===== CRÍTICA DA RAZÃO PURA ===== A mais importante das obras de [[lexico:k:kant:start|Kant]] (l.a edição em 1781; 2.a edição, modificada, em 1787). O autor enuncia um novo programa filosófico, que é, ainda hoje, o da [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]]: a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] [[lexico:n:nao:start|não]] serve, como a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], para nos fazer conhecer o [[lexico:m:mundo:start|mundo]]; ela nos deve revelar o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] da ciência no [[lexico:e:espirito:start|espírito]] [[lexico:h:humano:start|humano]]. A [[lexico:o:obra:start|obra]] se divide em: "[[lexico:e:estetica-transcendental:start|estética transcendental]]", ou [[lexico:t:teoria:start|teoria]] das intuições ([[lexico:e:espaco:start|espaço]] e [[lexico:t:tempo:start|tempo]]); "[[lexico:a:analitica-transcendental:start|analítica transcendental]]", ou teoria dos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] ou das formas de nosso [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do mundo; "[[lexico:d:dialetica:start|dialética]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]", ou teoria do que nós não podemos conhecer (a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] do mundo, a [[lexico:i:imortalidade-da-alma:start|imortalidade da alma]] e a [[lexico:e:existencia-de-deus:start|existência de Deus]]). A [[lexico:c:critica:start|Crítica]] define portanto as fontes, as formas e os limites de [[lexico:t:todo:start|todo]] conhecimento humano em [[lexico:g:geral:start|geral]]. (V. Kant.) O [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]] como que esvaziara o espírito. Kant torna a enchê-lo e o enche de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], se assim se pode dizer. Faz dele, conforme a sua própria [[lexico:e:expressao:start|expressão]] e desta vez sem [[lexico:i:imagem:start|imagem]], a "fôrma" em que é modelada e ordenada a [[lexico:m:materia:start|matéria]] do [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]]. Nele coloca representações e conhecimentos [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], isto é, conhecimentos em que "[[lexico:n:nada:start|nada]] pode [[lexico:s:ser:start|ser]] atribuído aos objetos senão o que o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] pensante tira de si mesmo". Como conhecer o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] se tudo me vem dele e unicamente dele, e [[lexico:c:como-se:start|como se]] gravará na minha [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]? Tudo se explicará com facilidade se ele encontrar nesta inteligência um dispositivo em que se enquadre naturalmente. Destarte — e nisto consiste o [[lexico:e:essencial:start|essencial]] do [[lexico:k:kantismo:start|kantismo]] especulativo e a sua grande ousadia — construirmos de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com o [[lexico:m:modo:start|modo]] por que somos construídos, de acordo com a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] e os dados do nosso espírito, e impomos aos objetos as nossas intuições primeiras e as nossas [[lexico:c:categorias:start|categorias]]: tempo, espaço e o mais que segue. Nada existe no espírito que_ não tenha [[lexico:e:estado:start|Estado]] antes nos sentidos, exceto o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] espírito, dizia [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]]. Kant vai mais [[lexico:a:alem:start|além]]: procede ao inventário do espírito e apresenta-nos a sua geografia. Tomemos como [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] as noções primitivas e fundamentais de tempo e espaço. Julgam que elas nos venham dos objetos que se acham no espaço e no tempo? Absolutamente; não é porque percorramos espaços ou momentos que formamos o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de espaço ou de tempo: como seria isso [[lexico:p:possivel:start|possível]]? "O espaço", diz Kant, "nada mais é senão a [[lexico:f:forma:start|forma]] de todos os fenômenos dos sentidos exteriores, isto é, a [[lexico:c:condicao:start|condição]] subjetiva da [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]] sem a qual não nos é possível uma [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] [[lexico:e:exterior:start|exterior]]..." Quanto ao tempo, "não é senão a forma do [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:e:externo:start|externo]], isto é, da intuição de nós mesmos e do nosso estado interior...". Que significa isto, senão que espaço e tempo são apenas modos da nossa sensibilidade e não existem fora de nós? Eis-nos pois reintegrados numa [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]], numa [[lexico:r:realidade:start|realidade]] mesmo do conhecimento. Mas atentemos em certas consequências bastante estranhas. O que assim atingimos, o que assim se ordena no nosso espírito, é apenas o fenômeno, isto é, a [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] — e aqui os sentidos reassumem, com a sua [[lexico:f:funcao:start|função]], a sua [[lexico:t:tirania:start|tirania]] também. O que existe por trás dessa aparência e a constitui, a "[[lexico:c:coisa:start|coisa]] em si", nos escapa. A [[lexico:r:razao:start|razão]] especulativa procede da sensibilidade e opera sobre o [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]: o [[lexico:s:supra-sensivel:start|supra-sensível]] é vedado. Discerne o condicionado, mas nenhum poder tem sobre o [[lexico:i:incondicionado:start|incondicionado]]. Donde a tentação, para ela, de se exorbitar indebitamente — tentação a que sucumbe. Pretende o [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], ou melhor, deixa-se arrastar ao impossível e, legislando no [[lexico:v:vacuo:start|vácuo]], cai no [[lexico:p:paralogismo:start|paralogismo]] e na [[lexico:a:antinomia:start|antinomia]]. Prescreve as suas leis por [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]], à revelia da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] ou antes que a experiência intervenha, e conclui como se tivesse sido determinada por ela, Há assim raciocínios, diz Kant, "que não contêm premissas empíricas e por [[lexico:m:meio:start|meio]] dos quais concluímos de [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] que conhecemos para outra coisa de que não temos nenhum conceito e a que, no entanto, atribuímos realidade objetiva por uma inevitável aparência". É deste modo que tiramos deduções abusivas do [[lexico:c:cogito:start|cogito]] cartesiano e nos equivocamos perigosamente a propósito de nós mesmos e da nossa [[lexico:a:alma:start|alma]], sobre a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:s:substancia:start|substância]]. De maneira mais especiosa ainda, [[lexico:e:esse:start|esse]] malabarismo da [[lexico:r:razao-pura:start|razão pura]] nos conduz às suas [[lexico:a:antinomias:start|antinomias]]. Em prosseguimento, e com igual rigor, ela nos [[lexico:p:prova:start|prova]] o pró e o contra: que o mundo teve e não teve um [[lexico:c:comeco:start|começo]], que tem e não tem [[lexico:l:limite:start|limite]] no tempo e no espaço; que só existem [[lexico:c:coisas:start|coisas]] [[lexico:s:simples:start|simples]] e que não existe nada de simples no mundo; que há uma [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] livre e que não há [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]]; que é indispensável um ser [[lexico:n:necessario:start|necessário]] e que tal ser não existe... Somos assim solicitados por [[lexico:s:sofismas:start|sofismas]] deslumbrantes e a fantasmagoria em que se perde a razão procede dessa combinação de empirismo e [[lexico:a:apriorismo:start|apriorismo]]. Mas há ainda outra [[lexico:f:fonte:start|fonte]] desses abusos e desnorteamentos. A razão forma duas espécies de juízos: os [[lexico:a:analiticos:start|analíticos]] e os sintéticos. Os primeiros, que se poderiam chamar também explicativos, não fazem senão desenvolver uma [[lexico:i:identidade:start|identidade]] ou [[lexico:i:isolar:start|isolar]] pela [[lexico:a:analise:start|análise]] os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] que eles contêm; não acrescentam nada e não permitem passar a uma realidade fora deles e da razão que os formula; assim, quando digo que um [[lexico:c:corpo:start|corpo]] é extenso, tiro minha [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] do próprio conceito de corpo e fico encerrado neste conceito. Pelo [[lexico:j:juizo:start|juízo]] da segunda [[lexico:e:especie:start|espécie]], ao contrário, o juízo [[lexico:s:sintetico:start|sintético]] ou [[lexico:e:extensivo:start|extensivo]], ultrapassamos o conteúdo do conceito e descobrimos no sujeito um [[lexico:p:predicado:start|predicado]] que não estava naturalmente contido nele. É o que faço, por exemplo, quando digo que um corpo é pesado. Neste [[lexico:u:ultimo:start|último]] caso percebo uma realidade mova, no [[lexico:o:outro:start|outro]] permaneço dentro de uma realidade dada; o [[lexico:e:erro:start|erro]] virá quando [[lexico:e:eu:start|eu]] pretender transferi-la para além deste [[lexico:d:dado:start|dado]], para além daquilo que a deu. Apliquemos [[lexico:a:agora:start|agora]] esta [[lexico:d:distincao:start|distinção]] às [[lexico:p:provas-da-existencia-de-deus:start|provas da existência de Deus]] e em especial à [[lexico:p:prova-ontologica:start|prova ontológica]], à prova cartesiana. Que entendemos por esta prova? Que, sendo [[lexico:d:deus:start|Deus]] o ser [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] e tal que não pode haver outro acima dele, Deus não pode deixar de [[lexico:e:existir:start|existir]]. Mas que fazemos na realidade ao [[lexico:r:raciocinar:start|raciocinar]] assim? Passamos de uma [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de [[lexico:e:existencia:start|existência]] concebida como uma necessidade da nossa razão e que não sai dessa razão, que é fruto unicamente do exercício dessa razão, a uma existência absoluta, [[lexico:r:real:start|real]] e fora da nossa razão; não percebemos que nos limitamos assim a formar um desses [[lexico:j:juizos-analiticos:start|juízos analíticos]] pelos quais não podemos acrescentar nada nem a nós nem tampouco ao nosso conhecimento. Não é de modo algum contraditório negar a existência de um ser necessário, porquanto a não-existência suprime os seus [[lexico:p:predicados:start|predicados]] e com eles a sua [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]. "A [[lexico:o:onipotencia:start|onipotência]] não pode ser suprimida de [[lexico:m:momento:start|momento]] que supomos uma divindade, isto é, um ser [[lexico:i:infinito:start|infinito]] com cujo conceito se identifica esse [[lexico:a:atributo:start|atributo]]. Mas se dissermos: Deus não existe, nem a onipotência nem qualquer outro dos seus predicados será dado, pois que foram todos suprimidos com o sujeito, e não há nesse [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] a menor contradição." Significa isto, no fundo, que Deus não existe forçosamente pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de o concebermos como necessário, que coisa alguma existe forçosamente por esse [[lexico:m:motivo:start|motivo]] e, de modo mais geral, que é por [[lexico:p:puro:start|puro]] abuso que passamos da nossa ideia do ser ao ser real. Entretanto, se há ser, é preciso que o ser exista — o que vem a ser um outro [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] da prova [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]]. Mas aqui nos afastamos de Kant e do nosso assunto [[lexico:a:atual:start|atual]]. Seria impossível entrar nos pormenores desta dialética ou desta análise que é uma doutrina transcendental dos elementos, espaço, tempo e categorias, dos conceitos e dos juízos. Temos de nos contentar com reter-lhe o espírito. A [[lexico:e:especulacao:start|especulação]] kantiana, enquanto especulação puramente [[lexico:r:racional:start|racional]], é um [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] e um cepticismo, mas ambas estas coisas afetadas de um [[lexico:s:sinal:start|sinal]] [[lexico:p:positivo:start|positivo]]. A razão pura não apreende senão fenômenos, encadeia unicamente fenômenos e só é capaz de ordená-los depois de tê-los reduzido a [[lexico:i:ideias:start|ideias]]. A realidade última, a realidade verdadeira, a coisa em si escapa-lhe e ela não pode sair deste mundo em que se exerce, que cria com o seu exercício, fazendo-o à sua imagem e submetendo-o às suas formas e às suas leis. Ela não é [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] nem se move no ilusório, mas permanece no fenomenal e nele se encerra e se enclausura completamente, sem poder sair. É por uma [[lexico:o:operacao:start|operação]] de outra espécie — e singularmente audaciosa — que vai encontrar uma porta de saída. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}