiram do campo de indagação preconceitos, opiniões ou superestruturas falsificadoras, permitindo que se mostre e manifeste a realidade enquanto tal. O primeiro sentido foi assumido por Locke, Kant e Dewey; o segundo sentido, por Natorp, Bergson e Husserl.