===== CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA ===== Os Filósofos, até o [[lexico:m:momento|momento]] em que estamos, deduziram comumente a sua [[lexico:m:moral|moral]] da sua [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. A imensa e muito curiosa [[lexico:o:originalidade|originalidade]] de [[lexico:k:kant|Kant]] consistirá em deduzir a metafísica da moral. [[lexico:a:alem|Além]] do seu [[lexico:a:aspecto|aspecto]] especulativo a [[lexico:r:razao|razão]] possui um [[lexico:o:outro|outro]], inteiramente [[lexico:p:pratico|prático]], pelo qual impõe novos dados inevitáveis e indubitáveis, de alcance e consequências diferentes, e em que descortina horizontes inesperados. Sentimos em nós a injunção de uma [[lexico:v:vontade|vontade]], de uma "[[lexico:b:boa-vontade|boa vontade]]", e simultaneamente a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de orientá-la e de mantê-la no [[lexico:c:caminho|caminho]] que deve percorrer. Que caminho será [[lexico:e:esse|esse]]? Trata-se aqui de moral: que [[lexico:p:principios|princípios]] foram encontrados para a moral? [[lexico:n:nao|Não]] é [[lexico:p:possivel|possível]] fundá-la, como já se tem feito, no [[lexico:p:prazer|prazer]], nem na [[lexico:f:felicidade|felicidade]], nem mesmo na [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:p:perfeicao|perfeição]], pois são todas concepções relativas, utilitárias e inquinadas por um [[lexico:v:vicio|vício]] de [[lexico:o:origem|origem]], o [[lexico:a:amor-proprio|amor-próprio]], o [[lexico:a:amor-de-si|amor de si]] enquanto [[lexico:p:pessoa|pessoa]], por onde se perde o seu [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:e:essencial|essencial]] que é o de [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:u:universal|universal]] e desinteressada. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], é preciso agir de tal ou tal [[lexico:m:modo|modo]] não porque de nosso [[lexico:a:ato|ato]] resulte para nós ou para o [[lexico:m:mundo|mundo]] tal ou tal [[lexico:c:consequencia|consequência]], mas simplesmente porque é preciso agir assim. "Pois para que uma [[lexico:a:acao|ação]] seja moralmente boa não basta que seja conforme à [[lexico:l:lei-moral|lei moral]]; requer-se também que seja executada em vista dessa [[lexico:l:lei|lei]]...." [[lexico:p:palavra|palavra]] decisiva em que se resume toda a moral kantiana, talvez [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:g:genio|gênio]] de Kant. Meditemos um [[lexico:i:instante|instante]] sobre ela. Esse [[lexico:a:absoluto|absoluto]], esse [[lexico:u:universo|universo]], esse [[lexico:r:real|real]], enfim, que se furtava à razão especulativa, nós o encontramos aqui, na [[lexico:r:razao-pratica|razão prática]], em toda a sua [[lexico:f:forca|força]], sua [[lexico:e:evidencia|evidência]] e sua intransigência. Existe no [[lexico:h:homem|homem]], no fundo do homem, uma [[lexico:v:verdade|verdade]], uma [[lexico:r:realidade|realidade]], um mandamento que não apenas se lhe impõem sem provir dele, mas aos quais ele deverá submeter-se inteiramente, sem reservas e de tal maneira que em sua [[lexico:i:intencao|intenção]] não entre [[lexico:n:nada|nada]] dele [[lexico:p:proprio|próprio]], isto é, nenhuma [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] egoísta, nenhuma [[lexico:e:esperanca|esperança]] de satisfação ou de recompensa. De [[lexico:s:sorte|sorte]] que, levando as [[lexico:c:coisas|coisas]] à sua consequência extrema, poder-se-á dizer que com a [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]], e desde que o mundo é mundo, jamais foi realizada uma ação integralmente moral nem jamais poderá sê-lo. Esse mandamento que encontramos em nós é um "[[lexico:i:imperativo|imperativo]]", e um "[[lexico:i:imperativo-categorico|imperativo categórico]]", isto é determinado, imposto pelo [[lexico:d:dever|dever]], aceito pela vontade livre e de tal [[lexico:n:natureza|natureza]] que "declara uma ação necessária em si, independentemente de qualquer intenção ou [[lexico:f:finalidade|finalidade]] estranha..." Tal [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] ou [[lexico:i:imposicao|imposição]] só pode [[lexico:t:ter|ter]] um [[lexico:v:valor|valor]] [[lexico:i:impessoal|impessoal]], isto é, acima da [[lexico:p:personalidade|personalidade]], desinteressado, não [[lexico:t:temporal|temporal]], ou por outra, estendendo-se a todos os termos e superando os limites do [[lexico:t:tempo|tempo]] — [[lexico:n:necessario|necessário]], em [[lexico:s:suma|suma]], e universal. Tais são exatamente os característicos que nos chamam a [[lexico:a:atencao|atenção]] na [[lexico:f:formula|fórmula]] tríplice sob a qual esse imperativo se apresenta: "Procede em todas as tuas [[lexico:a:acoes|ações]] de modo que a [[lexico:n:norma|norma]] do teu ¦proceder possa ser erigida em lei universal." "Procede sempre de modo que trates a [[lexico:h:humanidade|humanidade]] como um [[lexico:f:fim|fim]], tanto na tua pessoa como na dos outros, e nunca te sirvas dela como um [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:m:meio|meio]]." Finalmente, conceber "a ideia da vontade de cada ser [[lexico:r:racional|racional]] como vontade legisladora universal"e. [[lexico:l:liberdade|liberdade]], vontade — armadura, [[lexico:f:fundamento|fundamento]] e mesmo conteúdo da [[lexico:v:vida|vida]] moral: pois a vontade é autônoma e essas leis que aceita, é ela que as impõe a si mesma. Ou pelo menos, se isto parecer um pouco forçado, e de [[lexico:a:acordo|acordo]] com os próprios termos de Kant, uma "vontade perfeitamente boa se determinaria [[lexico:p:por-si|por si]], de acordo apenas com a ideia do [[lexico:b:bem|Bem]]...", e é nisso que consiste a sua "[[lexico:a:autonomia|autonomia]]" — na "[[lexico:a:aptidao|aptidão]]" de sua norma "para se transformar em lei universal". Mostra Kant a seguir — e tal será em grande [[lexico:p:parte|parte]] o [[lexico:o:objeto|objeto]] da Critica da razão prática — como "o [[lexico:c:conceito|conceito]] da liberdade dá a [[lexico:e:explicacao|explicação]] da autonomia da vontade" ou permite estabelecer as grandes máximas da moral legisladora. Vemos aqui a razão sair do seu impasse especulativo e, pelo seu caráter prático, atingir esse [[lexico:i:incondicionado|incondicionado]] que em vão havia buscado antes. Seja qual for o valor dos princípios da ação moral assim estabelecidos, seja qual for a profundeza sutil da [[lexico:a:argumentacao|argumentação]], o certo é que chegamos, pelas consequências metafísicas, ao [[lexico:p:ponto|ponto]] vivo da originalidade do [[lexico:s:sistema|sistema]]. Para satisfazer esse [[lexico:i:ideal|ideal]] moral, e mesmo para que ele possa formar-se, são necessárias certas condições prévias e devem ser fixados alguns postulados que tornam possíveis tanto a sua [[lexico:f:formacao|formação]] quanto a sua execução. "Estes postulados", diz Kant, "são os da [[lexico:i:imortalidade|imortalidade]], da liberdade considerada positivamente (como [[lexico:c:causalidade|causalidade]] de um ser considerado como pertencente ao mundo [[lexico:i:inteligivel|inteligível]] e da [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]]. O primeiro decorre da [[lexico:c:condicao|condição]] praticamente necessária de um [[lexico:d:dado|dado]] [[lexico:a:apropriado|apropriado]] à realização completa da lei moral; o segundo, da [[lexico:s:suposicao|suposição]] necessária da independência em face do mundo dos sentidos e da [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de determinar a sua própria vontade de acordo com a lei de um mundo inteligível, isto é, da liberdade; o [[lexico:t:terceiro|terceiro]], da condição necessária da [[lexico:e:existencia|existência]] do [[lexico:s:soberano-bem|soberano bem]] num tal mundo inteligível, pela suposição do [[lexico:b:bem-supremo|bem supremo]] [[lexico:i:independente|independente]], isto é, da existência de [[lexico:d:deus|Deus]] Compreendamos bem o que acima foi [[lexico:d:dito|dito]]; pesemos os termos e observemos, na [[lexico:e:expressao|expressão]] como no [[lexico:p:pensamento|pensamento]], um traço marcante do [[lexico:e:espirito|espírito]] e da maneira de Kant. Não se trata aqui desse grito [[lexico:p:patetico|patético]] do [[lexico:s:senso-comum|senso comum]] com o qual se apela para a [[lexico:j:justica|justiça]] diante da injustiça do mundo, para o triunfo final do bem diante do triunfo insolente e, pelo menos assim se espera, transitório do [[lexico:m:mal|mal]]. Absolutamente, embora no fundo possa haver também algo disso: o que temos aqui são verdades deduzidas por um [[lexico:m:metodo|método]] dialético ou [[lexico:l:logico|lógico]]. É preciso que o ser dure infinitamente, que seja imortal, para que possa desenvolver-se, realizar-se e permanecer realizado: pois que [[lexico:s:sentido|sentido]] teria essa realização se em seguida pudesse aniquilar-se? A liberdade é necessária para que os seus atos possam ter merecimento. Finalmente, o conjunto necessita de Deus como [[lexico:m:modelo|modelo]] e [[lexico:g:garantia|garantia]]. Notemos ainda a expressão "mundo inteligível", que volta sempre como um leitmotiv. E de [[lexico:f:fato|fato]] o é. Esse mundo inteligível, o mundo das coisas em si, dos "noúmenos", a [[lexico:r:razao-pura|razão pura]] ainda o colocava no [[lexico:t:termo|termo]] da sua [[lexico:e:especulacao|especulação]] como uma necessidade mas não podia deduzi-lo nem conhecê-lo. A razão prática nele penetra precisamente pela prática, pela moral. Penetra: isto não quer dizer que adquira dele um [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] [[lexico:t:teorico|teórico]], especulativo. Não conhecerá melhor a [[lexico:s:substancia|substância]] ou a natureza dessa imortalidade, dessa liberdade ou desse Deus: vivê-los-á. Possuí-los-á não pela especulação, mas pela ação. Assistimos assim à reconstrução grandiosa desse mundo inteligível que tínhamos sido levados a eliminar, recobramos esse paraíso que temíamos irremediavelmente perdido. Os paralogismos ou [[lexico:s:sofismas|sofismas]] da razão pura nos tinham arrebatado ou pelo menos velado a [[lexico:a:alma|alma]], Deus e o mundo das [[lexico:e:essencias|essências]] puras; a razão prática no-los devolve, no-los torna sensíveis, embora não permita discernir-lhes a [[lexico:e:economia|economia]] total. Tal é a viravolta arrojada pela qual Kant torna a entrar na metafísica após ter parecido interditar-se o [[lexico:a:acesso|acesso]] a ela. É uma [[lexico:o:operacao|operação]] filosófica surpreendente, que de fato surpreendeu os filósofos. Pode-se contestá-la, como adiante se verá; pode-se apelar de Kant para o próprio Kant, da [[lexico:c:critica-da-razao-pratica|Crítica da Razão Prática]] para a inexorável [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]]; é possível voltar as armas do dialético contra ele próprio. Dois fatos, entretanto, permanecem: a originalidade sem par da tentativa e a elevação da ideia de [[lexico:m:moralidade|moralidade]] a uma altura que não se imaginava pudesse ser atingida. Termina, em [[lexico:g:geral|geral]], toda a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] de Kant com uma grande ideia, que é ao mesmo tempo o cume mais alto onde chega o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] científico do século XVIII, e do alto do qual se descortinam os novos panoramas da filosofia do século XIX. Kant escreveu nos fins do século XVIII, e termina seu [[lexico:s:sistema-filosofico|sistema filosófico]] com a proclamação da primazia da razão prática sobre a razão pura. A razão prática, a [[lexico:c:consciencia-moral|consciência moral]] e seus princípios, tem a primazia sobre a razão pura. Que quer dizer isto? Quer dizer: primeiro, que, com efeito, a razão prática tem uma primazia sobre a razão pura teórica, no sentido de que a razão prática, a [[lexico:c:consciencia|consciência]] moral, pode lograr aquilo que a razão teórica não logra, conduzindo-nos às verdades da metafísica, conduzindo-nos àquilo que existe realmente, conduzindo-nos a esse mundo de puras almas racionais, livres, e que ao mesmo tempo são santas. De modo que essa liberdade não é uma [[lexico:l:liberdade-de-indiferenca|liberdade de indiferença]], mas vontade de [[lexico:s:santidade|santidade]], vontade livre, regida pelo Supremo Criador, que é Deus, no qual o ideal e o real entram em identificação. A consciência moral, pois, a razão prática, ao conseguir nos conduzir até essas verdades metafísicas das coisas que existem verdadeiramente, tem primazia sobre a razão teórica. Mas, ademais, a razão teórica está, de certo modo, ao serviço da razão prática, porque a razão teórica não tem por [[lexico:f:funcao|função]] mais que o conhecimento deste mundo real, subordinado, dos fenômenos, que é como um trânsito ou passagem ao mundo essencial dessas "coisas em si mesmas" que são Deus, o [[lexico:r:reino|reino]] das almas livres e as vontades puras. A realidade histórica então, pode qualificar-se como mais ou menos próxima dessas realidades ideais. A realidade histórica, então, adquire sentido. Podemos dizer que tal [[lexico:e:epoca|época]] é melhor que tal outra, porque, como já temos com as [[lexico:i:ideias|ideias]] e os postulados da razão prática um ponto de perfeição ao qual referir a relativa imperfeição da [[lexico:h:historia|história]], então cada um dos períodos históricos se ordena nessa [[lexico:o:ordem|ordem]] de [[lexico:p:progresso|progresso]] ou [[lexico:r:regresso|regresso]]. A história aparece no [[lexico:h:horizonte|horizonte]] da filosofia como um [[lexico:p:problema|problema]] ao qual a filosofia imediatamente vai deitar a mão. Assim, do alto dessa primazia da razão prática, descortinamos já os novos problemas que a filosofia vai apresentar depois de Kant. Estes problemas são, principalmente, dois: primeiro, a explicação da história, a [[lexico:t:teoria|teoria]] da história, o [[lexico:e:esforco|esforço]] para dar conta dessa [[lexico:c:ciencia|ciência]] chamada história, e depois o propósito de [[lexico:p:por|pôr]] a vontade, a ação, a prática, a moral por cima da teoria e do [[lexico:p:puro|puro]] conhecimento.